Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 16 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 16

16

ÀS TRÊS DA MANHÃ, Tia ligou para o celular de Mike m ais um a vez.

Ninguém atendeu.

O Four Seasons de Boston era um belo hotel e seu quarto era ótim o. Tia, com o todos os m ortais, adorava se hospedar em hotéis sofisticados: gostava dos lençóis, do serviço de quarto, da oportunidade de zapear sozinha pelos canais de TV. Trabalhara com afinco até a m eia-noite, preparando-se para o depoim ento do dia seguinte. Passara o tem po todo com o celular no bolso, com o vibracall ativado. Com o ele não tocava, Tia o pegava com freqüência, conferindo o sinal e a lista de cham adas não atendidas, para o caso de ela ter se distraído e não sentido o aparelho vibrar.

Mas ninguém havia ligado.

Onde Mike podia ter se m etido?

Ela j á havia ligado para ele, claro. Telefonara para casa. Para o celular de Adam . O pânico com eçava a rondá-la e Tia fazia o possível para evitar que ele se instalasse por com pleto. Adam era um a coisa. Mike era outra bem diferente: além de adulto, era um hom em absolutam ente capaz. Essa era um a das qualidades que tanto haviam seduzido Tia no início. Por m ais que isso não fosse m uito fem inista, ao lado de Mike Bay e ela se sentia segura, protegida, acalentada. Mike era um a rocha.

Tia ficou pensando no que poderia fazer.

Poderia alugar um carro e voltar para casa. Um a viagem de quatro, cinco horas. Chegaria pela m anhã. Mas o que faria então? Ligar para a polícia era outra opção. Mas dificilm ente eles lhe dariam ouvidos, ainda era cedo para qualquer tipo de investigação. Além do m ais, o que poderiam fazer àquela hora?

Três da m anhã. Só havia um a pessoa para quem ela poderia ligar.

O núm ero dele estava arm azenado no BlackBerry, em bora ela nunca o tivesse usado. Tia e Mike com partilhavam um Microsoft Outlook que fornecia para os dois um a única lista de endereços e telefones, além de um a agenda. Eles sincronizavam seus aparelhos de m odo que pudessem , em tese, saber de todos os com prom issos um do outro. Isso significava que am bos tam bém sabiam de todos os contatos pessoais e profissionais um do outro.

Prova de que eles não guardavam nenhum segredo, certo?

Tia ficou pensando nisso: nos segredos, nos pensam entos m ais íntim os que todos têm , na necessidade desses segredos e pensam entos, bem com o no m edo que eles im plicavam para um a m ãe e m ulher. Mas agora não era hora para isso. Ela encontrou o núm ero e apertou o SEND.

Pela voz, Mo não estava dorm indo.

– Alô?

– Oi, é a Tia.

– O que houve?

Ela percebeu a aflição na voz dele. Mo não tinha m ulher nem filhos e, em m uitos aspectos, tinha apenas a Mike.

– Você teve notícias do Mike?

– Falei com ele m ais ou m enos às 20h30 – respondeu Mo. Depois repetiu: – O que houve?

– Ele estava tentando encontrar o Adam .

– Eu sei.

– Nos falam os por volta das 21h, eu acho. E desde então não tive m ais notícias.

– Já ligou para o celular dele?

Tia agora sabia com o Mike se sentira quando ela fez a m esm a pergunta idiota.

– Claro que j á.

– Já estou m e vestindo – disse Mo. – Vou até lá, dar um a olhada na casa. Você ainda esconde a chave debaixo daquela pedra falsa perto da cerca?

– Lá m esm o.

– Então j á estou indo.

– Você acha que eu deveria cham ar a polícia?

– Melhor esperar até eu chegar lá. Daqui a uns 20 m inutos, 30 no m áxim o. Talvez ele tenha pegado no sono diante da TV, ou algo assim .

– Você realm ente acredita nisso, Mo?

– Não. Eu ligo assim que chegar.

Ele desligou. Tia levantou-se da cam a. De repente aquele quarto de hotel havia perdido toda a graça. Detestava dorm ir sozinha, m esm o nos hotéis de luxo com seus lençóis de um m ilhão de fios. Tia precisava do m arido a seu lado. Sem pre. Raram ente dorm iam separados e ela sentia a falta dele m ais do que se dispunha a adm itir. Mike não era exatam ente um hom em grande, m as era forte. Tia gostava do calor do corpo dele ao lado do seu, dos beij inhos que Mike dava em sua testa sem pre que se levantava, da m ão forte que ele pousava nas suas costas enquanto ela dorm ia.

Ela se lem brou de um a noite em que Mike estava com um pouco de falta de ar. Depois de m uita insistência, ele havia confessado que vinha sentindo um aperto no peito. Tia, que queria se m ostrar forte para o m arido, quase desm aiou ao ouvir a notícia. No fim das contas tratava-se apenas de um a indigestão, m as ela j á havia chorado desesperadam ente só de pensar no que poderia ser. Im aginara o m arido apertando o peito e caindo no chão. Dera-se conta de que, um dia, aquilo ou qualquer outra coisa igualm ente terrível poderia acontecer. Podia levar 30, 40 ou 50 anos, m as era isso que acontecia aos casais, fossem eles felizes ou não, e ela sim plesm ente não sobreviveria caso isso acontecesse a Mike. Às vezes, tarde da noite, Tia ficava olhando para o m arido que dorm ia a seu lado e, dirigindo-se tanto a ele quanto aos poderes superiores, sussurrava: “Prom eta que eu irei prim eiro, por favor?”

Cham ar a polícia.

Mas o que eles poderiam fazer? Nada ainda. Nos film es, o FBI sem pre tom ava um a providência im ediata. Por causa de um curso de reciclagem sobre direito crim inal que fizera recentem ente, Tia sabia que um a pessoa m aior de 18 anos só poderia ser dada com o desaparecida em prazo tão curto se houvesse provas concretas de que ela havia sido seqüestrada ou corria graves riscos de natureza física.

Ela não tinha provas de nada.

Além disso, se ligasse agora, na m elhor das hipóteses eles m andariam um policial até a casa deles. Mo estaria lá. E isso poderia criar algum m al-entendido.

Então só lhe restava esperar 20 ou 30 m inutos.

Tia cogitou ligar para a casa de Guy Novak e pedir para falar com Jill, apenas para ouvir a voz da filha. Algo para reconfortá-la. Droga. Havia ficado tão feliz com aquela viagem , com a oportunidade de se refestelar naquele quarto luxuoso, de se em brulhar num roupão felpudo e pedir com ida no quarto, e agora tudo o que ela queria era a velha rotina de volta. Aquele quarto não tinha som bra de vida, nenhum aconchego. A solidão fez Tia sentir um frio na espinha. Ela se levantou e aum entou a tem peratura do ar-condicionado.

Tudo era tão frágil, esse era o problem a. Nenhum a novidade, claro, m as de m odo geral o que fazem os é bloquear a verdade: nos recusam os a adm itir que nossas vidas podem ser destruídas tão facilm ente, de outro m odo, entraríam os em parafuso. Todas aquelas pessoas que vivem com m edo e precisam de rem édios… Elas são assim porque têm consciência das coisas, da linha tênue que nos separa do desastre. Não é que não aceitem a verdade: sim plesm ente não conseguem bloqueá-la.

Tia podia ser com o elas. Sabia disso e fazia o possível para se controlar. De repente se pegou invej ando Hester Crim stein, sua chefe, por ser sozinha no m undo. Talvez fosse m elhor assim . Claro, num plano m ais am plo, era saudável ter ao nosso redor pessoas a quem pudéssem os am ar m ais do que a nós m esm os. Ela sabia disso. Por outro lado, havia o m edo, ou o pavor, de perder essas pessoas. Dizem que som os possuídos pelo que possuím os. Não é bem assim . Som os possuídos por aqueles que am am os. Som os reféns eternos desse am or.

O relógio não andava.

Tia esperou; zapeou pelos canais de televisão. Os “infom erciais” dom inavam a program ação da m adrugada. Com erciais extensos, ensinando às pessoas o que fazer em determ inados em pregos, em determ inados cursos: ora, ela pensou, quem via televisão num horário m aluco daqueles seguram ente não trabalhava nem estudava.

O telefone finalm ente tocou às quatro da m adrugada. Mo. Tia atendeu im ediatam ente.

– Alô?

– Nenhum sinal do Mike – disse ele. – Nem do Adam .

♦♦♦

A placa na porta da sala de Loren Muse inform ava: CHEFE DE INVESTIGAÇÕES DO

CONDADO DE ESSEX. Sem pre que voltava à sala, ela parava diante dessa placa e saboreava as palavras. Seu gabinete ficava num canto à direita do corredor. Os investigadores sob seu com ando tinham m esas no m esm o andar. A sala de Loren tinha j anelas e a porta perm anecia sem pre aberta. Muse gostava de se sentir parte de um a equipe, tanto quanto gostava de se sentir superior a ela. Quando precisava de privacidade, recorria a um a das salas de interrogatório que tam bém m argeavam o corredor.

Apenas dois outros investigadores se encontravam na delegacia quando ela chegou, às 6h30, e am bos sairiam dali a m eia hora para a m udança de turno. Loren conferiu o quadro negro para ver se não havia ocorrido nenhum hom icídio durante a noite. Nada. Ela esperava que o FBI j á tivesse enviado os resultados do teste de im pressões digitais realizados na m ulher que j azia no necrotério e que, definitivam ente, não era um a prostituta. Conferiu o com putador. Tam bém nada.

A polícia de Newark havia localizado um a câm era de vigilância não m uito distante do lixão onde ela fora encontrada. Caso o corpo tivesse sido transportado de carro até ali, e nada levava a crer que ele havia sido carregado, era bem possível que o veículo aparecesse na gravação. É claro que não seria nada fácil identificar entre as centenas de veículos film ados qual deles levava a m orta: dificilm ente o assassino teria colado um adesivo no vidro traseiro dizendo: CADÁVER A BORDO.

Loren conferiu o com putador e, sim , o arquivo com a gravação j á havia sido baixado. A delegacia estava tranqüila, então ela pensou: por que não? Estava prestes a apertar o PLAY, quando alguém bateu de leve à sua porta.

– Tem um segundinho, chefe?

Clarence Morrow colocara a cabeça no vão da porta. Era um negro de bigodes fartos e grisalhos, próxim o dos 60 anos, dono de um rosto onde tudo parecia ligeiram ente inchado, com o se tivesse acabado de sair de um a briga. Tinha m odos gentis e, ao contrário dos colegas de divisão, j am ais bebia ou falava palavrão.

– Claro, Clarence. O que foi?

– Quase liguei para sua casa ontem à noite.

– É?

– Achei que tinha descoberto o nom e da sua vítim a.

Isso fez com que Loren se endireitasse na cadeira.

– Mas?

– Recebem os um telefonem a da polícia de Livingston, sobre um tal de Neil Cordova. Ele m ora na cidade e tem um a rede de barbearias. Casado, dois filhos, ficha lim pa. Bem , ele disse que a m ulher dele, Reba, tinha desaparecido e a descrição que ele deu bate com as características da sua vítim a.

– Mas? – repetiu Muse.

– Mas ela desapareceu ontem . Depois que encontram os o corpo.

– Tem certeza?

– Absoluta. O m arido disse que a tinha visto pela m anhã, antes de sair para o trabalho.

– Ele poderia estar m entindo.

– Acho que não.

– Alguém j á deu um a olhada no caso?

– De início não. Mas o interessante é o seguinte: Cordova conhecia alguém na polícia de Livingston. Você sabe com o são as coisas por lá. Todo m undo conhece alguém . Encontraram o carro dela no estacionam ento do Ram ada da East Hanover.

– Ah – disse Muse. – Um hotel.

– Certo.

– Então a Sra. Cordova não estava exatam ente desaparecida.

– Bem – disse Clarence, passando a m ão pelo queixo –, isso é que é estranho.

– O quê?

– Claro que o policial de Livingston achou a m esm a coisa que você. Que a Sra. Cordova estava se divertindo com o am ante, que se atrasou para voltar para casa, etc. Foi por isso que ele m e ligou. Não queria dar a notícia ao am igo. Então pediu que eu fizesse isso por ele. Um favorzinho, sabe?

– Continue.

– Pois bem . Liguei para o Sr. Cordova e falei que tínham os encontrado o carro da m ulher dele no estacionam ento do hotel. Ele m e disse que isso era im possível. Falei que o carro ainda estava lá, que ele podia ir ver se quisesse. – Clarence se calou um instante. – Caram ba!

– Que foi?

– Será que eu devia ter dito isso? Quer dizer, só agora m e dei conta. Talvez eu tenha invadido a privacidade dela contando isso ao m arido. Im agina se ele aparece lá com um a arm a ou algo assim ? Puxa, eu devia ter pensado m elhor. – Clarence franziu as sobrancelhas, preocupado. – Acha que eu agi m al, chefe?

– Não se preocupe com isso, Clarence.

– De qualquer m odo, o Sr. Cordova continuou se recusando a acreditar no que eu estava sugerindo.

– Com o a m aioria dos hom ens.

– Certo, m as depois ele disse algo interessante. Falou que tinha com eçado a se preocupar quando a m ulher não apareceu para buscar a filha de nove anos num a aula de patinação em Airm ont, um a aula especial, sei lá. Ela j am ais faria um a coisa dessas. Segundo inform ou o Sr. Cordova, ela planej ara dar um a passada na Target do shopping de Ny ack, o Palisades Mall, para depois buscar a m enina.

– Mas ela não apareceu?

– Certo. O pessoal do rinque de patinação ligou para o celular do Sr. Cordova, porque não tinham conseguido falar com a m ãe. Ele foi lá e apanhou a filha. Achou que a m ulher tinha se atrasado no trânsito, talvez por causa daquele acidente na 287 ontem de m anhã. Com o Reba sem pre se esquecia de recarregar o celular, ele não se preocupou m uito de início. Só depois, quando o tem po foi passando e ela não apareceu.

Muse refletiu um instante.

– Se ela estava num hotel com am ante, é possível que tenha se esquecido de ir buscar a filha.

– Concordo. Mas tem um a coisa. O Sr. Cordova j á tinha entrado na internet para checar se havia algum débito no cartão de crédito da m ulher. Ela tinha passado no Palisades Mall durante a tarde e de fato fizera com pras na Target. No valor de US$ 47,18.

– Hm m . – Muse sinalizou para que Clarence se sentasse. – Quer dizer então que ela foi fazer com pras no Palisades Mall, depois fez todo o cam inho de volta para se encontrar com o am ante e acabou se esquecendo de buscar a filha, que estava tendo um a aula de patinação bem ao lado do shopping. – Ela olhou para Clarence. – É, m uito estranho.

– Você tinha de ouvir a voz do m arido, chefe. Ele estava arrasado.

– Talvez você possa falar com o pessoal do hotel, ver se alguém a reconhece.

– Já falei. Pedi ao Sr. Cordova para escanear um a foto da esposa e m e m andar por e-m ail. Ninguém no Ram ada se lem bra dela.

– O que não quer dizer m uita coisa. Pode ser que o pessoal da recepção tenha trocado de turno, sei lá, ou então que ela tenha entrado na surdina e que o am ante tenha feito o check-in. Mas o carro ainda está lá, não está?

– Está. Isso é estranho, não acha? Que o carro ainda estej a lá? Quem vai se encontrar com o am ante não esquece o carro no hotel. Partindo do pressuposto que ela tenha ido m esm o se encontrar com um am ante, você acha possível que eles tenham tido um a discussão, um a briga, que ele tenha batido nela ou algo nessa linha?

– Tam bém é possível que tenham fugido j untos.

– É verdade. Mas o carro é um Acura MDX, só com quatro m eses de uso. Você não acha que ela ia querer levar um carrão desses?

Muse sim plesm ente deu de om bros

– Quero investigar esse caso, pode ser? – disse Clarence.

– Tudo bem . – Muse refletiu um pouco, depois disse: – Faça um favor para m im : vej a se outras m ulheres desapareceram na região de Livingston. Mesm o que por pouco tem po. Mesm o que o pessoal da polícia de lá não tenha levado a queixa m uito a sério.

– Já conferi.

– E?

– Nenhum a outra m ulher desaparecida. Ah, m as um a senhora ligou dizendo que o m arido e o filho tinham sum ido. – Clarence consultou suas anotações. – O nom e dela é Tia Bay e. O m arido se cham a Mike, e o filho, Adam .

– O pessoal de Livingston está investigando?

– Acho que sim . Não sei direito.

– Se não fosse pelo garoto que tam bém sum iu – disse Muse –, era bem possível que esse tal de Bay e tivesse fugido com a Sra. Cordova.

– Quer que eu vej a se há algum a conexão?

– Se você quiser… De qualquer m odo, se for esse o caso, não tem os um crim e nas m ãos. Dois adultos, cada um dono do próprio nariz, resolvem sum ir j untos por um tem po. Só isso.

– Certo, chefe. Mas…

Muse adorava quando ele fazia isso. Cham á-la de chefe.

– Mas o quê?

– Algo m e diz que tem algum a coisa aí.

– Então siga seu instinto, Clarence. E m e m antenha inform ada.