Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 28 de 43

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Canção do Cuco

28 Um conto de inverno

28

um conto de inverno

 

Havia uma casa de barcos à beira da água, então Violet levou a moto lá dentro, com as meninas demonstrando solicitude ao tentar empurrar o carrinho lateral. O teto não era consertado fazia muito tempo, e tinha um monte de fendas brilhantes pelas quais vazava a luz do céu. O piso de concreto estava grudento, com poças antigas.

Numa das paredes havia uma pilha de caixotes quase secos, que serviram muito bem como bancos. Violet largou-se num deles, limpando o rosto encardido com um lenço, deixando manchas vermelhas ao esfregar as bochechas.

– Não se preocupem, ninguém entra aqui – ela disse, evidentemente notando a tensão trêmula de Não-Triss. – Pelo menos não durante o dia. É muito úmido pra estocar qualquer coisa, e ninguém vai vir buscar isso aqui. – Ela deu um tapinha no caixote com a palma da mão. – São só um monte de brinquedos enviados da Alemanha alguns anos atrás, feitos à mão, parte das compensações por terem causado a guerra. Entrou água nas caixas, então… oh, Pen! Pare com isso!

– Não tô fazendo nada de errado! – Pen protestou, mergulhada até os cotovelos num dos caixotes. – Você disse que ninguém vai vir buscar isto aqui!

– Isso porque está tudo enferrujado e estragado – Violet explicou. – Bom… não venha chorar pra mim se você tiver uma gangrena e tiverem que serrar seu braço fora.

Pen abriu um sorrisão para Não-Triss, mostrando uma aeronave de latão que circulava seu mastro fazendo um zumbido. A outra observou o brinquedo com fascínio, e uma sensação de vazio. Compensações pela guerra. Sentimos muito pelos seus filhos mortos. Fiquem com esses aviõezinhos de brinquedo no lugar deles. Então ela imaginou como deviam sentir-se as famílias que também perderam filhos e ainda por cima tinham que fazer brinquedos para as crianças britânicas, como pedido de desculpas.

Não-Triss aninhou-se num caixote-banco ao lado de Violet. Sua pulsação começava a retornar à frequência normal, e seus dentes se pareciam com dentes normais quando ela passou a língua por cima deles.

Violet colocou um braço por cima de cada menina.

– Bom, e agora? – ela disse baixinho, e esperou.

Pen e Não-Triss trocaram um olhar, e aos trancos e barrancos começaram a explicar.

Foi uma bagunça só, cheia de olhares trocados quando as meninas resolviam o que iam dizer, seguidos por acessos e exclamações atabalhoados, contradições e repetições, a maioria fora de ordem.

Violet escutava sem interromper enquanto as meninas lhe contavam sobre o pacto acertado entre Pen e Arquiteto, a abdução de Triss, a chegada de Não-Triss, a esquisitice de bonecas e tesouras, o encontro com o Sr. Grace e a fome sobrenatural da mais velha. Foi somente quando esta descreveu o encontro com a senhora-pássaro, bem como o conteúdo da misteriosa carta que tomara desta, que Violet a fitou com mais atenção.

– Era uma carta do Sebastian? – disse num tom áspero.

Não-Triss quis mudar de assunto, receosa de que sua nova aliada não acreditasse nela.

Após alguns instantes, Violet pareceu reparar que estava de olhos escancarados, e desviou-os.

– Tem certeza disso? – perguntou mais calmamente.

– Tenho – Não-Triss respondeu, meio tímida. – Estava escrita à mão. E… tinha a data do mesmo dia.

Violet olhou para a porta da casinha, e para o quadrado de água brilhante além. Passou alguns segundos ponderando, como se resolvesse comer ou não um quebra-queixo.

– Conte-me – disse ela. – O que dizia a carta?

Não-Triss recontou as palavras o mais corretamente que pôde.

– Num lugar em que neva – disse Violet finalmente, quase sem fazer som. – Ele está num lugar em que neva. – Ela hesitou, e então muito delicadamente balançou a cabeça. – Mas não pode ser – acrescentou, com suave fatalidade. – Ele se foi. Chegou uma carta. Ele morreu.

– Mas nós descobrimos isso também! – explodiu Pen. – Ele tá…

A menina se conteve abruptamente, e respirou fundo meio litro de ar. Olhou para a outra, perdendo toda a coloração do rosto.

– Pen! – Não-Triss interviera. – Tá lembrada? A gente não pode falar pra ninguém da conversa que tivemos no…

Nesse instante Não-Triss sentiu exatamente o mesmo que Pen sentira. Quando estava prestes a pronunciar a palavra “Côncavo”, teve uma sensação nauseante de torpor e perigo iminente. Era como se estivesse a um passo do precipício, com um dos pés flutuando sobre o espaço vazio e letal. Como Pen, ela cortou a frase, retraiu-se e respirou fundo, chocada.

Ambas haviam prometido não revelar a existência do Côncavo, nem de nada que descobriram enquanto estiveram lá. Pela primeira vez, então, ela compreendia o poder de tal promessa. Nesse momento ela entendeu que se dissesse mais uma palavra, algo de terrível lhe aconteceria, algo que faria todos os obstáculos superados até então parecerem triviais em comparação. A sensação de ameaça fora tão intensa que ela aceitou que jamais juntaria forças para quebrar a promessa.

– Que foi? – Violet fitava as duas, atônita.

– Tem coisas que não podemos contar pra você – Não-Triss explicou. – Acabamos de tentar… e descobrimos que não podemos.

– Fizemos uma promessa mágica, e agora ela não deixa a gente falar! – Pen acrescentou, ruborizada de frustração.

– Promessas mágicas – murmurou Violet. – Arruaceiros feitos de folhas. E cartas de… pessoas que não podem ter escrito cartas. Se algum dia eu tiver que explicar isso à polícia… – A moça soltou uma risada seca feito tosse, mas não estava zombando das meninas.

– Violet – Não-Triss soltou, impulsiva –, você… tem alguma coisa de mágico?

– Não. – Violet soltou uma bufada e esfregou os olhos irritados. – Uma médium um dia me disse que eu tinha “alma de argila” porque eu ri da cara dela. Não, não tenho nada de mágico.

– Então… por que você deixa os lugares frios se passa muito tempo neles? – Não-Triss perguntou.

Por um longo momento Violet ficou calada, admirada e assustada. Depois ela largou o rosto nas mãos e balançou a cabeça.

– Ah, meu santinho… – disse ela entredentes – como eu queria saber.

A moça ergueu o rosto, e Não-Triss enxergou naqueles escuros olhos cinza muita angústia, incompreensão e um pouco de alívio. Quando Violet tornou a falar, foram palavras ditas com dolorosa pressa, quase atropelando umas as outras, como gente escapando de um prédio em chamas.

– Isso não acontecia antes! Antes eu podia ficar num lugar o quanto quisesse sem que os termômetros despencassem. Daí, um dia, veio a notícia… que o Sebastian… se fora. Chegou uma carta do comandante dele, e outra de um homem do regimento. Não diziam muito. Só diziam… Só falavam do que tinha acontecido com ele… que ele morrera na neve. Então começou, acho que foi aí. Estávamos no inverno na época, então não reparei logo no começo. Eu estava em casa, e veio a neve e cobriu o chão até quase um metro, como se quisesse congelar tudo, mas eu não liguei. Quase nem notei, estava farta da neve, e quando abri meus olhos e olhei pela janela, tinha mais neve ainda… Parecia fazer sentido. Foi o inverno mais amargo de Ellchester de que se teve notícia. Mas então chegou a primavera, e o frio não foi embora. Ou pelo menos não saiu de perto de mim. Fiquei na casa dos meus pais, mas depois de um tempo comecei a notar que sempre havia neve fresca em volta da nossa casa, mas pouca ou quase nenhuma no restante da rua. As visitas começavam a tremer quando entravam, e corriam pôr de volta os casacos. Havia sempre gelo no vidro das janelas. Pensei que tinha algo de errado com a casa, no começo. Mas depois comecei a visitá-los mais vezes, e a sair… e reparei que era comigo. O inverno estava me seguindo. Se eu fico muito tempo num lugar, começa a ficar frio. E se eu me demoro um pouco mais, começa a nevar. Só uns floquinhos no começo, depois mais, depois uma nevasca… eu sempre desisto e fujo nesse ponto. E continuo… fugindo e fugindo. Não quero que as pessoas reparem no que tá acontecendo e percebam que eu tenho esse problema, mas isso é só metade. Receio que seja o inverno de Sebastian que me persegue. Receio que, se eu deixar que ele me alcance e me perca nessa nevasca, eu acabe indo parar lá. Nesse lugar, com o arame farpado e os tiros das armas e o sangue na neve, sem ter como voltar.

A moça soltou uma exclamação curta, e Não-Triss quase pensou que fosse um soluço, mas sabia que Violet não era do tipo que chorava fácil.

– O que está fazendo, Pen? – ela perguntou, num tom de voz bem mais normal. A menina a tinha envolvido com os braços esticados o máximo que conseguia.

– Tô te esquentando – Pen respondeu, a voz abafada dentro do casaco.

– Ah, que bom – Violet murmurou, cansada. – Problema resolvido.

Ela fez um carinho brusco, porém afetuoso, nos cabelos da menina.

– O Sebastian tá te assombrando, então? – Pen a fitou. – Foi por isso que você vendeu todas as coisas que ele te deixou? Pra fazer o fantasma ir embora?

Não-Triss estremeceu. Quis, por um instante, que houvesse um modo de fazer a menina se calar mesmo depois de ter dito algo errado e poder varrer as palavras dela antes que os outros escutassem.

Por um instante, ela teve a impressão de que Violet ia ficar zangada. Então a moça soltou uma baforada comprida e pareceu cansada, apenas. E apertou Pen de leve.

– Não – disse. – Eu vendi porque precisava do dinheiro. Eram só objetos, Pen. Não eram ele. E quer saber de uma coisa? Ele não teria ligado. Nem um pouquinho.