Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 13 de 43

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Canção do Cuco

13 A beira

13

a beira

 

Esta que não era a Triss ficou ali no parque com seus dedos avermelhados, e quis fugir. Fugir, fugir, fugir do monstro. Mas fugir como? O monstro era ela.

Mesmo assim, ela correu, martelando rua após rua cinzenta com os pés de trovão entorpecido. O vento alvejava seu rosto, e ela mostrou os dentes para ele até doerem de tanto frio.

Fugir pra onde? Pra casa?

Mamãe e papai vão resolver, vão fazer não ser verdade…

Mas eles não tinham como resolver nada. Não poderiam alterar a realidade. E ela não era a menina dos olhos deles. Por que tentariam ajudá-la? Se ela lhes contasse o que realmente era, eles certamente recuariam, horrorizados.

Triss entrou num beco tomado por varais de roupa. Correndo por esse ondulante labirinto, chorava e berrava, sentindo o tecido rasgar-se sob seus dedos. O som que saiu de sua boca não era algo que uma menina humana poderia ter produzido. Dele emanava o lamento estilhaçado de árvores abatidas pelo vento, a cacofonia metálica das gaivotas, a nota choramingada bem no centro de um vendaval.

De todos os lados ela ouviu portas batendo e vozes erguendo-se em consternação. Ela se propeliu adiante, desaparecendo antes que alguém viesse investigar.

Estourou para fora do beco e entrou no seguinte, e seus pés a carregaram pelos atalhos, um após o outro. Sentia um fedor no nariz, um cheiro pegajoso de água e musgo, velho o bastante para ser pungente e perigoso. Os paralelepípedos deram lugar a pedras gastas, e logo seus pés martelavam um deque de madeira, e o vento ficou grudento feito o beijo de um cadáver. O céu abriu-se perante a menina como uma ampla página em branco salpicada de pequenos passarinhos. E então surgiu o Ell e sua superfície cheia de ondas e valetas, tão imenso que a margem oposta era permeada por árvores de brinquedo e casinhas de caixa de fósforos.

Na beirada do deque, as pernas cederam, e ela ficou de joelhos. Seu soluçar ganhou um tom mais humano, finalmente. Lágrimas obstruíam sua visão, ardendo amargamente e grudando-se nos cílios. Quando ela alisou os olhos, as lágrimas esticaram-se em longos fios pegajosos, em vez de simples água salgada. Ela fitou os brilhantes fios de cola, muito confusa, até que compreendeu do que se tratavam.

Teia de aranha. Estava chorando teia de aranha!

Tonta de desespero, viu o rio, de uma cor brilhante de café, ouvindo os cliques que a água fazia ao lamber os suportes do cais.

Sentiu como se ele estivesse ali deitado esperando por ela. Ela saíra do Grimmer. Talvez aquelas águas que tinha à frente fossem destinadas a cobrir sua cabeça, fechando assim o ciclo.

Os pais de Triss não poderiam resolver as coisas. O rio, sim. Talvez fosse melhor para todo mundo se essa menina que não era mais gente se permitisse tombar para dentro da água e livrasse o mundo deste monstro…

– Mas eu não quero! – ela exclamou em voz alta, esfregando freneticamente as teias de aranha das bochechas. – Mesmo que eu não seja a Triss, eu existo! Sou alguém, mesmo que não tenha nome! E não quero me afogar, nem me desfazer! Não quero morrer!

Além disso, sussurrou uma voz indigna na mente dela, a Triss verdadeira se foi. Por que eu não posso ser a Triss agora? Se eu me endireitar e não contar a ninguém de onde eu vim, posso ser uma ótima Triss – ajudar na casa, talvez até ser legal com a Pen. Poderia ser uma Triss melhor ainda do que a original.

Quase tão rapidamente quanto essa ideia se formou na mente dela, contudo, ela recordou Pen descrevendo o sequestro, e como a outra Triss foi colocada amarrada num carro, apesar de todo o seu debater-se. Onde estaria a verdadeira Triss, então? O que estava acontecendo com ela? Estaria em perigo?

– Não me importa! – Não-Triss tapou os ouvidos com as mãos, como se pudesse silenciar os próprios pensamentos. – A culpa não foi minha! E… eu também sou a Triss! A família também é minha! A casa também é minha! Não tenho para onde ir.

Mas se importava sim. Não dava para evitar. Em algum lugar, seu homônimo era mantido em cativeiro pelo Arquiteto, e poderia estar choramingando, igualmente desconsolada. Talvez estivesse aguardando, aos prantos, para ser resgatada pelos entes queridos, sem saber que ninguém sequer sabia que ela não estava em casa.

Ninguém. Ninguém além de mim e Pen. Se eu não fizer nada, ela será assassinada, ou devorada por telas de cinema.

– Mas… se ela voltar pra casa, o que será de mim? – sussurrou Não-Triss, as mãos no rosto, fios de lágrimas roçando em seus dedos. – O que eu vou fazer?

Tinha ficado muito claro que ela precisava fazer alguma coisa. Se não fizesse, logo não haveria mais nenhuma Triss para contar a história.

O mundo pareceu tão diferente quando Não-Triss se pôs a caminho de casa. Era como se ela se permitisse enxergar com os olhos realmente abertos pela primeira vez, não mais tentando convencer-se de que tudo estava normal. Havia um novo brilho em tudo. Paredes e árvores conspiravam ao redor, espalhando murmúrios sussurrados pelo ar feito sangue na água. Ela notava coisas como o fato dos pés fazerem muito pouco barulho, mesmo quando ela andava mais rápido.

Antes, ficara desesperada e aterrorizada, mas o tempo todo pelo menos sentira a rede invisível de segurança do amor dos pais posicionada bem embaixo dela. Agora ela sabia que o menor dos puxões poderia arrancá-la dali. Seus pensamentos giraram, como se a bordo de um carrossel maníaco, durante todo o trajeto até a casa.

Tenho que descobrir o que está acontecendo. Talvez então descubra o que tem de errado comigo. Talvez eu consiga dar um jeito de resgatar a verdadeira Triss e ajudar Sebastian. E talvez… talvez… talvez… se eu fizer isso, eles não se importem de haver duas Trisses.

Mas não dava para contar com isso, e quando finalmente a residência dos Crescents apareceu adiante, as emoções dela saltitaram e farfalharam como se presas dentro de um tornado.

Não posso deixar que saibam o que eu sou, não posso, não posso! Mas a Pen sabe! Como posso impedir que ela conte pra todo mundo? Não, Pen não vai contar. Não pode, não sem admitir o que fez.

Eu a machuquei. Machuquei Pen. Talvez tenha machucado feio.

Não-Triss fitou as pontas dos dedos mais uma vez, ainda sem saber como conseguira arrancar sangue da irmã. Talvez tivesse garras retráteis, como as de um gato. Não queria ficar pensando no fato de ter machucado Pen, nem considerar a possibilidade de ter deixado uma cicatriz no rosto dela. Contudo, enquanto seu estômago ainda se contorcia por causa desse pensamento, outro, mais temeroso e egoísta, deslizou-lhe mente adentro. E se Pen tivesse corrido para casa e sido interrogada sobre os ferimentos? E se tivesse cedido à dor e ao horror e contado a verdade? E se os pais dela estivessem agora esperando pela impostora?

Não-Triss teve o cuidado de entrar pela porta dos fundos. Felizmente, continuava destrancada. A cozinheira tinha terminado de lavar a louça e evidentemente se retirado para seus aposentos, no porão. A menina entrou, tirou as botas e cruzou a cozinha nas pontas dos pés. A casa estava em silêncio, então ela subiu quietinha a escada e correu para o quarto de Triss.

Estava estendendo a mão para a maçaneta quando a porta abriu-se e a mãe apareceu.

– Triss. – A voz da mãe tinha um tom nunca antes ouvido, fraca e sem fôlego. – Onde é que você estava?

Não-Triss ficou atônita. Imersa na torrente de medos e emoções, não se lembrara de inventar uma história para o caso de ser pega.

– Eu… – Não-Triss pensou em alegar que tinha visto Pen sair de fininho, e fora atrás para trazê-la de volta. Mas e se eles pedissem a Pen para corroborar? – Eu… andei dormindo. – Deu para sentir o rosto ficando vermelho.

– Andou dormindo? – sussurrou a mãe, com a mesma voz tensa, sem fôlego. – Disse que andou dormindo? – Ela hesitou, depois escancarou a porta. – Então o que é aquilo ali?

Não-Triss pôde ver então a própria cama, e seu coração afundou quando ela viu as cobertas ainda ajeitadas de modo a parecer que alguém dormia ali debaixo.

Ficou sem resposta. Incriminada pela precaução.

– Eu… não sei – foram as palavras que ela quis dizer, mas pareceu não ter voz para elas. Foi como ouvir um bebê se retratando, transparente feito gaze.

– Você saiu. Sem falar com ninguém. Por que faria isso, Triss? Por que trair minha confiança em você? Olha pra mim!

Não-Triss arriscou apenas um breve olhar de relance para a mãe, e ficou assustada ao ver que esta de fato tremia, com uma lágrima imensa brilhando em um dos olhos. A menina tornou a baixar os olhos, receando que a mãe a olhasse direto neles e visse um monstro à espreita ali atrás.

– Eu disse olha pra mim! – Mãos enormes apertaram seus ombros. – A Pen te convenceu a fazer isso? Pra onde ela fugiu dessa vez?

Então Pen não tinha retornado, e Não-Triss tinha a chance de colocar toda a culpa da escapada na menina. Deu até para sentir as palavras certas ganhando forma em sua língua, com os ouvidos da mãe à espera. Em vez disso, muito inesperadamente, por entre a pena, a culpa e o receio, uma pequena fagulha de injúria conseguiu iluminar-se na mente dela.

– Não – disse. – Não foi a Pen.

Houve uma pausa, uma exclamação, então Não-Triss sentiu-se chacoalhada pelos ombros.

– Você sabe que foi! Você nunca me trataria desse jeito se não fosse a Pen que a tivesse feito sair! – Havia algo de suplicante na voz da mãe.

– Não foi ela! – Não-Triss sentiu-se enforcada por claustrofobia. – Eu… me senti melhor. Queria muito dar uma volta. E… eu sabia que você não me deixaria ir. Você nunca me deixa ir a lugar algum. – As palavras escaparam antes que ela as pudesse conter.

– Triss! – A voz da mãe saiu engasgada, lamuriosa. – Chega! Você está doente! Agora… volte pra cama. Você me magoou muito, Triss, e sabia que eu já não estava muito bem.

Não havia nada que Não-Triss queria a não ser saltar para os braços da mulher, mas não havia segurança ali, nem esperança.

Me ajude, ela implorou mentalmente quando a porta se fechou entre elas. Me ajude, me ajude, me ajude…