Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 20 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 20

20

DOLLY LEWISTON VIU O CARRO rondar sua casa novam ente.

Com o nas duas vezes anteriores, o m otorista reduziu a velocidade ao passar.

– É ele de novo – disse Dolly .

Seu m arido, Joe Lewiston, professor da quinta série, nem sequer levantou o rosto. Corrigia provas com um a atenção um tanto exagerada.

– Joe?

– Já ouvi, Dolly – rugiu ele. – O que você quer que eu faça?

– Ele não tem o direito de fazer isso. – Dolly viu o carro se afastar até sum ir no horizonte. – Talvez devêssem os cham ar a polícia.

– E dizer o quê?

– Que ele está rondando a nossa casa.

– Ele está passando de carro na nossa rua. Isso não é crim e.

– Mas ele reduz quando passa na frente da nossa casa.

– Reduzir tam bém não é crim e.

– Podem os contar a eles o que aconteceu.

Joe Lewiston bufou e, sem tirar os olhos do trabalho, disse:

– Aposto que a polícia vai ser m uito com preensiva.

– Tam bém tem os um a criança em casa – argum entou Dolly .

Ela acom panhava a pequena Allie, de três anos, pelo com putador. Por m eio de um a webcam , o site da K-Little Gy m perm itia que os pais acom panhassem tudo o que os filhos estavam fazendo na creche: com endo, brincando, cantando, o que fosse. Por isso ela havia escolhido a K-Little.

Tanto Joe quanto Dolly eram professores do ensino fundam ental. Joe dava aulas para a quinta série na Hillside, e Dolly, para a segunda na Param us. Ela tinha vontade de largar o em prego, m as eles precisavam dos dois salários. Joe ainda am ava o que fazia, m as em algum m om ento seu am or por Dolly tinha m urchado. Se parássem os para pensar, perceberíam os que Dolly havia perdido o entusiasm o pelo ensino m ais ou m enos na época que Allie nasceu, m as ela própria achava que era m ais que isso. Apesar de tudo, fazia seu trabalho e conseguia driblar com relativa facilidade os pais rabugentos. Seu m aior prazer, no entanto, era ficar diante do site da K-Little e verificar se seu tesouro estava bem .

Guy Novak, o hom em que rondava a casa deles, não tivera esse privilégio, o de saber o que faziam com sua filha na escola. Portanto, de certa m aneira, Dolly com preendia sua raiva e até se solidarizava com ele. Mas isso não significava que estava disposta a deixar que ele fizesse algum a coisa contra sua fam ília. O m undo havia chegado a tal ponto que m uitas vezes as coisas se resum iam a um sim ples “ou nós ou eles” e ela faria o que fosse preciso para defender sua fam ília.

Ela se virou da j anela e olhou para o m arido. Joe estava de olhos fechados, a cabeça baixa.

Dolly se aproxim ou por trás e pousou as m ãos nos om bros dele. Joe repeliu o toque dela com um discretíssim o trem or que não durou m ais que um segundo, m as Dolly pôde senti-lo reverberando em seu próprio corpo. Joe estava tenso havia sem anas. Dolly m anteve as m ãos onde estavam , não recuou, e Joe acabou cedendo. Ela com eçou a m assageá-lo, lem brando-se de com o ele gostava disso. Dem orou alguns m inutos, m as enfim conseguiu relaxar os m úsculos do m arido.

– Está tudo bem – disse.

– Eu perdi a cabeça, só isso.

– Eu sei.

– Saí um pouco da linha, com o sem pre faço, m as dessa vez…

– Eu sei.

Dolly de fato sabia. Era isso que fazia de Joe Lewiston um bom professor. Ele tinha paixão. Prendia a atenção dos alunos, contava piadas. Às vezes exagerava um pouco, m as era exatam ente disso que os garotos gostavam . Quanto m ais ele brincava, m ais eles prestavam atenção e m ais aprendiam . Alguns pais j á haviam reclam ado do com portam ento dele no passado, m as Joe contava com um núm ero considerável de defensores. A m aioria dos pais insistia para que seus filhos ficassem na turm a do Sr. Lewiston. Eles apreciavam o entusiasm o que o professor conseguia incutir na garotada, o entusiasm o que ele próprio dem onstrava pelo trabalho. Ao contrário de Dolly , que apenas cum pria sua obrigação.

– Realm ente m agoei aquela garota.

– Foi sem querer. As crianças e os pais ainda são loucos por você.

Joe não disse nada.

– Ela vai superar. Tudo isso vai passar um dia, Joe. Tudo vai acabar bem .

Joe se continha para não chorar. Estava prestes a desabar. Por m ais que am asse o m arido, por m ais que soubesse que ele era um professor e um ser hum ano infinitam ente m elhor que ela, Dolly tinha consciência de que Joe não era o m ais forte dos hom ens, tal com o m uitos pensavam . Joe vinha de um a fam ília num erosa, era o caçula de seis irm ãos, m as sofrera nas m ãos de um pai exageradam ente severo. Ele hum ilhava o filho m ais novo e m ais delicado e por isso, num a espécie de válvula de escape, Joe se transform ara num garoto divertido e engraçado. Para Dolly , Joe Lewiston era o hom em m ais digno que ela conhecia, m as tam bém o m ais fraco.

Não chegava a se incom odar com isso. Aceitara ser o lado m ais forte do casal. Cabia a ela proteger a fam ília e m antê-la unida.

– Sinto m uito por ter falado com você daquele j eito – desculpou-se Joe.

– Não foi nada.

– Você tem razão. Tudo isso vai passar um dia.

– Claro que vai. – Ela o beij ou no pescoço e depois usou a língua para m assagear aquele pontinho atrás do lóbulo da orelha. Ele adorava isso. Esperou pelo gem ido de costum e, m as ele não veio. Então sussurrou: – Que tal deixar essas provas de lado só um pouquinho, hein?

Joe tentou se desvencilhar.

– É que… realm ente preciso term inar isto aqui.

Dolly ergueu o tronco e deu um passo atrás. Joe Lewiston viu o que tinha feito e tentou se em endar.

– Mas vou querer um vale-brinde – disse.

Era isso que ela costum ava dizer quando não estava a fim . Afinal, essa fala costum ava ser das esposas, não é? Na cam a, Joe sem pre tom ara a iniciativa – nenhum a fraqueza nesse departam ento –, m as ao longo dos últim os m eses, desde seu lam entável descuido na escola, ele vinha se com portando de um j eito estranho, até m esm o sexualm ente.

– Claro – respondeu Dolly . E se virou para sair.

– Aonde você vai? – perguntou Joe.

– Vou dar um a saída, m as não dem oro. Preciso fazer um as com prinhas e depois vou buscar a Allie. Pode ficar aí, corrigindo suas provas.

Dolly Lewiston correu escada acim a, ligou o com putador e pesquisou o endereço de Guy Novak. Tam bém conferiu a caixa de entrada de seu e-m ail da escola (sem pre havia algum pai reclam ando de algum a coisa), m as j á fazia dois dias que o program a não funcionava direito. Portanto, nenhum a m ensagem nova.

– Meu e-m ail ainda está com problem as! – ela berrou para Joe.

– Depois eu dou um a olhada! – berrou ele de volta.

Dolly im prim iu o cam inho que deveria tom ar para chegar ao endereço de Guy Novak, dobrou o papel em quatro e o guardou na bolsa. Antes de sair, beij ou o m arido na testa. Am bos trocaram o protocolar “Eu te am o”.

Dolly pegou as chaves do carro e saiu para encontrar Guy Novak.

♦♦♦

Tia podia ler na testa deles: os policiais não estavam acreditando na história do desaparecim ento de Adam .

– Achei que vocês pudessem pelo m enos em itir um alerta – disse ela.

Os dois policiais que tinham vindo ao hospital, quando j untos, tinham um aspecto quase côm ico. Um deles, uniform izado, era um latino baixote cham ado Gutierrez. A outra era um a negra alta que se apresentou com o investigadora Clare Schlich.

Foi Schlich quem respondeu:

– O caso do seu filho ainda não j ustifica um alerta.

– Por que não?

– Porque é preciso algum a prova de que ele foi seqüestrado.

– Mas Adam é m enor de idade e está desaparecido!

– Eu sei.

– Então de que tipo de provas vocês precisam ?

Schlich deu de om bros.

– Um a testem unha aj udaria bastante – disse.

– Nem todo seqüestro tem testem unhas.

– É verdade. Ainda assim é necessário algum a evidência de seqüestro ou risco de danos físicos. A senhora tem algum a?

Tia não cham aria de “m á vontade” a atitude dos dois policiais; “condescendência” talvez fosse a palavra correta. Eles estavam anotando todas as inform ações com o deviam . Não faziam pouco caso da queixa deles, m as tam bém não se m ostraram dispostos a fazer tudo o que podiam nem a colocar toda a equipe à procura de Adam . Clare Schlich deixava bem claro seu ceticism o m ediante as perguntas e réplicas com que entrem eava o relato de Mike e Tia.

“Vocês estão espionando o com putador do seu filho?”

“O senhor ativou o GPS do celular dele?”

“O senhor ficou tão preocupado que resolveu ir atrás dele no Bronx?”

“Ele j á fugiu um a vez?”

Assim . Até certo ponto, Tia não culpava a dupla, m as para ela só o que im portava era que Adam havia sum ido.

Gutierrez, que j á conversara com Mike, acrescentou:

– O senhor disse que viu Daniel Huff Junior, o DJ, na rua, certo? Que talvez ele e seu filho estivessem j untos, não é isso?

– Sim .

– Conversei com o pai do garoto. Ele tam bém é da polícia, o senhor sabia?

– Sabia.

– Ele falou que o filho passou a noite inteira em casa.

Tia virou-se para Mike. Viu algo explodir em seus olhos. As pupilas eram dois pontinhos m iúdos. Ela j á conhecia aquela expressão. Colocou a m ão no braço do m arido, m as isso não o acalm ou.

– Ele está m entindo – disse Mike.

Gutierrez sim plesm ente deu de om bros.

Tia viu um a som bra cobrir o rosto inchado de Mike, que olhou para ela, depois para Mo, e disse:

– Vam os sair daqui. Agora m esm o.

O m édico queria que Mike ficasse m ais um dia, m as isso estava fora de questão. Tia conhecia o m arido o bastante para saber que seria perda de tem po bancar a esposa zelosa. Mike seguram ente se recuperaria dos ferim entos. Era forte com o um touro. Aquela era sua terceira concussão (as duas prim eiras haviam acontecido num rinque de hóquei). Ele j á havia quebrado dentes e levado pontos no rosto m uito m ais vezes do que seria recom endável para qualquer m ortal; com o se isso não bastasse, quebrara o nariz duas vezes, o queixo, um a, e nunca, nem um a única vez, deixara de j ogar um a partida para a qual havia sido escalado e quase sem pre voltava ao rinque m esm o depois de m achucado.

Tia sabia ainda que não adiantaria argum entar com o m arido – na verdade, tam bém não estava com vontade de fazer isso. Ela queria vê-lo fora daquele hospital, fazendo todo o possível para encontrar o filho. Se eles não fizessem nada, as coisas poderiam ficar m uito piores.

Mo aj udou Mike a se sentar na cam a. Tia aj udou-o a se vestir. As roupas estavam m anchadas de sangue. Mike não se im portou com isso. Levantou-se. Eles j á estavam quase à porta quando Tia sentiu o celular vibrar. Rezou para que fosse Adam . Não era.

Hester Crim stein não se im portou em dizer oi nem em se identificar. Foi logo dizendo:

– Algum a notícia do garoto?

– Ainda não. A polícia está agindo com o se fosse um caso de fuga.

– Mas não é exatam ente isso?

Tia surpreendeu-se com a pergunta.

– Creio que não.

– Soube pelo Brett que vocês estão espionando seu filho – disse Hester.

Brett e sua língua com prida, pensou Tia. Era só o que faltava.

– Eu m onitoro a atividade dele no com putador.

– Dá no m esm o.

– Adam não fugiria dessa m aneira.

– É. Nenhum pai disse isso antes.

– Conheço m eu filho.

– Isso tam bém não – acrescentou Hester. – Más notícias: não conseguim os o adiam ento.

– Hester…

– Antes de dizer que não vai voltar para Boston, ouça o que tenho a falar. Já providenciei um a lim usine para ir buscá-la. Está na porta do hospital à sua espera.

– Não posso…

– Escute, Tia. Você m e deve pelo m enos isso. O m otorista vai levá-la ao aeroporto de Teterboro, que não é m uito longe da sua casa. Tem um j atinho particular à sua espera. Você tem um celular. No caso de algum a notícia, o m otorista pode levá-la aonde for preciso. Tem telefone no avião tam bém . Se você ficar sabendo de algum a coisa durante o vôo, o piloto pode levar você aonde quiser em tem po recorde. Talvez Adam sej a encontrado, sei lá, na Filadélfia. Estou pagando para que você tenha um j atinho à sua disposição.

Mike lançou um olhar de interrogação para a esposa. Ela balançou a cabeça e sinalizou para que eles seguissem adiante. E assim eles fizeram .

– Chegando a Boston – prosseguiu Hester –, você tom a o depoim ento. Se algum a coisa acontecer enquanto isso, você poderá parar im ediatam ente e tom ar o j atinho de volta para casa. O vôo de Boston para Teterboro leva apenas 40 m inutos. O m ais provável, no entanto, é que o garoto dê as caras com um a desculpa esfarrapada porque estava bebendo com os am igos. Sej a com o for, você estará de volta a Nova Jersey em questão de horas.

Com o polegar e o indicador, Tia apertou o osso do nariz entre os olhos.

– Não estou propondo nenhum absurdo, estou? – disse Hester.

– Não, não está.

– Ótim o.

– Mas não posso.

– Por que não?

– Não vou conseguir m e concentrar.

– Bobagem . Você sabe m uito bem o que eu quero com esse depoim ento.

– Você quer que eu flerte com o hom em . Meu m arido está no hospital…

– Ele j á teve alta, Tia. Eu sei de tudo.

– Mesm o assim . Meu m arido foi agredido e m eu filho ainda não apareceu. Você acha que estou com cabeça para flertar com alguém ?

– Com cabeça? E quem se im porta se você está com cabeça ou não? Você sim plesm ente vai lá e faz o que tem de ser feito, só isso. É a liberdade de um hom em que está em j ogo, Tia.

– É m elhor você convocar outra pessoa.

Silêncio.

– É sua últim a palavra? – perguntou Hester.

– É – respondeu Tia. – Isso vai custar m eu em prego?

– Hoj e não – disse Hester. – Mas m uito em breve, sim . Porque agora sei que não posso contar com você.

– Vou m e desdobrar para reconquistar sua confiança.

– Não vai conseguir. Não sou m uito boa com segundas chances. Tem um m onte de advogados trabalhando para m im que j am ais precisarão de um a segunda chance. Então é isso: você vai voltar para os pequenos serviços e vai ficar de m olho lá até desistir e pedir as contas. Um a pena. Achei que você tinha potencial.

Hester Crim stein desligou o telefone sem falar m ais nada.

Já fora do hospital, Mike ainda observava a m ulher.

– Tia?

– Não quero falar sobre isso agora.

Mo os levou para casa.

– O que vam os fazer agora? – perguntou Tia.

Mike engoliu um analgésico.

– Talvez você devesse ir buscar a Jill.

– Tudo bem . Mas e você, vai fazer o quê?

– Para com eçar – disse Mike –, vou ter um a conversinha com o capitão Daniel Huff. Quero saber por que ele m entiu. E depois vou com prar outro celular para reativar a m inha linha.