Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 24 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 24

24

SENTADO NA VAN, Nash pensava no passo que daria a seguir.

Ele tivera um a criação norm al. Sabia que os psiquiatras sem pre tentariam contradizê-lo, vasculhando sua vida à procura de algum abuso sexual ou excesso religioso. Nash tinha certeza de que eles não encontrariam nada. Fora agraciado com pais e irm ãos bons. Talvez até bons dem ais. Recebera deles o m esm o tipo de suporte que qualquer outro receberia da fam ília. Em retrospecto, alguns veriam nisso um erro, m as, de m odo geral, é difícil para os parentes aceitar a verdade.

Nash era inteligente, por isso soubera desde cedo que era o que m uitos cham avam de “desaj ustado”. Há quem diga que, por força de sua própria condição, os loucos não têm com o saber que são loucos. Mas não é bem assim . Eles podem , e têm , consciência da própria loucura. Nash, por exem plo, sabia m uito bem que tinha um parafuso a m enos ou algum defeito de fábrica. Sabia que era diferente, que não fazia parte da norm a. Mas nem por isso se sentia inferior ou superior aos dem ais. Sabia que sua m ente freqüentava lugares bem som brios e gostava disso. Nash não sentia as coisas da m esm a form a que os outros, não se condoía do sofrim ento alheio com o as pessoas fingiam fazer.

Fingiam, essa era a verdade.

Pietra estava sentada ao lado dele.

– Por que será que o hom em se dá tanta im portância? – perguntou Nash. Pietra não disse nada.

– Esqueça o fato de que este planeta, aliás, o sistem a solar, é tão ridiculam ente pequeno que a gente nem consegue entender direito. Tente im aginar que você está num a praia enorm e. Então você pega um único grão de areia. Um só. Depois olha para os dois lados e a praia se estende até perder de vista. Você acha que o sistem a solar é tão pequeno em relação ao universo quanto esse grão de areia é em relação à praia?

– Sei lá.

– Bem , se achasse, estaria errada. Porque é m uito, m uito m enor. Im agine que você ainda está segurando o grãozinho de areia, só que agora vai com pará-lo não apenas à praia em que está, m as a todas as praias do planeta, as da costa da Califórnia e as da costa Leste, desde o Maine até a Flórida; as do Índico e da África. Todas as praias do m undo m esm o. Pois bem . Com parativam ente, nosso sistem a solar ainda é m uito, m uito m enor em relação ao universo. Dá para entender com o som os insignificantes?

Pietra ficou em silêncio.

– Mas esqueça isso por um instante – prosseguiu Nash –, porque nem é preciso ir além do nosso planeta para constatar a insignificância do hom em . Vam os pensar agora só no contexto da Terra, o.k.?

Pietra fez que sim com a cabeça.

– Você sabia que os dinossauros habitaram este planeta durante m uito m ais tem po que o hom em até agora?

– Sim , eu sei.

– Mas a coisa não pára aí. Só isso bastaria para com provar que o hom em não é nada especial, o fato de que m esm o neste planeta infinitesim alm ente pequeno nosso reinado não é o m ais duradouro. Mas vam os dar um passo adiante: você saberia m e dizer quantas vezes a era dos dinossauros durou m ais que a nossa até agora? Duas, cinco, dez?

Pietra olhou para ele.

– Não tenho a m enor idéia.

– Quarenta e quatro m il! – A esta altura, Nash gesticulava dram aticam ente, m ovido pelo brilhantism o de seu próprio argum ento. – Pense nisso! Quarenta e quatro m il vezes m ais longevos! Isso equivale a m ais de 120 anos para cada dia! Você consegue im aginar um a coisa dessas? Acha que vam os durar 44 m il vezes m ais do que j á duram os?

– Não – respondeu Pietra.

Nash recostou-se no banco.

– Não som os nada. O hom em . Nada. Mas ainda assim nos consideram os especiais. Acham os que tem os algum a im portância, que som os os prediletos de Deus. Um a piada.

Na universidade, Nash havia lido sobre o Estado Natural de John Locke: a idéia de que o m elhor governo é o não-governo, pois, resum indo, o não-governo é o que há de m ais parecido com o estado natural, com o plano original de Deus. Mas nesse estado não passam os de anim ais. Besteira pensar que sej am os algo m ais do que isso. Quanta estupidez achar que o hom em sej a algo m ais que um anim al, que o am or e a am izade sej am outra coisa senão as divagações de um a m ente um pouquinho m ais sofisticada, um a m ente que consegue enxergar a futilidade da condição hum ana e que, por causa disso, precisa inventar m eios para se consolar, para esquecer essa futilidade ainda que m om entaneam ente.

Será que Nash era a única pessoa sã que enxergava isso? Ou todas as outras estariam apenas se iludindo? E m esm o assim …

E m esm o assim , Nash sem pre quisera ser norm al.

Olhava para as pessoas despreocupadas e as invej ava. Tinha consciência de que era bem m ais inteligente que a m édia. Só tirava notas m áxim as no colégio e por pouco não havia gabaritado o SAT, o exam e para entrar na universidade. Matriculara-se no William s College, onde se form ou em filosofia. E durante todo esse tem po tentara m anter o louco na gaiola. Mas ele queria sair.

Por que não soltá-lo?

Havia em Nash algum instinto prim itivo que o levava a querer proteger os pais e os irm ãos, m as o resto do m undo não tinha a m enor im portância para ele. Fora do âm bito de sua fam ília, as pessoas não passavam de figurantes, de obj etos de cena. A verdade, da qual Nash se dera conta m uito cedo, era que ele tinha im enso prazer em m achucar os outros. Sem pre tivera. Não sabia por quê. Algum as pessoas encontram prazer na suavidade de um a brisa, no calor de um abraço, na em oção de m arcar o ponto da vitória num a partida de basquete. O prazer de Nash era livrar o planeta de m ais um habitante. Não havia pedido para ser assim , m as tinha consciência desse desej o. Às vezes conseguia reprim i-lo, outras, não.

Então ele conheceu Cassandra.

Foi com o um a dessas experiências científicas em que alguém pinga um a gotinha de catalisador num a solução pura e lím pida. A partir daí, tudo m uda: a cor, o cheiro, a textura. Por m ais brega que isso possa parecer, Cassandra foi um a espécie de agente catalisador para Nash.

Ele a viu, ela o tocou, e Nash se transform ou.

De repente ele se deu conta. Recebera o am or, a esperança, os sonhos, a vontade de passar o resto da vida na com panhia de outra pessoa. Eles se conheceram no segundo ano de faculdade. Cassandra era linda, m as havia algo m ais ali. Todos os rapazes arrastavam um a asa para ela, m as não com o desej o sexual característico da j uventude. Com seu j eitinho peculiar de andar, seu sorriso reconfortante, Cassandra era a garota que todos queriam levar para casa e apresentar aos pais. Era quem fazia os rapazes pensarem em com prar um a casa, passar os sábados aparando a gram a do j ardim e os dom ingos preparando um churrasco no quintal. Era a testa de Cassandra que eles sonhavam um dia enxugar na sala de parto, enquanto ela dava à luz seus filhos. Os hom ens se encantavam com a beleza dela e m ais ainda com sua bondade inata. Cassandra era especial, incapaz de fazer m al a ninguém e as pessoas instintivam ente sabiam disso.

Nash havia enxergado um pouco disso em Reba Cordova e chegou a sentir um a pontinha de angústia ao m atá-la. Pensou no m arido dela e no sofrim ento que ele enfrentaria agora. Em bora não se im portasse nem um pouco com ele, conhecia bem aquela dor.

Cassandra.

Ela tinha cinco irm ãos que a adoravam , pais que a am avam , e quando sorria, não havia quem não sentisse um aconchego no coração. Os parentes a cham avam de Cassie. Nash não gostava disso. Para ele, ela era Cassandra. No dia em que se casaram , ele com preendeu o que significava a palavra “bênção”.

Sem pre que voltavam ao William s College para as reuniões de ex-alunos, hospedavam -se no Porches Inn de North Adam s. Nash ainda via Cassandra na casinha cinzenta daquela pousada, descansando a cabeça no colo dele, olhando vagam ente para o teto, enquanto ele acariciava seus cabelos e eles conversavam sobre nada e sobre tudo. Pois era assim que a via quando olhava para trás: tal com o ela era antes de adoecer, antes de os m édicos diagnosticarem o câncer e retalharem sua linda Cassandra, antes de sua am ada m orrer com o qualquer outro organism o deste m undinho insignificante.

Sim , Cassandra havia m orrido e só então ele teve absoluta certeza de que tudo não passava de um grande engodo, de um a piada de m au gosto. A partir daí não teve m ais forças, nem estím ulo, para controlar o louco. Sim plesm ente o deixou sair, dando início a um cam inho sem volta.

Os fam iliares tentaram consolá-lo. Tinham “fé” e repetiam que ele havia sido “abençoado” por ter tido um a m ulher com o Cassandra, que ela estava esperando por ele num lugar m uito lindo, onde viveriam j untos por toda a eternidade. Na opinião de Nash, eles tinham necessidade de acreditar naquilo. A fam ília de Cassandra j á havia passado por outra grande tragédia: o irm ão m ais velho, Curtis, tinha sido assassinado três anos antes durante um a tentativa de assalto. Mas ele fizera por m erecer. Sem pre fora problem ático. Cassandra ficara arrasada com a m orte do irm ão, chorara durante dias. Nash chegara a pensar em libertar o louco só para livrá-la de tanto sofrim ento. No entanto, foi com a fé que ela e seus fam iliares conseguiram racionalizar a m orte de Curtis. Com a fé, acabaram explicando a tragédia com o parte de um grande plano de Deus.

Mas com o explicar a m orte de um a pessoa tão adorável e pura com o Cassandra?

Sua m orte não tinha explicação. Era por isso que os pais dela viviam falando de vida eterna, em bora não acreditassem nisso de verdade. Ninguém acredita. Ora, por que chorar um a m orte se a pessoa passará a eternidade em estado de êxtase? Por que chorar por um ente querido que se foi para um lugar m elhor? Não seria o m ais absurdo egoísm o querer privar quem am am os desse lugar m elhor? Se de fato acreditássem os nessa história de que voltarem os a encontrar a pessoa am ada no Paraíso, então não teríam os nada a tem er, j á que a vida não passa de um átim o quando com parada à eternidade.

Nós choram os e ficam os de luto, Nash sabia, porque no fundo tem os consciência de que tudo isso não passa de um a grande fantasia.

Cassandra não estava j unto do irm ão Curtis, banhada em luz branca. O que sobrara dela, o que não havia sido com ido pelo câncer e pela quim ioterapia, agora apodrecia no solo de um cem itério.

No enterro, os parentes dela tinham falado de destino, do plano de Deus, essa baboseira toda. Para eles, esse havia sido o destino de sua am ada: ter um a vida curta, tocar o coração de todos que a conheceram , alçá-lo nas alturas para depois deixá-lo despencar no chão. Esse tam bém fora o destino dele, Nash pensou. Mesm o quando estava com ela, houve m om entos em que encontrara m uita dificuldade para refrear sua verdadeira natureza, suas m ais íntim as inclinações. Será que, se ela não tivesse m orrido, ele teria sido capaz de continuar m antendo sua paz interior? Ou desde o início estivera program ado para voltar às som bras e prom over a destruição?

Im possível dizer. Mas, m esm o assim , esse era seu destino.

– Ela nunca teria contado nada – disse Pietra.

Nash sabia que ela estava se referindo a Reba Cordova.

– Não podem os ter certeza disso – falou.

Pietra olhou pela j anela.

– Cedo ou tarde, a polícia conseguirá identificar Marianne – prosseguiu Nash. – Ou alguém vai dar pela falta dela. Eles vão investigar, falar com os am igos dela. Reba certam ente ia dar com a língua nos dentes.

– Você está sacrificando m uitas vidas.

– Só duas por enquanto.

– E a dos sobreviventes. A vida deles tam bém foi arruinada.

– É verdade.

– Por quê?

– Você sabe por quê.

– Você vai dizer que foi a Marianne que provocou tudo?

– “Provocar” talvez não sej a a palavra certa. Ela sim plesm ente alterou a dinâm ica das coisas.

– E por isso teve de m orrer?

– Ela tom ou um a decisão que alterou e poderia ter destruído outras vidas.

– E por isso teve de m orrer? – repetiu Pietra.

– Todas as nossas decisões têm conseqüências, Pietra. Todos nós brincam os de Deus todos os dias. Quando um a m ulher com pra um par de sapatos caros, poderia ter gasto a m esm a quantia alim entando um a pessoa fam inta. De certo m odo, aqueles sapatos são m ais im portantes para ela do que a vida de alguém . Todos nós m atam os para tornar nossas vidas m ais confortáveis. Não colocam os as coisas nessas palavras, m as é isso que fazem os.

Ela não discutiu.

– O que está acontecendo com você? – perguntou Nash.

– Nada. Deixe para lá.

– Eu prom eti a Cassandra.

– Eu sei. Você j á disse.

– Precisam os m anter as coisas sob controle, Pietra.

– Acha que vai ser possível?

– Acho.

– Então, quantas pessoas você ainda vai m atar?

Nash se surpreendeu com a pergunta.

– Você quer m esm o saber? Já não se deu por satisfeita?

– Estou falando de agora. De hoj e. Quantos m ais a gente vai m atar?

Nash pensou no assunto. Deu-se conta de que Marianne talvez tivesse dito a verdade desde o início. Nesse caso, seria preciso voltar à estaca zero e elim inar o problem a na fonte.

– Se tiverm os sorte – respondeu –, só m ais um .

♦♦♦

– Uau – exclam ou Loren Muse. – Acho que nunca vi um a m ulher m ais sem graça que essa.

Clarence sorriu. Eles estavam exam inando os extratos do cartão de crédito de Reba Cordova. Absolutam ente nenhum a surpresa. Ela com prava m antim entos, m aterial escolar e roupas de criança. Recentem ente havia adquirido um aspirador de pó na Sears e devolvido em seguida. Com prara um m icroondas na P.C. Richard. O núm ero do cartão estava arquivado no com putador de um restaurante chinês cham ado Baum garts, onde ela fazia um pedido de entrega todas as terças-feiras.

Os e-m ails eram igualm ente bobos. Ela escrevia para outros pais, m arcando encontros para os filhos. Mantinha contato com o professor de dança de um a das filhas e com o técnico de futebol da outra. Recebia m ensagens da Willard School. Com as am igas do tênis, m arcava partidas ou se oferecia para j ogar no lugar de alguém quando necessário. Fazia parte do m ailing da William s-Sonom a, da Pottery -Barn e da PetSm art. Tinha escrito para a irm ã pedindo que ela recom endasse um especialista para sua filha Sarah, que estava tendo dificuldades para ler.

– Pensei que pessoas assim não existissem – disse Muse.

Mas ela sabia que existiam , sim . Costum ava vê-las nas Starbucks, aquelas m ulheres com olhos de gazela, sem pre atarefadas, que viam um a cafeteria com o o lugar ideal para um m om ento de lazer com os filhos; era sem pre a m esm a coisa: um pequeno exército de Britanies, Madisons e Ky les correndo pelo salão enquanto suas respectivas m am ães, ex-intelectuais com diplom a universitário pendurado na parede, tagarelavam sobre suas proles com o se não existisse nenhum a outra criança no m undo. Tam bém falavam do cocô delas (por m ais incrível que isso possa parecer), das prim eiras palavras, das prim eiras gracinhas, da escola Montessoriana, das aulinhas de natação, do DVD do Baby Einstein, e todas apresentavam no rosto o m esm o sorriso debilóide, com o se algum alienígena tivesse sugado toda a m assa cinzenta da cabeça delas. Por um lado, Muse desprezava e tinha pena dessas m ulheres; por outro, fazia de tudo para não invej á-las.

Naturalm ente, Loren Muse havia j urado que j am ais seria com o aquelas m ães se um dia tivesse filhos. Mas com o ela poderia saber? Juram entos dessa natureza sem pre a lem bravam daquelas pessoas que afirm avam preferir m orrer cedo a vegetar num asilo ou se tornar um fardo para os filhos. Agora, os pais de quase todo m undo que ela conhecia viviam num asilo ou eram um estorvo para os filhos, e nenhum deles queria m orrer.

Sem pre que vem os um a situação de fora, correm os o risco de fazer j ulgam entos precipitados e tendenciosos.

– E o álibi do m arido? – perguntou Muse.

– Cordova foi interrogado pela polícia de Livingston. Pareceu bem coerente. Muse apontou para a papelada à sua frente com o queixo.

– Ele é tão sem graça quanto a m ulher?

– Ainda estou exam inando os e-m ails dele, bem com o os telefonem as e os lançam entos no cartão de crédito. Mas, até agora, nada fora do com um .

– O que m ais?

– Bem , partindo do pressuposto de que Reba Cordova e a falsa prostituta foram assassinadas pela m esm a pessoa, ou pessoas, despachei diversas patrulhas para dar um a olhada nos pontos de prostituição m ais m anj ados e ver se m ais algum corpo foi desovado.

Loren Muse não acreditava que eles encontrassem algum a coisa, em bora achasse que não custava nada investigar. Um a das hipóteses com as quais vinha trabalhando era a de que um serial killer, com a aj uda voluntária ou involuntária de um a cúm plice, andava seqüestrando m ulheres nos subúrbios, m atando-as e tentando fazê-las passar por prostitutas. Naquele exato m om ento alguém pesquisava os bancos de dados da polícia à procura de outras vítim as nas cidades vizinhas que se encaixavam nessa descrição. Mas, até agora, nada.

De qualquer m odo, Muse não levava m uita fé nessa hipótese. Os psicólogos de plantão teriam orgasm os m últiplos só de im aginar um serial killer com sem elhante modus operandi: não pensariam duas vezes antes de sacar o célebre vínculo entre m ães e prostitutas. Muse, no entanto, não acreditava em nada disso. Havia um a peça que não se encaixava de j eito nenhum naquele quebra-cabeça, um a peça que a vinha intrigando desde o m om ento em que descobrira que a prim eira vítim a não era um a prostituta: por que ninguém dera queixa do desaparecim ento dela?

Só havia duas explicações possíveis. A prim eira era que ninguém sabia que ela havia desaparecido. Talvez ela estivesse num a viagem de férias ou a trabalho, ou algo parecido. A segunda era que ela tinha sido assassinada por algum conhecido, e que essa pessoa, obviam ente, não pretendia dar queixa.

– Onde está o m arido agora?

– Cordova? Ainda está com a polícia de Livingston. Eles vão interrogar a vizinhança, tentar descobrir se alguém viu um a van branca. O procedim ento de sem pre, você sabe.

Muse pegou um lápis e m ordeu a borracha da ponta.

Alguém bateu à porta. Levantando os olhos, Muse deparou com o vulto volum oso de Frank Trem ont.

Terceiro dia seguido com o m esm o terno m arrom , ela pensou. Inacreditável.

Trem ont não disse nada, sim plesm ente ficou à espera de um a perm issão para entrar. Apesar de atarefada, Muse preferiu livrar-se logo dele.

– Clarence, você se im porta de nos deixar a sós um instante?

– Claro que não, chefe.

Antes de sair, Clarence cum prim entou Trem ont com um rápido m eneio da cabeça. Trem ont, por sua vez, ignorou a cortesia. Assim que se viu sozinho com Muse, balançou a cabeça e disse:

– Ele cham ou você de chefe?

– Estou m eio ocupada, Frank.

– Recebeu m inha carta?

O pedido de dem issão.

– Recebi.

Silêncio.

– Tenho um a novidade para você – disse Trem ont.

– O que é?

– Só vou em bora no fim do m ês que vem – respondeu ele. – Então preciso trabalhar, certo?

– Certo.

– Pois então. Descobri um a coisa.

Muse recostou-se na cadeira, esperando que Trem ont fosse breve.

– Dei um a investigada na tal van branca. A que aparece nos dois casos.

– E aí?

– Não foi roubada, pelo m enos não nesta área. Não tem os nenhum a ocorrência de roubo de van. Então com ecei a pesquisar as em presas de locação para saber se alguém tinha alugado um a van com a descrição que dei.

– E?

– Algum as foram alugadas, sim , m as consegui localizar todas elas e não encontrei nenhum problem a. Todas as locações são legítim as.

– Então é o fim da linha.

Frank Trem ont sorriu.

– Se im porta se eu m e sentar um pouquinho? – perguntou.

Muse apontou para um a cadeira.

– Tentei m ais um a coisa – prosseguiu Trem ont. – Sabe, esse cara tem sido bastante esperto, com o você m esm a disse. Prim eiro, fantasiou seu cadáver de puta. Depois, largou o carro da outra vítim a no estacionam ento de um hotel. Trocou as placas e tudo m ais. Ele não age com o os outros. Então fiquei pensando. O que seria m elhor e m ais difícil de investigar do que roubar ou alugar um carro?

– Sou toda ouvidos.

– Com prar um carro usado pela internet. Conhece esses sites?

– Não, não conheço.

– Eles vendem zilhões de carros. Ano passado eu m esm o com prei um . Através de um site cham ado Autoused.com . Tem um as pechinchas bem interessantes. E com o tudo é negociado diretam ente entre o vendedor e o com prador, a papelada é bastante irregular. Quer dizer, dá para investigar um a concessionária, m as quem é que vai conseguir localizar um carro com prado on-line?

– Então?

– Então liguei para as duas m aiores em presas desse tipo. Pedi que eles tentassem descobrir se algum a van branca da Chevrolet tinha sido vendida nesta área ao longo do últim o m ês. Encontrei seis. Liguei para todos os vendedores. Quatro dessas vans foram pagas com cheque, então consegui o endereço dos com pradores. Duas foram pagas com dinheiro vivo.

Muse m ais um a vez se recostou na cadeira. Ainda m ordia o lápis.

– Muito esperto. Você com pra um carro usado. Paga em espécie. Dá um nom e falso, ou não dá nom e nenhum . Recebe os docum entos, m as não faz nenhum registro da troca de proprietários, nem contrata um seguro. Depois rouba a placa de outro carro do m esm o m odelo e está pronto para entrar em ação.

– Exatam ente – disse Trem ont. Abriu um sorriso e acrescentou: – A não ser por um a coisa.

– O quê?

– O suj eito que vendeu o carro para eles…

– Eles?

– É. Um hom em e um a m ulher. Na casa dos 30 anos, segundo inform ou o vendedor. Vou pedir a ele um a descrição com pleta, m as é bem possível que a gente consiga algo m elhor. O tal vendedor, Scott Parsons, de Kasselton, trabalha na Best Buy. Eles têm um sistem a de segurança bastante sofisticado por lá. Tudo digitalizado. Portanto guardam todas as film agens. Parsons acha que pode localizar algum a im agem do casal de com pradores. Falou que ia m andar um cara da técnica fazer isso im ediatam ente. Mandei um a viatura buscá-lo. Quero que o cara dê um a olhada em algum as das nossas fotos de arquivo, que faça a descrição m ais detalhada que puder.

– Tem os algum retratista de plantão?

Trem ont fez que sim com a cabeça.

– Já cuidei disso tam bém .

Tratava-se de um a pista legítim a, a m elhor que eles tinham até o m om ento. Muse não sabia ao certo o que dizer.

– O que m ais descobrim os até agora? – perguntou Trem ont.

Muse falou sobre a total ausência de pistas nos cartões de crédito, nos telefonem as e nos e-m ails. Trem ont recostou-se na cadeira e cruzou as m ãos sobre a barriga.

– Quando entrei aqui – falou –, você estava roendo este lápis. No que estava pensando?

– Na hipótese de estarm os lidando com um serial killer.

– Você não leva m uita fé nela, leva?

– Não, não levo.

– Nem eu – disse Trem ont. – Então, que tal repassarm os tudo o que tem os até agora?

Muse se levantou e com eçou a cam inhar de um lado para outro.

– Duas vítim as. Até agora, só isso. Pelo m enos nesta área. Nosso pessoal j á está investigando se há outras, m as vam os considerar apenas as duas: Reba Cordova, que pode até estar viva, e a falsa prostituta.

– O.k. – disse Trem ont.

– Digam os que haj a um m otivo para que essas duas m ulheres tenham sido assassinadas.

– Com o o quê, por exem plo?

– Não sei ainda, m as preste atenção. Se houver um m otivo… Ou m elhor: m esm o que não haj a m otivo nenhum , e partindo do pressuposto de que não estam os lidando com um serial killer, tem de haver algum a ligação entre as duas vítim as.

Trem ont fez que sim com a cabeça, percebendo claram ente aonde Muse queria chegar.

– E se isso for verdade, é bem possível que elas se conhecessem – disse ele.

– Exatam ente – devolveu Muse.

– E se Reba Cordova conhecia a outra vítim a… – Trem ont sorriu de novo.

– Talvez Neil Cordova tam bém a conheça. Ligue para a polícia de Livingston. Diga para eles m andarem Cordova para cá. Quem sabe ele não possa identificá-la?

– É para j á – disse Trem ont, e se levantou para sair.

– Frank?

Ele se virou para Muse.

– Bom trabalho – disse ela.

– Sou um bom policial – disse ele.

Muse não respondeu.

– Você tam bém é um a boa policial, Muse. Talvez um a excelente policial. Mas não é um a boa chefe. Um bom chefe é aquele que sabe tirar proveito dos seus bons colaboradores. Não foi isso que você fez. Você precisa aprender a adm inistrar pessoas.

Muse balançou a cabeça e disse:

– Está bem , Frank. Foi o m eu despreparo com o chefe que fez você acreditar que a vítim a era um a prostituta. A culpa foi m inha.

Trem ont sorriu.

– Fui eu que peguei esse caso – replicou.

– E m eteu os pés pelas m ãos.

– Posso ter m e enganado no com eço, m as ainda estou aqui. Não im porta o que penso de você. Tam bém não im porta o que você pensa de m im . Só o que interessa é fazer j ustiça para a m inha vítim a.