Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 10 de 43

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Canção do Cuco

10 Ausente sem partir

10

ausente sem partir

 

Ouvindo passos fazendo ranger os degraus e o taco do corredor, Triss saltou para debaixo das cobertas, rapidamente ajeitando o paninho úmido em cima da testa e pondo uma expressão sonolenta na cara.

Quando a porta abriu e a mãe olhou ao redor, a garota soltou murmúrios arrastados, como se tivesse acabado de acordar.

– Desculpe, querida, não vou te importunar muito. Eu… só queria perguntar uma coisa. Você conversou com algum vendedor na costureira, um Sr. Grace?

Triss hesitou por alguns instantes, depois fez que sim.

– Sobre o que conversaram? – A mãe hesitou um pouco, e umedeceu o lábio superior com a pontinha da língua. – Digo, ele pareceu…? – Hesitou de novo, como se não soubesse bem o que queria saber.

– Ele foi gentil – Triss respondeu, torcendo para não ter soado muito confiante. – Falamos sobre vestidos e tal. Eu disse que andei doente e estava melhorando. Ele pareceu preocupado. Ele pareceu…

O que preciso dizer pra que você ligue pra ele?

– Bem peculiar – murmurou a mãe de Triss, e o coração dela afundou.

Triss imediatamente compreendeu que tinha jogado as cartas erradas. Devia ter dito que o Sr. Grace era esperto e sensível. Não devia ter admitido ter gostado dele. Era o mesmo, disse-lhe uma incômoda e pegajosa voz em sua mente, que acontecia com as governantas. Não era para ela gostar delas. Mostrar que gostava de uma governanta ou qualquer outro empregado era garantia de demissão.

A mãe suspirou e gentilmente afagou as têmporas.

– Fofinha, a mamãe está ficando com dor de cabeça também, então vou tomar um remédio e dormir um pouquinho. Mas se precisar de mim, vou estar no meu quarto.

Triss sabia o que isso queria dizer. O armário de remédios da família era quase inteiramente dedicado à guerra contra as doenças de Triss, mas havia sempre alguns vidrinhos do “remédio” da mãe lá dentro também. Tinham “Wincarnis” escrito no rótulo, e o desenho de uma mulher robusta de chapéu vermelho erguendo uma taça. Fora explicado para Triss que vinho tônico era completamente diferente de vinho comum, mesmo que tivesse o mesmo cheiro. Um médico, certa vez, prescrevera-o para os nervos da mãe depois que Pen nasceu. Desde então, a mãe recorria a ele quando se sentia especialmente agitada.

– Vou ficar bem – disse Triss, e conseguiu manter o tom de voz suave, sonolento e despreocupado. Uma ideia havia aberto caminho para dentro de sua mente, e pusera seu coração em taquicardia.

Depois que a mãe se retirou e fechou a porta, Triss ficou deitada, escutando. Mesmo depois que a mãe voltou para o quarto dela, a menina esperou um pouco, a fim de dar tempo para a mãe tomar o tônico e se ajeitar na cama. Ela só saiu da cama quando tudo pareceu silencioso e seguro.

Triss abriu o baú de roupas íntimas e espalhou o conteúdo sobre a cama. Arranjou os cobertores por cima para que o conjunto parecesse um pouco com uma pessoa dormindo.

Provavelmente teria algumas horas antes que a mãe acordasse. Se tivesse sorte, isso lhe daria tempo suficiente para ir até o centro de Ellchester. Pretendia encontrar a costureira e inventar alguma desculpa para falar com o Sr. Grace.

Preciso saber o que há de errado comigo. Ele tem que me contar – ele gostou de mim.

Triss vestiu-se rapidamente, colocando o casaco pesado, o chapéu e as luvas. Não se arriscaria pela porta da frente, por medo dos vizinhos repararem que a filha adoentada dos Crescents escapara de casa sozinha e questionarem o fato. Havia uma porta nos fundos, contudo, que se abria para a estreita faixa de jardim, e o beco atrás. O único obstáculo seria se esquivar da cozinheira sem ser vista.

Ao descer as escadas, Triss foi quase congelada ao recordar as palavras repreensivas que o pai dissera baixinho. Minha Triss é uma menina doce, calma e bem comportada. O que ele pensaria dela se a visse saindo de casa sem permissão?

– Desculpe, pai – sussurrou baixinho.

Cruzou a sala de jantar nas pontas dos pés e espiou a cozinha. Não viu sinal algum da cozinheira, mas ganhou segurança ao ouvir barulho de água e bucha na pequena copa. Evidentemente, a cozinheira estava ocupada lavando a louça do almoço na grande pia de cimento.

Alguma coisa sacudiu e bateu, e Triss pulou de susto. Alarmada, olhou para a porta dos fundos da casa, que ficava sempre trancada, com a chave pendurada num prego na parede logo ao lado. A chave estava na fechadura, e a porta, semiaberta. Foi ela que chacoalhou e colidiu com o batente por causa do vento impaciente. Triss esperou, depois passou pela cozinha de fininho e deu uma espiada no jardim.

Uma figura familiar corria apressada por entre as treliças de pepino e as camas de nastúrcio, acolchoada feito um pequeno esquimó dentro do pálido casaco de lã cor de creme. Ao abrir o portão nos fundos do jardim, a menina lançou um sorriso arteiro para os andares superiores da casa. Então o portão se fechou, escondendo-a da visão.

Obviamente, Triss não era a única pessoa que resolvera tirar vantagem da soneca da mãe. Ela passou pela porta dos fundos, mas teve a precaução de fechá-la com mais cuidado do que a irmã.

O que ela está fazendo? Aonde está indo?

O olhar de Pen transmitira cautela, mas estava vívido de raiva, com um toque de triunfo. Lembrou Triss da expressão da irmã quando a forçara a mostrar a camisola suja de grama.

Seja lá o que está planejando, tem a ver comigo.

Triss galopou pelo jardim até o portão, abriu uma frestinha e espiou o beco, bem a tempo de ver a silhueta familiar de Pen desaparecendo ao dobrar a esquina. Triss apressou-se até o mesmo ponto, agradecida por seus passos serem abafados pelo barulho do vento. E lá estava Pen, descendo a rua Lime com as mãos nos bolsos, como se tivesse todo o direito de fazer isso.

Distante, mantendo Pen em seu campo de visão o tempo todo, Triss a seguiu.

Que estranho que era sair sozinha, sem permissão! Triss tinha certeza de que a qualquer momento daria de cara com algum amigo da família. Felizmente o vento dava-lhe motivo para manter a gola erguida, o chapéu baixo e a echarpe enrolada no rosto. As palavras do pai tornaram a assombrá-la.

Minha Triss é uma menina doce, calma e bem comportada.

Mas ela logo voltaria a ser a Triss dele de novo, era uma promessa, assim que ela descobrisse o que tinha de errado com ela e resolvesse.

Para onde quer que Pen estivesse indo, a rota obviamente não era novidade para ela. Sabia o ponto exato onde o arame estava solto e poderia ser puxado para entrar no parque e pegar um atalho. Escolhia estreitos becos atrás das casas, onde era preciso esquivar-se das roupas nos varais para sair em ruas principais. Estava habituada ao ziguezague das alamedas que escalavam as laterais dos montes e cuspiam as pessoas nas pontes com uma visão da cidade, para depois as engolir novamente nos becos.

Finamente Pen chegou a um cruzamento que Triss conhecia. À direita seguia a rua ampla que subia o morro e levava aos bairros com as melhores lojas, incluindo a rua Marley e a costureira na qual trabalhava o Sr. Grace. A mão esquerda descia o morro na direção de Puttens, área de Ellchester dominada pela garotada da cidade. Lá as fileiras de lojas dividiam espaço com salões de dança, bares e cinemas.

Pen pegou a esquerda.

Triss sentiu um nó de conflito na barriga. A loja do Sr. Grace estava tão perto, apenas um punhado de blocos dali, mas se ela perdesse Pen de vista jamais saberia o que a menina estava tramando. Mais uma vez ela recordou a expressão de terror e culpa no rosto da irmã quando foi flagrada ao telefone. E se Pen estivesse apenas fingindo, para cercar a irmã? Ou seria então que… Pen tinha parte na esquisitice que consumira tudo?

Eu te odeio, Pen, Triss murmurou baixinho, ao pegar a esquerda, morro abaixo, mantendo a irmãzinha à vista. Eu te odeio.

Por fim, Pen parou em frente a um curioso prédio que fora construído numa ponta de esquina e, por isso, tinha o formato de cunha. Bem no alto, sob uma fileira de lâmpadas, havia uma placa com os seguintes dizeres pintados: “A Fatia da Vida”. As paredes eram cor de creme, o que aumentava a semelhança com um pedaço de torta. Estavam cobertas de pôsteres, nos quais Theda Bara oferecia um olhar suntuoso, John Barrymore mostrava seu nariz famoso e Rodolfo Valentino agarrava-se ferozmente a uma moça que não parecia estar nem aí para ele.

Era um cinema, um pequeno e esquisito cinema do qual Triss não lembrava ter visto ou ouvido falar. Enquanto ela pensava nisso, Pen subiu a escada da entrada e passou pela porta de vidro giratória.

Triss parou na rua, irresoluta. Seria essa a resposta? Pen realmente saíra de casa apenas para aproveitar uma ilícita sessão de cinema? Pensando bem, sábado à tarde era o dia em que a maioria dos cinemas fazia promoção, com ingressos mais baratos para crianças.

Seus olhos passaram para uma placa ao lado da porta. Como esperado, ela anunciava uma matiné para crianças. O filme principal era Assassinato no Cassino da Meia-noite, e o seriado era algo chamado A lâmina invisível. Ambos eram a cara de Pen. A menina era viciada em filmes de gângster, e em qualquer outro filme que envolvesse pessoas atirando uma na outra e caindo de penhascos.

Com severa apreensão, Triss subiu os degraus e entrou no cinema.

A família Crescent ia sempre ao Rapsódia, cinema que ficava no fim da cidade. Era enorme e imponente como um palácio egípcio, todo vermelho e dourado, com um piano que se erguia numa plataforma especial pouco antes de o filme começar. A mãe sempre dizia que os demais cinemas eram “ninhos de ratos” onde a gente “leva cotoveladas de todo canto e volta para casa com pulgas”.

A entrada ficava perto da “ponta” do cinema em forma de cunha, então Triss não ficou surpresa ao ver que o hall era muito pequeno.

Era uma estranha mistura de novo com antigo, suntuoso com desbotado. O carpete era de um vermelho vivo e passava uma sensação áspera, excitante, de nylon, mas a pintura escura das paredes estava descascando. Atrás de um balcão gasto ficava uma bonita moça com a boca pintada feito uma cereja e cabelos louros muito claros que lembravam chantilly.

Nem sinal de Pen. Atrás da moça havia uma entrada com uma corda de veludo atravessada, de onde Triss podia ouvir uma cacofonia de vozes.

Ela sentiu a boca secar quando a moça lhe abriu um cálido sorriso do tipo especial-para-crianças.

– Não se preocupe! – ela disse num tom confiante. – Acabou de começar. Se você entrar agora, vai pegar o comecinho do seriado. – Ela disse a palavra “entrar” com um enrugar charmoso e ligeiro do nariz. – Um centavo pelas cabines e três centavos pela galeria. – Ela parou e pareceu reparar nas roupas de Triss. – Vai querer a galeria, né?

Triss vacilou por um instante, meio confusa, até que se lembrou de que tinha uma bolsinha com uns trocados dentro do bolso do casaco. Hesitou, depois pescou três centavos, recebeu uma medalhinha de metal em retorno e atravessou a porta atrás da mesa. Da galeria ela teria uma visão muito melhor do auditório, e uma boa chance de avistar Pen.

Passou por uma porta com os dizeres “Para a Galeria”, parou para entregar a medalhinha para um recepcionista calado, de rosto amarelado, depois subiu uma escada. O som da zaragata foi ficando cada vez mais alto.

A menina emergiu na galeria, que parecia estar vazia. O auditório abaixo, contudo, fervilhava. Os bancos de madeira maciça estavam apinhados de crianças de todas as idades; desde muito pequeninos que esperneavam a adolescentes que fofocavam e comiam batatas chips mais ao fundo. Crianças jogavam cascas de castanha, ou subiam nos bancos para gritar umas com as outras. Outros batiam os pés e assoviavam, cobrando o início do filme. Olhando para baixo, Triss tentou divisar a forma diminuta de Pen, mas não conseguiu.

Enquanto isso, uma mulher de cabelos organizados num austero coque passou pelas fileiras, espirrando algo no ar acima das cabeças das crianças. Todos pareciam aceitar o gesto como se fosse muito natural. Um cheiro artificial de lavanda flutuou até Triss, e ela imaginou se aquilo agia contra as pulgas.

Quando um homem sentou-se sozinho ao piano e começou a tocar uma melodia, a plateia estourou de empolgação. A sala ficou escura e a tela branca ganhou vida de um modo todo mágico, mostrando os mais recentes eventos. O Sr. Baldwin, o primeiro-ministro, falava baixinho metido num casaco imenso, com a luz prateada do sol incomodando seus olhos.

Começou, então, o seriado, mostrando uma jovem presa numa cela que se enchia rapidamente de água. Era óbvio que boa parte da plateia vinha acompanhando essa história avidamente e, em pouco tempo, pôs-se a gritar conselhos para a moça, chamando-a pelo nome, ou a ler em voz alta as legendas da tela para os amigos que tinham dificuldade de entender. Quando a heroína libertou-se de modo improvável e genioso, houve ovações, exclamações, risos e assovios.

Em outro dia, Triss teria sido envolvida também. O brilho da grande tela a preenchia com uma empolgação quase insuportável. Nesse dia, contudo, estava ocupada demais escandindo as figuras abaixo banhadas pela luz bruxuleante da tela, procurando, em vão, por Pen.

Talvez a menina tivesse pagado os três centavos para se sentar lá em cima. Havia um pilar central largo bloqueando a visão de Triss da outra metade da galeria. Ela passou ao longo da fileira de assentos e espiou timidamente em torno do pilar.

Num lugar bem no fim da galeria estava Pen, sentadinha.

A menina estava inquieta e parecia não prestar atenção alguma à tela. Repetidamente, ela olhava para a esquerda, para a parede oposta a Triss. Não havia nada lá, no entanto, apenas uma parede escura pintada de um vermelho rico e profundo.

E então, muito subitamente, algo apareceu.

Uma portinha aberta apareceu na parede, despejando um retângulo de fraca iluminação. Sob o olhar de Triss, Pen viu a abertura e ficou tensa, depois se levantou devagar, abriu caminho pela fileira de assentos e desapareceu porta adentro.

Havia algo naquela porta mal iluminada que aguçava os instintos de Triss. A coisa não cheirava bem. Ou tinha gosto ruim. Não, nada disso; havia algo no ar que roçava sua língua e fazia formigar seus dentes. Era familiar. E a fez pensar no Grimmer. Ela não queria seguir Pen para dentro daquela misteriosa meia-luz.

Mas sabia que o faria.

O seriado dera lugar a um desenho. Com seus olhos imensos, Felix, o gato, passava de fininho por um cachorro que dormia, os ombros contraídos, cada passo era um salto exagerado. Enquanto as aventuras do gato banhavam o auditório com uma luz trêmula, Triss caminhou sem fazer barulho até a porta.