Confie em Mim
Capítulo 33
33
D IANTE DE UMA DEZENA DE MICROFONES da im prensa e de diversas câm eras de TV,
Paul Copeland disse:
– Precisam os da colaboração de todos para encontrar um a m ulher cham ada Reba Cordova, desaparecida há alguns dias.
Muse assistia à cena ao lado do palanque. Os m onitores m ostravam um a fotografia em que Reba exibia um a doçura quase com ovente. O sorriso era daqueles que nos fazem sorrir j unto ou, em situações com o esta, partem nosso coração em duas tristes m etades. Um núm ero de telefone aparecia na parte inferior da im agem .
– Tam bém precisam os localizar esta m ulher. É m uito im portante para nós.
Os m onitores agora exibiam a im agem captada pela câm era de segurança da Target.
– Quem tiver qualquer inform ação, por favor ligue para o núm ero abaixo.
Os m alucos de plantão não tardariam a ligar, m as, na opinião de Muse, diante das circunstâncias, os prós eram significativam ente m ais num erosos que os contras. Dificilm ente alguém teria visto Reba Cordova, m as eram grandes as chances de que alguém reconhecesse a m ulher da im agem da câm era de segurança. Pelo m enos era isso que ela esperava.
Neil Cordova estava ao lado de Cope, atrás de suas duas filhas. Em bora ele m an tivesse a cabeça erguida, dava para ver claram ente sua com oção. As m eninas eram adoráveis, m as estavam assustadas, com os olhos arregalados; lem bravam aquelas terríveis im agens de guerra em que as criancinhas fogem apavoradas de um prédio em cham as. As câm eras de televisão, claro, faziam a festa com aquela fam ília com ovida e fotogênica. Cope tinha dito a Cordova que ele não precisava com parecer ou que poderia ir sem as filhas, m as Neil havia sido categórico.
– Tem os de fazer tudo ao nosso alcance para salvá-la – dissera a Cope. – Não quero que m inhas filhas se arrependam no futuro.
– Não vai ser fácil para elas – argum entou Cope.
– Se a m ãe delas estiver m orta, vai ser um inferno de qualquer m odo. Pelo m enos quero que elas saibam que fizem os tudo o que podíam os.
Muse sentiu o telefone vibrar. Viu que era Clarence Morrow, ligando do necrotério. Já não era sem tem po.
– O corpo é m esm o de Marianne Gillespie – disse Clarence. – O ex-m arido tem certeza absoluta.
Muse deu um passo à frente, para que Cope pudesse vê-la. Ele olhou de relance e ela sinalizou com a cabeça. Cope virou-se novam ente para os m icrofones e disse:
– Tam bém identificam os um corpo que talvez estej a relacionado com o desaparecim ento da Sra. Cordova. Um a m ulher cham ada Marianne Gillespie…
Muse voltou para o telefonem a.
– Você interrogou Novak?
– Interroguei. Não creio que ele estej a envolvido, e você?
– Tam bém não.
– Não tinha nenhum m otivo. A nam orada dele não é a m ulher na im agem da câm era de segurança e ele não se encaixa na descrição que tem os do hom em da van.
– Leve-o de volta para casa. Deixe que ele converse em paz com a filha.
– Já estam os indo. Novak ligou para a nam orada, pediu que ela m antivesse as m eninas longe da televisão até ele chegar.
Os m onitores agora exibiam um a foto de Marianne Gillespie. Estranham ente, Novak não tinha nenhum a fotografia da ex-m ulher, m as Reba Cordova havia tirado algum as quando visitara a am iga na Flórida, na últim a prim avera. A que aparecia nas telas fora tirada à beira de um a piscina, Marianne estava de biquíni, m as, para as câm eras, eles m ostravam apenas um close do rosto. Muse podia notar que a m ulher j á tinha sido espetacularm ente linda, em bora provavelm ente tivesse conhecido dias m elhores.
Neil Cordova enfim foi convidado a falar. Os flashes com eçaram a espocar, form ando aquele turbilhão de luzes que sem pre assusta os inexperientes. Cordova piscou os olhos para não se deixar cegar. Parecia m ais calm o agora, controlando a em oção para enfrentar os j ornalistas. Disse que am ava a m ulher, que Reba Cordova era um a excelente m ãe para as m eninas e pediu que, se alguém tivesse qualquer inform ação, ligasse para o núm ero fornecido.
– Psst.
Muse virou-se para trás. Era Frank Trem ont, acenando para que ela se aproxim asse.
– Um a pessoa ligou – disse ele.
– Já?
– A viúva de um policial de Hawthorne. Falou que a m ulher da im agem da câm era de segurança m ora sozinha no m esm o prédio que ela. Parece que é estrangeira e se cham a Pietra.
♦♦♦
Antes de deixar a escola, Joe Lewiston conferiu seu escaninho na sala dos professores.
Encontrou m ais um panfleto e um bilhete pessoal dos Lorim an, que tentavam encontrar um doador para o filho deles, Lucas. Joe nunca dera aulas para nenhum dos filhos do casal, m as j á havia notado a m ãe nos corredores da escola. Por m ais que fingissem estar acim a dessas coisas, os professores sem pre notam as m ães gostosas, e Susan Lorim an era um a delas.
O panfleto, o terceiro que ele recebia, anunciava que um “profissional da m edicina” viria à escola na sexta-feira seguinte para realizar exam es de sangue.
“Por favor, aj udem a salvar a vida do nosso filho…”
Joe sentiu-se péssim o. Os Lorim an se dedicavam de corpo e alm a a salvar o filho. A Sra. Lorim an j á havia m andado um e-m ail e telefonado para ele, pedindo sua aj uda: “Sei que o senhor nunca foi professor dos nossos filhos, m as todos na escola o vêem com o um líder.” De m aneira egoísta – todos os seres hum anos são egoístas –, Joe pensara que sua participação na cam panha talvez pudesse m elhorar sua im agem depois do episódio com Yasm in, ou pelo m enos aplacar a culpa que ele sentia. Im aginou sua própria filha, Allie, doente num hospital, ligada a um m onte de tubos, sofrendo. Em princípio isso teria sido o suficiente para que ele colocasse os próprios problem as em perspectiva, m as não foi. Alguém está sem pre num a situação m ais difícil que a nossa, m as isso raram ente serve de consolo.
Já no carro, Joe pensava em Nash enquanto dirigia. Em bora ainda tivesse três irm ãos m ais velhos, ele confiava m ais no antigo cunhado que em qualquer outra pessoa. Nash e Cassandra eram um casal bastante im provável, m as, quando estavam j untos, pareciam form ar um a entidade única. Joe j á ouvira dizer que as coisas m uitas vezes funcionavam assim , m as nunca encontrara um exem plo real antes de Nash e Cassandra nem depois. Deus era testem unha de que ele e Dolly não tinham tam anha cum plicidade.
Para Joe, por m ais brega que isso pudesse soar, Nash e Cassandra eram duas m etades que se com pletavam .
A m orte de Cassie havia sido m ais do que devastadora. Ninguém esperava que aquilo acontecesse. Mesm o depois do diagnóstico. Mesm o depois dos terríveis efeitos iniciais da doença. Todos pensavam que de algum m odo ela conseguiria sair daquela situação. Em bora não houvesse nenhum m otivo, a m orte de Cassandra pegara todos de surpresa.
Joe achava que Nash fora m ais afetado pela tragédia do que qualquer pessoa. Ele estava m udado. Talvez fosse isso o que acontecia a todos que se viam subitam ente obrigados a retom ar sua condição de m etade. Nash se transform ara num hom em frio, que não se im portava com quase ninguém . Estranham ente, Joe tinha gostado disso. As pessoas m ais calorosas dão a falsa im pressão de estarem sem pre dispostas a aj udar todo m undo. Mas quando realm ente precisava, com o agora, Joe gostava de contar com um am igo forte, que não dava a m ínim a para o que era certo ou errado e se preocupava som ente com o bem -estar das pessoas que am ava.
E esse am igo era Nash.
– Prom eti a Cassandra que vou proteger você – dissera ele a Joe logo após o enterro.
Vindas de qualquer outro, essas palavras teriam parecido bizarras ou constrangedoras, m as no caso de Nash, não havia dúvidas de que eram sinceras, de que ele realm ente iria fazer o possível e o im possível para cum prir sua prom essa. Isso era ao m esm o tem po assustador e reconfortante e, para alguém com o Joe, o filho franzino de um pai exigente, significava m uito.
Chegando em casa, Joe deparou com Dolly sentada diante do com putador. Estranhou a expressão no rosto dela e sentiu um em brulho no estôm ago.
– Onde você estava? – perguntou ela.
– Na escola.
– Fazendo o quê?
– Eu precisava colocar algum as coisas em dia.
– Meu e-m ail ainda não está funcionando.
– Depois eu dou m ais um a olhada.
Dolly se levantou.
– Quer que eu faça um chá? – ofereceu.
– Seria ótim o, obrigado.
Dolly beij ou o m arido no rosto e saiu para a cozinha. Joe sentou-se ao com putador. Assim que ficou sozinho, acessou o site de seu provedor de internet. Estava prestes a conferir seu e-m ail quando algo cham ou sua atenção.
Na página inicial, alternavam -se algum as fotos que ilustravam as m anchetes do dia: notícias internacionais, seguidas de notícias locais, sobre esportes e cultura. Joe ficara intrigado com a foto das notícias locais, m as ela j á tinha sido substituída por outra, com os Knicks de Nova York.
Ele clicou sobre um a seta, cham ando a im agem anterior.
A foto exibia um hom em com suas duas filhas. Ele reconheceu um a delas. Não era aluna sua, m as freqüentava a escola. Ou pelo m enos era m uito parecida com alguém de lá. Joe clicou na história. A m anchete inform ava: MULHER DESAPARECIDA.
Joe viu o nom e de Reba Cordova. Ele a conhecia. Além de vice-presidente da associações de pais e professores, ela havia participado do com itê da biblioteca da escola, no qual ele ocupava o posto de representante do corpo docente. Joe lem brava-se claram ente do sorriso que ela costum ava abrir ao receber as filhas no portão, depois da aula.
Reba Cordova está desaparecida?
Foi então que ele leu o parágrafo seguinte, que falava da possível conexão do desaparecim ento da Sra. Cordova com o cadáver encontrado dias antes em Newark. E, quando viu o nom e da vítim a, ficou se fôlego.
Santo Deus, o que ele havia feito?
Joe Lewiston correu para o banheiro e vom itou. Em seguida, tirou o telefone do gancho e discou o núm ero de Nash.