Canção do Cuco

Frances Hardinge · Capítulo 3 de 43

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Canção do Cuco

3 O tipo errado de doença

3

o tipo errado de doença

 

Seis dias, disse o riso. Seis dias, relinchou feito papel antigo num esboço. Quando Triss acordou, contudo, as palavras tornaram a se derreter e passaram a ser nada mais que o sussurro das folhas contra a janela.

Triss abriu os olhos. Alguma coisa áspera tocava sua bochecha. Ela ergueu a mão, retirou a folha morta do cabeço e a fitou. Uma por uma, foi recordando as ações da noite anterior. Tinha mesmo saído pela janela, devorado frutas podres e parado às margens do Grimmer, sentindo que o lago fosse falar com ela? Ela foi abrindo caminho entre as memórias com descrença, como uma dona de casa fuçando no lixo espalhado por raposas durante a noite.

Havia mais folhas mortas no cabelo, então ela correu tirá-las e as jogou para fora pela janela. Os pés enlameados, ela os limpou com um lenço. A camisola estava encardida e cheia de grama, mas talvez ela conseguisse passá-la para dentro da lavanderia sem que ninguém reparasse.

Ninguém me viu. Ninguém sabe o que eu fiz. Então, se eu não contar pra ninguém, é como se nada tivesse acontecido. E não vou fazer de novo – estou melhor agora. Vou me vestir e descer para o café, e todo mundo vai dizer que estou com uma cara bem melhor hoje… e então vai ser verdade.

Como era de se esperar, quando a menina desceu pelas escadas, foi recebida pela mãe com alívio e alegria na voz.

– Triss! Você se levantou! Ah, que bom ver você melhor…

A fome tinha finalmente tirado Pen da clausura. Ela arrastou a cadeira o mais longe possível do restante da família, e manteve o rosto metido no prato, ressentida. Comeu com todo o bom humor de um presidiário.

Ovos frescos da fazenda foram trazidos e cozidos, e agora jaziam nos potinhos ao lado das travessas de torradas. O bando de lobos que parecia ter tomado controle do estômago de Triss continuava uivando por comida, mas ela conseguiu comer lenta e continuamente, e parou quando terminou sua porção.

Pronto. Viu? Estou melhor hoje.

Voltariam para casa logo após o café. Tudo voltaria ao normal assim que chegassem em casa.

De volta ao quarto, Triss empilhou rapidamente suas posses na pequena valise vermelha de viagem e, por fim, parou para pegar Angelina, sua boneca. Angelina era uma bela e grande boneca alemã do tamanho de um bebê humano. A pele bege não era brilhante como porcelana, mas tinha um brilho fraco de pele de verdade, e tinha cílios e sobrancelhas curvas cuidadosamente pintados. Os cabelos encaracolados eram marrom-claros, como os de Triss, e ela usava vestido verde e branco com estampa de hera.

A mente de Triss deu um giro inusitado e ela pareceu enxergar suas posses como o faria um estranho. Uma ideia pouco familiar escondia-se em sua mente. É como se eu ainda tivesse seis anos de idade. Como se tivesse a mesma idade de quando Sebastian morreu.

Ela fitou Angelina com um contorcer sutil no estômago, uma minhoquinha de vergonha e assombro.

– O que está fazendo aqui? – perguntou baixinho. – Tenho onze anos! Por que continuo carregando uma boneca por aí?

E foi quando essas palavras ainda flutuavam pelo ar que a boneca se mexeu nas mãos dela.

As primeiras coisas que mexeram foram os olhos, os lindos olhos de vidro verde. Foram virando lentamente, até que o olhar da boneca pousou no rosto de Triss. Então a boquinha se mexeu, abrindo-se para falar.

– O que você está fazendo aqui? – Um eco das palavras de Triss, expresso num tom de ultraje e surpresa, e numa voz fria e musical como o tilintar de xícaras. – Quem você pensa que é? Essa família é minha.

A boneca se moveu nas mãos da menina, agarrou as mangas da camisola com as mãozinhas delicadas e se endireitou, esticando a cabeça para a frente para fitar a dona mais de perto. Seus olhos vidrados pareceram ganhar mais foco, então a boneca piscou e começou a tremer. Sua boca abriu-se e emitiu um miado grave de horror e medo.

– Não – resmungou ela, e começou a se debater, elevando a voz para um quase choro. – Não tá certo! Não me toque! Socorro! Socorro! Tirem ela de mim!

A boneca brandiu os punhos de porcelana contra a menina, e o grito passou para uma única nota sombria que ecoou sem parar feito uma sirene. Pela janela, Triss viu os martinetes num acesso de horror em seus ninhos no beiral, e o gesso da parede crepitou sutilmente, espirrando poeira no ar. O queixo da boneca pendeu ainda mais, e o grito ficou ensurdecedor, até que Triss teve certeza de que todos na casa e além deviam estar assustados.

– Para! Para! – Ela chacoalhou a boneca, mas não adiantou nada. – Por favor!

Em pânico, ela tentou sufocar o rostinho gritante com um xale de lã, mas conseguiu apenas abafar um pouco o som. Finalmente, em puro desespero, a menina arremessou a boneca para longe o mais forte que pôde. Ela atingiu a parede de cabeça com um baque seco feito um tiro de revólver, e o grito foi cortado, deixando um silêncio gelado.

Triss foi até Angelina. Tum, tum, tum fez seu coração, como um policial batendo na porta de um criminoso. Ela virou a boneca com o pé. O rosto de Angelina estava rachado de um lado ao outro. A boca continuava aberta, assim como os olhos.

Triss ficou de joelhos.

– Desculpe – sussurrou, inutilmente. – Eu… eu não queria…

Estava acocorada ao lado da boneca feito um assassino sobre um cadáver. Em pânico, retirou um par de toras da cesta perto da lareira, enfiou a boneca no fundo da cesta e empilhou a madeira de volta, por cima. Talvez ninguém a encontrasse até que a família tivesse partido.

Inesperadamente, a porta abriu-se, no mesmo instante em que Triss terminava de se endireitar. Ela deu meia-volta, culpada, a boca seca. Alguém tinha vindo investigar a terrível gritaria, claro que sim. Que explicação ela poderia dar?

– Já está pronta? – Era o pai, de casaco e luvas de dirigir.

Triss fez que sim, muda.

Ele olhou para a janela.

– Os pássaros fizeram uma barulheira esta manhã, não?

Lá fora, sob a luz do sol, esperando enquanto o pai trazia o carro, Triss manteve as mãos enfiadas no fundo dos bolsos para que ninguém as visse tremendo.

Estava cercada de amor por todos os lados, e jamais se sentira tão sozinha. Não podia contar a ninguém o que acabara de acontecer. De fato, quanto mais permanecia em silêncio, mais difícil ficava falar. E o que poderia dizer, afinal?

Angelina se mexeu e falou e gritou. E eu a matei.

Não aconteceu não aconteceu não aconteceu…

Mas se não… então foi coisa da minha cabeça. O que significa que tem alguma coisa errada comigo. Significa que estou muito, muito doente.

Doença comum era algo tranquilo, até confortante. Mas aquela doença era do tipo errado. Ela não queria ficar doente da cabeça. Só pensar nisso era como olhar dentro de águas sombrias sem fundo. Se ela corresse para os pais com a cabeça doente, eles não reagiriam com bondade e revistinhas e novos remédios e “não se esgote enquanto não ficar mais forte”. Ficariam sérios e preocupados e deixariam os médicos dizerem o que fazer. Não quero ser levada embora nem hipnotizada nem ter buracos furados na cabeça…

Então Triss ficou em silêncio no carro, aninhada sob a luz dourada da manhã, sentindo-se um verdadeiro monstro. Toda vez que os pais entravam na casa para buscar um último item, ela ficava tensa. Por favor, não olhem dentro da cesta. Vamos embora logo, por favor, vamos embora…

Ela quase pulou para fora do próprio corpo quando escutou um berro vindo de dentro da casa.

– Encontrei! – Era a voz do pai, parecendo muito estressado, à beira de perder os nervos. O coração de Triss deu um solavanco. Contudo, não foi Angelina quem o pai trouxe para a luz do dia. Era Pen, soluçando, resmungando e fazendo o máximo para dar com o salto do sapato nos joelhos dele. – Ela tentou se esconder no sótão.

– Eu não vou! – Estava difícil entender o que Pen dizia. Seus ataques em geral consistiam em fazer bico e bater os pés. Mas dessa vez ela gritava até a rouquidão, umas poucas palavras semicompreensíveis perdidas no tornado que era sua cólera. – … ela tá mentindo… não vai me fazer sentar perto dela… eu odeio vocês!

Triss deslizou para o banco de trás por uma porta, e Pen foi enfiada para dentro perto dela pela porta oposta. Uma vez sentada, Pen encaracolou-se numa bola apertada e hostil, prensada na porta no intuito de ficar o mais longe possível de Triss.

Ela acha que estou fingindo estar doente, Triss pensou vagamente. Fingindo pra ter a atenção de todo mundo. A atenção que ela quer pra si. Queria que fosse verdade. O pai de Triss acomodou-se no assento de motorista e apertou o botão para ligar o motor. Houve um zumbido, depois o motor principal cacarejou e ronronou. Finalmente, até que enfim, estavam a caminho.

O carro da família era um Sunbeam cor de menta com um brilho de folha úmida, motor que ronronava e faróis que mais pareciam olhos redondos e expectantes. O dia estava tão claro que a capota foi aberta, deixando a família toda exposta ao sol e ao céu. Com alívio quase doloroso, Triss viu a casinha diminuindo atrás do carro, e logo estavam zunindo, travessa após travessa, a morosos 50 quilômetros por hora. Os cabelos de Triss chicoteavam seu rosto, e conforme a cena do crime recuava atrás dela, os nós no estômago começavam a afrouxar. Quem sabe as doenças podiam ser deixadas para trás, tanto quanto pequenos corpos de porcelana mal escondidos.

Montes erguiam-se debaixo deles feito burrinhos de praia de temperamento difícil, e a estrada serpenteava como se quisesse expulsá-los. Muros de pedra sinuosos subiam e desciam ao longo dos dois lados. Então uma placa branca passou por eles. Para lá, Oxford, 136 quilômetros; para cá, Ellchester, 32 quilômetros.

Triss encostou a bochecha no frio painel de madeira do interior da porta do carro, valendo-se da sensação de familiaridade.

Estou salva. Estou indo para casa, para Ellchester.

A primeira coisa que se reparava ao se aproximar da cidade eram as Três Amazonas.

A mais impressionante do trio de pontes cobria toda a extensão do estuário de Ell num único longo passo. Seu arco suave e a pintura cor de areia dourada eram visíveis por quilômetros contra o azul brilhante da água. A segunda ponte cortava uma linha sublime por cima da própria cidade, suportada por três dos oito morros de Ellchester, sendo um deles encimado por um prédio em forma de pirâmide feito de pedra rosa-clara, a estação de trem da cidade, em vias de ser finalizada. A última se esticava até encontrar a encosta íngreme do vale, do outro lado. Entre elas, suspensa, ficava a linha de trem recém-construída.

Todos concordavam que, antes de as Três Amazonas serem construídas, Ellchester andava em “declínio”, num lento e miserável colapso, como um castelo de areia sob a chuva.

Então Piers Crescent chegou com seu planejamento para as Três Amazonas, e mostrou que, apesar do estuário no meio e as montanhas esquisitas, a linha de trem poderia ser trazida a Ellchester. Todo mundo chamava as pontes de “um milagre da engenharia”. Elas mudaram tudo e trouxeram dinheiro à cidade, e agora o nome dele era um dos mais famosos e bem falados de Ellchester.

Triss nunca vira as Três Amazonas surgirem à vista sem sentir um assomo de orgulho. Quando o Sunbeam entrou na ampla estrada que percorria a expansão reluzente do Ell na direção da massa corcunda de tijolos cinza que era Ellchester, a menina esticou-se para a frente até conseguir divisar o arco da ponte deitada sobre o rio. Naquele dia, contudo, o assomo de calor foi seguido por um sabor residual amargo, pois ela se recordou da conversa que escutara e do artigo de jornal. Se havia alguém tentando mesmo assustar seu pai, será que tinha alguma coisa a ver com o trabalho dele?

O pai de Triss não entrou no efervescente coração irregular de Ellchester, com seu labirinto de pontes e degraus em ziguezague. Em vez disso, seguiu para os distritos mais quietos, onde grandes casas de três andares arranjavam-se em quarteirões, cada uma com uma pracinha no centro. O Sunbeam entrou numa dessas praças, em frente a uma dessas casas, e no banco de trás Triss foi soltando o ar lentamente. Meu lar.

Acompanhando o restante da família ao cruzar a porta da frente, Triss sentiu o coração afundar. Esperava que tudo ficasse normal num clique, assim que ela chegasse em casa. O cabideiro apinhado, o piso de taco encerado e o papel de parede amarelo-claro de estilo chinês eram familiares, pelo menos para ela deviam ser, mas o clique não aconteceu.

– Ora, quem foi que fez isso? – A mãe de Triss apontava para uns floquinhos de terra no chão limpo e liso. – Quem de vocês se esqueceu de limpar os pés? Pen?

– Por que tá olhando pra mim? – Pen explodiu. Seu olhar de raiva incandescente, contudo, ela o lançou para Triss, não para a mãe. – Por que, para todo mundo, sempre sou eu?

A menina disparou escada acima, depois ouviram uma porta sendo batida com muita força.

A mãe suspirou.

– Porque é sempre você, Pen – ela murmurou, cansada, tocando com os dedos a ponte do nariz.

– A Margaret vai limpar o chão quando vier amanhã – disse o marido, repousando a mão no ombro da esposa para confortá-la.

Margaret era a “faz-tudo” dos Crescents; vinha limpar a casa todas as manhãs e lá ficava por algumas horas.

– Ah, preciso avisá-la de que voltamos mais cedo – disse a mãe com ar de exaustão. – E encontrar a Cook e dizer que estamos em casa e vamos precisar dela. Eu tinha dito que ela podia tirar uns dias de folga enquanto estivéssemos fora… se ela foi ver a irmã em Chesterfield, não sei como vamos fazer. Preciso me certificar de que aquela tal de Donovan tenha se mudado, e enviar cartar à agência de recrutamento, pedir outra governanta. E se eu não mandar pedidos ao açougueiro e ao padeiro, não chegará entrega alguma amanhã.

As lembranças de Triss se remexeram. A “tal de Donovan” era Miss Donovan, a última governanta das filhas dos Crescents, que havia acabado de ser recusada por ser “avoada”. A mãe de Triss já tinha reclamado de governantas anteriores por ser “boba e insolente”, por ser “confiante demais” ou por levar as meninas a museus ou parques nos quais Triss podia pegar um resfriado. A menina já não dava mais muita bola para as governantas. Quando se permitia afeiçoar-se a elas, ou prestar atenção às lições que davam, era sempre difícil quando iam embora.

– Celeste – murmurou o pai de Triss num tom baixo e deliberadamente calmo –, talvez você pudesse, antes de mais nada, ver se chegou alguma carta pra nós enquanto estivemos fora.

A mãe de Triss lançou um olhar desconfiado para o cesto vazio no qual ficava sempre a correspondência da família, e então a compreensão pareceu deitar-se sobre seus olhos azuis-primaveras. Ela umedeceu os lábios, depois se voltou para Triss com um sorriso cálido e suave.

– Querida, por que não corre lá pra cima, desfaz sua mala e se deita um pouquinho?

Um verdadeiro exemplo de docilidade, Triss fez que sim e foi para o andar de cima. Ao cruzar o topo das escadas e escapar do campo de visão dos pais, contudo, ela parou. Estava acontecendo de novo. Esperavam para ter uma conversa sem que ela escutasse.

Mordendo o lábio, ela abriu a porta mais próxima e fechou, para que soasse como se ela tivesse ido se retirar em seu quarto. Encostada na parede, a menina esperou, e em muito pouco tempo foi recompensada pelo som das vozes.

– Piers, refere-se àquelas cartas? Pensei que tivéssemos concordado em não ler mais nada enviado por aquele homem…

– Eu sei, mas agora precisamos descobrir se foi ele quem atacou Triss. Se ele estiver mesmo tentando me perturbar, então talvez chegue uma carta do próprio, em vez do que sempre acontece. Se ele nos escreveu com demandas ou ameaças, pelo menos vamos saber.

Ouvindo passos na escada, Triss virou-se para fugir, e sentiu o pânico rastejando para dentro de sua alma feito água fria encharcando as meias.

Qual é o meu quarto?

Não havia tempo a perder, contudo. Os passos alcançavam o topo da escada. Triss abriu com tudo a porta mais próxima e deslizou para dentro, fechando-a com pressa, mas sem fazer ruído.

O quarto estava escuro, iluminado somente pela grossa luz solar que encharcava as espessas cortinas cor de âmbar. O ar tinha um cheiro saturado, como o de roupas guardadas para uma ocasião especial que nunca veio a ocorrer.

Triss prendeu a respiração e pregou a orelha na porta. Lá fora ela escutou passos no topo da escada, passos pesados que ela facilmente identificou como sendo do pai. Pouco depois, escutou os sons abafados dele falando no escritório, usando sua voz de telefonema, clara e cuidadosa. O telefone era uma aquisição relativamente recente da casa, e ainda incomodava pela novidade, com aquela campainha impetuosa e insistente. Às vezes parecia que o pai de Triss achava que tinha que dominar o aparelho com força de personalidade, caso ele desenvolvesse vontade própria e quisesse tomar posse da casa.

Triss sentiu uma onda suave de alívio. Ele não me escutou. Mas onde estou? Este não é o meu quarto. É grande demais pra ser o meu quarto.

Seus olhos foram lentamente se ajustando à escuridão, e com um disparo de alarme ela compreendeu quão equivocada estava.

Oh, não! Aqui não! Eu não devia estar aqui!

Reconhecia o quarto, é claro. Nada mudara desde a última vez que o vira. Nada tinha sido removido.

A cama estava feita, com lençóis limpos. A superfície rugosa da escrivaninha tinha sido limpa e polida. Um telescópio jazia num canto, com as três pernas dobradas para dentro feito as de um pernilongo morto. A estante de cima guardava livros sobre exploração do Ártico, astronomia e aviões de combate, mais um conjunto de novelas de mistério de capa verde e amarela meio gasta no final. Na estante de baixo, uma série de fotografias fora arranjada cuidadosamente de uma ponta à outra. Num passar dos olhos, o menino se tornava rapaz, aparecendo na última foto em uniforme militar, o rosto exibindo a expressão um tanto tensa de quem espera pelo momento de perguntar algo muito importante.

Sebastian.

Ocasionalmente, Triss fora trazida para ver o quarto dele, como se fosse um parente doente. Entrar sem permissão, por outro lado, seria a pior das transgressões, quase uma blasfêmia.

Triss sabia que devia sair no mesmo instante, mas foi tomada por um fascínio culpado. E foi entrando mais ainda no quarto.

Era como entrar numa igreja. Dava para ver que o local era sagrado, cheio de regras a serem quebradas sem querer. Sebastian era muito como uma igreja, com todo mundo muito ciente do que devia sentir e quando.

Agora nós teremos piedade. Agora nós teremos compaixão pelos pobres. Agora nós perdoaremos nossos inimigos.

Todos amávamos muito Sebastian. Estamos todos muito tristes por ele ter partido. Todos nos lembraremos dele diariamente.

Mas e eu? Triss passou o dedo, curiosa, por cima do vidro da foto, a do uniforme. Não sentiu nem um pouquinho de poeira na pele. Eu o amo? Estou triste? Lembro dele?

Triss tinha, de fato, uma forte sensação meio desfocada de que tudo fora melhor um dia, e de que todos um dia tinham sido mais felizes. Sebastian estava atado, na mente dela, a esse melhor, essa felicidade.

Ela se lembrava de rir. Sebastian dizia o tipo de coisa que ninguém mais ousava dizer, e a fazia rir.

Agora, contudo, Sebastian era o outro irmão especial, o que precisava ter suas posses carregadas para ele mais do que ela. O que não dizia nada nas discussões da família, mas cuja ausência deixava rebites e rebarbas no que os outros diziam.

Se Triss fosse encontrada ali, até mesmo ela estaria em apuros. Podia ter privilégios por transitar perto da porta da morte, mas Sebastian passara por esta, portanto tinha vantagem.

A atmosfera era tão sobrepujante que Triss levou um segundo para perceber que ouvia o caminhar distinto, ligeiro, da mãe subindo as escadas. O piso logo atrás da porta rangeu, e para seu horror, Triss viu a maçaneta girando.

Minha mãe vai entrar aqui!

Havia somente um local para se esconder. Triss foi ao chão e rastejou para debaixo da cama assim que a porta se abriu.

Não sou de fazer coisas desse tipo, Triss pensou, desconsolada, quando os tornozelos da mãe escondidos por detrás da meia-calça e os sapatos afivelados entraram em seu campo de visão. Não entro de fininho nos lugares e me escondo e espio. E, entretanto, lá ficou ela, imóvel feito um ratinho, vendo a mãe acender a lâmpada a gás, sentar-se na escrivaninha e destrancar uma gaveta.

Espiando por debaixo dos fios da coberta, Triss enxergou a mãe cuidadosamente abrindo a gaveta só um pouquinho. Imediatamente, da abertura brotaram pontas de papel, como se um monte de envelopes tivesse sido metido ali à força e se apressassem agora para sair. A mãe apertou os lábios, e sua mão fez um movimento nervoso, como se os envelopes estivessem quentes e ela tivesse medo de tocá-los. Então ficou muito séria, arrancou um dos envelopes e o rasgou para abrir.

Não aconteceu nada no rosto dela. Nada mesmo, mas Triss teve a sensação de que manter a expressão vazia estava demandando grande esforço.

A menina estava longe demais para enxergar as palavras da carta, mas ficou intrigada com a brancura do papel. Parecia limpo, fresco e novo, num quarto onde nada era para ser limpo, fresco nem novo.

As mãos da mãe tremiam. Finalmente, ela soltou um ruído de miséria absoluta, algo entre um gemido e um soluço, e meteu ambos, carta e envelope, junto dos companheiros, depois forçou a gaveta para fechá-la e a trancou, trêmula.

Cartas. A escrivaninha de Sebastian estava cheia de cartas recém-chegadas. A mãe tinha ido ver se chegara alguma nova. Mas por que elas apareciam ali, na escrivaninha de Sebastian? E como conseguiam entrar de fininho na casa para se enfiar dentro de uma gaveta trancada?

A cena parecia mais um sonho; sem sentido, mas emanava significado ominoso e insondável, cheio de um familiar tornado estranho. Muito subitamente, o mundo todo pareceu transformar-se no tipo errado de doença.