Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 27 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 27

27

N A LANCHONETE, A DRA. ILENE GOLDFARB se acom odou à m esa diante de Susan

Lorim an.

– Muito obrigada por ter vindo – disse Susan.

Elas haviam cogitado se encontrarem fora da cidade, m as no fim das contas foi Ilene quem vetou a idéia. Se porventura alguém as visse, acharia que eram apenas duas am igas alm oçando j untas, atividade para a qual Ilene j am ais tivera tem po, em razão da carga de trabalho no hospital, ou vontade, porque tem ia se tornar um a daquelas célebres “senhoras que alm oçavam ”.

Mesm o quando os filhos eram pequenos, ela nunca havia se deixado seduzir pelos encantos tradicionais da m aternidade. Nunca sentira vontade de abandonar a m edicina para exercer o papel de m ãe de form a m ais tradicional. Pelo contrário: contara os dias para que a licença-m aternidade term inasse e ela voltasse a trabalhar. E seus filhos não pareciam ter sido prej udicados por isso. Suas constantes ausências haviam contribuído para a form ação de crianças bem m ais independentes e preparadas para o m undo.

Pelo m enos era o que dizia a si m esm a.

Mas no ano anterior, durante um a festa em sua hom enagem no hospital, com a presença de vários ex-residentes e estagiários, Ilene entreouvira a conversa entre sua filha Kelci e um a de suas m elhores ex-alunas, que, depois de tecer m uitos elogios à Dra. Goldfarb, sobretudo à sua dedicação, disse a Kelci que devia ser um a honra tê-la com o m ãe. Kelci, j á com alguns drinques na cabeça, respondera: “Ela passou tanto tem po neste hospital, que nem tive a oportunidade de ver tudo isso.”

Carreira. Maternidade. Casam ento feliz. Ilene tinha adm inistrado tudo isso com um a facilidade im pressionante, não tinha?

Mas agora tudo estava ruindo. E, se o que aqueles agentes lhe disseram fosse verdade, até m esm o sua carreira estava em perigo.

– Algum a novidade com os bancos de doação? – perguntou Susan Lorim an.

– Não.

– Dante e eu estam os em penhados num a coisa. Um a grande cam panha de doação. Fui até a escola do Lucas. Jill, a filha de Mike, tam bém estuda lá. Falei com alguns professores. Eles adoraram a idéia. Vam os fazer um a palestra no próxim o sábado, ver se conseguim os o m áxim o de doadores.

– É, talvez isso aj ude – concordou Ilene.

– E você ainda está procurando, não está? Quer dizer, ainda não é o caso de perderm os as esperanças, é?

Ilene sim plesm ente não estava para conversa.

– Tam bém não é o caso de alim entá-las além da conta.

Susan Lorim an m ordeu o lábio inferior. Tinha um a beleza natural que era difícil não invej ar. Ilene sabia que os hom ens ficavam desconcertados diante desse tipo de beleza. Até m esm o Mike traía na voz certo desconforto na presença de Susan Lorim an.

A garçonete se aproxim ou com um bule de café. Ilene sinalizou para que ela servisse, m as Susan perguntou que tipo de chá de ervas eles serviam . A garçonete olhou para ela com o se estivesse diante de um a extraterrestre e Susan achou m elhor se contentar com qualquer chá que eles tivessem . A garçonete voltou dali a pouco com um saquinho de Lipton e despej ou a água fervente na xícara.

Susan Lorim an encarou sua xícara de chá com o se ela contivesse algum segredo divino.

– Lucas foi um parto difícil – falou afinal. – Um a sem ana antes de ele nascer, peguei um a pneum onia e a tosse foi tão terrível que acabei quebrando um a costela. Tive de ser internada. A dor era surreal. Dante ficou do m eu lado o tem po todo. Não m e deixava sozinha de j eito nenhum .

Susan lentam ente levou a xícara aos lábios, usando am bas as m ãos com o se erguesse um pássaro ferido.

– Quando descobrim os que Lucas estava doente, fizem os um a reunião de fam ília e Dante assum iu o papel do pai coraj oso, dizendo que íam os superar j untos toda essa situação. “Tem os o sangue dos Lorim an”, ele ficava repetindo. Mas depois, naquela m esm a noite, saiu para o j ardim e deu um grito tão forte que achei que ia se m achucar.

– Sra. Lorim an?

– Por favor, m e cham e de Susan.

– Susan, eu j á entendi. Seu m arido é um pai exem plar. Trocava fraldas e dava banho no bebê. Treinava a equipe de beisebol do j ardim -de-infância e ficaria arrasado se descobrisse que não é o pai do garoto. É m ais ou m enos isso, não é?

Susan Lorim an tom ou m ais um gole do chá. Ilene ficou pensando em Herschel e em sua pergunta: o que havia sobrado do casam ento deles? Chegou a desconfiar que ele estivesse tendo um caso, certam ente com a recepcionista recém -divorciada, que ria de todas as piadas dele.

“O que sobrou, Ilene…?”

Um hom em que faz um a pergunta dessas certam ente j á considera o casam ento falido há m uito tem po. Ilene sim plesm ente não percebera enquanto ainda podia tom ar algum a providência.

– Você não está entendendo – disse Susan.

– Nem sei se preciso. Você não quer que ele saiba. Já sei disso. Tam bém entendo que Dante possa ficar m agoado, que sua fam ília corre o risco de se desm anchar. Portanto, m e poupe. Realm ente não tenho tem po para isso. Eu poderia ficar horas lhe passando um serm ão, dizendo que você deveria ter pensado em todas essas coisas nove m eses antes de o Lucas nascer, m as estam os num fim de sem ana, no m eu m om ento de descanso. Além disso, tenho m eus próprios problem as. E, para ser m uito sincera, Sra. Lorim an, não m e im porto nem um pouco com os seus tropeços m orais. Mas m e im porto, sim , com a saúde do seu filho. E fim de papo. Ponto final. Se para resolver o problem a dele eu tiver de destruir seu casam ento, vou lá e assino pessoalm ente a papelada do seu divórcio. Estam os entendidas?

– Estam os.

Susan baixou os olhos. Decoro: um a palavra que Ilene conhecia, m as que j am ais havia com preendido direito. Era isso que ela via naquele m om ento. Quantos hom ens não ficariam desconcertados – ou haviam ficado desconcertados – diante daquela visão?

Ilene tinha consciência de que não podia levar o caso de Susan Lorim an para o lado pessoal. Respirou fundo e tentou enxergar além de suas próprias posições: a repulsa pelo adultério, as dúvidas sobre o futuro sem o hom em que escolhera para sua vida, as preocupações com a carreira, as perguntas que tivera de responder aos agentes federais.

– Por outro lado – disse –, não vej o m otivo para que ele fique sabendo.

Susan levantou os olhos, que agora denotavam um a ponta de esperança.

– Poderíam os falar com o pai biológico discretam ente – sugeriu Ilene. – Pedir que ele faça um exam e de sangue.

As esperanças de Susan desapareceram .

– Im possível – disse ela.

– Por quê?

– Porque sim .

– Bem , Susan, isso é tudo o que posso fazer por você – disse Ilene, agora incisiva. – Estou tentando aj udá-la. Não vim aqui para ouvir você exaltar as qualidades do seu m arido traído. Me interesso pela sua dinâm ica fam iliar, sim , m as só até certo ponto. Sou a m édica de seu filho, não sua analista, m uito m enos pastora de um a igrej a qualquer. Se você precisa de com preensão ou de perdão, então está falando com a pessoa errada. Quem é o pai do Lucas afinal?

Susan fechou os olhos e disse:

– Você não está entendendo.

– Se você não m e der um nom e, vou ter de contar tudo a seu m arido. – Ilene não havia planej ado dizer isso, m as se deixou levar pela irritação. – Você está colocando os seus segredos pessoais acim a da saúde de seu filho. Isso é inadm issível.

– Por favor…

– Quem é o pai, Susan?

Susan m ordeu o lábio com força.

– Quem é o pai? – insistiu Ilene.

Por fim , Susan respondeu:

– Não sei.

Ilene Goldfarb levou um susto. A resposta ficou ali entre as duas, j ogada à m esa, um abism o que Ilene não sabia com o transpor.

– Entendo.

– Não, não entende.

– Você tinha m ais de um am ante. Sei que é difícil de adm itir, m as… Vam os falar com todos eles, sei lá.

– Eu não tinha m ais de um am ante. Aliás, não tinha am ante nenhum .

Ilene esperou, incapaz de prever o que estava por vir.

– Fui estuprada.