Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 22 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 22

22

Q UANDO GUY NOVAK VOLTOU PARA CASA e parou diante da garagem , apertava o volante com tanta força que os nós dos dedos j á estavam esbranquiçados. Ficou ali, parado, o pé

pousado no freio. Daria tudo para estar sentindo qualquer outra coisa que não fosse aquela

terrível sensação de im potência.

Olhou para seu reflexo no retrovisor. Notou que seus cabelos estavam rareando. Com eçava a reparti-los cada vez m ais próxim o à orelha. Ainda não era daqueles que tentavam esconder a calvície com m eia dúzia de fios longuíssim os penteados para o lado. Pelo m enos ainda não se via assim , com o a m aioria dos calvos. Acontece que a linha divisória vai se deslocando tão sorrateiram ente para baixo que fica difícil notar qualquer diferença de um dia para o outro, ou de um a sem ana para a outra e, de repente, sem nos darm os conta, as pessoas j á estão rindo de nós pelas costas.

Guy encarou o hom em no espelho e não acreditou que era ele m esm o. A linha divisória dos cabelos continuaria a descer. Ele sabia disso. Antes a m eia dúzia de fios longuíssim os penteados para o lado do que um a careca reluzente.

Patético.

Nem m esm o era um hom em de verdade. Que coisa m ais ridícula: ficar rondando um a casa de carro. Quanta valentia. Cadê sua coragem , Guy ? Ou será que você não é m acho o bastante para encarar o filho-da-m ãe que arruinou a vida de sua filha?

Que espécie de pai é esse? Que espécie de hom em ?

Um pai ou um hom em patético.

Ah, claro, Guy havia reclam ado com o diretor da escola feito um bebê-chorão. O diretor pediu todas as desculpas de praxe, ofereceu apoio, m as não fez absolutam ente nada. Lewiston ainda trabalhava lá. Ainda voltava para casa no fim do dia, beij ava sua linda m ulher e provavelm ente levantava a filhinha no ar e se deliciava com os risinhos dela. A ex-m ulher de Guy , m ãe de Yasm in, tinha ido em bora quando a m enina não havia sequer com pletado 2 anos. A m aioria das pessoas a culpava por ter abandonado a fam ília, m as a verdade era que Guy não havia sido hom em o bastante. A ex-m ulher com eçara a traí-lo e, depois de um tem po, deixara de se im portar com a discrição.

Essa havia sido sua m ulher. Ele a deixara escapar. Tudo bem , isso era um a coisa.

Mas com Yasm in era com pletam ente diferente.

Ela era sua filha. Sua adorável filhinha. Este havia sido o único ato de virilidade do qual ele fora capaz em toda a vida. Ter um a filha. Criá-la. Cuidar dela.

No entanto, sua principal tarefa de pai não seria j ustam ente protegê-la?

Belo trabalho, Guy .

E agora ele nem sequer era hom em o bastante para lutar por ela. O que o pai dele diria de um a coisa dessas? Daria um risinho irônico, seguido daquele olhar que fazia Guy se sentir o pior dos m ortais. E seguram ente o cham aria de banana, pois, no lugar dele, George Novak teria m andado para o inferno qualquer um que levantasse um dedo sequer para m achucar alguém de sua fam ília.

Era isso que Guy gostaria de fazer.

Ele saiu do carro e foi cam inhando rum o à porta. Já fazia 12 anos que m orava ali. Ainda se lem brava do dia em que ele e a ex-m ulher, de m ãos dadas, tinham visto aquela casa pela prim eira vez. Lem brava-se do sorriso no rosto dela. Será que ela j á o traía naquela época? Provavelm ente. Durante anos após a separação, Guy se perguntara se Yasm in era m esm o sua filha. Tentava bloquear esse pensam ento, ignorar essa dúvida que o corroía por dentro; dizia a si m esm o que isso não tinha a m enor im portância. Mas depois de um tem po não agüentou m ais. Yasm in j á estava com 9 anos quando Guy, sorrateiram ente, providenciou um teste de paternidade. Os resultados levaram três dolorosas sem anas para chegar, m as, no fim , a espera valeu a pena.

Yasm in era filha dele.

E por m ais patético que isso pudesse parecer, saber da verdade fez de Guy um pai m elhor. Ele não m edia esforços para que a filha fosse feliz. Colocava as necessidades dela à frente das suas. Am ava Yasm in, cuidava dela e j am ais a hum ilhava com o seu próprio pai fizera tantas vezes com ele.

Mas não fora capaz de protegê-la.

Guy parou um instante e adm irou sua casa. Se fosse colocá-la à venda, teria de, pelo m enos, providenciar um a pintura. O j ardim tam bém precisaria de um a lim peza.

– Ei! – cham ou um a m ulher.

Guy não reconheceu a voz. Virou-se para trás e apertou as pálpebras contra a luz do sol. Levou um susto ao ver a esposa de Lewiston descer do carro. Parecia furiosa. Ela veio se aproxim ando.

Guy ficou parado onde estava.

– Que diabos você acha que está fazendo – perguntou ela, ainda no m eio do cam inho –, rondando nossa casa daquela m aneira?

Guy , que nunca fora bom com respostas rápidas, disse apenas:

– Estam os num país livre.

Dolly Lewiston não se deteve. Seguia na direção de Guy tão rapidam ente que parecia determ inada a atropelá-lo. Ele chegou a levantar as m ãos e dar um passo atrás. O covarde patético de sem pre. Com m edo não só de defender a filha com o tam bém de enfrentar a esposa do hom em que lhe causara tanto sofrim ento.

Enfim Dolly parou e, dedo em riste, am eaçou:

– Fique longe da m inha fam ília, ouviu bem ?

Guy levou um tem po para organizar as idéias.

– Você sabe o que seu m arido fez com m inha filha?

– Ele com eteu um erro.

– Não. Ele zom bou de um a m enina de 11 anos.

– Sei o que ele fez. Um a grande besteira. Ele está arrependido. Você nem im agina com o.

– Ele transform ou a vida da m inha filha num inferno.

– E por isso você pretende fazer a m esm a coisa com a gente?

– Seu m arido deveria ter pedido dem issão – disse Guy .

– Por causa de um único descuido?

– Ele acabou com a infância dela.

– Não sej a dram ático.

– Aposto que você ainda se lem bra de com o eram as coisas na sua infância, quando um a criança era escolhida com o saco de pancadas do colégio inteiro. Lem bra ou não lem bra? Minha filha era um a criança feliz. Não era perfeita. Mas feliz. E agora…

– Olhe, eu sinto m uito. De coração. Mas exij o que você fique longe da m inha fam ília.

– Se ele tivesse agredido Yasm in fisicam ente, com um tapa, sei lá, seu m arido j á estaria na rua há m uito tem po, não estaria? Mas o que ele fez foi m uito pior.

Dolly Lewiston fez um a careta de incredulidade.

– Você está falando sério?

– Não vou deixar barato.

Ela deu um passo na direção dele. Dessa vez Guy não recuou. O espaço entre eles não passava de uns 30 centím etros. Quase sussurrando, Dolly falou:

– Você realm ente acha que ser ridicularizada é a pior coisa que pode acontecer à sua filha?

Guy abriu a boca, m as não encontrou as palavras.

– O senhor está m exendo com a m inha fam ília, Sr. Novak. Minha fam ília. As pessoas que m ais am o no m undo. Meu m arido com eteu um erro. Já se desculpou. Mas o senhor ainda quer nos prej udicar. Nesse caso, vam os ter de nos defender.

– Se você estiver falando de um processo…

Ela deu um risinho.

– Ah, não… – disse, ainda sussurrando. – Não é nada disso.

– Então o que é?

Dolly Lewiston inclinou a cabeça para a direita.

– Por acaso o senhor j á foi agredido fisicam ente, Sr. Novak?

– Isso é um a am eaça?

– É um a pergunta. O senhor disse que o descuido do m eu m arido foi pior que um a agressão física. Pois vou lhe dizer um a coisa, Sr. Novak. Um a surra é m uito pior. Conheço algum as pessoas… Se eu desconfiar que m inha fam ília está correndo algum tipo de risco, basta estalar os dedos e eles vão aparecer por aqui qualquer noite dessas, quando o senhor estiver dorm indo. Quando sua filha estiver dorm indo.

Guy sentiu a boca secar. Fez o que pôde para que os j oelhos não fraquej assem .

– Isso definitivam ente soa com o um a am eaça, Sra. Lewiston.

– Não é am eaça. É um fato. Se você nos im portunar, não vam os ficar esperando sentados. Vou partir para briga com todas as arm as de que disponho. Está entendendo?

Guy não respondeu.

– Faça um favor a si m esm o, Sr. Novak. Cuide da sua filha e deixe m eu m arido em paz. Esqueça esse assunto.

– Não vou esquecer.

– Então seus problem as só com eçaram .

Dolly Lewiston deu m eia-volta e saiu sem dizer m ais nada. Guy Novak sentiu as pernas trem erem . Esperou Dolly entrar no carro e partir. Em bora não pudesse ver, tinha certeza de que ela estava sorrindo.

Ela é louca, pensou.

Mas isso significava que ele deveria recuar? Guy j á havia recuado o suficiente na vida. Aliás, não seria este o problem a desde o início? Guy Novak recuava e todo m undo se via no direito de atropelá-lo.

Ele abriu a porta e entrou em casa.

– Tudo bem com você?

Era Beth, a nam orada m ais recente. Ela se esforçava dem ais para agradar. Todas agiam da m esm a form a. A escassez de hom ens naquela faixa etária era tão grande que as m ulheres se esforçavam não só para agradar com o tam bém para não parecerem desesperadas. Poucas davam conta do recado. Porque o desespero é assim : por m ais que se tente escondê-lo, sem pre é possível sentir seu cheiro.

Guy adoraria pular esse estágio de m odo que as m ulheres pudessem vê-lo com o ele de fato era. Mas infelizm ente as coisas não eram assim , e a m aioria de seus relacionam entos acabava m orrendo nesse nível superficial. As m ulheres sem pre queriam m ais. Tentavam não pressionar, m as só isso j á era pressão suficiente. As m ulheres queriam ninho. Queriam intim idade. Ele, não. Mas elas insistiam em continuar, até que ele tom ava a iniciativa de term inar.

– Tudo ótim o – respondeu Guy . – Desculpe a dem ora.

– Que nada.

– Tudo bem com as m eninas?

– Tudo. A m ãe de Jill passou aqui para buscá-la. Yasm in está no quarto.

– Ótim o, ótim o.

– Você está com fom e? Quer que eu prepare algum a coisa para você com er?

– Só se você for com er j unto com igo…

Notando o brilho no olhar de Beth, Guy sentiu um a ponta de culpa. As m ulheres que ele nam orava faziam com que ele se sentisse ao m esm o tem po inferior e superior. Mais um a vez ele se deixou levar pela enxurrada da auto-recrim inação.

Beth se aproxim ou e o beij ou na bochecha.

– Descanse um pouquinho – disse –, enquanto preparo o alm oço.

– Só vou dar um a olhada rápida nos e-m ails.

Mas quando abriu a caixa de correio, Guy encontrou apenas um a única m ensagem . Um a conta anônim a de Hotm ail. O texto curto era de causar arrepios.

Por favor, preste atenção. Você precisa esconder m elhor sua arm a.

♦♦♦

Por pouco Tia não se arrependeu de ter recusado a oferta de Hester Crim stein. Presa em casa, refletiu se algum a vez na vida se sentira tão inútil. Já havia ligado para os am igos de Adam , m as ninguém sabia de nada. O m edo com eçava a dom iná-la. Jill, que conhecia m uito bem as variações de hum or dos pais, sabia que algo m uito grave estava acontecendo.

– Onde está o Adam , m ãe?

– Não sei, m eu am or.

– Liguei para o celular dele – disse Jill. – Mas ele não atendeu.

– Eu sei – devolveu Tia. – Estam os tentando encontrá-lo.

Ela olhou para a filha. Tão m adura… De m odo geral, o segundo filho se revela bem diferente do prim eiro. Os pais sem pre exageram na proteção dos prim ogênitos. Vigiam cada passo deles. Acham que cada espirro faz parte de algum plano secreto de Deus. A Terra, o sol, a lua, as estrelas: tudo gira em torno do prim eiro filho.

Pensando nos segredos que todos nós guardam os, em nossos pensam entos e m edos m ais íntim os, Tia refletiu sobre as tentativas que vinha fazendo para descobrir o que se passava na m ente de seu filho. Agora ela se perguntava se o desaparecim ento dele era prova de que ela agira certo ou errado. Tia sabia que todo m undo tinha seus problem as. Ela própria era ansiosa dem ais. Obrigava os filhos a usarem boné ou chapéu quando praticavam esportes ao ar livre – e, às vezes, óculos escuros tam bém . Sem pre esperava no ponto do ônibus até que eles entrassem . Mesm o agora, que Adam crescera e detestava quando a m ãe fazia isso, ela se escondia e o observava. Não gostava que os filhos tivessem de atravessar ruas m ovim entadas ou que fossem para o centro de bicicleta. Não gostava que pegassem carona com colegas para a escola, receando que a outra m ãe não fosse tão cuidadosa ao volante quanto deveria. Acom panhava de perto todas as tragédias que envolviam crianças: acidentes de avião, batidas de carro, afogam entos, seqüestros, tudo. Ouvia as notícias na rua e assim que chegava em casa corria para o com putador e lia tudo o que estivesse disponível na internet sobre o assunto. Mike tentava acalm á-la, dizendo que era pouco provável que os filhos estivessem envolvidos nesta ou naquela história, tentando m ostrar que os tem ores dela eram infundados, que tanta aflição não servia para nada.

Mas o im provável sem pre acontecia a alguém . E agora estava acontecendo com ela.

Excesso de ansiedade? Ou ela estaria certa desde o início?

Mais um a vez o celular de Tia vibrou e ela atendeu prontam ente, esperando com todas as forças que fosse Adam . Não era. Era um núm ero confidencial.

– Alô?

– Sra. Bay e? Aqui é a investigadora Schlich.

A m ulher alta do hospital. Tia teve ainda m ais m edo. Acham os que em determ inado m om ento essa sensação vai passar e ficarem os anestesiados, m as isso não acontece.

– Sim ?

– O celular do seu filho foi encontrado num a lata de lixo não m uito longe de onde seu m arido foi atacado.

– Quer dizer então que ele estava m esm o lá?

– Bem , pelo m enos é isso que podem os supor.

– E provavelm ente alguém roubou o telefone dele.

– Isso não podem os afirm ar. Tam bém é possível que o próprio Adam tenha j ogado o aparelho no lixo depois de ver o pai e deduzir o que ele tinha feito para encontrá-lo.

– Mas isso vocês tam bém não podem afirm ar.

– Não, Sra. Bay e, não podem os.

– Esse fato novo vai fazer com que vocês levem o caso do m eu filho m ais a sério?

– Sem pre levam os o caso do seu filho a sério – disse Schlich.

– A senhora entende o que eu quis dizer, não entende?

– Entendo. Cham am os aquele lugar de “Rua dos Vam piros” porque não tem ninguém por ali durante o dia. Absolutam ente ninguém . Portanto, hoj e à noite, depois que os bares e as boates abrirem , vam os até lá fazer algum as perguntas. – Ainda faltavam horas para o anoitecer. – Se tiverm os m ais algum a novidade, volto a ligar.

– Obrigada.

Tia estava desligando o telefone quando viu o carro estacionar diante da garagem de sua casa. Ela foi até a j anela e viu Betsy Hill, a m ãe de Spencer, descer e cam inhar em direção à porta.

♦♦♦

Ilene Goldfarb acordou cedo e ligou a cafeteira. Vestiu o robe, calçou os chinelos e foi buscar o j ornal à soleira da porta. O m arido, Herschel, ainda estava na cam a. O filho, Hal, chegara tarde em casa, tal com o convinha a um adolescente no últim o ano de escola. Já havia sido aceito em Princeton, a m esm a universidade em que ela tinha estudado. Ele se esforçara m uito para conseguir isso. Agora se divertia para relaxar e Ilene não via nenhum problem a nisso.

O sol da m anhã invadia a cozinha. Ilene sentou-se em sua cadeira predileta, cruzou as pernas sob a m esa e afastou todos os periódicos de m edicina. Havia m uitos deles. Além de ser um a renom ada cirurgiã de transplantes, seu m arido, que atendia no Valley Hospital de Ridgewood, era o m ais conceituado cardiologista do norte de Nova Jersey .

Ilene tom ou um gole de café, leu algum a coisa do j ornal e depois ficou pensando nos sim ples prazeres da vida e nas raras oportunidades que tinha para desfrutá-los. Tam bém pensou em Herschel e se lem brou de com o ele era bonito nos tem pos da faculdade. A relação deles tinha resistido aos horários m alucos e a outras tantas dificuldades do curso de m edicina, dos estágios e das residências. Então pensou em seus sentim entos por ele, em com o haviam se transform ado ao longo dos anos em algo que ela j ulgava reconfortante e, sobretudo, pensou na recente proposta do m arido, que a fizera se sentir tão m al: um a “separação provisória”, agora que Hal estava abandonando o ninho.

“O que foi que sobrou?”, ele lhe perguntara na ocasião. “Depois de 24 anos de casam ento, Ilene, o que foi que sobrou?”

Na tranqüilidade daquela cozinha vazia, a poucos m etros de onde Herschel havia feito a tal pergunta, ela ainda podia ouvir o eco das palavras dele.

Ilene havia se desdobrado em m uitas para conquistar tudo o que tinha: um a carreira de sucesso, um a fam ília m aravilhosa, a casa dos seus sonhos, o respeito dos am igos e colegas de trabalho. E agora Herschel queria saber o que havia sobrado. Boa pergunta. A transform ação de seus sentim entos fora tão lenta que ela nem sequer havia notado. Ou não tinha se im portado. Tam bém não sentira falta deles. Quem poderia dizer?

Ela olhou na direção da escada. Pensou em subir ao quarto naquele exato m om ento, pular na cam a com o m arido e fazer am or durante horas, com o eles faziam anos antes, até que aquela pergunta ridícula não tivesse m ais sentido. Mas Ilene não conseguiu sair de onde estava. Sim plesm ente não encontrou forças. Então voltou a ler o j ornal, tom ou m ais um gole de café e secou as lágrim as.

– Bom dia, m ãe.

Hal abriu a geladeira e tom ou um pouco de suco de laranj a diretam ente da caixinha. Houve um tem po em que Ilene se dava o trabalho de tentar corrigir esse m au hábito do filho – e foram anos de tentativas –, m as Hal era o único que bebia suco de laranj a e m uitas horas tinham sido desperdiçadas com coisas assim . Em breve ele partiria para a universidade. O tem po que eles tinham para ficar j untos estava se esgotando. Por que gastá-lo com bobagens dessa natureza?

– Oi, querido. Chegou tarde ontem ?

Ele bebeu m ais um pouco de suco e deu de om bros. Usava berm udas e um a cam iseta cinza e tinha um a bola de basquete debaixo do braço.

– Vai j ogar no ginásio da escola? – perguntou Ilene.

– Não, no Heritage. – E depois de um terceiro gole, Hal perguntou à m ãe: – Está tudo bem com você?

– Com igo? Claro. Por que não estaria?

– Seus olhos estão verm elhos.

– Estou bem , não se preocupe.

– E vi aqueles caras que apareceram por aqui.

Ele se referia aos agentes do FBI, que tinham vindo interrogá-la sobre seu trabalho, sobre Mike e outras coisas que aparentem ente não faziam o m enor sentido. Norm alm ente, Ilene teria conversado com o m arido sobre o assunto, m as, ao que parecia, Herschel estava ocupado dem ais pensando no que faria durante o resto da vida sem ela.

– Pensei que você tivesse saído – disse Ilene.

– Parei para pegar o Ricky e acabei voltando pela rua. Eles pareciam da polícia, sei lá.

Ilene Goldfarb não disse nada.

– Então, eles eram da polícia?

– Não era nada im portante. Não precisa se preocupar.

Hal se deu por satisfeito e saiu quicando a bola porta afora. Vinte m inutos depois, o telefone tocou. Ilene olhou para o relógio. Oito da m anhã. Àquela hora só podia ser alguém cham ando do hospital, em bora ela não estivesse de plantão naquele dia. As telefonistas sem pre com etiam esse tipo de engano e encam inhavam os recados para o m édico errado.

O identificador de cham adas do celular inform ava: LORIMAN.

Ilene atendeu.

– Aqui é Susan Lorim an.

– Pois não. Bom dia.

– Não quero conversar com o Mike sobre… – Susan Lorim an parou em busca das palavras certas. – Sobre essa situação. Essa história de encontrar um doador para o Lucas.

– Entendo – disse Ilene. – Na terça-feira vou estar no consultório, se você quiser…

– Você não pode m e receber hoj e?

Ilene estava prestes a dizer não. A últim a coisa que ela queria naquele m om ento era encobrir ou até m esm o aj udar um a m ulher que havia se m etido naquele tipo de encrenca. Mas não se tratava apenas de Susan Lorim an, ela lem brou a si m esm a. Tratava-se, sobretudo, de Lucas, seu paciente.

– Acho que posso – disse. – Posso, sim .