Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 11 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 11

11

B ETSY HILL VIU QUANDO O MARIDO entrou com o Audi na garagem . Ele ainda era um hom em m uito bonito. Os cabelos grisalhos agora tinham m uito m ais fios brancos que pretos, m as

os olhos azuis, tão parecidos com os do filho m orto, ainda brilhavam no rosto sem rugas. Ao

contrário da m aioria de seus colegas, não tinha barriga: m alhava o suficiente e se alim entava

bem .

A foto que ela havia im prim ido no My Space encontrava-se à sua frente sobre a m esa. Betsy havia passado a últim a hora ali, pensando no que fazer. Os gêm eos estavam com sua irm ã. Não queria que eles estivessem em casa naquele m om ento.

Ela ouviu a porta da garagem se abrir, e então Ron cham ou:

– Betsy ?

– Na cozinha, querido.

Ron entrou na cozinha com um sorriso no rosto. Fazia tem pos que ela não o via sorrir; portanto, quando viu, sorrateiram ente escondeu a foto sob um a revista. Queria proteger aquele sorriso, ainda que apenas por alguns m inutos.

– Oi – disse ele.

– Olá, com o foi no trabalho?

– Ótim o. – Ele ainda sorria. – Tenho um a surpresa.

– Ah, é?

Ron se aproxim ou, beij ou-a na bochecha e j ogou um panfleto sobre a m esa. Betsy o pegou para ler.

– Um cruzeiro de um a sem ana – disse ele. – Dê um a olhada no roteiro, Betsy. Marquei a página com um Post-it.

Ela abriu a página e olhou. O cruzeiro saía de Miam i Beach e seguia rum o às Baham as, St. Thom as e um a ilha particular, de propriedade do navio.

– É exatam ente o m esm o roteiro da nossa lua-de-m el – disse Ron. – O navio é outro, claro. Aquela banheirona velha j á não circula m ais. Este aí é novinho em folha. Consegui um a cabine no deck superior, com varandinha e tudo. Até j á providenciei alguém para ficar com o Bobby e a Kari.

– Não podem os ficar longe dos gêm eos um a sem ana inteira, Ron.

– Claro que podem os.

– Eles ainda são m uito vulneráveis.

O sorriso com eçou a se dissipar.

– Eles vão ficar bem , Betsy .

Ele queria virar aquela página, ela pensou. O que não estava errado, claro. A vida tinha de continuar. Era esse o j eito que ele havia encontrado para enfrentar a dor: virar a página. E, cedo ou tarde, ela sabia, tam bém viraria a página do casam ento. Talvez ainda esperasse um tem po por causa dos gêm eos, m as todas as boas recordações – o prim eiro beij o na frente da biblioteca, a noite passada na praia, a lua-de-m el ensolarada no cruzeiro, o papel de parede horrível que eles arrancaram j untos da prim eira casa, aquele dia no m ercado em que, por um a bobagem qualquer, eles choraram de tanto rir –, tudo isso j á havia sido enterrado no passado.

Quando Ron olhava para ela, via a im agem do filho m orto.

– Então, Betsy ?

– É. Talvez você tenha razão.

Ele se sentou ao lado dela e pegou sua m ão.

– Conversei com o Sy hoj e. Eles precisam de um gerente novo no escritório de Atlanta. Pode ser um a excelente oportunidade.

Ele quer fugir, pensou Betsy novam ente. Por enquanto a queria ao seu lado, m as ela sem pre o lem braria da dor.

– Eu te am o, Ron.

– Tam bém te am o, querida.

Betsy queria a felicidade do m arido. Teria de deixá-lo ir porque Ron tinha essa necessidade. Fugir. Não conseguia encarar o problem a. Não poderia fugir com Betsy. Ela sem pre o lem braria de Spencer, daquela noite pavorosa no telhado da escola. Mas Betsy o am ava e tinha pavor de perdê-lo, m esm o que isso fosse egoísm o.

– O que você acha de Atlanta? – perguntou ele.

– Não sei…

– Você vai adorar.

Betsy j á havia considerado a possibilidade de se m udar, m as Atlanta era um pouco longe dem ais. Ela passara a vida inteira em Nova Jersey .

– É m uita coisa para digerir, né? – disse Ron. – Vam os com calm a. Um a coisa de cada vez. Prim eiro o cruzeiro, o.k.?

– O.k.

Ron queria estar em qualquer lugar, m enos ali. Queria voltar no tem po. Ela poderia tentar, m as sabia que não daria certo. Não era possível voltar. Nunca é. Especialm ente quando se tem um casal de gêm eos para criar.

– Vou subir para m e trocar e j á volto – disse ele.

Novam ente a beij ou no rosto. Os lábios estavam frios, com o se ele j á tivesse partido. Ela o perderia. Poderia levar três m eses ou dois anos, m as o único hom em que ela am ara na vida acabaria indo em bora. Ela j á podia senti-lo se afastando, m esm o ao beij á-la.

– Ron?

Ele parou, j á com um a das m ãos no corrim ão da escada. Quando se virou, foi com o se tivesse sido flagrado em plena fuga, com o se quase tivesse conseguido escapar. Deixou cair os om bros, conform ado.

– Preciso lhe m ostrar um a coisa – disse Betsy .

♦♦♦

Tia estava na sala de reuniões do Four Seasons de Boston quando o telefone tocou. Brett, o cara dos com putadores, brincava com o laptop. Ela conferiu o identificador de cham adas e viu que era Mike.

– Já estão indo para o j ogo?

– Não – respondeu ele.

– O que houve?

– Adam não está em casa.

– Não voltou da escola?

– Voltou. Ficou um tem po no quarto e depois saiu.

– Ele deixou Jill sozinha?

– Deixou.

– Estranho. Ele não é disso.

– Eu sei.

– Quer dizer, ele é bastante inconseqüente, m as abandonar a irm ã desse j eito…

– É, eu sei.

Tia pensou por um m om ento.

– Você j á ligou para o celular dele?

– Claro que liguei! Você acha que sou tão burro assim ?

– Ei, não precisa descontar em m im – disse Tia.

– Então não fale com igo com o se eu fosse um idiota. Claro que liguei para ele. Um m ilhão de vezes. Deixei não sei quantos recados para ele m e ligar de volta – disse Mike com um nó na garganta.

Tia percebeu que Brett fingia não ouvir sua conversa. Afastou-se dele.

– Sinto m uito – disse ela. – Eu não queria…

– Eu tam bém não. Nós dois estam os nervosos.

– Então, o que vam os fazer?

– O que podem os fazer? – devolveu Mike. – Vou esperar aqui.

– E se ele não aparecer em casa?

Seguiu-se um instante de silêncio.

– Não quero que ele vá àquela festa – disse Mike.

– Eu tam bém não.

– Mas se eu aparecer por lá para im pedi-lo…

– É, isso seria estranho.

– O que você acha?

– Acho que você deveria ir lá e tentar buscá-lo de qualquer form a. Tente fazer as coisas com j eitinho.

– E que j eitinho seria esse?

– Não sei. A festa só deve com eçar daqui a algum as horas. Ainda tem os um tem po para pensar.

– Tudo bem . Talvez eu tenha a sorte de encontrá-lo antes disso.

– Você j á tentou ligar para o Clark e a Olivia?

– Tia.

– Desculpe. Claro que j á ligou. Quer que eu volte para casa?

– Para quê?

– Sei lá.

– Não há nada que você possa fazer aqui. Está tudo sob controle. Eu nem devia ter ligado.

– Devia, sim . Não tente m e poupar desse tipo de coisa. Quero saber de tudo.

– Pode deixar, não se preocupe.

– Me ligue assim que tiver algum a notícia.

– Está bem .

Ela desligou.

Brett levantou o rosto do com putador.

– Problem as?

– Você estava ouvindo?

Brett deu de om bros.

– Por que você não dá um a olhada no relatório do E-Spy Right?

– Talvez eu peça ao Mike para fazer isso m ais tarde.

– Você pode fazer daqui, se quiser.

– Achei que só pudesse acessar do m eu próprio com putador.

– Não. Você pode acessar de qualquer lugar que tenha um a conexão de internet.

– Isso não m e parece nada seguro – disse Tia, preocupada.

– Você precisa de sua identificação e senha. É só entrar na página do E-Spy Right e logar. De repente seu filho recebeu um e-m ail ou qualquer coisa assim .

Tia pensou no assunto.

Brett foi até o laptop, digitou algum a coisa e virou a tela para Tia. A página do E-Spy Right estava aberta.

– Vou dar um pulo lá em baixo para tom ar um refrigerante – disse ele. – Quer que eu traga algum a coisa para você?

Tia fez que não com a cabeça.

– É todo seu – disse Brett.

Ele saiu da sala. Tia sentou-se na cadeira e com eçou a digitar. Abriu a página do relatório e procurou pelas inform ações do dia. Não havia quase nada, apenas um a rápida conversa com o m isterioso CeeJay 8115.

CeeJay 8115: Q foi?

Hockey Adam 1117: A m ae dele m e procurou na escola.

CeeJay 8115: O q ela disse?

Hockey Adam 1117: Sabe de algum a coisa.

CeeJay 8115: O q vc falou pra ela?

Hockey Adam 1117: Nada. Eu sai correndo.

CeeJay 8115: A gente se fala de noite.

Tia releu o diálogo. E im ediatam ente ligou para o m arido.

– Mike?

– Oi.

– Encontre o Adam . Faça qualquer coisa, m as encontre nosso filho.

♦♦♦

Ron segurou a fotografia.

Olhava fixam ente para ela, m as Betsy sabia que ele j á não a enxergava m ais. A linguagem corporal era para lá de preocupante. Ron sacudiu o corpo num espasm o, depois enrij eceu. Colocou novam ente a foto na m esa e cruzou os braços, depois a pegou de novo.

– O que isso m uda? – perguntou.

Ele com eçou a piscar freneticam ente, do m esm o m odo que faz um gago ao tentar falar um a palavra especialm ente difícil. Betsy ficou horrorizada com o que viu. Fazia anos que Ron não piscava daquele j eito. Sua sogra lhe dissera que ele havia apanhado m uito na segunda série, m as que nunca tinha dito nada. Foi nessa época que o tique com eçou. Melhorara com o passar dos anos e, nos últim os tem pos, raram ente aparecia. Nem m esm o com a notícia da m orte de Spencer.

A vontade de Betsy era voltar atrás e recolher aquela fotografia. Ron havia chegado em casa, estendido a m ão num gesto conciliatório, e ela o repelira com a m aldita foto.

– Ele não estava sozinho naquela noite – disse ela.

– E daí?

– Você não ouviu o que acabei de dizer?

– Talvez ele tenha saído com os am igos antes, e daí?

– Por que eles não disseram nada?

– Sei lá. Talvez estivessem com m edo, talvez Spencer tenha pedido a eles… Pode ser que ele os tenha visto rapidam ente e saído depois. Talvez essa foto tenha sido tirada m ais cedo naquele dia. Mas o m ais provável é que você tenha se confundido com as datas.

– Não. Fui falar com Adam na escola…

– Você o quê?

– Esperei por ele na saída e m ostrei a foto.

Ron sim plesm ente balançou a cabeça.

– Ele fugiu de m im . Tem algum a coisa errada aí.

– Com o o quê, por exem plo?

– Sei lá. Mas lem bro que Spencer tinha um olho roxo quando foi encontrado pela polícia.

– Eles explicaram isso. Provavelm ente ele desm aiou e bateu o rosto no chão.

– Ou talvez alguém tenha batido nele.

– Ninguém bateu nele, Betsy – disse Ron, cheio de doçura na voz.

Ela perm aneceu calada. Ron piscava m ais do que nunca. As lágrim as com eçaram a rolar no rosto dele. Betsy se aproxim ou para reconfortá-lo, m as Ron se esquivou.

– Spencer m isturou com prim idos com álcool. Vê se entende isso de um a vez por todas, Betsy .

Ela não disse nada.

– Ninguém o obrigou a roubar aquela garrafa de vodca do nosso arm ário. Ninguém o obrigou a pegar aquele frasco de com prim idos no m eu banheiro. Eu os deixei lá, à m ostra. Sabem os disso, não é? Era um m edicam ento controlado e eu o deixei do lado de fora. O m esm o rem édio que continuei tom ando depois, quando devia ter parado e seguido em frente, não é?

– Ron, você não…

– Eu não o quê? Você acha que não enxergo as coisas?

– Não enxerga o quê? – perguntou ela, em bora j á soubesse a resposta. – Eu não culpo você de nada, m eu am or.

– Culpa, sim .

Ela balançou a cabeça. Mas ele não viu. Já havia se levantado e saído porta afora.