Confie em Mim
Capítulo 32
32
MUSE INTERROGOU YASMIN COM CAUTELA, m as a filha de Marianne Gillespie não sabia
de nada.
A m enina não tinha visto a m ãe recentem ente. Nem m esm o sabia que ela estava na cidade.
– Pensei que ela estivesse em Los Angeles – disse.
– Ela lhe disse que iria para lá?
– Disse. – E depois: – Quer dizer, ela m andou um e-m ail.
Muse lem brou-se de que Guy Novak tinha dito a m esm a coisa.
– E você ainda tem esse e-m ail? – perguntou.
– Posso olhar. Está tudo bem com a Marianne?
– Você cham a sua m ãe assim , pelo prim eiro nom e?
Yasm in deu de om bros.
– Ela nunca quis ser m ãe. Então, para que ficar lem brando?
Eles crescem rápido, pensou Muse. Novam ente perguntou:
– Então, você ainda tem o e-m ail?
– Acho que sim . Provavelm ente está lá no m eu com putador.
– Eu gostaria que você im prim isse um a cópia para m im .
Yasm in franziu as sobrancelhas, séria.
– Mas não vai m e dizer o que está acontecendo – disse. Não foi exatam ente um a pergunta.
– Ainda não há nenhum m otivo para se preocupar – devolveu Muse.
– Sei. Você não quer preocupar a m enininha. Mas se fosse com a sua m ãe e você tivesse m inha idade, não iria querer saber?
– Tem razão. Mas, com o eu disse, ainda não sabem os de nada. Seu pai logo estará de volta. Agora eu realm ente gostaria de ver aquele e-m ail.
Yasm in foi até o quarto. A am iga perm aneceu na cozinha. Em outras circunstâncias, Muse teria pedido para ficar sozinha com Yasm in, m as a am iguinha parecia acalm á-la.
– Com o você se cham a m esm o? – perguntou Muse.
– Jill Bay e.
– Jill, por acaso você j á esteve com a m ãe de Yasm in?
– Algum as vezes, sim .
– Você parece preocupada.
– Você é da polícia e veio fazer perguntas sobre a m ãe da m inha am iga. Eu não devia ficar preocupada?
Crianças.
Yasm in trotou escadaria abaixo com um a folha de papel na m ão.
– Aqui está – disse.
Muse leu:
Oi! Estou indo para Los Angeles e volto daqui a algum as sem anas. Entro em contato assim que chegar.
Isso explicava m uita coisa. Muse havia se perguntado por que ninguém dera queixa do
desaparecim ento dela. Sim ples. A m ulher vivia sozinha na Flórida. Por conta de seu estilo de vida e daquela m ensagem , poderiam se passar m eses antes que alguém suspeitasse de que ela tivesse se m etido num a encrenca qualquer.
– Isso aj uda em algum a coisa? – perguntou Yasm in.
– Aj uda, sim . Obrigada.
As lágrim as brotaram nos olhos da m enina.
– Apesar de tudo, ela é m inha m ãe, sabe?
– Claro, m eu am or.
– Ela gosta de m im . – Yasm in com eçou a chorar. Muse deu um passo na direção dela, m as a m enina ergueu a m ão para detê-la. – Ela não sabe com o ser m ãe, só isso. Mas faz o que pode.
– Fique tranqüila, Yasm in. Sua m ãe não está em j ulgam ento. Não é isso.
– Então o que é? Diga, por favor.
– Não posso.
– Mas é algo ruim , não é? Isso a senhora pode falar. É ou não é.
Muse queria ser honesta com a m enina, m as ali não era o lugar, nem aquela era a hora adequada.
– Seu pai j á deve estar chegando. Agora preciso voltar ao trabalho.
♦♦♦
– Fique calm o – disse Nash.
Joe Lewiston levantou-se do chão num único e fluido m ovim ento. Os professores, pensou Nash, deviam estar acostum ados àquilo.
– Sinto m uito, eu não devia ter m etido você nessa história.
– Não. Você agiu certo ao m e cham ar.
Nash olhou para o antigo cunhado. Jam ais dizia “ex-cunhado”, porque “ex” im plicava divórcio e não era o caso. Cassandra Lewiston, sua adorada esposa, tinha cinco irm ãos. Joe Lewiston era o caçula e o predileto. Com o assassinato do m ais velho, Curtis, m ais de um a década antes, ela ficara arrasada. Passara dias chorando, se recusando a sair da cam a. Mesm o sabendo que era um a hipótese irracional, Nash m uitas vezes cogitava se tam anha tristeza não havia sido a causa da doença dela, suspeitando que o excesso de sofrim ento de algum a form a lhe tivesse debilitado o sistem a im unológico. Talvez o câncer estivesse dentro de todos nós, essas células devoradoras de vida, apenas esperando um lapso das nossas defesas para entrar em ação.
– Prom eto que vou descobrir quem m atou Curtis – dissera Nash à sua am ada.
Mas não cum prira a prom essa. Cassandra não se im portara nem um pouco com isso, não estava interessada em vingança. Tinha saudades do irm ão m ais velho, só isso. Nash tam bém prom etera que j am ais perm itiria que ela sofresse daquele j eito novam ente. Protegeria todas as pessoas que ela am ava. Para sem pre.
E repetira a prom essa no leito de m orte da m ulher, que aparentem ente ficou reconfortada.
– Você vai olhar por eles? – perguntara Cassandra.
– Vou.
– Eles tam bém vão olhar por você.
Nash se calara diante disso.
Joe veio andando na direção dele. Nash correu os olhos pela sala de aula. Constatou que em m uitos aspectos as salas de aula quase não haviam m udado desde seus tem pos de estudante. Ainda se viam as regrinhas escritas à m ão; o alfabeto em letra cursiva, com m aiúsculas e m inúsculas; as cores vivas espalhadas por todos os cantos. Pinturas recentes secavam num varal.
– Aconteceu m ais um a coisa – disse Joe.
– O quê?
– Guy Novak tem rondado nossa casa. Fica circulando de carro e, quando passa na nossa porta, reduz e fica olhando. Está assustando Dolly e Allie.
– Desde quando ele está fazendo isso?
– Mais ou m enos um a sem ana.
– Por que você não falou antes?
– Achei que não fosse im portante, que ele fosse parar.
Nash fechou os olhos e disse:
– E por que você acha que agora é im portante?
– Porque Dolly ficou realm ente aborrecida quando ele apareceu por lá hoj e de m anhã.
– Guy Novak ficou rondando sua casa hoj e de m anhã?
– Ficou.
– E você acha que ele está planej ando algum a coisa?
– Que outro m otivo ele teria?
Nash balançou a cabeça.
– Estávam os errados desde o início – falou.
– Com o assim ?
Mas não havia necessidade de explicar. Dolly Lewiston ainda estava recebendo os e-m ails. Isso significava que não era Marianne quem os vinha m andando, em bora, depois de m uito sofrim ento, ela tivesse confessado o contrário.
Guy Novak era o autor das m ensagens.
Nash m ais um a vez se lem brou da prom essa feita a Cassandra. Sabia o que teria de fazer agora para resolver a situação.
– Com o eu pude ser tão burro… – resm ungou Joe Lewiston, assustado.
– Ouça o que eu vou lhe dizer, Joe.
Nash ficou aliviado que a m ulher não estivesse ali para ver o irm ãozinho querido naquele estado, tão assustado. Pensou na terrível decadência pela qual ela passara na fase term inal da doença. Os cabelos haviam caído. A pele ficara am arelada. Feridas abertas pontilhavam o couro cabeludo e o rosto. Ela perdera o controle de suas necessidades fisiológicas. Apesar das dores que por vezes beiravam o intolerável, Cassandra fizera Nash prom eter que não interferiria no processo. Ela crispava os lábios e arregalava os olhos com o se presas de aço a estivessem com endo por dentro. Feridas no interior da boca a im pediam de falar. Nash sentava-se ao lado dela e assistia ao triste espetáculo rem oendo-se de raiva.
– Tudo vai dar certo, Joe.
– O que você pretende fazer?
– Não se preocupe, o.k.? Tudo vai ficar bem , prom eto.
♦♦♦
Betsy Hill esperava por Adam j unto ao pequeno m atagal atrás de sua casa.
O lugar fazia parte do terreno, m as eles nunca haviam se dado o trabalho de lim pá-lo. Alguns anos antes, ela e Ron pensaram em desm atar a área e instalar ali um a piscina, m as a despesa seria m uito grande e os gêm eos ainda eram pequenos dem ais. Portanto eles nunca levaram a idéia adiante. Quando Spencer tinha cerca de 9 anos, Ron construíra um forte ali. Os m eninos adoravam brincar nele. Tam bém havia gangorras, um m odesto conj unto com prado na Sears. Tanto o forte quanto as gangorras tinham sido abandonados havia m uito tem po, m as, procurando com atenção, ainda era possível encontrar pregos e pequenos pedaços de cano enferruj ado.
Com o passar dos anos, Spencer com eçou a usar o lugar com o refúgio para bater papo com os am igos. Certa vez, Betsy encontrara garrafas de cervej a por lá. Quis conversar com ele sobre isso, m as sem pre que tocava no assunto, Spencer se distanciava ainda m ais. Era só um adolescente tom ando um a cervej a. Que m al poderia haver nisso?
– Sra. Hill?
Betsy se virou e deparou com Adam , que havia entrado pelo outro lado, pelo quintal dos Kadison.
– Meu Deus! – exclam ou ela. – O que aconteceu com você?
O rosto de Adam , além de suj o, estava inchado. Tinha um a atadura enrolada no braço. A cam isa estava rasgada.
– Está tudo bem – disse ele.
Betsy respeitara o pedido dele e não avisara a seus pais. Tem ia arruinar aquela oportunidade única. Talvez isso não estivesse certo, m as ela j á havia tom ado tantas decisões equivocadas ao longo dos últim os m eses que um a a m ais não faria diferença.
Mesm o assim , ela disse:
– Seus pais estão tão preocupados com você…
– Eu sei.
– O que houve, Adam ? Onde você se m eteu?
Adam balançou a cabeça. E algo nesse gesto fez com que Betsy se lem brasse do pai dele, Mike. À m edida que os filhos crescem , não só vão ficando m ais parecidos com os pais com o tam bém com eçam a exibir os m esm os trej eitos. Adam j á era um rapagão, m aior que o pai, quase um hom em .
– Acho que aquela foto j á estava no site há m uito tem po – disse ele. – Eu nunca abro aquela página.
– Não?
– Não.
– Posso saber por quê?
– Para m im não é o Spencer que está ali, sabe? Quer dizer, nem conheço as garotas que m ontaram o site. Tenho m inhas próprias lem branças. Não preciso daquilo lá.
– Você sabe quem foi que tirou aquela foto?
– DJ Huff, eu acho. Não dá para saber direito. Eu estava no fundo, olhando para outro lado. Mas o DJ colocou um m onte de fotos naquele site. Provavelm ente ele nem se deu conta de que tinha sido tirada naquela noite.
– O que aconteceu, Adam ?
Adam com eçou a chorar. Segundos antes Betsy vira que ele j á era quase um adulto. Mas agora o m enino estava de volta.
– Nós brigam os.
Apesar dos dois m etros que os separavam , Betsy por pouco podia ouvir o turbilhão no peito do garoto.
– Por isso ele estava com o olho roxo – prosseguiu Adam .
– Você deu um soco nele?
Adam fez que sim com a cabeça.
– Vocês eram am igos – disse Betsy . – Por que brigaram ?
– Por causa de um a garota. Nós j á tínham os bebido m uito. Com eçam os a discutir, e a coisa saiu do controle. Dei uns em purrões nele e ele tentou m e dar um soco, m as eu m e abaixei e depois acertei um m urro nele.
– Por causa de um a garota?
Adam baixou os olhos.
– Quem m ais estava lá? – perguntou Betsy .
– Não interessa – respondeu ele, balançando a cabeça.
– Interessa para m im .
– Mas não devia. Foi com igo que ele brigou.
Betsy procurou im aginar a cena. Seu filho lindo e querido, esm urrado pelo m elhor am igo em seu últim o dia de vida. Ela tentou m anter a calm a, m as não conseguiu.
– Não estou entendendo nada disso! Onde vocês estavam ?
– Tínham os com binado de ir ao Bronx. Tem um lugar lá, um a boate onde m enores de idade podem entrar.
– No Bronx?
– Mas antes de sairm os, Spencer e eu brigam os. Dei um m urro nele e o cham ei de um m onte de coisas horríveis. Eu estava com m uita raiva. E depois ele saiu correndo. Eu devia ter ido atrás dele, m as não fui. Deixei que ele fosse em bora. Eu devia ter adivinhado o que ele ia fazer.
Betsy Hill sim plesm ente ficou ali, paralisada. Lem brou-se do que Ron tinha dito, que ninguém havia forçado o filho deles a roubar vodca e com prim idos de casa.
– Quem m atou m eu m enino? – perguntou ela.
Em bora j á soubesse.
Soubera desde o início. Procurara explicar o inexplicável e talvez até conseguisse se o com portam ento hum ano não fosse tão com plexo. Dois irm ãos são criados exatam ente da m esm a m aneira e se tornam adultos com pletam ente diferentes: um , gentil e afável; o outro, um assassino. Há quem diga que é um a “program ação genética”, a vitória da natureza sobre a cultura, m as às vezes o caso nem é esse: trata-se apenas de algum acontecim ento aleatório que altera a vida de um a pessoa, algo no vento que se m istura à quím ica cerebral dela, qualquer coisa. E então, depois da tragédia, procuram os explicações e, m esm o que as encontrem os, não passarão de teorias.
– Me diga o que aconteceu, Adam .
– Ele tentou m e ligar m ais tarde – respondeu Adam . – Foram aquelas ligações. Eu vi que era ele. Não atendi. Deixei cair na caixa postal. Ele j á estava tão chapado. Estava triste, deprim ido, eu devia ter percebido. Devia ter feito as pazes com ele. Mas não fiz. Aquela foi a últim a m ensagem que ele m e deixou. Dizendo que sentia m uito e que sabia qual era a saída. Ele j á tinha pensado em suicídio antes. Todo m undo um dia pensa nisso. Mas com ele era diferente. O caso dele era m ais sério. Briguei com o Spencer. Eu o xinguei. Disse que nunca ia perdoá-lo.
Betsy Hill balançou a cabeça.
– Ele era um cara legal, Sra. Hill.
– Foi ele quem roubou os com prim idos da nossa casa, do arm ário do banheiro… – disse ela, m ais para si do que para Adam .
– Eu sei. Todo m undo roubava.
Abalada com tudo o que acabara de ouvir, Betsy não conseguia sequer raciocinar direito.
– Um a garota? Vocês brigaram por causa de um a garota?
– Foi culpa m inha – disse Adam . – Perdi o controle. Não fui atrás dele. Quando ouvi as m ensagens, j á era tarde dem ais. Cheguei ao telhado o m ais rápido que pude. Mas ele j á estava m orto.
– Você o encontrou?
Adam fez que sim com a cabeça.
– E não falou nada?
– Fui um covarde. Mas agora chega. Agora acabou.
– O que acabou, Adam ?
– Desculpe, Sra. Hill. Não consegui salvá-lo.
– Nem eu, Adam – devolveu Betsy . – Nem eu.
Ela deu um passo na direção de Adam , m as ele balançou a cabeça.
– Agora acabou – repetiu.
Depois deu dois passos atrás, virou-se e saiu correndo.