Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 25 de 43

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Canção do Cuco

25 O pacto

25

O pacto

 

– Então, estamos de acordo? – perguntou o Picanço, e recebeu um sim das duas meninas.

Ele respirou fundo e começou a falar. Era uma linguagem arrastada e musical que soou como a senhora-pássaro tentando falar o verdadeiro nome do Arquiteto. Eram palavras desconhecidas por Não-Triss, mas logo ela reparou que não foram dirigidas a ela. O Picanço estava falando para chamar a atenção de outra pessoa, e conforme ele falava todo o cômodo entrou num ligeiro tremelicar, como se algo enorme voltasse seu olhar antigo, indiferente, sobre eles.

Ele esperou pelas promessas. Ele as escutou. Algo indefinível no mundo mudou com um silencioso clique, como uma chave destrancando uma porta imaginária. A tensão cedeu, deixando Não-Triss sentir-se mais leve, embora com náusea. Pen fungou e agarrou a manga da blusa da outra. Até mesmo o Picanço empalideceu, o rosto enrugando-se por uns instantes, como se ele lutasse para esconder o desconforto.

– Então – ele disse, assim que recobrou a cor, o sorriso e a compostura. – Perguntem. – Ainda havia algo de forçado em seu tom de voz.

Não-Triss teve que se preparar antes de falar. Tinha tantas perguntas na cabeça, e tentou reunir todas para botar tudo para fora.

– O que eu sou, afinal? – perguntou. – E… e por que eu fui feita? Por que o Arquiteto levou embora a verdadeira Triss? E pra onde a levou? O que ele está fazendo?

– E cadê o Sebastian? – quis saber Pen. – E o que vocês todos estão fazendo aqui embaixo da ponte do meu pai? E por que tá tudo de cabeça pra baixo?

– Calma, calma! – O Picanço ergueu a mão para conter o fluxo, depois baixou o tom para um murmúrio confidencial. – É melhor eu começar pelo começo, ou ficaremos andando em círculos. – Ele esquadrinhou Não-Triss de alto a baixo, e novamente ela foi atacada pela mistura de orgulho e fria satisfação. – E enquanto conversamos, vou suturar esses cortes na sua pele, se você me permitir – ele acrescentou. – Seria contra a minha natureza deixar esses buracos abertos.

Não-Triss lembrou-se da promessa dele de não fazer nada contra ela, e cuidadosamente trouxe seu banco para perto do homem. Ao fazê-lo, as bonecas mais próximas se mexeram. Algumas se afastaram. Outras estenderam membros articulados feitos de madeira.

– Pare com isso! – Pen guinchou, olhando para o Picanço. – Pare de fazer as bonecas se mexerem!

– Não estou fazendo nada. – Os olhos dele brilhavam feito estrelas entre a névoa enquanto ele preparava a agulha. – É culpa dela. – Ele acenou para Não-Triss, para alarme e confusão desta. – Mas logo trataremos disso. Eu já disse que foi ficando cada vez mais difícil para o meu povo viver nos locais que costumavam ser seus lares…

– Por quê? – Pen interrompeu as palavras do homem feito uma bala de revólver atravessando o vidro da janela.

O Picanço vacilou, e Não-Triss pensou tê-lo visto disfarçar um ligeiro estremecer. Ficou muito claro que, quando ele tornou a falar, havia uma boa dose de relutância em sua voz. A ponta da agulha picou de leve quando ele se pôs a remendar os cortes.

– Mapas. – Ele limpou a garganta. – Em geral, mapas. Nós… costumávamos morar nas matas, florestas densas, montanhas amplas, lugares incomuns. Porque eram desconhecidos. Misteriosos. Perdidos. Inexplorados. E… precisávamos disso. Não conseguimos viver num lugar que seja governado pela certeza, onde tudo é conhecido e mapeado e escrito e dividido em colunas. A certeza nos envenena lentamente.

O Picanço lançou um olhar gelado para Pen, no qual havia um pouquinho de desagrado, e Não-Triss teve certeza de que essa pergunta era uma das que ele preferia não ter respondido.

– Ou, às vezes, rapidamente – ele acrescentou, e disparou para Não-Triss um olhar inquisidor. – Eu ouso dizer que você já reparou que existe certo instrumento humano que não vai com a nossa cara. – Com o segundo e o terceiro dedo ele imitou uma tesoura.

Não-Triss fez uma careta, e o Picanço ficou contente. Ela reparou que ele cortava os restos do fio com uma faquinha de serra feita de osso, em vez de uma tesoura.

– Uma faca é feita com uma centena de tarefas em mente – ele continuou, colocando fio na agulha de osso. – Esfaquear. Fatiar. Esfolar. Trinchar. Mas uma tesoura serve para apenas uma tarefa: cortar coisas em duas. Dividir pela força. Colocar tudo de um lado ou de outro, nunca no meio. Certeza. Somos seres do entre, então as tesouras nos odeiam. Querem nos cortar e encontrar nosso sentido, e não há sentido que se possa arrancar de nós sem nos matar. Tome mais cuidado ainda com as tesouras velhas, ou que foram feitas do modo antigo.

– Sim – Não-Triss admitiu, relutante. – Elas parecem me odiar mesmo… e acho que isso só está piorando.

– Quanto mais você age e pensa como uma de nós, mais elas a veem como uma de nós.

O Picanço foi inserindo de volta a videira roubada pelo buraco na pele dela, e a menina sentiu-a movendo-se dentro de suas entranhas feito uma cobra seca.

– Enfim – ele prosseguiu –, passamos por situação muito semelhante quando o seu povo começou a fazer mapas melhores. Os aviões voavam por cima e podiam ver tudo, e as ferrovias chegavam a todo lugar, e os andarilhos começaram a querer ter gráficos que pudessem seguir para achar os caminhos que levavam a lugares remotos. Fomos recuando e recuando, até que não havia mais para onde ir. Alguns tentaram defender seu território da certeza, alguns se rasgaram lutando pelo último pedaço de terra… – O Picanço fez um aceno distraído no ar, como se varresse embora décadas de uma sangrenta história. – Estamos perdendo. Estamos morrendo. Até que um de nós, o homem que vocês chamam de Arquiteto, veio até nós com um plano. Ele notara algo que o restante não tinha reparado, porque tínhamos nos afastado demais das vilas e cidades. Ousou passar por elas e chegou perto da cidade mais próxima. E certo domingo fez uma descoberta: os sinos da igreja não mais o machucavam.

– Sinos da igreja? – perguntou Não-Triss.

O Picanço fez que sim.

– Sempre os evitamos. Nos deixam loucos, com um zumbido na cabeça…

– É porque vocês são do mal – Pen correu sugerir.

– É a certeza – o Picanço a contradisse. – Todo domingo as pessoas sempre compareceram àquela cripta gelada para compartilhar sua fé, sua certeza: Deus está no céu, o pároco é seu mensageiro e está tudo certo com o mundo. – Havia uma alegria nos olhos dele que não tinha nada a ver com satisfação.

– Mas todo mundo acredita mesmo nisso! – Não-Triss exclamou.

– É mesmo? Ah, eles continuam indo mesmo, sem falta, escutar o sermão do pároco. Mas eles se lembram desse mesmo pároco lhes dizendo que a guerra era a guerra de Deus, que todos os jovens piedosos deviam largar as enxadas e pegar nas armas. E se perguntaram: É isso mesmo? Esse monstro que devorou nossos filhos era mesmo uma guerra de Deus?

O Picanço sorriu, e Não-Triss concluiu que não gostava nem um pouco dele.

– Eu não finjo que tenho certeza de que existe um Deus – ele prosseguiu – nem que as estrelas frias vão durar pra sempre. A guerra pertence à humanidade, e a ninguém mais. Mas para nós ela foi uma dádiva, isso eu posso dizer. A guerra esmagou a fé. Todo tipo de fé. Antes da guerra, as pessoas mantinham suas posições, e nunca ficavam muito abaixo ou acima. E agora? Pobres e ricos morreram lado a lado nas trincheiras, e tinham todos basicamente a mesma aparência com a cara enfiada na lama. E os heróis que voltaram do inferno não se preocupavam mais em arrumar o topete enquanto passavam fome nas ruas. E as mulheres! Antes, elas se guardavam em seu caminhozinho de sempre e não pisavam na grama. Mas as que trabalhavam nas fazendas e fábricas durante a guerra gostaram de cuidar da própria vida, não? Então os maridos estão todos em pânico. Assustados. Incertos. E toda essa dúvida, esse chacoalhar dos fundamentos, havia mais disso nas cidades.

– Por quê? – Não-Triss perguntou, não querendo interromper demais o fluxo do Picanço.

– Porque as cidades são lindas… e um caos. Não são como as vilas, onde todo mundo se conhece e as raízes são profundas. Elas misturam centenas de pessoas e ideias feito químicos num frasco, até que tudo explode! As pessoas se perdem nas cidades. As paredes são erguidas bem altas e engolem as divisórias, e você vive cercado de estranhos. E tem os automóveis. Todo mundo sabe o que fazer com cavalos, mas e com os carros? Ninguém sabe o que fazer com eles! E ninguém que os dirige liga para regras! E eles levantam nuvens enormes de poeira, de modo que tudo é incerto, impossível de prever. É lindo.

– Então é por isso que vocês moram aqui? – Não-Triss tentou direcionar o Picanço para o tópico principal. – Foi ideia do Arquiteto?

– Isso. – O Picanço sorriu. – Ele é mesmo o arquiteto, de certo modo, entende? Dos melhores. Pode distorcer tijolos e argamassa em formatos de revirar os olhos e a mente se você olhar demais. Pode construir um palácio com centenas de quartos, e fazer que a casca de fora não seja maior que uma casa. Ele percebeu que o melhor jeito de encontrar lugares desconhecidos para nós seria construindo-os, de um modo que não aparecessem nos mapas. Mas ele sabia que não poderia fazer isso sozinho. Precisava de um aliado, um arquiteto humano. Ou melhor, um engenheiro civil, para posar como criador dos projetos dele, ou estes jamais seriam aceitos.

– O que ele tá dizendo? – Pen fitava o Picanço de modo inquisidor. – Ele tá falando do pai, né?

Não-Triss, contudo, compreendia muito claramente o que ele dissera, embora não quisesse acreditar. Ainda sentia o orgulho que a verdadeira Triss tinha pelo pai famoso, pelas Três Amazonas, todos os marcos que colocaram Ellchester no mapa…

– Todos aqueles prédios, os que fizeram o pa… o Sr. Crescent famoso. – Ela respirou fundo. – Ele não projetou nenhum deles, é isso?

– Quê? – Pen ficou pasma, chocada, quando o Picanço fez que não.

– Não – ele confirmou. – Mas ele se deu bem com o pacto.

– Qual foi a parte dele do pacto? – Não-Triss pensou em Triss, pobre e enganada Triss, que idolatrava o pai, e sentiu uma inesperada pontada de raiva por ela. – O que o Sr. Crescent teve que fazer em retorno?

– Ah, você não entendeu – respondeu o Picanço. – Esse era o lado dele no pacto. Ele foi muito relutante, no começo. Achou tudo muito esquisito. Foi preciso uma bela oferta pra fazê-lo mudar de ideia.

– Qual foi…? – Não-Triss não terminou a frase, porque sua mente já espiralava para longe dela, em direção à verdade.

– Foi logo depois do final da guerra – explicou o Picanço. – Milhares de rapazes ainda perdidos pela Europa, querendo voltar pra casa. As famílias, por aqui, faziam pente fino nos boletins, querendo ter notícias. Mas às vezes chegava uma notícia ruim. Seus pais receberam uma carta do comandante do seu irmão. Aquele estilo de sempre, junto dos pertences dele. Mas eles não quiseram acreditar. Então o Arquiteto disse ao seu pai que se ele topasse o pacto e lhe desse um desses itens, ele poderia falar novamente com o filho.

Finalmente aquelas cartas terríveis de Sebastian começavam a fazer sentido.

– Mas… cadê ele? – Pen explodiu. – Cadê o Sebastian? Por que ele não voltou pra casa?

– Porque ele morreu – respondeu o Picanço, calmo, porém impiedoso. – Ele não se foi, mas também não está vivo. Sinto muito. Está apenas… parado.

– Parado? – Não-Triss ficou de boca seca.

– Como a gente faz pra “despará-lo”? – perguntou Pen.

– Não faço ideia. Teriam que perguntar ao Arquiteto.

O Picanço abriu um sorriso que deixou claro que ele não esperava que elas fizessem nada disso.

– Qual foi a coisa que o Arquiteto pediu? – Não-Triss perguntou.

– Algo que pertencia ao seu irmão e que tinha a ver com a morte dele, eu acho. – O Picanço deu de ombros. – O Arquiteto nunca me falou muito disso, mas acho que era algo necessário pra cumprir a metade dele do pacto.

– Isso… – Não-Triss pensou no tom atormentado das cartas – foi um truque cruel, terrível! Ele devia saber que eles esperavam que o Sebastian voltasse pra casa! E agora ele tá preso em algum lugar… – Ela pensou então no modo como a família Crescent tinha se rompido e implodido, feito papel molhado na chuva. – Isso não bastava? Por que o Arquiteto raptou Triss também? Ele já tinha feito tanto mal!

O Picanço pareceu genuinamente surpreso com o acesso dela.

– Pacto feito é pacto feito – disse, dando de ombros. – Se o Crescent não quis ouvir, problema dele. Queria acreditar numa mentira, então acreditou. E talvez tenha tido uma ou outra discussão quando não conseguiu o que queria, mas ele teve discernimento o bastante pra manter sua parte do pacto e construir os projetos do Arquiteto. Até alguns meses atrás, na verdade.

Mais alguns pedaços foram encaixados. O artigo de jornal. As conversas misteriosas que Não-Triss ouvira entre Piers e Celeste.

– Ele parou de construir o que o Arquiteto queria, não? – disse ela lentamente. – Começou a trabalhar naquele subúrbio de Meadowsweet…

– Ele quebrou o pacto. – A voz do Picanço saiu feito veneno puro, como se ele nomeasse um pecado além da compreensão.

Não-Triss lembrou-se da reação do Arquiteto quando Pen sugeriu “contar”, infringindo as regras do pacto que tinha com ele. Sentiu um arrepio ao lembrar-se dessa perda de controle infantil, selvagem.

Vai romper nosso pacto!

– Não tem nada nesse mundo capaz de deixar o Arquiteto mais maluco – comentou o Picanço. – E é assim que ele está agora, e onde entra a família Crescent. Ele está com vingança na mente, pura e simples. Ele tem algum plano para a jovem Theresa, algo que será concluído em alguns dias, se quer saber. Porque é aí que você entra. Ele precisava que você ficasse no lugar da Theresa, pelo menos por tempo suficiente para ele fazer seja lá o que está planejando. Agora, quando ocorre uma troca desse tipo, geralmente basta deixar uma boneca comum camuflada com um feitiço simples de glamour… ou seja, um toque ligeiro para enganar os olhos. A boneca não precisa pensar. Se for uma boneca de bebê, ela apenas chora e pede comida, e murcha depois de passada uma semana. Se for mais velha, fica deitada como se num sono impenetrável, e vai definhando até morrer. Mas o Crescent sabe dos Outros, entende? Então o Arquiteto quis que você fosse mais convincente. Muito mais convincente. Aquela ali – ele apontou para Pen – trouxe-nos tudo de que precisávamos. Diários para dar lembranças. Coisas que sua doce irmã adorava, todas com um poder especial dentro de si. E então eu elevei minha arte ao limite… e te dei o poder de pensar. Lembrar. Acreditar que era Theresa. Agir. Sentir. E disfarcei o seu corpo de espinhos e palha com o mais poderoso feitiço que eu tinha, para te fazer andar e parecer humana. É por isso que as minhas bonecas aqui começaram a se mexer quando você chegou perto. Entraram no raio de ação do feitiço. Elas não têm mente como você, mas podem fingir que têm, mas apenas enquanto o feitiço as toca.

– Então todas as minhas lembranças vêm do diário da Triss? – Não-Triss tentou não imaginar como seria se aquelas folhas caíssem pelas fendas nos quadris. – Mas… então eu me lembraria do que estava escrito, não? Eu me lembro de mais coisas… como eram as coisas e a sensação de ter estado lá. Lembro… de Sebastian.

– Os diários foram investidas nas lembranças de Triss – respondeu o Picanço. – São uma ligação, entende? Você só se lembra dos eventos escritos no diário, mas lembra do mesmo modo que ela se lembra. Pronto. – O homem partiu o fio e examinou seu trabalho. – Essas costuras devem segurar. – Ele lançou mais um olhar sagaz para Não-Triss. – E… não pude deixar de notar que tem materiais dentro de você que eu não coloquei. Mais coisas pertencentes à querida Theresa, certo?

Não-Triss ficou envergonhada. Não lhe ocorrera que os objetos que engolira seriam visíveis para o Picanço pelos buracos nas laterais do corpo.

– Então foi isso que você fez! Por isso continua assim tão vigorosa. Nesse ponto, eu imaginaria você largada na cama, doente, quase incapaz de erguer a cabeça ou conversar. Garota esperta. Não vai fazer diferença no fim das contas, claro, mas foi muito esperta.

O homem falara com postura jovial e satisfeita, e uma pequena chama discreta se acendeu no coração de Não-Triss. Ele a tinha feito, mas não era seu pai. Tinha o orgulho de um chef que saboreia sua obra de arte, mas não se importa com o que acontece com os restos do banquete. Não ia ajudá-la.

– Triss? – Pen olhou para ela. – O que ele quis dizer com “não vai fazer diferença no fim das contas”?

– Oh. – O Picanço olhou de uma para outra. – Que gracinha. Você não contou pra ela, né?