Confie em Mim
Capítulo 40
40
M IKE SE ENCONTRAVA NA MESMA SALA de interrogatório de antes, m as agora com o
filho.
Darry l LeCrue, agente especial da DEA, e Scott Duncan, assistente do prom otor da república, vinham tentando j untar evidências para um processo j udicial. Mike sabia que todos estavam por ali em algum lugar: Rosem ary, Carson, DJ Huff (provavelm ente acom panhado do pai), os outros góticos. Eles os haviam separado na esperança de fechar acordos e registrar queixas.
Fazia horas que estavam ali. Mike e Adam ainda tinham de responder a um a única pergunta. Hester Crim stein, advogada deles, os havia proibido de falar. Naquele m om ento, os dois encontravam -se sozinhos na sala.
Adam estava totalm ente apático. Provavelm ente em estado de choque. Claro, a fronteira entre o choque e o m au hum or dos adolescentes é bastante tênue. Hester estava hiperativa e continuaria assim até o fim . Dava para ver. A toda hora ela irrom pia na sala e fazia perguntas. Adam sim plesm ente balançava a cabeça quando ela pedia detalhes.
Sua últim a visita fora m eia hora antes e tivera um único obj etivo: inform ar que as coisas não estavam nada boas.
A porta se escancarou novam ente. Hester entrou, agarrou um a cadeira e arrastou-a para o lado de Adam . Sentou-se e o encarou a apenas poucos centím etros de distância. Adam virou o rosto. Ela o desvirou com as próprias m ãos e disse:
– Olhe para m im , Adam .
Ele obedeceu, ainda que a contragosto.
– O problem a é o seguinte: Rosem ary e Carson estão colocando a culpa em você. Alegam que a idéia de roubar os receituários do seu pai e increm entar o negócio foi sua. Estão dizendo que foi você quem os procurou. Dependendo do estado de espírito, podem até dizer que seu pai estava envolvido, em busca de um dinheirinho extra. Não faz m uito tem po que outros agentes da DEA, que trabalham neste m esm o prédio, conseguiram um a extraordinária repercussão na m ídia por terem prendido um m édico em Bloom sfield que fazia exatam ente isto: vendia receitas m édicas para o m ercado negro. E agora eles estão doidos para repetir a história, Adam . Querem ver o m édico e seu filho atrás das grades para fazer um carnaval na m ídia e quem sabe até descolar um a prom oção. Você está entendendo?
Adam fez que sim .
– Então por que não está dizendo a verdade?
– Porque não adianta – disse ele.
Hester abriu os braços e exclam ou:
– Com o assim , não adianta?
– É a m inha palavra contra a deles.
– Certo, m as vej a bem . São duas coisas. Em prim eiro lugar, eles não estão sozinhos. Conseguiram que alguns dos am igos de Carson confirm assem a história deles. Claro que esses am igos diriam qualquer coisa, até que você se prostituía num a nave espacial, só para atender a um pedido do Carson e da Rosem ary . Então esse não é o nosso m aior problem a.
– Qual é então? – perguntou Mike.
– A prova m ais sólida até agora são aquelas receitas. Não dá para ligá-las diretam ente a Rosem ary e Carson. Não seria um a conexão óbvia. Mas dá para ligá-las diretam ente ao senhor, Dr. Bay e. Claro. Elas são suas. Além disso, é m uito fácil dizer com o elas passaram de A para B, isto é, do senhor para o m ercado negro. Via Adam .
Adam fechou os olhos e balançou a cabeça.
– O que foi? – perguntou Hester.
– Vocês nunca vão acreditar em m im .
– Lindinho, escute um a coisa. Minha função aqui não é acreditar em você. É defender você. É com a sua m am ãe que você tem de se preocupar, se ela vai acreditar ou não. Não sou a sua m am ãe. Sou a sua advogada e, em vista das circunstâncias, m elhor que sej a assim , não acha?
Adam olhou para o pai.
– Eu acredito em você, filho – disse Mike.
– Mas não confiou em m im .
Mike não soube o que responder.
– Colocou aquele program a no m eu com putador. Bisbilhotou as m inhas m ensagens particulares.
– Estávam os preocupados com você.
– Podiam ter m e perguntado.
– Nós perguntam os, Adam . Um m ilhão de vezes. E você sem pre pedia para o deixarm os em paz e sairm os do seu quarto.
– Ei, vocês dois! – interveio Hester. – Estou adorando essa conversinha de pai e filho. Sério. Muito com ovente, estou quase chorando. Mas cobro por hora, e cobro caro, portanto acho m elhor voltarm os ao nosso assunto.
Alguém bateu incisivam ente à porta. E em seguida entrou o agente especial Darry l LeCrue, acom panhado de Scott Duncan, o assistente do prom otor.
– Fora daqui – disse Hester. – Nossa conversa é particular.
– Tem alguém aqui querendo falar com os seus clientes – disse LeCrue.
– Nem se for a Jessica Alba de biquíni ou o…
– Hester? – interrom peu LeCrue. – É im portante. Pode acreditar.
Eles abriram cam inho. Mike levantou os olhos. Não sabia ao certo o que esperar, m as seguram ente não era aquilo. Adam desatou a chorar assim que os viu.
Betsy e Ron Hill entraram na sala.
– Quem são esses dois? – perguntou Hester.
– São os pais do Spencer – respondeu Mike.
– Uau. Que espécie de truquezinho em ocional é este? Quero que eles saiam j á daqui. Agora.
– Shhh – disse LeCrue. – Não diga nada. Apenas ouça.
Hester virou-se para Adam e, pousando a m ão no antebraço dele, recom endou:
– Não diga um a única palavra, ouviu bem ? Nem um a palavra.
Adam só fazia chorar.
Betsy Hill acom odou-se num a cadeira do outro lado da m esa. Tam bém estava chorando. Ron ficou de pé atrás dela. Cruzou os braços e olhou para o alto. Mike podia ver que os lábios dele trem iam . LeCrue foi para um canto da sala e Duncan para outro.
– Sra. Hill – disse LeCrue –, a senhora pode repetir o que acabou de nos contar?
Hester Crim stein ainda m antinha a m ão no braço de Adam , pronta para silenciá-lo se fosse preciso. Betsy Hill sim plesm ente olhava para ele. Adam por fim levantou o rosto e a encarou.
– O que está acontecendo aqui? – perguntou Mike.
Betsy Hill finalm ente falou:
– Você m entiu para m im , Adam .
– Uou, uou, uou – exclam ou Hester. – Espere aí. Se ela for com eçar com acusações de qualquer natureza, vam os dar um basta nisso agora m esm o.
Betsy m anteve os olhos grudados nos de Adam , alheia à explosão da advogada.
– Você e o Spencer não brigaram por causa de um a garota, não foi?
Adam não disse nada.
– Não foi?
– Não responda – ordenou Hester, apertando o braço dele. – Meu cliente não fará qualquer com entário a respeito de nenhum a briga, sej a ela real ou…
Adam desvencilhou o braço.
– Sra. Hill… – disse.
– Você tem m edo de que eles não acreditem em você – disse Betsy. – Tam bém tem m edo de prej udicar seu am igo. Mas não pode prej udicar o Spencer. Ele está m orto, Adam . E a culpa não foi sua.
As lágrim as rolavam pelo rosto de Adam .
– Está m e ouvindo? Não foi culpa sua. Tinha toda razão de estar bravo com o Spencer. Em m uitos m om entos, tanto eu quanto m eu m arido fom os cegos com relação ao nosso filho. Vam os passar o resto da vida lidando com essa culpa. Talvez fosse possível ter evitado tudo isso se tivéssem os sido m ais atentos. Ou talvez não houvesse nada que pudéssem os fazer para salvá-lo. Mas de um a coisa eu tenho certeza: a culpa não foi sua, você não pode ser acusado de nada. Spencer está m orto, Adam . Você não tem com o prej udicá-lo m ais.
Hester abriu a boca para dizer algum a coisa, m as não encontrou as palavras. Resignada ao silêncio, recostou-se na cadeira e continuou assistindo. Mike tam bém não sabia o que falar.
– Conte a verdade para eles – disse Betsy .
– Não adianta – retrucou Adam .
– Claro que adianta, Adam .
– Ninguém vai acreditar em m im .
– Nós acreditam os – disse Betsy .
– Rosem ary e Carson vão dizer que fom os eu e m eu pai. Já disseram . Então, para que j ogar lam a no nom e de outra pessoa?
LeCrue interveio e disse:
– Foi por isso que você tentou acabar com essa história ontem , não foi? Com aquela escuta sobre a qual você nos contou. Rosem ary e Carson estavam chantageando você, não estavam ? Disseram que se você abrisse o bico, iriam culpá-lo, dizendo que foi você quem roubou os receituários. Exatam ente com o estão fazendo agora. E você ainda tinha de se preocupar com seus am igos, que tam bém podiam se m eter num a bela encrenca. Então, fazer o quê? Você não tinha outra escolha a não ser deixar o barco rolar.
– Eu não estava preocupado com os m eus am igos – disse Adam . – Mas eles iam botar a culpa no m eu pai. Ele ia perder a licença.
Apesar do nó na garganta, Mike disse:
– Filho, conte a verdade. Não se preocupe com igo, está bem ?
Adam balançou a cabeça.
Betsy esticou o braço para tocar a m ão dele.
– Nós tem os provas – disse.
Adam pareceu confuso.
Foi Ron Hill quem explicou:
– Quando o Spencer m orreu, vasculhei as coisas no quarto dele. E encontrei… – Ele parou, engoliu em seco e novam ente voltou os olhos para o alto. – Eu não queria que a Betsy ficasse sabendo. Ela j á estava sofrendo tanto, então pensei: que diferença isso vai fazer agora? Nosso filho j á estava m orto. Não fazia sentido colocar m ais esse peso no coração dela. Era m ais ou m enos isso que você estava pensando tam bém , não era, Adam ?
Adam perm aneceu calado.
– Então não contei nada. Mas, na noite em que ele m orreu, fui ao quarto dele. E debaixo da cam a encontrei 8 m il dólares em dinheiro vivo… e isto aqui tam bém .
Ron j ogou um receituário sobre a m esa. Por um instante, ninguém fez outra coisa senão olhar para o bloco.
– Não foi você que roubou os receituários do seu pai – disse Betsy. – E sim o Spencer. Foi ele quem os pegou na sua casa, não foi?
Adam , cabisbaixo, não respondeu.
– E naquela noite, na noite em que ele m orreu, você descobriu tudo e foi tirar satisfações. Com certeza estava furioso. Então vocês brigaram . Por isso você deu um soco nele. E quando o Spencer ligou de volta, você não quis ouvir suas desculpas. Achou que dessa vez ele tinha ido longe dem ais. Preferiu deixar cair na caixa postal.
Adam apertou os olhos e disse:
– Eu devia ter atendido. Eu tinha agredido e xingado o Spencer… Disse que nunca m ais queria falar com ele. Eu o deixei sozinho e quando ele ligou para pedir aj uda…
A esta altura a sala j á estava prestes a vir abaixo. Muitas lágrim as. Abraços. Pedidos de desculpas. Feridas reabertas e novam ente fechadas. Hester j am ais perderia sem elhante oportunidade. Pôs-se ao lado de LeCrue e Duncan. Todos estavam vendo o m esm o espetáculo. Ninguém queria processar os Bay e. Adam colaboraria do j eito que fosse preciso para colocar Rosem ary e Carson atrás das grades.
Mas isso tudo ficaria para depois.
Mais tarde naquele m esm o dia, Betsy procurou Adam em casa. Ele j á havia recuperado o celular.
– Eu gostaria de ouvir – disse ela.
E j untos eles ouviram a m ensagem que Spencer havia deixado segundos antes de se m atar:
Não tem nada a ver com você, Adam. Tente entender. Não é culpa de ninguém. Mas é que está tudo muito difícil. Sempre foi difícil demais…
♦♦♦
Um a sem ana m ais tarde, Susan Lorim an bateu à porta de Joe Lewiston.
– Quem é?
– Susan Lorim an.
– Estou m uito ocupado.
– Por favor, Sr. Lewiston, abra. É im portante.
Seguiram -se alguns segundos de silêncio antes que Joe Lewiston finalm ente abrisse a porta, m etido num a cam iseta velha, a barba por fazer, os cabelos em desalinho, os olhos ainda pesados de sono.
– Sra. Lorim an, não m e leve a m al, m as não é um a boa hora para…
– Sinto m uito, não posso esperar.
– Não sei se a senhora sabe, m as fui dem itido da escola.
– Sei, sim . Sinto m uito.
– Portanto, se for a respeito da cam panha de doação do seu filho…
– É, sim .
– A senhora não está achando que eu ainda posso fazer algum a coisa, está?
– Mais do que nunca.
– Sra. Lorim an…
– Sr. Lewiston, o senhor j á perdeu algum parente próxim o?
– Já.
– Se im porta de m e dizer quem ?
A pergunta era inusitada. Lewiston suspirou e encarou Susan Lorim an. O filho dela estava m orrendo e por algum m otivo obscuro aquela pergunta lhe parecia de extrem a im portância.
– Um a irm ã, Cassie – respondeu ele afinal. – Era um anj o. Difícil acreditar que aquilo pudesse acontecer a ela.
Susan sabia de tudo, claro. Os j ornais estavam repletos de m atérias sobre o viúvo de Cassandra Lewiston e os assassinatos.
– Mais alguém ?
– Meu irm ão, Curtis.
– Ele tam bém era um anj o?
– Não. Pelo contrário. Ele se parecia m uito com igo fisicam ente. Mas era um hom em problem ático, sem pre foi.
– Com o ele m orreu?
– Assassinado. Provavelm ente num assalto.
– Trouxe um a enferm eira com igo – disse Susan e olhou para trás. Um a m ulher saiu do carro e veio cam inhando ao encontro deles. – Ela pode fazer o exam e de sangue agora m esm o.
– Não sei para quê.
– O que o senhor fez não foi nenhum a atrocidade, Sr. Lewiston. O senhor até cham ou a polícia quando se deu conta do que seu ex-cunhado estava fazendo. Agora precisa reconstruir sua vida. E aj udar m eu filho apesar de todos os problem as que está enfrentando seguram ente vai fazer com que as pessoas o vej am com outros olhos. Por favor, Sr. Lewiston. O senhor vai aj udar m eu filho, não vai?
A expressão no rosto de Joe Lewiston era a de alguém que estava prestes a protestar. Susan contava com o contrário. Mas j á estava preparada para todas as eventualidades. Estava disposta a dizer que o filho dela, Lucas, tinha 10 anos de idade, e que Curtis Lewiston havia sido assassinado 11 anos antes, ou m elhor, nove m eses antes do nascim ento de Lucas. Se fosse preciso, diria a Joe Lewiston que naquele m om ento as m aiores chances de encontrar um doador com patível para Lucas seria m ediante um tio de sangue. Susan esperava que as coisas não chegassem a esse ponto. Mas agora estava disposta a tudo, a enfrentar todas as conseqüências. Não lhe restava outra coisa a fazer.
– Por favor – repetiu ela.
A enferm eira continuava vindo. Joe Lewiston novam ente olhou para Susan Lorim an. Decerto viu o desespero nos olhos dela.
– Tudo bem – disse. – Por favor, entrem . Vam os fazer isso lá dentro.
♦♦♦
Tia espantou-se com a rapidez com que a vida voltara ao norm al.
Hester cum prira sua palavra. Nada de segunda chance, pelo m enos profissionalm ente. Por isso Tia havia entregado sua carta de dem issão e agora procurava um novo em prego. Mike e Ilene Goldfarb haviam sido inocentados de todos os crim es relacionados ao roubo dos receituários. Apesar da investigação do conselho de m edicina, um a m edida m eram ente pro forma, am bos continuavam trabalhando com o se nada tivesse acontecido. Ao que parecia, Susan Lorim an havia encontrado um doador com patível para o pequeno Lucas, m as Mike não quis falar sobre o assunto, e ela, Tia, não insistiu.
Durante aqueles prim eiros dias de m uita em oção, Tia achou que Adam m udaria com pletam ente e voltaria a ser o garoto afável e m eigo que… bem , na verdade ele nunca havia sido assim . Mas um adolescente não funciona com o um a lâm pada que podem os acender ou apagar. Adam estava m elhor, quanto a isso não restava dúvida. Agora estava j ogando com o pai diante da garagem , ele com o goleiro e Mike no ataque. A cada gol m arcado, Mike com em orava com a m usiquinha habitual e Tia se reconfortava ao ouvi-la, em bora no passado tam bém ouvisse a voz do filho. Hoj e, no entanto, Adam j ogava em silêncio e Mike, por m ais contente que pudesse estar, traía na voz um a pontinha de angústia.
Ele ainda queria seu m enino de volta. Mas talvez esse “seu m enino” tivesse partido para sem pre. E talvez fosse m elhor assim .
Mo chegou e estacionou na porta da garagem . Iria levá-los ao j ogo dos Rangers contra os Devils, em Newark. Anthony, que j unto com Mo havia salvado a vida deles, iria tam bém . Mike acreditara que tam bém tinha sido ele, Anthony, quem lhe salvara da prim eira vez, naquela noite no beco, m as fora Adam e, com o prova, tinha um a cicatriz no braço. Um a estranha inversão da ordem natural das coisas: o filho salvando o pai. Sem pre que pensava no assunto, Mike ficava de olhos m arej ados e tentava dizer algum a coisa, m as Adam se recusava a ouvir. Um guerreiro silencioso, esse garoto.
Com o o pai.
Tia olhou pela j anela. Os dois, m eio hom ens, m eio m eninos, se aproxim aram para se despedir. Ela acenou e soprou um beij o para cada um . Eles acenaram de volta. Tia os viu entrar no carro de Mo e continuou olhando até o carro sum ir de vista.
– Jill? – cham ou em seguida.
– Aqui em cim a, m ãe!
Eles haviam retirado o program a de espionagem do com putador de Adam . Difícil j ulgar o uso de um a ferram enta dessas. Se Ron e Betsy tivessem acom panhado os passos de Spencer m ais de perto, talvez pudessem tê-lo salvado. Talvez não. Há um a certa dose de fatalism o, de acaso, na vida. Vej a o que aconteceu com Mike e Tia, por exem plo: eles haviam se preocupado tanto com o filho, m as, no fim , fora Jill quem chegara m ais perto da m orte. Fora ela quem passara pelo traum a de se ver obrigada a m atar outro ser hum ano. Por quê?
Acaso. Ela estava no lugar errado na hora errada.
Os pais podem espionar, m as não podem prever. Talvez Adam tivesse encontrado sozinho um a solução para seus problem as. Poderia ter feito aquela gravação e Mike j am ais teria sido atacado naquele beco. Carson, aquele garoto m aluco, não teria atirado neles. Adam não duvidaria da confiança que os pais tinham nele.
A confiança é assim . Podem os quebrá-la pelos m elhores m otivos do m undo, m as ela perm anecerá quebrada para sem pre.
Afinal, depois de tantos acontecim entos, o que Tia havia aprendido com o m ãe? Fazem os nosso m elhor, só isso. Agim os com as m elhores intenções. Deixam os que nossos filhos saibam que os am am os m ais que tudo na vida. Mas, graças ao acaso, não podem os fazer m uito m ais que isso. Não podem os controlar a vida. Mike tinha um am igo, um antigo astro do basquete, que tinha o hábito de citar ditados do iídiche. Seu favorito era: “O hom em planej a, Deus ri.” Tia j am ais havia com preendido totalm ente o significado disso. Achava que era um pretexto para que não déssem os o nosso m elhor, j á que Deus cuidaria de nos frustrar de qualquer form a. Mas não. Tratava-se sobretudo de um a m áxim a para ilustrar o fato de que, a despeito dos nossos esforços, o controle é sem pre um a ilusão.
Ou quem sabe as coisas eram ainda m ais com plexas?
Alguém poderia argum entar j ustam ente o contrário: a espionagem os salvara. Para início de conversa, fora por m eio dela que Tia e Mike haviam descoberto que Adam estava em apuros.
Mais que isso, se não tivessem o hábito de bisbilhotar, Jill e Yasm in j am ais ficariam sabendo da existência da arm a que dera fim àquele triste episódio. Todos estariam m ortos a essa altura.
Quanta ironia. Guy Novak m antinha um a arm a carregada em casa e, em vez de provocar um desastre, essa arm a havia sido sua salvação.
Pensando nisso, Tia balançou a cabeça, perplexa. Abrindo a geladeira, constatou que precisava sair para fazer com pras.
– Jill?
– Oi!
Tia recolheu as chaves e a carteira, m as não encontrou o celular.
Jill havia se recuperado do episódio traum ático com um a facilidade surpreendente. Os m édicos j á haviam alertado para a possibilidade de um a reação retardada. Por outro lado, tam bém era possível que ela tivesse consciência de que sua atitude havia sido, além de necessária, heróica. Jill não era m ais nenhum bebê.
Onde Tia havia deixado o celular?
Tinha certeza de que o havia largado na bancada da cozinha. Bem ali. Não fazia m ais que 10 m inutos.
E foi esse sim ples pensam ento que desencadeou todo o resto.
Tia sentiu o corpo enrij ecer. Aliviados com a própria sobrevivência, eles haviam deixado m uita coisa passar. Mas, de repente, olhando para o local onde seguram ente ela havia deixado o celular, Tia se lem brou daquelas tantas perguntas que haviam ficado sem resposta.
O prim eiro e-m ail, o que dera início a tudo, sobre a festa na casa de DJ Huff. Não havia festa nenhum a. Adam sequer lera a m ensagem .
Quem a m andara afinal?
“Não…”, pensou Tia.
Ainda procurando pelo celular, ela tirou o telefone fixo do gancho e discou o núm ero de Guy Novak, que atendeu ao terceiro sinal.
– Oi, Tia, com o vai?
– Você disse à polícia que foi você quem m andou aquele vídeo.
– O quê?
– O vídeo em que Marianne aparecia fazendo sexo com o Sr. Lewiston. Você disse que foi você quem m andou. Para se vingar.
– E daí?
– Você nem sabia da existência dessa gravação, sabia, Guy ?
Silêncio.
– Guy ?
– Vam os enterrar esse assunto, Tia – disse ele e desligou.
Tia subiu as escadas silenciosam ente. Sabia que Jill estava no próprio quarto e não queria que ela ouvisse. Com eçava a j untar as peças. Volta e m eia pensava naqueles dois terríveis episódios, os assassinatos de Nash e o desaparecim ento de Adam , e tentava encontrar um a explicação para que tivessem acontecido ao m esm o tem po. Alguém tivera o m au gosto de brincar com ela, dizendo que as coisas ruins sem pre vinham em trio e que ela devia se preparar para a terceira. Mas Tia não se deixava im pressionar por esse tipo de coisa.
O e-m ail sobre a festa na casa dos Huff.
A arm a na gaveta de Guy Novak.
O vídeo explícito que havia sido enviado para o e-m ail de Dolly Lewiston.
Que relação poderia haver entre tudo isso?
Já na porta do quarto de Jill, Tia perguntou:
– O que você está fazendo?
A m enina se assustou com a súbita chegada da m ãe.
– Ah, eu só estava j ogando BrickBreaker.
– Mentira.
– O quê?
Tia e Mike costum avam brincar com isso. Jill era bisbilhoteira. Era Harriet, com o no film e A pequena espiã, eles diziam .
– Eu estava j ogando, j uro.
Mas não estava. Tia agora sabia. Jill não usava o celular da m ãe para j ogar o que quer que fosse. Pegava-o para espionar as m ensagens dela. Não usava o com putador do quarto dos pais porque ele era m ais novo e m ais rápido. Usava-o para se inteirar do que estava acontecendo. Jill detestava ser tratada com o criança. Por isso bisbilhotava. Ela e a am iga Yasm in.
Coisas de criança, certo?
– Você sabia que eu e seu pai estávam os m onitorando o com putador do Adam , não sabia?
– O quê?
– Brett disse que quem m andou aquele e-m ail usou o com putador do seu irm ão. A pessoa aproveitou a ausência dele para m andar a m ensagem e depois deletá-la. Eu nem im aginava quem poderia ter feito um a coisa dessas. Mas agora sei. Foi você, Jill. Por quê?
Jill negou com a cabeça. Mas, no fundo, as m ães sem pre sabem quando os filhos estão m entindo.
– Jill?
– Eu não queria que nada disso tivesse acontecido.
– Eu sei. Me conte tudo.
– Vocês estavam destruindo os relatórios. Quer dizer, por que de um a hora para outra vocês iam colocar um a fragm entadora de papéis no quarto? Eu podia ouvir você e o papai cochichando no m eio da noite. Vocês até colocaram o E-Spy Right na lista de favoritos da internet.
– Quer dizer que você sabia que estávam os espionando?
– Claro que sabia.
– Então, por que m andou aquele e-m ail?
– Porque eu sabia que vocês iam ler.
– Não estou entendendo. Por que você queria que a gente lesse sobre um a festa que não ia acontecer?
– Eu sabia o que o Adam ia fazer. Achei que era perigoso. Queria detê-lo, m as não podia contar a verdade sobre o Club Jaguar, sobre nada daquilo. Não queria m eter m eu irm ão num a encrenca.
– Então inventou a tal festa…
– É. Falei que ia ter bebida e drogas.
– Achou que iríam os obrigá-lo a ficar em casa.
– Achei. Aí não ia ter problem a nenhum . Mas o Adam fugiu. Nunca achei que ele fosse fazer um a coisa dessas. Fiz um a grande besteira. Agora a senhora j á sabe. Foi tudo culpa m inha.
– Você não teve culpa de nada, m eu bem .
Jill estava prestes a se desm anchar em lágrim as.
– Eu e a Yasm in. Todo m undo nos trata com o bebês. Por isso bisbilhotam os, sabe? É com o um j ogo. Os adultos escondem as coisas e nós descobrim os. Então, o Sr. Lewiston falou aquela coisa horrível para a Yasm in. Tudo m udou depois disso. O pessoal da nossa turm a, todo m undo foi tão cruel… Prim eiro a Yasm in ficou triste, só isso. Mas aos poucos foi ficando diferente, sei lá, com o se estivesse pirando de tanta raiva. A m ãe dela nunca tinha servido para nada, sabe? Então achou que aquela era um a oportunidade de aj udar a filha.
– Quer dizer então que Marianne… arm ou aquilo para o Sr. Lewiston. Foi ela quem lhe disse isso?
– Não. Acontece que a Yasm in tam bém bisbilhotava as coisas da m ãe dela. Nós vim os o vídeo que estava gravado no celular da Marianne. Yasm in foi falar com ela, perguntar o que tinha sido aquilo e a Marianne falou para ela deixar para lá, que o Sr. Lewiston j á estava sofrendo o bastante.
– Então você e a Yasm in…
– Não fizem os por m al. Mas a Yasm in j á não estava agüentando m ais. Aquele bando de adultos falando o que era m elhor para ela. A gozação do pessoal na escola. Sobrava até para m im . Então fizem os tudo no m esm o dia. Não fom os para a casa dela depois da aula. Passam os aqui prim eiro. Mandei o e-m ail falando da festa para você e o papai tom arem algum a providência. E depois a Yasm in m andou o tal vídeo para fazer o Sr. Lewiston pagar pelo que tinha feito.
Tia ficou ali, esperando que algo lhe ocorresse. As crianças não fazem o que os pais m andam : repetem o que os vêem fazendo. Nesse caso, de quem era a culpa? Tia não sabia dizer.
– Foi só isso que fizem os – disse Jill. – Mandam os uns e-m ails, m ais nada.
O que era a m ais pura verdade.
– Tudo vai ficar bem – disse Tia, repetindo o que Mike dissera a Adam na sala de interrogatório.
Ela se aj oelhou e apertou a filha entre os braços. As lágrim as que Jill vinha tentando segurar por fim transbordaram . Abraçada à m ãe, ela chorou copiosam ente. Tia tentava reconfortá-la com palavras doces e carinhos nos cabelos.
Os pais fazem o que podem , ela lem brou a si m esm a. Dão aos filhos todo o am or que têm a oferecer.
– Tudo vai ficar bem – repetiu.
E, dessa vez, quase acreditou.
♦♦♦
Num a fria m anhã de sábado, j usto no dia em que se casaria pela segunda vez, o prom otor público do condado de Essex, Paul Copeland, viu-se diante de um guarda-m óveis à beira da estrada.
Loren Muse estava com ele.
– Você não precisava vir – disse ela.
– O casam ento é só daqui a seis horas.
– Mas a Lucy …
– A Lucy entende.
Virando o rosto rapidam ente, Cope avistou o carro. Neil Cordova esperava lá dentro. Pietra havia quebrado seu silêncio algum as horas antes. Depois de um sem -núm ero de conversas infrutíferas, Cope tivera a sim ples idéia de deixar Neil Cordova falar com ela. Após dois m inutos, considerando a m orte de seu am igo e o vantaj oso acordo j á firm ado com seu advogado, Pietra cedeu e revelou onde seria encontrado o corpo de Reba Cordova.
– Eu queria estar presente – em endou Cope.
Muse olhou para onde ele estava olhando.
– Você tam bém não devia ter deixado ele vir.
– Eu tinha prom etido.
Cope e Neil Cordova haviam conversado m uito desde o desaparecim ento de Reba. Em poucos m inutos, se Pietra tivesse dito a verdade, eles teriam algo terrível em com um : m ulheres m ortas. Estranham ente, ao exam inarem o histórico do assassino, eles haviam constatado que o suj eito tam bém com partilhava desse m esm o destino.
Com o se estivesse lendo os pensam entos do chefe, Muse disse:
– Você acha que existe algum a possibilidade de ela estar m entindo?
– Acho difícil. E você?
– Tam bém . Quer dizer então que Nash m atou essas m ulheres para aj udar o cunhado. Para encontrar e destruir a tal fita que provava a infidelidade de Lewiston.
– É o que parece. Mas Nash tinha antecedentes. Aposto que, se procurarm os, vam os encontrar m uitos podres no passado dele. Suponho que esses assassinatos tenham sido apenas um pretexto para que ele pudesse aplacar sua sede de sangue. Mas não sei nada de psicologia, nem quero saber. Psicologia não bota ninguém atrás das grades.
– Ele torturou as vítim as.
– Verdade. Em tese, para descobrir quem m ais tinha conhecim ento do vídeo.
– Com o Reba Cordova.
– Certo.
Muse balançou a cabeça, perplexa.
– E o cunhado dele, o tal professor?
– Lewiston? O que tem ele?
– Você pretende processá-lo?
Cope deu de om bros e disse:
– Lewiston alega não ter feito m ais do que se abrir com Nash. Não sabia que ele faria essa loucura toda.
– E você acredita nisso?
– Pietra confirm a a história, m as não tenho nenhum a prova que faça a balança pender para qualquer um dos lados. – Ele olhou para Muse. – É aí que entram os m eus investigadores.
O gerente do guarda-m óveis encontrou a chave e inseriu-a na fechadura. A porta se abriu e os investigadores entraram .
– Tudo isso – observou Muse – e Marianne Gillespie nem chegou a m andar o vídeo.
– Parece que não. Só am eaçou. Já investigam os. Guy Novak afirm a que Marianne havia lhe contado sobre o vídeo. Ela queria deixar a coisa de lado, achava que a am eaça j á era castigo suficiente. Guy achava que não. Por isso m andou o e-m ail para a m ulher de Lewiston.
Muse franziu a testa.
– O que foi? – perguntou Cope.
– Nada. Você vai processar Guy ?
– Pelo quê? Ele só m andou um e-m ail. Isso não é contra a lei.
Dois dos policiais saíram do guarda-m óveis com passos lentos. Lentos dem ais. Cope sabia o que isso queria dizer. Um deles olhou para o prom otor e fez que sim com a cabeça.
– Droga – exclam ou Muse.
Cope virou-se e seguiu na direção de Neil Cordova, que o observava. Fez o possível para m anter a firm eza do olhar e dos passos. Ao vê-lo se aproxim ar, Neil com eçou a balançar a cabeça, cada vez m ais forte, com o se isso pudesse de algum a form a negar a realidade. Cope m anteve o ritm o dos passos. Neil j á tinha se preparado para isso, sabia o que estava por vir, m as não havia nada que pudesse aplacar aquele golpe. Restava-lhe apenas um a coisa a fazer: baixar a guarda e sucum bir à dor.
Portanto, assim que Cope chegou, Neil Cordova sim plesm ente desabou contra o peito do prom otor. Repetia freneticam ente o nom e da m ulher, dizendo que aquilo não era verdade, não podia ser verdade, suplicando a algum poder superior que lhe devolvesse sua am ada. Cope teve de aj udá-lo a ficar de pé. Minutos se passaram . Difícil dizer quantos. Cope ficou ali, abraçando aquele hom em sem dizer nada.
Um a hora depois, o prom otor voltou para casa. Tom ou um a ducha, vestiu o sm oking e foi para a igrej a, postando-se ao lado dos padrinhos. Cara, sua filha de 7 anos, deixou a todos de queixo caído ao atravessar o corredor. O governador presidiu pessoalm ente a cerim ônia. Seguiu-se um a grande festa, com um a orquestra e tudo m ais. Muse estava lá, vestida de m adrinha, elegante e bonita. Cum prim entou o prom otor com um beij o no rosto. Cope lhe agradeceu e nisso se resum iu a conversa deles durante o casam ento.
A noite se estendia num alegre turbilhão. A certa altura, Cope se afastou um pouquinho e se sentou para recuperar o fôlego. Afrouxou a gravata, desabotoou o colarinho. Fora de um extrem o a outro naquele dia, com eçando com a m orte para term inar em algo tão alegre quanto a união de um casal. Algum as pessoas certam ente encontrariam algo de profundo nisso. Cope, não. Preferiu ficar ali, ouvindo a banda tocar um a m úsica barulhenta de Justin Tim berlake e observando os convidados dançarem . Por um instante, soltou as rédeas do pensam ento e se lem brou de Neil Cordova, do terrível golpe que ele havia sofrido. Ficou im aginando o que ele e as filhas estariam passando naquele exato m om ento.
– Papai?
Cope se virou. Era Cara, que do alto de seus 7 anos, tom ou o pai pela m ão, olhou-o firm e nos olhos e disse:
– Quer dançar com igo?
– Achei que você detestasse dançar.
– É que eu adoro essa m úsica.
Cope se levantou e foi para a pista de dança. A canção repetia um refrão estúpido sobre a necessidade de ser sexy. Cope com eçou a se m over. Cara fisgou a m adrasta, que recebia os cum prim entos de alguns am igos, e arrastou-a para a pista de dança tam bém . A nova fam ília se pôs a dançar. Lucy, Cara e Cope. A m úsica aparentem ente havia ficado m ais alta. Parentes e am igos aplaudiam os três, incentivando-os. Cope revelava-se um péssim o dançarino. As duas m ulheres de sua vida se continham para não rir.
E quando enfim , j á não se agüentando m ais, elas irrom peram num a gargalhada, Cope redobrou o entusiasm o e caprichou ainda m ais na coreografia, balan çando os braços, rebolando os quadris, pingando de suor, rodopiando até o m undo se reduzir à beleza daquele par de rostos, à m aravilha daquelas gargalhadas.
Agradecimentos
A INSPIRAÇÃO PARA ESTE LIVRO m e ocorreu durante um j antar com os am igos Beth e
Dennis McConnel. Obrigado pela confiança e pela troca de idéias. Viram no que deu?
Tam bém gostaria de agradecer, por terem contribuído de algum a form a, a: Ben Sevier, Brian Tart, Lisa Johnson, Lisa Erbach Vance, Aaron Priest, Jon Wood, Eliane Benisti, Françoise Triffaux, Christopher J. Christie, David Gold, Anne Arm strong-Coben e Charlotte Coben.