Confie em Mim
Capítulo 13
13
NOVE DA NOITE. A escuridão encobria a casa dos Huff.
Mike parou o carro do outro lado da rua. As luzes estavam acesas no interior da casa. Havia dois carros na porta da garagem . Ele ficou pensando no que poderia dizer. Sem sair do carro, ligou m ais um a vez para Adam . Nenhum a resposta. O núm ero dos Huff não constava da lista, provavelm ente porque Daniel Huff era da polícia. Mike tam bém não tinha o núm ero do celular do filho dele, DJ.
Na verdade, ele não tinha alternativa.
Tentou encontrar algum pretexto para estar ali, algo que não revelasse o que ele de fato havia feito, m as não conseguiu pensar em nada.
E agora? Mike cogitou voltar para casa. O garoto era m enor de idade. Beber era perigoso, claro, m as a verdade era que, na j uventude, Mike fizera exatam ente a m esm a coisa. Ele e os am igos bebiam algum as cervej as escondidos no m ato. Festinhas de arrom ba na casa de Pepe Feldm an. Não eram lá m uito chegados às drogas, m as viviam na casa do am igo Erva (um a dica para os pais: se o apelido do seu filho for “Erva”, é pouco provável que isso tenha algum a coisa a ver com j ardinagem ) quando os pais dele viaj avam .
Mike j am ais se perdera no cam inho. Teria sido um a pessoa m elhor se os pais tivessem invadido sua privacidade dessa form a?
Ele olhou para a porta da casa. Talvez devesse apenas esperar. Deixar que Adam bebesse e se divertisse e, m ais tarde, quando o filho saísse, verificar se estava tudo bem com ele. Assim , não provocaria um a situação em baraçosa nem perderia a confiança do filho.
Que confiança?
Adam tinha deixado a irm ã sozinha e não retornara nenhum a das ligações do pai. E o que era ainda pior: Mike j á estava espionando o filho. Ele e Tia controlavam o com putador do garoto. Tinham invadido com pletam ente a privacidade de Adam .
Ele se lem brou de um a canção de Ben Folds que dizia: “Quem não confia não m erece confiança.”
Mike ainda pensava nessas coisas quando a porta dos Huff se abriu. Obedecendo a um im pulso, escorregou no banco do carro e, por causa disso, sentiu-se um idiota. No entanto, não era nenhum dos garotos que estava saindo: era o capitão Daniel Huff, da força policial de Livingston.
O pai que em tese estaria viaj ando.
Mike não sabia ao certo o que fazer. Na verdade, isso não tinha im portância. Daniel Huff cam inhava com passos firm es na direção de Mike. Sem nenhum a hesitação. Sabia exatam ente qual era seu destino.
O carro de Mike.
Mike se endireitou no banco. Ele e Daniel Huff se encararam . Daniel não sorriu, tam pouco dem onstrou qualquer apreensão. Mike, talvez porque soubesse a profissão do hom em , teve a sensação de que havia sido parado num a blitz por um policial que tentava m anter a expressão neutra na esperança de que o próprio m otorista confessasse sua infração, fosse o excesso de velocidade ou o papelote escondido no porta-m alas.
Assim que Huff se aproxim ou o suficiente, Mike baixou a j anela e forçou um sorriso.
– Olá, Dan – falou.
– Mike.
– Eu estava correndo dem ais?
Huff abriu um sorriso am arelo para a piada sem graça.
– Docum entos, por favor – devolveu.
Am bos riram sem o m enor entusiasm o. Huff colocou as m ãos no quadril. Mike tentou dizer algum a coisa. Sabia que Huff esperava um a explicação, m as não estava disposto a dar nenhum a.
Após alguns segundos de constrangim ento, Daniel Huff foi direto ao assunto.
– Vi quando você estacionou, Mike.
– Ahã.
– Algum problem a?
– Não, nenhum .
Mike fez um esforço para não se irritar. O hom em era da polícia, grande coisa. Quem sairia à rua para interpelar um am igo daquela form a senão um policial com o rei na barriga? Por outro lado, não deixava de ser estranho que alguém rondasse a casa de um conhecido com o se estivesse vigiando.
– Quer entrar?
– Estou procurando Adam .
– Foi por isso que estacionou aqui?
– Foi.
– Então por que não desceu?
– Queria dar um telefonem a antes.
– Não vi você falando no celular.
– Há quanto tem po você estava m e vigiando, Dan?
– Alguns m inutos.
– O carro tem viva-voz. Você sabe… m ãos livres, com o m anda a lei.
– Só se você estiver dirigindo. Se estiver parado, pode segurar o telefone.
Mike j á estava se cansando daquele j ogo.
– Adam está aí com DJ?
– Não.
– Tem certeza?
Huff franziu as sobrancelhas. Mike sucum biu ao silêncio.
– Achei que os m eninos tinham com binado de se encontrar aqui hoj e.
– Achou por quê?
– Foi o que entendi de um recado, dizendo que você e a Marge iriam viaj ar e que eles se encontrariam aqui.
Huff franziu as sobrancelhas novam ente.
– Eu ia viaj ar?
– No fim de sem ana. Acho que foi isso.
– E por acaso você achou que eu perm itiria que um grupo de adolescentes se encontrasse na m inha casa, sem nenhum adulto por perto?
A conversa ia de m al a pior.
– Por que você sim plesm ente não liga para o Adam ?
– Já liguei. O telefone dele não estava recebendo cham adas. Adam vive se esquecendo de recarregar a bateria.
– Então você veio até aqui?
– É.
– E resolveu ficar no carro em vez de bater à porta.
– Dan, sei que você é policial, m as dá um tem po, vai. Só estou procurando m eu filho, o.k.?
– Ele não está aqui.
– E DJ? Talvez ele saiba do Adam .
– Tam bém não está.
Mike esperou que Huff se oferecesse para ligar para o filho. Ele não se ofereceu e Mike não se sentiu à vontade para pedir. Aquela conversa j á tinha ido longe dem ais. Se um a festinha na casa dos Huff tivesse sido planej ada, fora cancelada em algum m om ento. Mike não queria esticar o assunto com aquele hom em antes de obter m ais inform ações. Nunca tivera sim patia pelo policial, m uito m enos agora.
Por outro lado, com o explicar o GPS?
– Foi um prazer ver você, Dan.
– Igualm ente.
– Se tiver algum a notícia do Adam …
– Pode deixar que m ando ele ligar para você. Tenha um a boa noite. E dirij a com cuidado.
♦♦♦
– Bigode de gatinho – disse Nash.
Pietra j á havia voltado para o volante. Nash fizera com que ela o seguisse durante cerca de 45 m inutos. Eles deixaram o Acura no estacionam ento de um Ram ada Inn, na East Hanover. Quando ele fosse encontrado, a prim eira hipótese seria a de que Reba havia desaparecido no hotel. A polícia ficaria se perguntando por que um a m ulher casada estivera num hotel tão perto de casa. Provavelm ente pensariam que ela tinha um am ante. O m arido negaria com veem ência.
Por fim , tal com o havia acontecido com Marianne, a verdade viria à tona. Mas levaria algum tem po.
Eles haviam recolhido as com pras que Reba fizera na Target. Deixá-las no porta-m alas facilitaria o trabalho da polícia. Nash vasculhou as sacolas. Reba tinha com prado roupas íntim as, livros e até alguns DVDs para a fam ília.
– Você ouviu o que eu disse, Reba? – Ele ergueu a caixinha de um dos film es. – Bigode de gatinho.
Reba estava com as pernas e os braços am arrados com um a única corda. Suas
feições de boneca pareciam frágeis com o porcelana. Nash havia retirado o lenço de sua boca. Reba levantou o rosto e gem eu.
– Não tente se soltar – disse ele. – Assim você só vai se m achucar. E daqui a pouco j á vou ferir você o suficiente.
Reba engoliu em seco.
– O que… vocês querem ? – conseguiu dizer.
– Estou falando desse film e que você com prou. – Nash ergueu a caixinha. – A noviça rebelde, um clássico.
– Quem são vocês?
– Se fizer m ais um a pergunta, vai com eçar a apanhar agora m esm o. Ou sej a, você vai sofrer bastante e m orrer m ais cedo. E, se m e encher m uito o saco, vou pegar a Jam ie e fazer a m esm a coisa com ela. Está entendendo?
Os olhinhos de Reba piscaram com o se ela tivesse levado um tapa na cara. As lágrim as com eçaram a rolar.
– Por favor…
– Você se lem bra de A noviça rebelde, sim ou não?
Ela tentou parar de chorar, engolir as lágrim as.
– Reba?
– Sim .
– Sim o quê?
– Sim , eu m e lem bro.
Nash sorriu para ela.
– E desse verso, “bigode de gatinho”, você se lem bra tam bém ?
– Lem bro.
– É de que canção?
– O quê?
– A canção. Você se lem bra do nom e da canção?
– Acho que não.
– Claro que lem bra, Reba. É só pensar um pouco.
Ela tentou, m as o m edo tinha um efeito paralisante e Nash sabia bem disso.
– Você está confusa – disse ele. – Norm al. O nom e da canção é “Minhas coisas favoritas”. Está lem brando agora?
Depois de um esforço, ela disse:
– Lem bro. Lem bro, sim .
Nash sorriu satisfeito.
– Cam painhas – falou em seguida.
Reba estava com pletam ente perdida.
– Você tam bém se lem bra dessa parte? Julie Andrews está com as crianças, elas tinham pesadelos, ou m edo de trovão, um a coisa assim , e, para acalm á-las, ela pede que com ecem a pensar em suas coisas favoritas. Para espantar o m edo. Você se lem bra, não lem bra?
Reba voltou a chorar e só conseguiu assentir com a cabeça.
– Aí eles com eçam a cantar. Sobre cam painhas! Dá para acreditar nisso? Se você perguntar a um m ilhão de pessoas quais são suas cinco coisas favoritas, aposto que nenhum a delas, nem umazinha só, vai dizer “cam painha”. Im agine só: “Minha coisa favorita? Cam painha, claro! Sim , senhor, não tem nada m elhor na vida que um a boa cam painha! Se estou triste e quero m e anim ar, toco um a cam painha. Esse é o segredo. Se estou brocha? Toco um a cam painha. Sabe o que realm ente m e deixa louco? São aquelas que fazem barulho de sininho. Ah, não resisto.”
Nash se calou um instante. Depois deu um risinho, balançou a cabeça e prosseguiu:
– Lem bra daquele j ogo das fam ílias na televisão? Family Feud, era assim que se cham ava, não era? – E parodiando o apresentador Richard Dawson, em endou: – Vam os lá, as 10 respostas m ais citadas nas pesquisas! Você disse “cam painha”? Péééééém! Não, infelizm ente não tem cam painha.
Ele riu. Pietra riu tam bém .
– Por favor – suplicou Reba –, o que vocês querem de m im ?
– Já vam os chegar lá, Reba. Mas posso dar um a dica.
Ela esperou.
– O nom e Marianne lhe diz algum a coisa?
– O quê?
– Marianne.
– O que tem ela?
– Ela m andou um a coisinha para você.
Reba ficou ainda m ais apavorada.
– Por favor, não m e m achuquem .
– Sinto m uito, Reba. Não vai dar. Vou ter de m achucar você. E m uito.
Então, Nash passou para o banco traseiro da van e provou que não estava m entindo.