Confie em Mim
Capítulo 36
36
A NTHONY TRABALHAVA TRÊS DIAS da sem ana com o segurança de um a boate de strip
cham ada Prazer & Requinte. O nom e só podia ser um a piada, porque o lugar não passava de um a espelunca escura e m ofada. Antes disso, ele havia trabalhado em outra boate do m esm o tipo
cham ada Destruidoras de Lares. Dessa ele gostava m ais. Achava que a honestidade do nom e
conferia ao lugar um a identidade m ais verdadeira.
De m odo geral, trabalhava no horário do alm oço. Era de esperar que lugares assim ficassem às m oscas nessa hora do dia, que a clientela só com eçasse a aparecer bem m ais tarde. Ledo engano.
Um show de strip à hora do alm oço é com o um a reunião da ONU. Todas as raças, credos e estratos sociais são m uito bem representados. Havia hom ens de terno, outros com aquelas cam isas de flanela que Anthony associava às caçadas, alguns usavam m ocassins Gucci ou botinas Tim berland. Ali se acotovelavam os boas-pintas e os m alandros, a burguesia e a ralé. Num lugar daqueles, aparecia tudo quanto era tipo de gente.
Sexo vulgar, o grande unificador das classes.
– Hora do seu intervalo, Anthony . Dez m inutinhos.
Anthony saiu à calçada. Em bora o sol j á estivesse baixando, a claridade ofuscou sua visão. Nessas boates sem pre há um a escuridão diferente. Mesm o à noite não há quem não pisque os olhos ao sair delas, um bando de dráculas bêbados recuperando a visão.
Ele j á ia pegando um cigarro do bolso quando lem brou que estava tentando largar o vício. Não que ele quisesse isso, m as sua esposa estava grávida e ele prom etera a ela: nada de fum aça perto do bebê. Em seguida se lem brou de Mike Bay e e dos problem as que ele andava tendo com o filho. Gostara de Mike. Um cara valente, m esm o tendo freqüentado um antro de alm ofadinhas com o Dartm outh. Não tinha se acovardado na véspera. Alguns caras ficam coraj osos só porque beberam um a dose a m ais ou porque querem im pressionar a nam orada. Outros são burros m esm o. Mike, no entanto, era diferente. Não tinha o hábito de recuar, só isso. Era um cara firm e. E, pensando em Mike, Anthony achou que ele próprio ainda podia ser um pouquinho m ais firm e tam bém .
Ele conferiu o relógio. Ainda tinha m ais dois m inutos de folga. Caram ba, com o ele queria fum ar… Aquele em prego não pagava tão bem quanto o outro, à noite, m as era m oleza. Em bora não fosse dado a superstições, Anthony acreditava que a lua produzia algum efeito nas pessoas. Era sem pre à noite que elas brigavam , sobretudo nas noites de lua cheia, quando se podia esperar o pior. No alm oço os hom ens ficavam m ais tranqüilos. Sentavam -se ali, quietinhos, olhando as m oças e depois com iam o m ais lam entável “buffet” de que se tinha notícia, para o qual até os cachorros viravam a cara.
– Anthony ? Seu tem po acabou.
Ele j á estava entrando quando viu um garoto passando apressadam ente na calçada, o celular pregado ao ouvido. Só o vira de relance, nem tivera a oportunidade de reparar no rosto. Outro garoto seguia alguns passos atrás. Vestia um casaco.
Um casaco esportivo.
– Anthony ?
– Volto daqui a pouco – disse ele. – Preciso checar um a coisa.
♦♦♦
À porta de casa, Guy Novak havia se despedido de Beth com um beij o no rosto.
– Obrigado pela aj uda com as crianças.
– Não foi nada. Fico feliz por poder aj udar. Sinto m uito pelo que aconteceu com sua ex-m ulher.
Depois de um dia daqueles, Guy se perguntou se voltaria a vê-la. Mas não se dem orou no assunto.
– Obrigado m ais um a vez – disse.
Fechou a porta e foi direto para o bar. Não bebia com m uita freqüência, m as o m om ento pedia um drinque. As m eninas assistiam a um DVD no andar de cim a. Ele j á dissera a elas que term inassem de ver o film e tranqüilam ente. Isso faria com que Tia ganhasse algum tem po para buscar a filha – e ele aproveitaria para pensar em com o daria a notícia a Yasm in.
Ele se serviu de um a dose de uísque. Devia ter uns três anos que não tocava naquela garrafa. Bebeu tudo de um único gole, sentiu a garganta queim ar e se serviu de um a segunda dose.
Marianne.
Guy se lem brou de com o tudo havia com eçado, tantos anos antes, num verão à beira-m ar. Am bos trabalhavam num restaurante freqüentado por turistas. Por volta da m eia-noite, depois que term inavam a lim peza, eles levavam um cobertor para a praia e ficavam lá, nam orando sob as estrelas, ouvindo o som das ondas se quebrando e sentindo a m aresia. Quando voltaram para a universidade – ele para Sy racuse, ela para Delaware –, passaram a se falar diariam ente por telefone. Trocavam cartas. Guy com prou um Oldsm obile Ciera m uito velho para fazer a viagem de m ais de quatro horas para ver Marianne nos fins de sem ana. O cam inho parecia não ter fim . Ele m al via a hora de saltar do carro e se j ogar nos braços dela.
Agora, sentado em casa, o tem po parecia recuar e avançar de form a desordenada, fazendo surgirem subitam ente lem branças que tinham ficado para trás.
Tom ou m ais um grande gole de uísque. Aquilo o reconfortava.
Puxa, com o ele havia am ado Marianne… e ela j ogara esse am or no lixo. Para quê, afinal? Para term inar daquele j eito? Terrivelm ente assassinada. O rosto que ele tantas vezes beij ara tão carinhosam ente feito em pedaços, com o um a casca de ovo, o corpo m aravilhoso j ogado num depósito de lixo.
Com o alguém perde um a coisa dessas? De repente nos vem os com pletam ente apaixonados por alguém , dispostos a passar o resto dos nossos dias ao lado dessa pessoa. Acham os que tudo o que ela faz é fascinante. Com o esse sentim ento pode sim plesm ente desaparecer?
Guy term inou o uísque, cam baleou até o arm ário e tom ou um a terceira dose. Ele j á não se culpava m ais. Marianne havia cavado sua própria sepultura.
Aquela vadia estúpida.
O que você estava procurando, Marianne? Tínham os um a coisa legal. Todas aquelas noites pulando de bar em bar, de cam a em cam a – aonde isso levou você, m eu am or? Por acaso se sentiu m ais realizada? Mais feliz? Encontrou algum a coisa além do vazio? Você tinha um a filha linda, um m arido que a adorava, um a casa, am igos, um a com unidade, um a vida… Isso não era suficiente?
Sua vadia estúpida e m aluca.
Guy deixou a cabeça pender para trás. A m assa disform e em que se transform ara o lindo rosto de Marianne… ele j am ais esqueceria aquela im agem . Talvez pudesse afastá-la para algum canto da m em ória, m as sabia que ela voltaria todas as noites para assom brá-lo. Não era j usto. Ele havia sido um cara legal. Fora Marianne quem decidira transform ar a própria vida na busca destrutiva (não apenas autodestrutiva, pois no fim das contas as vítim as haviam sido m uitas) de um nirvana inalcançável.
No escuro da sala, Guy ensaiava as palavras que diria a Yasm in. Achou m elhor não com plicar. “Sua m ãe m orreu.” Ele não diria com o. Mas Yasm in era um a garota curiosa, certam ente iria querer todos os detalhes. Pesquisaria na internet ou então ficaria sabendo de tudo pelos colegas de escola. Outro dilem a próprio dos pais: dizer a verdade ou tentar proteger os filhos? Não seria fácil proteger Yasm in. A internet inviabilizava qualquer possibilidade de segredo. Ele teria de contar toda a história.
Mas aos poucos. E com eçando da form a m ais sim ples.
Guy fechou os olhos. Não ouviu nenhum barulho, não percebeu nada de estranho, até que alguém veio por trás, cobriu sua boca com a m ão e pressionou um a lâm ina contra sua garganta.
– Shhh… – sussurrou o invasor. – Não m e obrigue a m atar as crianças.
♦♦♦
Susan Lorim an estava sozinha no quintal.
O j ardim vinha tendo um bom ano. Ela e Dante dedicavam -se a ele com afinco, m as raram ente desfrutavam os resultados de seu trabalho. Susan tentava se sentar ali e relaxar entre as plantas, m as não conseguia evitar o olhar crítico. Sem pre havia um arbusto que estava m orrendo, outro que precisava ser aparado, um terceiro que não estava florescendo com o viço habitual. Mas hoj e ela conseguira se desligar de tudo aquilo.
– Dante?
Sem tirar os olhos das plantas, Susan sentiu o m arido se aproxim ando por trás dela. Ele pousou as m ãos nos om bros da esposa.
– Tudo bem com você? – perguntou.
– Tudo.
– Vam os encontrar um doador.
– Eu sei.
– Não vam os desistir, Susan. Vam os pedir a todo m undo que conhecem os para fazer o exam e de sangue. Sua fam ília não é m uito grande, m as a m inha é. Todos serão testados, eu prom eto.
Susan fez que sim com a cabeça.
Sangue, ela pensou. O sangue não fazia a m enor diferença. Dante era o verdadeiro pai de Lucas.
Ela segurou o crucifixo de ouro que pendia de seu cordão e pensou se não seria m elhor contar toda a verdade. Mas a m entira j á era tão antiga… Depois do estupro ela havia dorm ido com Dante o m aior núm ero de vezes possível. Por quê? Será que ela j á sabia? Mas quando Lucas nasceu, teve certeza de que Dante era o pai. Pelo m enos a probabilidade era enorm e. O estupro fora um evento único e ela havia feito am or com o m arido diversas vezes naquele m ês. Lucas era parecido com ela, então Susan deu o assunto por encerrado.
Mas j am ais conseguiu esquecer. Ao contrário do que sua m ãe lhe dissera que aconteceria, Susan nunca havia superado a tragédia.
“Assim será m elhor. Você vai seguir em frente. Protej a sua fam ília…”
Susan esperava que Ilene Goldfarb guardasse segredo. Ninguém m ais sabia da verdade. Seus pais souberam de tudo, claro, m as am bos j á haviam m orrido: ele, do coração; ela, de câncer. Enquanto viveram , j am ais tocaram no assunto. Em nenhum m om ento eles haviam procurado consolá-la com um abraço ou telefonado para saber com o ela estava enfrentando a situação. Nem sequer piscaram quando, três m eses após o acontecido, Susan e Dante os procuraram para dizer que eles seriam avós.
Na tentativa de aj udar, Ilene Goldfarb sugerira que o estuprador fosse localizado.
Mas isso não seria possível.
Dante viaj ara para Las Vegas com os am igos. Susan não ficara nada satisfeita com isso. O relacionam ento deles estava passando por um a fase difícil e j usto no m om ento em que ela se questionava se não tinha se casado cedo dem ais, Dante resolve dar um a escapulida com os rapazes para cair na j ogatina e, m uito provavelm ente, na farra tam bém .
Até aquela noite fatídica Susan Lorim an j am ais fora religiosa. Quando m enina, ia à m issa todos os dom ingos com os pais, m as nunca se apegara à religião. E, ao crescer e se tornar um a bela m oça, sofrera com a severidade dos pais. Após um tem po ela se rebelara, m as, depois daquela noite, voltara ao rebanho dos fiéis.
Ela tinha ido com três am igas a um bar em West Orange. As m oças eram solteiras e, pelo m enos por um a noite, j á que o m arido havia escapulido para Las Vegas, ela queria se sentir solteira tam bém . Não até as últim as conseqüências, claro. Era um a m ulher casada, razoavelm ente feliz, m as um a paquerinha de leve não faria m al nenhum . Então com eçou a beber e a se com portar com o as am igas. Mas bebeu além da conta. Teve a im pressão de que o bar havia ficado m ais escuro e a m úsica, m ais alta. Com eçou a dançar. As idéias com eçaram a se em baralhar.
No decorrer da noite, as am igas foram se arranj ando com rapazes diferentes, sum indo um a a um a, desfazendo o grupo.
Tem pos depois, lendo sobre golpes do tipo “boa-noite, Cinderela”, Susan se perguntara se não fora vítim a de um deles tam bém . Lem brava-se de m uito pouco. De repente estava no carro de um hom em . Chorava e queria descer, m as ele não a deixava. Em determ inado m om ento, ele sacou um a faca e a arrastou para um m otel. Xingou-a de nom es terríveis e a estuprou. Batia sem dó sem pre que ela tentava se desvencilhar.
Aquilo parecia ter durado um a eternidade. Tudo fora tão horrível que Susan ainda se lem brava do que sentira naquele m om ento: torcera para que ele a m atasse logo em seguida. Ela não pensara em sobreviver. Preferia a m orte.
Lem brava-se apenas vagam ente do que acontecera em seguida. Já havia lido em algum lugar que nos casos de estupro o m ais recom endável era ceder, não lutar, a fim de fazer o estuprador acreditar que vencera ou algo assim . Foi o que ela fez. E assim que ele baixou a guarda, ela conseguiu soltar um a das m ãos, agarrou-o pelos testículos e apertou o m ais forte que pôde. Continuou apertando, retorcendo, até que o hom em , urrando de dor, rolou para o lado.
Susan pulou da cam a e encontrou a faca.
O estuprador agora se contorcia no chão, com pletam ente sem forças. Susan poderia sim plesm ente ter saído do quarto e gritado por socorro, o que teria sido o m ais sensato. Mas não foi o que ela fez.
Susan ergueu a faca e enterrou-a no coração do hom em .
Im ediatam ente o corpo dele ficou rígido, depois irrom peu num a terrível convulsão.
E, então, o estuprador estava m orto.
– Você está tensa, m eu am or – ela ouviu o m arido dizer, 11 anos m ais tarde.
Dante com eçou a m assagear os om bros dela. Susan deixou que ele prosseguisse, em bora aquilo não lhe trouxesse nenhum conforto.
Com a faca ainda cravada no peito do estuprador, Susan fugiu do m otel.
Ela correu por m uito tem po até que, com a cabeça m ais fria, encontrou um telefone público e ligou para os pais. Foi o pai quem a buscou. Eles conversaram . Passando de carro diante do m otel, viram as luzes das viaturas de polícia. Então voltaram para a casa onde Susan havia passado a infância.
– Quem vai acreditar em você agora? – perguntara sua m ãe.
Susan não soube responder.
– E o Dante, o que ele vai pensar?
Outra boa pergunta.
– O dever de um a m ãe é proteger sua fam ília. É isso que um a m ulher tem de fazer. Som os m ais fortes que os hom ens nessas horas. Som os capazes de receber um a rasteira e seguir em frente. Se contar a seu m arido, ele nunca m ais vai olhar para você do m esm o j eito. Nem ele, nem qualquer outro hom em . Você gosta do j eito que o Dante olha para você, não gosta? Pois ele vai sem pre se perguntar por que você saiu, com o foi parar num quarto de m otel com outro hom em . Mesm o que ele acredite na sua história, as coisas nunca m ais serão as m esm as. Você entende?
Susan esperou que a polícia a procurasse. Mas isso não aconteceu. Os j ornais noticiaram o caso e até deram o nom e do estuprador, m as em dois dias a história j á estava esquecida. As suspeitas eram de que o hom em tivesse m orrido após um a tentativa de assalto frustrada ou um a transação com drogas m alsucedida. O m orto tinha ficha na polícia.
Portanto, obedecendo à sugestão da m ãe, Susan seguiu em frente. Dante voltou da viagem . Eles fizeram am or. Susan não gostou. Ainda não gostava. Mas o am ava e queria que ele fosse feliz. Dante constatou que sua linda m ulher havia perdido certo brilho, m as, por algum m otivo, achou m elhor não perguntar nada.
Susan voltou a freqüentar a igrej a. Agora dava razão à m ãe. A verdade teria destruído seu casam ento, sua fam ília. Então guardou o segredo para proteger o m arido e os filhos. O tem po revelou-se o m elhor rem édio. Às vezes ela conseguia passar dias inteiros sem pensar naquela noite. Se Dante percebeu que ela não gostava m ais de sexo, não disse nada. Os olhares de adm iração que ela recebia dos hom ens, antes tão bem -vindos, agora lhe causavam repulsa.
Era isso que ela não podia contar a Ilene Goldfarb. Sim plesm ente não havia com o pedir aj uda ao estuprador.
Ele estava m orto.
– Sua pele está tão fria – disse Dante.
– Estou bem , não se preocupe.
– Vou buscar um cobertor.
– Não, não precisa.
Ele percebeu que ela queria ficar sozinha. Mom entos assim nunca haviam acontecido antes daquela noite. Mas aconteciam agora. Dante não fazia nenhum a pergunta, não forçava a barra, dava à m ulher todo o espaço de que ela precisava.
– Nós vam os salvá-lo – disse ele.
E voltou para casa. Susan continuou no j ardim , ainda segurando o crucifixo de ouro. Sua m ãe lhe dera aquele presente no leito de m orte.
– Sem pre pagam os pelos nossos pecados – dissera à filha.
Isso Susan podia aceitar. Pagaria de bom grado por todos os seus pecados. Mas Deus não tinha nada que despej ar sua ira nos om bros de um a criança inocente.