Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 19 de 43

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Canção do Cuco

19 Fugindo do homem da tesoura

19

fugindo do homem da tesoura

 

Seixos estalavam sob suas passadas apressadas com um barulho frio e censurador. O vento também não estava muito a favor. Acima, as nuvens rolavam solenes, fumacentas e amplas, deixando ver a pálida face da Lua ocasionalmente. As ondas negras açoitavam, veladas, a praia escura, mostrando raramente os babados da espuma branca contra o luar.

Pen corria junto, ofegando bastante. A cor prateada do dia anterior parecia ter gasto, e ela estava ali mais escura e sólida do que nunca. Não-Triss não queria nem imaginar como Pen conseguira aparecer ali do nada, muito menos por que a menina resolvera ajudar.

O pânico as levara até a praia, por ser plana, e o pânico dizia que elas tinham que correr rápido. O pânico não teve mais sugestões quando a praia terminou e as meninas encontraram-se perante a beirada do abismo que formava o final da enseada. Pararam por um segundo, olhando, arquejando, e Não-Triss recobrou consciência suficiente para reparar em quão expostas estavam ali.

– Vamos pra lá – ela sibilou. – Dentro da floresta!

A dupla correu atabalhoada praia acima, por sobre pedregulhos escorregadios, molhados pelas ondas, e ganharam a floresta de bétulas adiante. Vendo o morro íngreme, forrado de árvores, que parecia erguer-se eternamente, Não-Triss sentiu o toque pegajoso do desespero.

A floresta era densa, permeada de samambaias cor de cobre que as encharcaram ao escalar morosamente a encosta, e não deixavam que elas enxergassem onde pisavam. O musgo úmido e as folhas mortas compunham um solo traiçoeiro. Os troncos brancos e pretos brilhavam na escuridão feito fantasmas esguios e elegantes.

Não havia som de perseguição atrás delas ainda, mas haveria. Não-Triss tinha certeza disso. O Sr. Grace e Piers Crescent deviam ter ido em busca de fontes de luz. E tesouras, disse uma porção temerosa em sua mente. Ela tentou silenciá-la, mas não conseguia se livrar da imagem do Sr. Grace escalando a encosta atrás dela com uma tesoura imensa, tal qual o “homem da tesoura das pernas vermelhas” do antigo conto, que serrava fora os dedões das crianças.

Tentaram me jogar no fogo.

Seus pulmões começaram a chacoalhar aos soluços. Não dava para pensar nisso. Não agora. Não quando ela precisava de cada centímetro cúbico de ar para a escalada. Se pudessem pelo menos alcançar a estrada…

Mas Pen não parava de cair. Tinha pernas mais curtas. Os arbustos alcançavam-lhe até a cintura, não os quadris. Não-Triss pegou a irmã e ajudou-a a ficar de pé uma, duas, três vezes. Finalmente, quando parou para endireitar a menina pela vigésima vez, Pen a empurrou com tanta força que ela quase deslizou morro abaixo.

– Eu te odeio! – O quase grito de Pen foi abafado pela falta de fôlego, e Não-Triss reparou que a menina soluçava de tanta raiva e exaustão. – Te odeio! Sua burra… Por que você teve que acontecer? Não pedi por isso… seu monstro burro… burro… dentuço e burro.

– Eu sei – Não-Triss sussurrou. Era o máximo que podia fazer para manter a voz baixa e calma. Sua mente era uma nuvem cheia de raios, apenas esperando pelo primeiro relampejar.

– Você estraga tudo! Sempre! Até quando você é só a versão falsa, você estraga tudo. E agora me fez fugir de novo!

Luzes fracas apareceram lá embaixo, no topo do morro, luzes amareladas que giravam e pesquisavam, entrelaçando-se em meio à folhagem. Lâmpadas de mão, talvez, ou tochas elétricas.

– Pen – Não-Triss sussurrou –, estão vindo. Estão vindo atrás de nós, Pen.

Com desespero, ela fitou o rosto teimoso e redondo da irmã.

Por favor, Pen, por favor! Estou quase gritando aqui. Não me faça ter que te carregar! Não aguento! Não aguento ter que fazer isso também!

– A gente precisa chegar na estrada, Pen – ela disse. – Vai ser mais fácil lá. E estamos quase lá.

– Mentirosa – Pen rugiu, ficando de pé com dolorosa lentidão. – Mentirosa… cara de monstro.

De qualquer maneira, a menina retomou a escalada morro acima, respirando com dificuldade.

Quando a chuva desceu, no começo Não-Triss não entendeu do que se tratava. Sabia apenas que o ar subitamente voara para baixo, frio feito cascata, e a floresta soltara um suspiro comprido de alívio. Então ela sentiu as cutucadas pesadas e frias de gordas gotas de chuva na cabeça e compreendeu.

Ela fechou os olhos por um instante, grata. Até que enfim o clima resolvera ficar do seu lado. O farfalhar e roçar que faziam seriam muito mais difíceis de ouvir para seus perseguidores.

Devemos estar perto do topo. Por favor, que estejamos perto do topo.

Isso virou um mantra na mente dela, e as palavras tinham quase já perdido o sentido quando ela passou por mais um tufo e encontrou-se perante a estrada curva e cheia de poças d’água. As pernas ardiam, a cabeça ficou areada.

– Chegamos.

Não dava para forçar triunfo na voz. Ela reparou que não tinha ideia do que fazer depois.

– Triss – disse Pen numa vozinha baixa, olhando para a encosta.

Não-Triss seguiu o olhar da outra e sentiu uma pontada de pânico percorrer todo o seu corpo. As luzes estavam mais perto. Dava até para divisar o contorno escuro das pessoas que chegavam lá de trás. De que adiantava seus perseguidores não as poderem ouvir sob a chuva? Eles sabiam que as meninas não tinham para onde ir além da estrada.

Não-Triss olhou para as duas direções da travessa, procurando às cegas por inspiração, mas foi Pen quem falou primeiro, por entre a bagunça ensopada de cabelos.

– Temos que pegar carona. Precisamos de um carro.

Como se Pen tivesse realizado algum feitiço de conjuração, Não-Triss reparou que perto da curva na estrada as poças se iluminaram. Um instante depois, duas bolinhas de luz amarela viraram a curva, com seu brilho diminuído pela chuva.

As meninas acenaram desesperadamente para o carro que chegava, e Pen fez uma algazarra para chamar a atenção do motorista. O carro não deu sinal de que ia parar, no entanto, e passou para o outro lado da estrada.

Antes que Não-Triss pudesse impedir, Pen separou-se dela e correu para a estrada, e ficou parada bem no meio quando o sedan passou…

Bam.

Houve um grito infantil muito agudo. Não-Triss ficou estática, perdida, embaixo da chuva, enquanto o carro parou, cantando pneus, dez metros à frente. Havia uma pessoinha deitada pouco atrás na estrada, rosto para cima. A pele de Não-Triss pareceu cobrir-se de formigas, e ela já não sentia mais as vísceras.

Levou alguns segundos para recuperar o controle dos membros, e nesse ínterim o motorista saiu do carro e foi ver, horrorizado, o corpo caído de Pen.

– Ela… ela correu… – ele gaguejou, desconsolado.

– Ela tem pulsação! – Não-Triss recobrou a sensação do interior, embora os órgãos parecessem ter se revirado e debatido como o conteúdo de uma caixa mal manuseada. – Ela precisa ir pro hospital! Você tem que levá-la ao hospital!

O motorista agachou para examinar Pen. Era jovem, tinha rosto de bonzinho, meio enrugado de insegurança.

– Cadê seus pais? – ele perguntou.

– Não estão aqui! Só tem você, e você tem que fazer alguma coisa! Ela está com frio e tomando chuva no rosto e acabou de ser atropelada! – Não-Triss via que estava perdendo o controle. Se não tomasse cuidado, logo seus gritos estariam abrindo florestas ao meio feito um ciclone. – Temos que levá-la ao hospital!

– Sim. Sim, vamos. Não tenha medo.

O motorista alisou para trás os cabelos molhados, como se ordenasse os pensamentos, depois pescou Pen cuidadosamente com os braços. Colocou-a no banco de trás do carro, e Não-Triss entrou bem ao lado.

O carro não tinha botão de ignição como o Sunbeam, e Não-Triss teve que ficar vendo o motorista lutar contra uma manivela lá na frente do carro para religar o motor. Estava quase surtando quando ele retornou ao banco do motorista.

Quando o carro saiu, Não-Triss viu duas luzes emergindo da floresta e correndo atrás deles. Sua mente estava tão focada em Pen que ela demorou um pouco para reparar quem eram e, quando entendeu, as pessoas já desapareciam atrás das sombras na curva.

Não ouse morrer, Pen. Era tudo que Não-Triss conseguia pensar, sem parar. Nunca vou te perdoar se você morrer.

– Tem um hospital perto de Ellchester – disse o motorista, obviamente batalhando para manter a voz tranquila. – Fica a uns trinta quilômetros. Só trinta quilômetros. Não vai demorar.

Ele ficou contando enquanto dirigia. Cada vez que passavam por uma placa, ele mencionava para Não-Triss quão perto estavam.

– Cinco quilômetros – disse ele, afinal. – Acabamos de passar por Bobbeck Ridge…

Foi nesse ponto que algo completamente inesperado aconteceu. Pen subitamente endireitou-se no banco e olhou para fora pela janela molhada. Ao avistar a placa, cutucou o motorista pelas costas do banco.

– Aqui! Pode deixar a gente aqui! Já tô me sentindo melhor!

O motorista quase pulou para fora do próprio corpo, e quase bateu na placa. Ele encostou o carro no acostamento e virou o rosto para olhar para trás.

– O quê?

Pen estava muito dócil.

– Estou bem. Só desmaiei. E já melhorei. E a gente mora logo ali. – Ela apontou para um grupo de prédios puídos nas margens do estuário. – Obrigada pela carona!

– Ei! – O motorista ficou vermelho. – Você estava fingindo?

Pen não esperou para continuar a conversa, foi abrindo a porta e saltou para a chuva, sem qualquer sinal de ferimento. Não-Triss a seguiu o mais rápido que pôde. As duas correram ligeiras para longe do carro enquanto o motorista lhes lançava uma careta desconfiada, e começou a lenta e desajeitada luta para pôr seu veículo de volta na estrada.

– Você tava fingindo! – exclamou Não-Triss, descrente. – Mas… eu ouvi o barulho!

Pen deu de ombros.

– Joguei uma pedra na lateral do carro e gritei. Os carros sempre param quando acham que te atropelaram. Você não sabe de nada, né? – Toda essa determinação complacente desvaneceu poucos segundos depois, e seus dentes começaram a bater. – Preciso usar o banheiro – ela anunciou, sem preâmbulo, depois virou e começou a deslizar por um caminho cambaleante pelos degraus de pedra que davam na beira do rio.

Não-Triss ficou observando a outra, a chuva tamborilando na madeira à sua frente. Queria vomitar. Queria rir.

Pen, ela pensou, na quietude de sua mente, você é incrível.