Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 39 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 39

39

NASH APERTAVA O PESCOÇO das duas m eninas.

Não colocava m uita força, m as aquela região do corpo era m uito sensível à pressão. Podia ver Yasm in, a pirralha que desencadeara aquilo tudo ao perturbar a aula de Joe, fazendo caretas. A outra m enina, filha da senhora que caíra de pára-quedas na história, trem ia.

– Solte as m eninas – disse a m ulher.

Nash fez que não com a cabeça. A essa altura j á se sentia tonto. O louco atiçava-o com o se fosse um a corrente elétrica. Todos os neurônios estavam ligados em alta voltagem . Um a das garotas com eçou a chorar. Ele sabia que o ser hum ano que ainda o habitava deveria se com over de algum a form a.

Mas as lágrim as apenas deixavam o louco ainda m ais eufórico.

Ainda é loucura quando você sabe que é louco?

– Por favor – disse a m ulher. – São duas crianças.

E não falou m ais nada. Talvez tivesse percebido que seu interlocutor não estava registrando suas palavras ou, pior, que estava sentindo prazer com elas. Nash a adm irou. Cogitou se ela sem pre fora assim , coraj osa, incisiva, ou se o que via ali era um a leoa protegendo a cria.

Ele teria de m atar a m ãe prim eiro.

Ela seria o m aior obstáculo. Ele tinha certeza disso. Ela não ficaria ali assistindo ao sofrim ento das garotas de braços cruzados.

Mas foi então que um a idéia lhe ocorreu. Já que o fim estava próxim o e aquele seria seu últim o ato, por que privar-se do grande prazer de obrigar os pais a assistirem ao espetáculo?

Sim , isso seria doentio. Mas um a vez soprada a sugestão, não havia com o ignorá-la. Não havia com o ignorar a própria natureza. Nash conhecera alguns pedófilos na prisão e eles invariavelm ente se desdobravam para convencer a si m esm os de que não eram depravados. Ora m encionavam as civilizações antigas, ora davam com o exem plo períodos da história em que as m oças se casavam ainda púberes. Mas para Nash aquilo era um desperdício de saliva. Tudo era bem m ais sim ples. As pessoas nasciam program adas para certas coisas e pronto. Sentiam aquela coceirinha e não conseguiam se conter. Tinham necessidade de com eter atos que os outros achavam repreensíveis.

Deus as fizera daquele j eito. Portanto, de quem era a culpa, afinal?

Todos aqueles carolas fanáticos tinham de entender um a coisa: ao condenarem hom ens assim , na verdade estavam criticando a obra de Deus. Claro, podiam alegar aquela baboseira das tentações, no entanto, era m uito m ais que isso. Eles m esm os sabiam . Todo m undo tem lá suas m anias. Não é a disciplina que haverá de contê-las. São as circunstâncias. Era isso que Pietra não entendia com relação aos soldados. A circunstância da guerra não os obrigava à brutalidade. Sim plesm ente lhes dava a oportunidade de serem brutais.

Pois agora ele j á sabia o que tinha de fazer: m atar a todos. Pegaria os com putadores e daria o fora dali. Quando a polícia chegasse e encontrasse aquele banho de sangue, logo pensaria num serial killer. Ninguém acharia que um a chantagista havia feito um film e para destruir a vida de um hom em bom , um professor dedicado. Era bem possível que Joe saísse ileso da história.

Mas um a coisa de cada vez. Prim eiro, im obilizar a m ãe.

– Meninas? – disse Nash, virando-se de m odo que elas pudessem vê-lo. – Se fugirem , vou m atar a m am ãe e o papai de vocês, entenderam ?

As duas balançaram a cabeça afirm ativam ente. De qualquer m odo, ele as afastou da porta do porão. Soltou o pescoço delas e foi então que Yasm in deu o berro m ais estridente que ele j am ais ouvira e depois correu para perto do pai. Nash foi atrás dela.

O que se revelaria um erro.

A outra m enina correu direto para a escada.

Nash rapidam ente se virou para segui-la, m as a garota era rápida dem ais.

– Corra, Jill! – gritou a m ãe.

Nash saltou na direção da escada, o braço estirado para agarrar o tornozelo da m enina. Chegou a tocá-la, m as ela se desvencilhou. Já ia se reerguendo quando subitam ente sentiu o peso de alguém nas costas.

A m ãe.

Ela havia saltado sobre ele para depois m ordê-lo com toda força na perna. Nash deu um berro e se desvencilhou com um ou dois chutes.

– Jill! – berrou ele. – Sua m am ãe vai m orrer se você não voltar aqui agora m esm o!

A m ulher rolou para o lado.

– Corra, Jill. Não dê ouvidos a ele!

Nash ficou de pé e sacou o canivete. Pela prim eira vez ficou na dúvida quanto ao que fazer. A caixa do telefone estava logo ali, do outro lado do porão. Ele poderia destruí-la, m as a garota certam ente tinha um celular.

O tem po corria.

Ele precisava dos com putadores. Isso era o m ais im portante. Então, iria m atá-los, pegar os com putadores e sair. Tinha de se certificar de que os HDs fossem destruídos.

Nash olhou para Yasm in e ela saltou para trás do pai. Guy tentou rolar, sentar-se, enfim , fazer qualquer coisa para se transform ar num m uro e proteger a filha. O efeito, visto que ele estava com pletam ente am arrado, foi quase côm ico.

A m ulher se levantou tam bém e correu para o lado da m enina, que nem era dela. Um a m ulher de brio. Mas agora os três estavam j untos no m esm o lugar. Ótim o. Ele daria cabo de todos rapidam ente. Não dem oraria m uito.

– Jill! – gritou outra vez. – Últim a chance!

Yasm in deu outro berro. Nash foi se aproxim ando do grupo, canivete em riste, m as um a voz o fez parar.

– Por favor não m achuque a m inha m ãezinha…

A voz viera de trás dele, entrecortada por soluços.

Jill tinha voltado.

Nash olhou para a m ãe e sorriu. O rosto dela estava tom ado de angústia.

– Não, m inha filha! – suplicou ela. – Volte! Fuj a daqui!

– Mãe…

– Corra, filha! Pelo am or de Deus, corra!

Mas Jill não lhe deu ouvidos e desceu as escadas. Nash virou-se para ela e percebeu seu erro. Por um instante cogitou se não havia deixado a m enina escapar de propósito. Afinal, ele próprio havia soltado o pescoço dela e da am iguinha. Teria sido um descuido ou haveria algo m ais ali? Nash chegou a pensar que havia sido guiado por outra pessoa, alguém que j á não agüentava m ais aquela situação, que queria vê-lo em paz.

Pensou tê-la visto ao lado da garota.

– Cassandra… – disse ele em voz alta.

♦♦♦

Um ou dois m inutos antes, Jill sentira a m ão do hom em pressionando seu pescoço.

Ele era forte. Aparentem ente não fazia nenhum esforço. Encontrara o lugar certo para apertar, sabia m uito bem onde doía m ais. Foi então que ela viu a m ãe e o Sr. Novak daquele j eito, todo am arrado e j ogado no chão. Ficou apavorada.

– Solte as m eninas – ela ouviu a m ãe dizer.

Então se acalm ou um pouco. Por m ais horrível que fosse tudo aquilo, sua m ãe estava ali. Faria qualquer coisa para salvá-la. E Jill sabia que chegara a hora de provar que ela tam bém faria qualquer coisa pela m ãe.

O hom em aum entou a pressão. Jill engoliu em seco e levantou os olhos para vê-lo. Teve a im pressão de que ele estava feliz. Em seguida olhou para Yasm in, que j á estava encarando a am iga havia algum tem po. Muito discretam ente, Yasm in inclinou a cabeça para o lado: era assim que ela fazia em sala de aula quando queria cham ar a atenção de Jill sem que os outros percebessem .

De início, Jill não entendeu. Yasm in baixou os olhos na direção da própria m ão.

Confusa, Jill seguiu o olhar da am iga e só então com preendeu.

Yasm in fazia um a arm a com o indicador e o polegar.

– Meninas?

O hom em que as segurava pelo pescoço virou-se de m odo que elas pudessem vê-lo.

– Se fugirem – disse –, vou m atar a m am ãe e o papai de vocês, entenderam ?

Am bas fizeram que sim e novam ente se entreolharam . Yasm in abriu a boca com o se fosse gritar. Jill entendeu o recado. O hom em as soltou e Jill esperou a am iga entrar em ação, o que não dem orou a acontecer.

Yasm in deu um berro e Jill aproveitou para fugir.

Sentiu o hom em tocá-la no calcanhar, m as conseguiu se livrar. Sequer olhou para trás quando ele berrou:

– Jill! Sua m am ãe vai m orrer se você não voltar aqui agora m esm o!

Ela não tinha escolha. Disparou escada acim a, j á pensando no e-m ail anônim o que havia m andado ao Sr. Novak m ais cedo naquele m esm o dia:

Por favor, preste atenção. Você precisa esconder m elhor sua arm a.

Torceu para que ele não o tivesse lido ou, pelo m enos, que não houvesse tido tem po de fazer

algum a coisa a respeito. Jill irrom peu no quarto dele, tirou a gaveta do arm ário e despej ou seu conteúdo no chão.

A arm a não estava m ais lá.

Mais um a vez ela se desesperou. Ouviu gritos no porão. O hom em poderia ter com eçado a m atá-los. Foi então que, tateando m elhor as coisas espalhadas no chão, tocou algo m etálico.

A arm a.

– Jill! Últim a chance!

Ela tentou desesperadam ente se lem brar de com o Yasm in havia destravado o pino de segurança. Diabos, aquele não era o m om ento para lapsos de m em ória. Foi então que ela se lem brou.

Yasm in não havia travado a arm a outra vez. Provavelm ente ela ainda estaria destravada.

Yasm in berrou de novo, Jill se levantou im ediatam ente. Não esperou chegar à base da escada para dizer, na voz m ais infantil e chorosa que conseguiu produzir:

– Por favor, não m achuque a m inha m ãezinha…

Ela desceu os degraus que ainda faltavam , im aginando se teria força suficiente para disparar a arm a. Decidiu levantá-la com am bas as m ãos e usar dois dedos para apertar o gatilho.

E força não lhe faltou.

♦♦♦

Nash ouviu as sirenes.

Viu a arm a e abriu um sorriso. Chegou a pensar em saltar sobre a garota, m as Cassandra balançou a cabeça dizendo que não. Pensando m elhor, nem ele queria isso. A m enina parecia hesitar. Nash se aproxim ou um pouco e ergueu o canivete.

Aos 10 anos, ele havia perguntado ao pai o que acontecia às pessoas depois da m orte e o pai se valera de Shakespeare para responder que a m orte era um a “terra desconhecida de cuj o âm bito j am ais ninguém voltou”.

Com o era possível saber?

A prim eira bala acertou-o diretam ente no peito.

Ainda erguendo o canivete, Nash cam baleou para frente e esperou pelo segundo tiro.

Não sabia para onde iria em seguida, m as esperava que fosse para os braços de Cassandra.