Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 14 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 14

14

M IKE ENTROU EM CASA, BATEU A PORTA e foi direto para o com putador. Queria

consultar a página do GPS e ver exatam ente onde Adam estava. Ficou pensando nisso. O GPS

não era um instrum ento absolutam ente preciso, tinha um a pequena m argem de erro. Seria possível que Adam estivesse na vizinhança da casa dos Huff? A um quarteirão de distância,

talvez? Na m ata próxim a ao quintal deles?

Ele estava prestes a abrir a página quando ouviu alguém bater à porta da frente. Suspirou e foi ver quem era pela j anela. Susan Lorim an.

Mike abriu a porta. Susan estava com os cabelos soltos, sem m aquiagem , e ele m ais um a vez se repreendeu por achá-la um a m ulher m uito atraente. Certas m ulheres têm essa coisa. Não dá para dizer ao certo o que é. O rosto e o corpo são bonitos, às vezes m ais que isso, m as tam bém tem aquela qualidade intangível que deixa os hom ens de queixo caído. Mike j am ais iria além da adm iração, m as sabia que ignorar esse tipo de atração era ainda m ais perigoso.

– Oi – disse Susan.

– Oi.

Ela não entrou. Não queria dar m argem a fofocas caso houvesse alguém os observando e, num a vizinhança daquelas, certam ente haveria. Susan ficou à porta, os braços cruzados, com o um a vizinha pedindo um a xícara de açúcar.

– Você sabe por que eu liguei? – perguntou Mike.

Ela fez que não com a cabeça.

Mike procurou as palavras certas.

– Com o você sabe, precisam os testar os parentes m ais próxim os de seu filho.

– Sim , eu sei.

Ele se lem brou da atitude arredia de Daniel Huff, do com putador ligado no escritório, do GPS no telefone de Adam . Sua vontade era falar com Susan com tato, m as aquele não era um m om ento para m eias-palavras.

– Isso significa que precisam os testar o pai biológico do Lucas.

Susan piscou os olhos com o se tivesse acabado de levar um tapa.

– Eu não queria ser tão direto, m as…

– Mas você j á testou o pai dele. Falou que não era com patível.

Mike olhou para ela.

– O pai biológico – repetiu.

Ela deu um passo atrás, perplexa.

– Susan?

– Não é o Dante?

– Não. Não é o Dante.

Susan Lorim an fechou os olhos.

– Meu Deus! – exclam ou. – Não pode ser.

– Mas é.

– Tem certeza?

– Tenho. Você não sabia?

Ela não disse nada.

– Susan?

– Você vai contar para o Dante?

Mike não sabia com o responder.

– Acho que não.

– Você acha?

– Ainda estam os avaliando todas as im plicações éticas e legais deste caso e…

– Você não pode contar. Ele vai perder a cabeça!

Mike não sabia o que dizer. Sim plesm ente esperou.

– Ele adora aquele m enino. Você não pode tirar isso dele.

– Nossa principal preocupação é com o bem -estar do Lucas.

– E você acha que contar ao Dante que ele não é o pai verdadeiro vai aj udar o Lucas de algum a form a?

– Não, m as preste atenção, Susan. A saúde do Lucas está acim a de qualquer coisa. Essa é a nossa prioridade núm ero um , dois e três. Neste m om ento, isso significa encontrar o m elhor doador possível para o transplante. Portanto, não estou fazendo isso só para m e m eter na sua vida ou destruir sua fam ília. Trata-se exclusivam ente de um cuidado m édico. Precisam os testar o pai biológico.

Com os olhos m arej ados, ela baixou a cabeça e m ordeu o lábio inferior.

– Susan?

– Preciso pensar – disse ela.

Em outras circunstâncias, Mike iria pressioná-la, m as não havia m otivo para fazer isso agora. Nada aconteceria durante a noite e ele tinha suas próprias preocupações.

– Vam os ter de testar o pai.

– Só m e dê um tem po, está bem ?

– Claro.

Ela o encarou com tristeza.

– Não conte ao Dante – suplicou. – Por favor, Mike.

Não esperou que ele respondesse, sim plesm ente se virou e foi em bora. Mike fechou a porta e voltou ao escritório. Susan Lorim an teria sem anas difíceis pela frente. “Susan Lorim an, seu filho pode m orrer a qualquer m om ento e precisa de um transplante. Ah, e seu m arido está prestes a descobrir que o garoto não é filho dele! Sabe o que m ais? Vam os para a Disney lândia!”

A casa estava silenciosa, o que não era com um . Mike tentou se lem brar da últim a vez que ficara sozinho ali, sem filhos, sem Tia, m as não conseguiu. Gostava desses períodos de tranqüilidade. Tia era o contrário. Gostava de gente ao seu redor o tem po todo. Crescera num a fam ília grande e detestava ficar sozinha. Mike, por sua vez, não tinha nada contra a solidão.

Voltando ao com putador, ele abriu a lista de favoritos e clicou sobre o link do GPS. Um cookie j á havia salvado o nom e do usuário, portanto só foi preciso digitar a senha. Um a voz em sua cabeça berrava para que ele deixasse aquilo tudo de lado. Adam precisava conduzir sua própria vida sozinho e aprender com seus próprios erros.

Será que essa superproteção era um a form a de com pensar sua própria infância?

O pai de Mike fora ausente. Não por culpa sua, claro. Em igrara da Hungria pouco depois da queda de Budapeste, em 1956. Antal Bay e (o nom e tinha origem francesa, em bora não fosse possível traçar a árvore genealógica até tão longe) não falava um a única palavra de inglês ao desem barcar em Ellis Island. Com eçou a vida com o lavador de pratos e econom izou o suficiente para m ais tarde abrir um a lanchonete à beira da McCarter Highway, em Newark. Trabalhava sete dias por sem ana, m as conseguiu construir um a vida para sua fam ília.

A lanchonete servia três refeições diárias, vendia revistas em quadrinhos e álbuns de figurinha, j ornais e revistas, charutos e cigarros. Os bilhetes de loteria faziam enorm e sucesso, em bora Antal não gostasse de vendê-los. Ele achava que era um desserviço encoraj ar seus clientes, honestos e trabalhadores, a j ogar dinheiro fora com sonhos im possíveis. Não via problem a algum na venda de cigarros, pois fum ar era um a escolha e as pessoas sabiam o que estavam fazendo. Mas vender a ilusão de dinheiro fácil o aborrecia.

Antal Bay e nunca tinha tem po para assistir aos j ogos de hóquei de Mike na liga infantil. Mas não se culpava por isso. Hom ens com o ele j am ais assistiam aos j ogos dos filhos. Ele se interessava por tudo o que Mike fazia, vivia fazendo perguntas, queria saber de todos os detalhes, m as o trabalho não deixava tem po livre para nenhum a espécie de lazer, m uito m enos para ficar sentado assistindo ao que quer que fosse. No único j ogo ao qual com parecera (Mike tinha 9 anos e a partida era ao ar livre), ele havia caído no sono, recostado num a árvore, exausto de tanto trabalhar. Nem sequer tirara o avental da lanchonete, salpicado com as m anchas de gordura dos sanduíches de bacon servidos pela m anhã.

Era assim que Mike sem pre via o pai, com aquele avental branco, atrás de um balcão, vendendo balas à criançada, vigiando os larápios, preparando às pressas ham búrgueres e café da m anhã.

Mike estava com 12 anos quando o pai tentou deter um ladrão. O suj eito sacou um a arm a e atirou. E foi assim , de form a tão estúpida, que Antal m orreu.

A lanchonete foi à falência. A m ãe de Mike com eçou a beber e não parou m ais, até que o Alzheim er a devorasse precocem ente e tornasse o artifício da bebida inútil. Ela agora vivia num asilo em Caldwell. Mike a visitava um a vez por m ês, em bora ela não tivesse a m enor idéia de quem ele era. Por vezes o cham ava de Antal e perguntava se ele queria que ela preparasse um a salada de batatas para os clientes que iam alm oçar.

Coisas da vida. Fazer escolhas difíceis, sair de casa e deixar para trás tudo o que se am a, tudo o que se tem , viaj ar para o outro lado do m undo, para um país desconhecido, construir um a vida nova… E um vagabundo m iserável sim plesm ente puxa o gatilho e acaba com tudo.

A revolta do j ovem Mike aos poucos foi se transform ando em determ inação. Ele se tornou um j ogador m elhor. Um aluno m elhor. Matava-se de estudar e de trabalhar porque, ao se m anter ocupado, não ficava pensando em com o as coisas poderiam ter sido.

O m apa apareceu na tela do com putador. Dessa vez o pontinho verm elho estava piscando. De acordo com o que Mike havia lido no tutorial, isso indicava que a pessoa estava em m ovim ento, provavelm ente dentro de um carro. Ele tam bém lera que os localizadores GPS consum iam m uita bateria. Portanto, para econom izar energia, os sinais eram em itidos a cada três m inutos. Se a pessoa parasse de se m over por m ais de cinco m inutos, o sistem a era desligado autom aticam ente e reiniciado depois, diante de qualquer indício de m ovim ento.

Adam estava atravessando a ponte George Washington.

Mas por quê?

Mike esperou. Era evidente que Adam estava num carro. De quem seria? O pontinho verm elho seguiu piscando pela Cross Bronx Expressway, pela Maj or Deegan, até chegar ao Bronx. Para onde ele estava indo? Aquilo não fazia o m enor sentido. Vinte m inutos depois, o pontinho parou na Tower Street. Mike não conhecia nada daquela região.

E agora?

Ficar ali, acom panhando o pontinho verm elho? Não parecia um a boa idéia. Por outro lado, se saísse atrás do filho, era bem possível que Adam se deslocasse novam ente.

Mike encarou o pontinho verm elho.

Clicou no ícone que lhe daria o endereço. Tower Street, 128. Em seguida clicou no link do endereço. Era um a residência. Ele pediu um a visão de satélite e foi nesse m om ento que o m apa se transform ou naquilo que de fato era: um a im agem obtida e transm itida por satélite. Não dava para ver m uita coisa, apenas os topos dos prédios num a rua da cidade. Mike foi passando o cursor pelo quarteirão e solicitando novos endereços. Não encontrou nada de m uito útil.

Quem Adam poderia estar visitando?

Mike solicitou um núm ero de telefone para o endereço da Tower Street. Não conseguiu, pois se tratava de um prédio e ele não tinha com o inform ar o núm ero do apartam ento.

E agora?

Ele abriu o MapQuest. Segundo inform ou o relatório, levaria 49 m inutos para chegar ao seu destino.

Mike resolveu ir até lá e pagar para ver.

Foi ao quarto e buscou o laptop, que tinha conexão wireless. Seu plano, se é que isso podia ser cham ado de plano, era: se chegasse ao Bronx e não encontrasse Adam , procuraria algum lugar onde pudesse acessar a internet e novam ente pesquisaria a localização do filho pelo GPS.

Dois m inutos depois, entrou no carro e saiu.