Confie em Mim
Capítulo 28
28
MIKE SENTOU-SE NA SALA DE INTERROGATÓRIO e tentou ficar calm o. Na parede à sua frente havia um grande espelho retangular. Ele supôs que na verdade se tratava de um a j anela de vidro espelhado. As dem ais paredes eram daquele verde típico dos banheiros de escola, e o chão,
de linóleo cinza.
Havia m ais dois hom ens na sala. Um deles estava sentado num dos cantos, am uado feito um a criança que acabara de levar um a bronca; cabisbaixo, segurava um a caneta e um a prancheta. O outro, um dos agentes que haviam brandido credenciais e arm as diante do Club Jaguar, era negro e ostentava um brinco de diam ante na orelha esquerda, andava de um lado para outro segurando um cigarro apagado.
– Sou o agente especial Darry l LeCrue – disse ele. – Este aqui é Scott Duncan, o vínculo entre a DEA e a prom otoria da república. Alguém j á leu os seus direitos?
– Já, sim .
– E está disposto a falar conosco?
– Estou.
– Por favor assine o term o de renúncia.
Mike assinou. Em outras circunstâncias, não teria feito isso. Sabia que Mo ligaria para Tia e que ela chegaria dali a pouco com um advogado ou disposta a advogar ela m esm a. Em tese, deveria perm anecer em silêncio até que eles chegassem , m as agora não se im portava com nada disso.
LeCrue ainda peram bulava pela sala.
– Por acaso você sabe por que foi trazido até aqui? – perguntou.
– Não.
– Nem faz idéia?
– Nenhum a.
– O que você estava fazendo no Club Jaguar hoj e?
– Por que vocês estavam m e seguindo?
– Dr. Bay e?
– Sim .
– Eu fum o, sabia?
Mike ficou intrigado com a pergunta.
– Estou vendo o cigarro.
– E ele por acaso está aceso?
– Não.
– Acha que isso m e deixa feliz?
– Eu não saberia dizer.
– O que quero dizer é o seguinte: eu costum ava fum ar nesta sala. Não porque quisesse intim idar os suspeitos ou soprar fum aça na cara deles, em bora às vezes fizesse isso tam bém . Não. Eu fum ava porque gostava. Porque fum ar m e deixava relaxado. Mas agora eles aprovaram todas essas novas leis e eu não posso m ais fum ar aqui. Ouviu o que eu disse?
– Claro que ouvi.
– Em outras palavras, a lei não m e deixa m ais relaxar. E isso m e aborrece. Preciso dos m eus cigarros. Portanto, quando estou aqui, sou um hom em m al-hum orado. Fico segurando este cigarro, doido para acendê-lo. Mas não posso. É com o levar o cavalo até o riacho e não deixar que ele beba água. Mas não estou falando isso para que você fique com pena de m im . Quero apenas que você entenda com o são as coisas, porque j á está com eçando a m e irritar. – Ele esm urrou o tam po da m esa, m as não alterou o tom de voz. – Não vou responder às suas perguntas. É você que vai responder às m inhas. Estam os entendidos?
– Talvez eu devesse esperar pelo m eu advogado – disse Mike.
– Ótim o. – LeCrue se virou para o am uado Duncan e disse: – Scott, por acaso tem os o suficiente para colocá-lo em cana?
– Tem os.
– Perfeito. Então vam os fazer isso. Deixe-o no sistem a durante o fim de sem ana. Quando você acha que vai ser a audiência de fiança?
Duncan deu de om bros.
– Daqui a algum as horas. Ou talvez ele tenha de esperar até am anhã de m anhã. Mike tentou apagar o pânico do rosto.
– Qual é a acusação? – perguntou.
LeCrue deu de om bros.
– Sei lá. A gente arranj a algum a coisa, não é, Scott?
– Com certeza.
– Tudo depende de você, Dr. Bay e. Você deve estar doido para sair daqui. Então, que tal com eçarm os de novo? Vam os lá. O que você estava fazendo no Club Jaguar?
Mike poderia argum entar m ais um pouco, m as concluiu que esse não seria o m elhor passo. Tam pouco esperar por Tia. Ele precisava sair dali. Precisava encontrar Adam .
– Procurando m eu filho.
Para surpresa de Mike, o agente especial não seguiu nessa linha de raciocínio. Em vez disso, m eneou a cabeça e perguntou:
– Você estava prestes a se m eter num a briga, não estava?
– Estava.
– Isso por acaso ia aj udá-lo a encontrar seu filho?
– Eu esperava que sim .
– Com o?
– Eu estive naquelas redondezas ontem à noite – Mike com eçou a explicar.
– Sim , nós sabem os.
Mike surpreendeu-se.
– Vocês estavam m e seguindo ontem tam bém ?
LeCrue sorriu, ergueu o cigarro apagado com o sinal de advertência e arqueou as sobrancelhas.
– Fale um pouco m ais sobre seu filho – pediu.
O sinal de alerta disparou. Mike não estava gostando nada daquilo: das am eaças, do fato de ter sido seguido, m as, sobretudo, da m aneira com o LeCrue havia perguntado sobre Adam . Por outro lado, o que ele poderia fazer?
– Ele está desaparecido. Achei que pudesse estar no Club Jaguar.
– Por isso você foi até lá ontem à noite?
– Foi.
– Achou que ele pudesse estar lá?
– Sim .
Mike estava disposto a lhes dar praticam ente todas as inform ações. Não tinha nenhum m otivo para não fazê-lo: j á havia contado a m esm a história no hospital e na delegacia.
– Por que você estava tão preocupado com ele?
– Tínham os com binado de ir ao j ogo dos Rangers ontem à noite.
– O tim e de hóquei?
– Exatam ente.
– Eles perderam , sabia?
– Não, não sabia.
– Mas o j ogo foi m uito bom . Muita pancadaria. – LeCrue sorriu novam ente. – Sou um dos poucos negros que acom panham o hóquei. Antes eu adorava o basquete, m as agora fico de saco cheio com esse cam peonato da NBA. Muitas faltas, sabe com o é?
Mike deduziu que ele estivesse tentando desarm á-lo com algum a tática especial de interrogatório.
– Ahã – falou.
– Pois bem , então seu filho não apareceu e você foi para o Bronx atrás dele, certo?
– Certo.
– E foi atacado por lá.
– Isso. – Mike subitam ente se deu conta de um a coisa: – Se vocês estavam lá, m e vigiando, por que não foram m e aj udar?
– Quem disse que estávam os vigiando? – devolveu LeCrue.
Scott Duncan levantou o rosto e acrescentou:
– Quem disse que não aj udam os?
Silêncio.
– Você j á tinha estado naquele lugar antes?
– No Club Jaguar? Não.
– Nunca?
– Nunca.
– Só para deixar tudo bem claro: você está m e dizendo que, antes de ontem à noite, nunca esteve no Club Jaguar.
– Nem m esm o ontem à noite.
– Com o assim ?
– Não cheguei a ir lá ontem . Fui atacado antes disso.
– E com o você foi parar naquele beco?
– Estava seguindo um a pessoa.
– Quem ?
– O nom e dele é DJ Huff. Um colega de escola do m eu filho.
– Então, você está dizendo que nunca pisou no Club Jaguar antes de hoj e, certo?
Mike tentou apagar da voz qualquer sinal de im paciência.
– Isso m esm o – disse. – Olhe, agente LeCrue, por acaso seria possível abreviarm os essa nossa entrevista? Meu filho está desaparecido. Estou preocupado com ele.
– Claro que está. Portanto, não vam os perder m ais tem po. E quanto a Rosem ary McDevitt, a presidente e fundadora do Club Jaguar?
– O que tem ela?
– Quando foi que vocês se conheceram ?
– Hoj e.
LeCrue virou-se para Duncan:
– Dá para engolir essa, Scott?
Scott Duncan levantou a m ão e, com a palm a para baixo, fez sinal de m ais ou m enos.
– Por favor, ouçam – disse Mike, fazendo o possível para não suplicar. – Preciso sair daqui e encontrar m eu filho.
– Você não confia na polícia?
– Claro que confio. Mas suponho que m eu filho não sej a um a prioridade para ela.
– Muito j usto. Mas diga um a coisa. O senhor sabe o que é um a pharm party?
Mike pensou um instante.
– Tenho a im pressão de j á ter ouvido falar, m as não sei exatam ente onde.
– Talvez eu possa aj udá-lo, Dr. Bay e. Você é m édico, não é?
– Sou.
– Então m erece o “doutor”. Fico puto quando tenho de cham ar qualquer im becil de “doutor” só porque o cara tem um diplom a: esse pessoal que é Ph.D., o quiroprático da esquina, até o cara que m e aj uda com as lentes de contato na Pearle Express. É m uito chato. É ou não é?
Mike tentou trazê-lo de volta ao assunto.
– O senhor estava falando de pharm parties.
– Ah, sim . Você está com pressa e eu fico aqui, enrolando. Vam os lá. Com o m édico, você deve saber m uito bem que os m edicam entos custam os olhos da cara, não sabe?
– Sei.
– Então deixe-m e explicar o que é um a pharm party. Resum indo, o negócio é o seguinte: os garotos vão lá no arm ário de rem édios dos pais e roubam o que encontram ali. Hoj e em dia todo adulto tem algum m edicam ento de tarj a preta em casa: Vicodin, Adderall, Ritalin, Xanax, Prozac, Oxy Contin, Percocet, Dem erol, Valium … Então, o que os garotos fazem ? Roubam os rem édios e se reúnem num lugar qualquer e cada um põe o que roubou num a tigela; fazem um a espécie de granola, sabe, só que de com prim idos tarj a preta. E depois m andam tudo para dentro.
LeCrue se calou e só então pegou um a cadeira. Virando-a ao contrário, ele se sentou e cruzou os braços sobre o espaldar. Encarou Mike, que nem sequer piscou.
Após alguns segundos, Mike disse:
– Então agora eu sei o que é um a pharm party.
– É, agora você sabe. Pois bem , é assim que a coisa com eça. Um bando de garotos se reúne e pensa, ei, essas drogas são legais, não é feito m aconha ou cocaína. É possível que o irm ãozinho de um deles tom e Ritalin porque é hiperativo, ou que o pai tom e Oxy Contin por causa das dores no j oelho operado. Portanto, na cabeça deles, essas drogas deveriam ser seguras.
– Entendo.
– Entende m esm o?
– Claro.
– Percebe com o é fácil? E você, Dr. Bay e, tem algum desses rem édios em casa?
Mike pensou nos próprios j oelhos e no frasco de Percocet que guardava no arm ário do banheiro. Quase nunca tom ava esses com prim idos e dificilm ente perceberia se um ou outro sum isse. Pensou tam bém naqueles pais que não tinham qualquer inform ação sobre os rem édios que tom avam . Será que ficariam preocupados caso dessem pela falta de um a cartela, por exem plo?
– Com o o senhor m esm o disse, todo m undo tem um tarj a preta em casa – respondeu.
– Certo, então raciocine com igo. Pense num garoto, digam os… num garoto com espírito em preendedor, certo? Ele sabe com o esses rem édios são caros. Sabe que essas festinhas acontecem . Então, o que ele faz? Dá um passo à frente e tenta em bolsar um dinheirinho. Digam os que abra um a banca e com ece a receber um percentual dos lucros. Talvez incite os am igos a roubarem ainda m ais com prim idos da casa dos pais. De repente pode até conseguir algum a coisa para colocar no lugar.
– Com o o quê, por exem plo?
– Ora, se os com prim idos são brancos, basta substituí-los por um a aspirina. Quem é que vai notar a diferença? Ou então por com prim idos de açúcar, que não servem para nada a não ser confundir os outros. Está vendo? Quem vai notar? Tem um m ercado negro enorm e para esses rem édios. Dá para levantar um a bela grana. Mas nosso garoto é um em preendedor. Não quer um a festinha qualquer com m eia dúzia de gatos pingados. Quer algo bem m aior. Centenas de garotos, talvez m ilhares. Com o num a boate, por exem plo.
Mike estava com eçando a entender.
– Você acha que é isso que o Club Jaguar está fazendo – disse.
Subitam ente lem brou-se de que Spencer Hill havia se suicidado com com prim idos roubados de casa. Pelo m enos era isso que diziam , que ele havia assaltado o arm ário de rem édios dos pais e m orrido de overdose.
LeCrue fez que sim com a cabeça e prosseguiu.
– Mas se o nosso garoto for m esm o um em preendedor, ainda não vai se dar por satisfeito. Vai querer ir além . Todos os rem édios têm algum valor no m ercado negro, certo? Pode ser aquela velha Am oxicilina que ele m esm o nunca term inou de tom ar. Ou o Viagra extra do vovô. Ninguém sabe direito o que tem em casa, não é verdade?
– Quase ninguém .
– Então. Se um ou outro com prim ido estiver faltando, os pais vão achar que é a farm ácia que está passando a perna neles, ou então vão pensar que se confundiram com as datas e acabaram tom ando m ais do que deviam . É quase im possível descobrir que por trás desses sum iços existe um adolescente ladrão. Percebe com o o plano é brilhante?
Mike j á ia perguntando o que aquilo tinha a ver com ele e Adam , m as achou m elhor se conter.
Inclinando-se para frente, LeCrue sussurrou:
– Então, doutor? Quer saber o que m ais faria um garoto com espírito em preendedor?
– LeCrue? – Era Duncan.
LeCrue se virou para ele.
– Diga, Scott.
– Você gosta m esm o dessa palavra. Em preendedor.
– Gosto. – Ele se virou para Mike. – E você, doutor, tam bém não gosta?
– É um a bela palavra.
LeCrue deixou escapar um risinho com o se estivesse diante de um velho am igo.
– Bem , sej a com o for – prosseguiu –, um garoto inteligente, e sobretudo empreendedor, vai sem pre dar um j eito de conseguir m ais drogas na própria casa. Com o? Pode, por exem plo, ligar para a farm ácia e pedir um a reposição antes da hora. Se os pais trabalharem fora e ele estiver sozinho em casa na hora da entrega, vai em bolsar os com prim idos e os pais nunca ficarão sabendo. Por quê? Porque quando eles m esm os ligarem para a farm ácia e não conseguirem fazer a reposição, vão achar que se confundiram de algum a form a, ou que a farm ácia se enganou, sei lá. Está vendo? Um a vez com eçado o negócio, são m uitas as possibilidades de em bolsar um a boa grana. É quase infalível.
A pergunta m ais óbvia rondava a cabeça de Mike: seria possível que Adam estivesse m etido num a tram óia dessas?
– Mas quem deveríam os botar em cana? No m eu lugar, o que você faria? Vej a bem . Você tem um bando de garotos m enores de idade. Todos ricos, com grana suficiente para pagar os m elhores advogados. E o que foi que eles fizeram exatam ente? Roubaram rem édios perfeitam ente lícitos de suas próprias casas. Quem se im porta com isso? Mais um a vez: percebe com o esse dinheiro é fácil?
– Acho que sim .
– Você acha, Dr. Bay e? Ora, vam os deixar de encenação. Você não acha. Você sabe. É um plano quase perfeito. Mas você certam ente tam bém sabe com o costum am os agir aqui, nesta agência. Não correm os atrás dos peixes pequenos. Portanto não vam os sair por aí prendendo um grupo de garotos burros que não fazem outra coisa além de chapar. Querem os o peixe grande. O tubarão. Mas se o nosso tubarão for inteligente, ele… Vam os m udar para “tubaroa”, o.k.? Não quero ninguém m e acusando de preconceito depois. Pois bem : se a nossa tubaroa for inteligente, vai deixar que os garotos m enores de idade cuidem da distribuição dos com prim idos. Talvez esses góticos que andam por aí, esses que ainda precisam subir um nível na cadeia alim entar para m erecerem ser cham ados de otários. Eles se sentiriam im portantes. E se a nossa tubaroa for um a dessas gostosonas do crim e… ah, nesse caso provavelm ente é capaz de fazer com que os bostinhas com am na m ão dela, está entendendo?
– Estou – disse Mike. – O senhor acha que é isso que Rosem ary McDevitt está fazendo no Club Jaguar. Ela tem essa boate e todos esses garotos que freqüentam o lugar legalm ente. Por um lado faz sentido.
– E por outro?
– Um a m ulher que perdeu um irm ão de overdose dificilm ente traficaria rem édios, o senhor não acha?
LeCrue sorriu ao ouvir isso.
– Quer dizer então que ela contou esse m elodram a para você tam bém – disse. – A ladainha do irm ão que não tinha um a válvula de escape e vivia se drogando até que um dia bateu as botas.
– Não é verdade?
– Pura ficção, até onde pudem os averiguar. Ela diz que é de um a cidadezinha cham ada Brem an, em Indiana, m as checam os todos os arquivos. Não houve nenhum caso com o esse que ela descreveu por lá.
Mike não disse nada.
Scott Duncan levantou os olhos de suas anotações e disse:
– Mas ela é m uito gostosa m esm o.
– Sem dúvida – concordou LeCrue. – Prim eira linha.
– Um hom em é capaz de fazer m uita besteira para agradar um a m ulher daquelas.
– É m esm o, Scott. Aliás, esse é o modus operandi dela. Ela enfeitiça os garotos sexualm ente. Não que eu fosse achar ruim ser um deles pelo m enos um pouquinho, o doutor entende, não entende?
– Sinto m uito, m as não entendo, não.
– Por quê? Você é gay ?
Mike tentou não revirar os olhos.
– Tudo bem . Eu sou gay . Será que podem os continuar com isso?
– A m oça usa os hom ens, doutor – disse LeCrue. – Não só os garotos idiotas. Hom ens m ais espertos tam bém . Mais velhos.
Ele se calou de repente e ficou esperando. Confuso, Mike olhou para Duncan e depois novam ente para LeCrue.
– Espere aí – disse em seguida. – Essa é a parte em que levo um susto ao perceber que vocês estão falando de m im ?
– E por que faríam os um a coisa dessas?
– Tenho certeza de que o senhor está prestes a m e dizer.
Feito um ator de prim eiro ano de faculdade, LeCrue abriu os braços e devolveu:
– Mas você não acabou de dizer que só conheceu Rosem ary McDevitt hoj e? Disse ou não disse?
– Disse.
– E acreditam os piam ente. Portanto, m e responda outra coisa. O trabalho no hospital, com o vai?
Mike exalou um longo suspiro.
– Tudo bem . Vam os fazer de conta que fiquei desconcertado com essa sua súbita m udança de assunto. Não sei o que vocês acham que eu fiz. Suponho que sej a algo relacionado ao Club Jaguar. Não porque eu realm ente tenha feito algum a coisa, m as porque vocês teriam de ser m uito burros para não perceberem isso. Em outras circunstâncias, eu esperaria pelo m eu advogado antes de falar qualquer coisa. Ou pelo m enos por m inha m ulher, que tam bém é advogada. Mas com o j á disse um m ilhão de vezes, m eu filho está desaparecido. Portanto, chega de conversa fiada. Diga logo o que você quer saber para que enfim eu possa voltar a procurá-lo.
LeCrue arqueou um a das sobrancelhas.
– Fico tão excitado quando um suspeito dá um a de m acho para cim a de m im … – disse. – E você, Scott, não fica excitado tam bém ?
– Meus m am ilos estão durinhos – devolveu o outro.
– Bem , antes que alguém m ele a cueca por aqui – disse LeCrue –, só tenho m ais algum as perguntinhas e depois term inam os. Por acaso você tem um paciente cham ado William Brannum ?
Mais um a vez Mike pensou no que fazer e decidiu que era m elhor colaborar.
– Não que eu m e lem bre.
– Você não se lem bra dos nom es de todos os pacientes?
– Esse nom e não m e diz nada, m as talvez ele sej a paciente da m inha colega de consultório.
– Ilene Goldfarb?
Eles haviam investigado tudo sobre ele, pensou Mike.
– Ela m esm a – disse.
– Já falam os com ela. A Dra. Goldfarb tam bém não se lem bra dele.
Mike se controlou para não fazer a pergunta óbvia: “O quê? Vocês foram falar com ela?” Tentou m anter a calm a. Eles j á haviam procurado Ilene. Que diabos poderia estar acontecendo ali?
LeCrue abriu o m esm o sorriso de antes.
– Então, Dr. Bay e? – disse. – Está pronto para saber qual é o próxim o passo do nosso em preendedor?
– Claro.
– Ótim o. Vou lhe m ostrar um a coisa.
LeCrue se virou para Duncan, que lhe passou um a pasta suspensa. Depois de colocar o cigarro apagado entre os dentes, LeCrue folheou o conteúdo da pasta com os dedos m anchados de nicotina e de lá tirou um a folha de papel. Ele a colocou sobre a m esa e a em purrou na direção de Mike.
– Reconhece isto aqui? – perguntou.
Mike exam inou a folha: era a fotocópia de um a receita. No topo estavam im pressos os nom es dele e de Ilene, o núm ero de registro de am bos e o endereço do NewYork-Presby terian. A receita prescrevia Oxy Contin para William Brannum .
E estava assinada pelo Dr. Michael Bay e.
– Então, reconhece? – insistiu LeCrue.
Mike fez um esforço e não respondeu.
– Porque a Dra. Goldfarb diz que não foi ela quem prescreveu isto aí, que o paciente não é dela.
LeCrue passou a Mike outra folha de papel. Um a segunda receita. Agora para Xanax. Tam bém assinada pelo Dr. Michael Bay e. Depois um a terceira.
– Algum desses nom es lhe diz algum a coisa?
Mike perm aneceu m udo.
– Ah. Esta aqui é interessante. Quer saber por quê?
Mike olhou para ele.
– Porque foi prescrita para Carson Bledsoe. Sabe quem é?
Mesm o achando que talvez soubesse, Mike disse:
– Eu deveria?
– É o garoto de nariz quebrado que você estava em purrando quando chegam os.
O próxim o passo do em preendedorism o, pensou Mike. Cravar as garras num filho de m édico. Roubar blocos de receita e sair receitando por conta própria.
– Agora – prosseguiu LeCrue –, caso os ventos estej am soprando a seu favor, caso os deuses estej am sorrindo na sua direção, você vai perder o registro de m édico e nunca m ais voltará a praticar a m edicina. Isso, claro, na m elhor das hipóteses.
Agora Mike tinha certeza de que devia ficar calado.
– Sabe, estam os trabalhando neste caso faz m uito tem po. Tem os vigiado o Club Jaguar. Sabem os o que se passa por lá. Poderíam os prender um a m eia dúzia de garotos riquinhos, m as, com o disse antes, isso não adiantaria de nada. O im portante é ceifar a cabeça. Ontem à noite fom os inform ados de que haveria um a reunião m uito im portante. Esse é o problem a quando um em preendim ento chega a esse ponto, Dr. Bay e: é preciso interm ediários. O crim e organizado tem feito grandes investim entos neste m ercado. Tem ganhado tanto dinheiro com o Oxy Contin quanto com a cocaína. Talvez m ais. Porém , com o eu ia dizendo, nós estávam os de olho. E então, ontem à noite, as coisas com eçaram a dar errado por lá. Você, o m édico de plantão, resolveu dar as caras. E foi atacado. Voltou lá hoj e e arm ou um barraco. Portanto, nosso receio, tanto da DEA quanto da prom otoria, era que todo o esquem a do Club Jaguar fosse desm antelado e que nós ficássem os de m ãos vazias. Foi por isso que tivem os de entrar em ação.
– Não tenho nada a dizer.
– Claro que tem .
– Estou esperando pelo m eu advogado.
– Você não quer seguir por esse cam inho porque sabem os que não foi você quem passou estas receitas. Você não sabe, m as conseguim os exam inar algum as de suas receitas legítim as. Com param os as letras. Logo vim os que estas aí eram falsificações. Isso significa que ou você deu seu receituário para alguém , o que constitui um delito m uito grave, ou alguém o roubou.
– Não tenho nada a dizer.
– O senhor não pode protegê-lo, Dr. Bay e. Os pais sem pre acham que podem . Sem pre tentam a m esm a coisa. Mas não dessa m aneira. Todo m édico que conheço guarda um ou dois receituários em casa. Caso precise atender alguém de lá. Não é difícil roubar com prim idos de um arm ário de rem édios. Tam bém não deve ser m uito difícil roubar um receituário.
Mike ficou de pé.
– Vou em bora j á – disse.
– Vai porra nenhum a – disse LeCrue. – Seu filho é um daqueles garotos riquinhos de que eu estava falando, m as, depois de fazer o que fez, foi prom ovido à categoria de peixe grande. Para início de conversa, ele pode ser acusado de conspiração e distribuição de narcóticos da Categoria 2, o que pode resultar num a pena de até 20 anos em prisão federal. Mas não querem os seu filho. Querem os Rosem ary McDevitt. Quem sabe possam os fazer um acordo?
– Estou esperando m eu advogado.
– Tudo bem – disse LeCrue. – Porque seu advogado, ou m elhor, sua adorável advogada, acabou de chegar.