Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 2 de 43

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Canção do Cuco

2 Maçãs podres

2

maçãs podres

 

Ouvindo movimento na sala, Triss fechou a porta cuidadosamente e correu de volta à cama, a mente zumbindo feito um propulsor.

Eles acham que alguém me atacou. Será que foi isso que aconteceu? Mais uma vez a menina tentou forçar a memória a retornar ao Grimmer, e mais uma vez não aconteceu nada, apenas um tremor e um hesitar no interior.

Quem seria esse “ele” que os pais mencionaram, com quem o pai tinha “se resolvido”? Se “ele” era assim tão terrível, por que o pai teria “detalhes” a acertar com ele, afinal?

A história toda parecia retirada de um dos filmes de mistério dos quais Pen tanto gostava, do tipo no qual homens bons e honestos se metiam com gângsteres e malfeitores. Mas certamente o pai não estava envolvido com nada disso! Triss sentiu o peito apertado só de pensar. Acima de qualquer outra coisa, tinha orgulho do pai. Adorava o modo impressionado com o qual as pessoas erguiam as sobrancelhas quando eram apresentadas a ele.

Sr. Piers Crescent? O engenheiro civil que projetou as Três Amazonas e o Monte Estação? Que honra conhecê-lo, senhor. Você fez coisas maravilhosas para a nossa cidade.

Ter como pai um grande engenheiro civil significava ver mapas de estradas planejadas na mesa do café. Significava ver o pai abrindo cartas enviadas pelo escritório do prefeito sobre a construção de uma ponte e locais para novos prédios públicos. Os projetos do pai estavam mudando a cara de Ellchester.

Triss deu um pulinho quando a porta abriu-se e a mãe entrou no quarto. Havia um toque a mais de pó nas bochechas dela, sinal claro de que ela tinha parado para se acalmar e ajeitar a aparência.

– Estava conversando com o seu pai – declarou ela com calma indiferença –, e achamos que devíamos encurtar as férias e voltar amanhã de manhã. Um lugar familiar… é disso que você precisa pra melhorar.

– Mãe… – Triss hesitou, relutante em admitir que os espionara, mas resolveu entregar-se. – Você deixou a porta aberta, e entrou um friozinho, então eu fui fechar, e quando cheguei perto… ouvi o pai te contando que tinha mais alguém no Grimmer ontem à tarde. – Triss segurou a manga da camisa da mãe. – Quem era?

A mãe conteve as mãos por um segundo, depois continuou desamassando os vincos do travesseiro.

– Ah, não era ninguém, filhinha! Só uns ciganos. Nada com que se preocupar.

Ciganos? De chapéu-coco e Daimler?

Talvez fosse um pouco do desconforto o que aparecia no rosto de Triss, pois a mãe sentou-se na beirada da cama, pegou as duas mãos da filha e a olhou bem nos olhos, finalmente.

– Ninguém ia querer te fazer mal, fofinha – disse ela, muito séria –, e mesmo que quisesse, seu pai e eu nunca, nunca deixaríamos que algo ruim te acontecesse.

E isso teria sido confortante não fosse o brilho exagerado nos olhos de cristal azul. Toda vez que via essa frágil intensidade no rosto da mãe, Triss sabia que ela estava pensando em Sebastian.

Ele fora convocado em fevereiro de 1918, pouco depois do aniversário de seis anos de Triss. Ela se lembrava de que quando a guerra terminou naquele ano houve toda uma comemoração com bandeiras e grandes chapéus, e que não sabia ao certo como aquilo mudaria tudo, sabia somente que Sebastian ia voltar para casa. Então chegou a notícia de que Sebastian não voltaria mais, e a menina ficou pensando por um tempo, de um modo confuso, perplexo, que a primeira notícia fora equivocada, que a guerra não havia terminado.

De certo modo, ela tinha razão. A guerra se fora de fato, mas persistia. Continuava presente em todo lugar. Com Sebastian foi o mesmo. Ele se fora, mas persistia. Sua morte deixara escombros invisíveis. Sua ausência era um grande buraco que sugava tudo para si. Até mesmo Pen, que mal se lembrava dele, circulava com cautela a beirada desse buraco.

Triss começara a ficar doente pouco depois do final da guerra, e entendia, um tanto confusa, que isso tinha a ver com Sebastian. Era seu dever ficar doente. Era seu dever ser protegida. E, naquele momento, era seu dever concordar.

Então ela concordou.

– É assim que eu gosto – disse a mãe, acariciando a bochecha de Triss.

A menina tentou sorrir. A conversa que escutara continuava cutucando sua mente.

– Mãe? Eu… já li todas as minhas revistas e os livros umas cem vezes. Posso… posso ler o jornal do pai?

A mãe foi pedir permissão ao pai, e depois retornou com uma cópia do Ellchester Watchman. Acendeu as lâmpadas – e cada globo soltou um barulhinho confortante ao começar a brilhar –, depois deixou Triss à vontade.

A menina desdobrou o jornal cautelosamente, sentindo-se traiçoeira por ter enganado a mãe. O que foi mesmo que o pai dissera?

Eu disse que eu tinha me resolvido com ele, e ele já deve saber disso se leu os jornais desta semana.

No jornal, portanto, devia haver algo pelo qual esse misterioso “ele” compreenderia que o pai dela não queria mais ter envolvimento. Fosse esse o caso, ela poderia descobri-lo.

O jornal já tinha sido lido e manuseado o suficiente para apresentar um borrão de tinta aqui e acolá, como a mente de Triss, avariada pela febre. Sua atenção deslizava por linha atrás de linha, assimilando tão pouco que era preciso ler as coisas várias vezes para que fizessem sentido. A maioria era insossa. Artigos sobre os novos ônibus que seriam implantados em Ellchester de acordo com o modelo de Londres. Uma fotografia de uma longa fileira de homens desempregados com bonés chatos puxados por cima dos rostos inchados, macilentos. Um baile de carteado para angariar dinheiro para o hospital local. E na quinta página, um comentário sobre Piers Crescent, pai de Triss.

Não era muito interessante. Descrevia o Meadowsweet, novo subúrbio no qual o pai trabalhara, fora de Ellchester, mas de fácil acesso pela linha de trem. Havia até diagramas mostrando como seria o bairro, com todas as casas enfileiradas ao longo do morro, do lado oposto ao estuário de Ell. O pai de Triss ajudava a projetar as vias, o novo lago e o “terraço” da encosta. O artigo afirmava tratar-se de “um desvio” para um engenheiro “mais conhecido por construções grandiosas e inovadoras”. Contudo, nada se dizia sobre Piers Crescent envolvido com gângsteres, e logo ocorreu à menina que, se dissesse, a história provavelmente teria ganhado uma das primeiras páginas.

Quem sabe eu não escutei direito. Vai ver eu imaginei a coisa toda. Talvez… talvez eu não esteja bem.

À noite, Triss ficou acordada, observando o cintilar fraco das luzes baixas e as aranhas cor de chocolate zanzando pelo teto. Toda vez que fechava os olhos sentia sonhos esperando na beirada de sua mente, como na toca de um ratinho, prontos para pegá-la em suas bocas de gato para levá-la a algum lugar aonde ela não queria ir.

Subitamente, o mundo encheu-se de segredos, e a menina os sentia com um nó no estômago. Estava com medo. Estava confusa. E estava com fome, fome demais para dormir. Com fome demais, com o passar do tempo, para pensar ou se preocupar com qualquer outra coisa. Diversas vezes ela estendeu a mão para o sino, mas logo se lembrava do rosto preocupado da mãe vendo Triss devorar o jantar, esfomeada feito um bicho, como estivera no almoço. Agora chega, fofinha. Agora só o café da manhã, tá bem?

Mas estava faminta! Como poderia dormir desse jeito? Pensou em ir de fininho até a cozinha atacar a despensa. Sentiriam falta da comida, mas por um instante desprezível de desespero ela pensou em pôr a culpa em Pen. Não, Triss implorara tanto por mais comida que os pais certamente suspeitariam dela.

O que fazer então? A menina sentou-se, roendo as unhas, e deu um pulo quando a folhagem lá fora, balançada pelo vento, cutucou o vidro da janela. Em sua mente, ela viu o galho da árvore lotado de folhas e cheio de maçãs…

A janela não tinha sido aberta em anos, mas Triss deu um empurrão desvairado na madeira e esta sacudiu para cima, cuspindo um jorro fino de poeira e flocos de tinta. Um ar frio entrou, soprando as páginas do jornal que jazia no criado-mudo, mas a menina não pensava em nada além das maçãs verdes penduradas entre as folhas, brilhando com a luz fraca das lâmpadas de gás. Ela as atacou, arrancando-as dos brotos, metendo na boca uma por uma, sentindo os dentes mergulhando na polpa com um alívio de estremecer. Estavam tão verdes e azedas que a língua ficou dormente, mas a menina não se importava. Em pouco tempo tudo o que via eram hastes partidas, e a fome continuava trovejando sua demanda, um abismo profundo em seu cerne.

O quarto ficava no andar térreo, e não havia nada mais natural, mais necessário, do que escalar para se sentar no peitoril e superar a pequena distância que dava para o chão. A grama estava pálida e aveludada, coberta de orvalho. O frio pinicou a pele dos pés da menina, mas ela não pareceu ligar.

Poucos galhos eram baixos o bastante para que ela lhes arrancasse o fruto, mas quando estes estavam nus ela ficava de joelhos e farfalhava o solo em busca dos que já tinham caído. Alguns eram recentes, pouco salpicados de podridão, outros já estavam amarelados e moles, cheios de buraquinhos de inseto. A polpa espremia por entre os dedos da menina conforme ela os pegava e enfiava dentro da boca. Estavam doces e amargos e melequentos, pouco apropriados para comer, mas ela não ligava.

Somente quando já não havia mais maçãs podres a serem encontradas na grama o frenesi começou a passar, de modo que Triss ficou ciente de que tremia, que tinha esfolado os joelhos e sentia um gosto ruim na boca. Ela se sentou, tossindo, respirando fundo, sem saber se vomitava ou soluçava, usando as mãos trêmulas para limpar o grude azedo das bochechas, do queixo e da língua. Nem ousou fitar o que restava das frutas com as quais se empanturrara, com receio de ver criaturinhas esbranquiçadas contorcendo-se no meio da polpa.

O que tem de errado comigo? Mesmo depois desse acesso selvagem de glutonia, a menina sabia que outro assomo de fome avultava-se em algum lugar feito uma onda, só esperando pela chance de vir para cima dela.

Passos inseguros a levaram ao muro do jardim. Estava desmoronando, era antigo, e fácil demais para escalar e nele se sentar, com os joelhos esticando a fina camisola. À frente a menina viu a estrada de cascalho que cruzava a casa de campo, que, seguindo com os olhos, dava para ver virando e sumindo pelo morro íngreme e cheio de moitas até alcançar a vila distante, que para ela não passava de um conjunto de luzes. Antes dela, contudo, a menina avistava o matagal em triângulo, agora pintado numa coloração acinzentada pelo luar. Logo após palpitava um carpete delicado de salgueiros pelados, e atrás… uma faixa estreita de escuridão profunda, como uma costura aberta.

O Grimmer.

A sensação foi de ser despedaçada. Todos os remendos e pedaços do que é ser Triss, que ela vinha cuidadosamente unindo ao longo do dia, estavam se soltando de novo, todos de uma vez.

Aconteceu alguma coisa comigo no Grimmer. Tenho que ver. Tenho que lembrar.

Triss pegou o atalho morro abaixo, por entre as moitas, em vez de pegar o serpentear comprido da estrada. Brotos duros e cardos pinicavam as solas dos pés dela e os tornozelos conforme ela descia a encosta irregular, mas não conseguia pensar em nada a não ser no Grimmer.

A cada passo o Grimmer ficava mais próximo e visível, negro como a perdição e estreito feito um olho semicerrado. Os joelhos fraquejaram, mas agora a encosta íngreme parecia carregá-la para a frente por conta própria. O Grimmer foi crescendo, e quando ela alcançou o matagal, não era mais um mero rasgo na terra, mas um lago esguio, comprido o bastante para engolir quatro ônibus de uma vez só. Sobre suas águas, os salgueiros deitavam seus cabelos compridos, sacudindo com o soprar do vento como se soluçassem. Contra a superfície escura, a menina enxergou os botões branquinhos dos lírios, como mãozinhas erguidas de debaixo da superfície.

Ouvia cliques e farfalhos ocasionais dentro do gramado. Pássaros. Com certeza pássaros. Com certeza não eram possíveis atacantes esperando por ela entre as moitas, sabendo que ela não teria opção senão retornar…

Passos trêmulos a levaram pelo matagal até a beira da água, onde ela parou e sentiu de fato o frio pela primeira vez. Foi ali que afogaram bruxas, centenas de anos antes. Era ali que os suicidas costumavam se afogar também.

Num certo ponto da margem a lama estava pisoteada, tufos de grama foram arrancados, a terra, mexida. Foi por aqui que eu escapei. Mas por que caí na água?

A menina esperava que, caso encontrasse lembranças ali, sentiria o solo firme sob seus pés, finalmente. Mas quando a memória veio, não trouxe conforto algum. Somente medo e pesar.

Triss lembrou-se de uma escuridão gelada, água fria entrando pelo nariz, pela boca e pela garganta. Parecia lembrar-se também de enxergar por entre um negrume amarronzado, enquanto brandia os membros lentamente, e de ver duas formas sombrias acima dela, cujos contornos ondulavam e oscilavam com o movimento da água. Duas figuras paradas na margem acima, uma mais alta que a outra. Contudo, havia outra memória tentando submergir, algo que acontecera imediatamente antes de…

Aconteceu algo de ruim aqui, algo que não podia ter acontecido nunca.

Mudei de ideia. Não quero mais me lembrar.

Porém, era tarde demais, ela estava ali e o Grimmer a observava com seu olhar vasto e sem luz, como se fosse abrir-se para encará-la a qualquer momento. Então, quando o pânico sublevou-se, a mente da menina fechou-se feito um livro e o instinto tomou conta. Ela deu meia-volta e saiu correndo, fugindo da água, disparou pelo matagal e escalou o morro até chegar à casinha com toda a velocidade e pânico de uma lebre perseguida.