Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 5 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 5

5

– ENTÃO, O QUE FOI QUE VOCÊ encontrou no relatório? – perguntou Mike.

Eles estavam sentados à m esa da cozinha. Tia j á havia preparado o café: descafeinado para ela, espresso puro para ele. Um dos pacientes de Mike trabalhava para um a em presa que fazia m áquinas de café com sachês em vez de filtros e lhe dera um a de presente depois de um transplante bem -sucedido. A m áquina era bastante sim ples: bastava escolher o sachê, encaixar no lugar certo e apertar um botão.

– Duas coisas – respondeu Tia.

– Diga.

– Prim eiro: ele foi convidado para um a festa am anhã na casa dos Huff.

– E daí?

– E daí que os Huff vão viaj ar no fim de sem ana. Segundo o e-m ail, eles vão passar a noite inteira fazendo bobagem .

– O quê? Bebida, drogas?

– O e-m ail não diz. O plano deles é inventar um a desculpa para passar a noite lá, “chapados”, com o está escrito.

Os Huff. Daniel Huff, o pai, era capitão da guarda m unicipal. Seu filho, que todos cham avam de DJ, era provavelm ente o m ais encrenqueiro da turm a.

– Que foi? – perguntou Tia, diante do silêncio do m arido.

– Estou processando a inform ação.

– Quem é essa pessoa que estam os criando, Mike?

Ele não respondeu.

– Sei que você não quer ler os relatórios, m as… – Ela fechou os olhos.

– O quê?

– Adam visita sites de pornografia – respondeu Tia. – Você sabia disso?

Ele não disse nada.

– Mike?

– Então, o que você quer fazer sobre isso? – ele devolveu.

– Você não acha errado?

– Na idade dele, eu lia a Playboy escondido.

– É diferente.

– Será? Era o que tínham os na época. Não existia internet. Se existisse, é bem provável que eu fizesse a m esm a coisa, tudo para ver um a m ulher pelada. São coisas do nosso tem po. A pornografia está por todo lado. E se um garoto de 16 anos não tivesse interesse em ver m ulher pelada, aí, sim , eu acharia estranho.

– Quer dizer então que você aprova.

– Não, claro que não aprovo. Só não sei o que fazer.

– Fale com ele – sugeriu Tia.

– Já falei – disse Mike. – Já tivem os a conversa da cegonha. Já expliquei que sexo é m uito m elhor quando é feito com am or. Tentei m ostrar a im portância de respeitar as m ulheres, de não tratá-las com o obj etos.

– Essa últim a parte… – disse Tia. – Acho que ele não entendeu.

– Nenhum garoto entende. Meu Deus, tem um m onte de hom ens que não entende.

Tia tom ou um gole de café, deixando sua próxim a pergunta pairando no ar.

Mike observava as ruguinhas que haviam surgido em torno dos olhos dela. Tia passava horas diante do espelho exam inando-as. Todas as m ulheres têm problem as com o próprio corpo, m as Tia sem pre fora razoavelm ente segura de si. Nos últim os tem pos, no entanto, vinha se m ostrando cada vez m enos satisfeita com o que via no espelho. Com eçara a tingir os cabelos. Reparava nas rugas, nas bolsas, em todos os sintom as norm ais do envelhecim ento. E se aborrecia.

– Com os adultos é diferente – disse ela.

Mike pensou em dizer algo para reconfortá-la, m as achou m elhor deixar para lá.

– Abrim os um a caixa de Pandora – prosseguiu Tia.

Mike esperava que ela ainda estivesse falando de Adam .

– É. Abrim os.

– Eu quero saber, m as ao m esm o tem po detesto saber.

Mike pegou a m ão da m ulher.

– O que vam os fazer a respeito dessa festa?

– O que você sugere?

– Não podem os deixá-lo ir.

– Vam os proibi-lo de sair, é isso?

– Acho que sim .

– Mas ele disse que iria com Clark para a casa de Olivia Burchell, ficar batendo papo. Se não deixarm os, ele vai desconfiar.

Mike deu de om bros.

– Paciência. Som os pais. Tem os o direito de ser irracionais.

– Tudo bem . Então vam os dizer que querem os que ele fique em casa am anhã à noite?

– É.

Tia m ordeu o lábio inferior.

– Ele se com portou bem a sem ana inteira, fez todos os deveres de casa. Geralm ente tem perm issão para sair nas noites de sexta.

Não seria fácil e eles sabiam disso. Mike estava preparado para a briga, m as não sabia se queria um a. Eles precisavam pensar bem no que fariam . Além disso, Tia estava certa: proibir Adam de ir à casa de Olivia levantaria suspeitas.

– E se estabelecerm os um horário para ele voltar? – sugeriu.

– E o que vam os fazer se ele não respeitar o horário? Buscá-lo na casa dos Huff?

Mais um a vez Tia estava certa.

– Hester m e cham ou na sala dela hoj e – falou. – Quer que eu vá a Boston am anhã tom ar um depoim ento.

Mike sabia quanto isso era im portante para a m ulher. Desde que fora contratada, Tia só era encarregada de pequenas tarefas.

– Que bom – disse ele.

– É, m as isso significa que não vou estar em casa.

– Não se preocupe, posso cuidar das coisas.

– Jill vai dorm ir na casa de Yasm in. Não estará por aqui.

– Está bem .

– Então, algum a idéia para im pedir Adam de ir à festa?

– Vou ter de pensar um pouquinho – disse Mike. – Talvez m e ocorra algum a coisa.

– O.k.

Mike percebeu algo na expressão de Tia. Só então se lem brou.

– Você disse que tinha duas coisas para m e contar.

Ela fez que sim com a cabeça e seu rosto m udou um pouco. Num j ogo de pôquer essa sim ples nuança seria um a dica. É o que acontece nos casam entos duradouros: a certa altura os parceiros com eçam a ler os pensam entos um do outro, ou param de tentar escondê-los. Mike sabia que a notícia que estava por vir não seria nada boa.

– Um a conversa num desses program as de m ensagens instantâneas – disse Tia. – Foi há dois dias.

Ela abriu a bolsa e pegou a transcrição. Mensagens instantâneas. Era assim que a garotada conversava agora: textos trocados em tem po real num a tela de com putador. Os pais, que haviam passado boa parte da adolescência pendurados ao telefone conversando com os am igos, não viam com bons olhos esse avanço da tecnologia. Mas para Mike não havia problem a algum nisso. Sua geração usara o telefone, a nova tinha torpedos e m ensagens instantâneas. Era a m esm a coisa. Tratava-se da m esm a hipocrisia daqueles que recrim inavam os videogam es dos filhos segundos antes de entrarem num ônibus para tentar a sorte nos cassinos de Atlantic City .

– Dê um a olhada.

Mike colocou os óculos de leitura. Fazia poucos m eses que passara a usá-los e detestava esse incôm odo. O apelido de Adam no program a de m ensagens era Hockey Adam 1117. O m esm o apelido de anos. O núm ero era um a com binação do 11 de Mark Messier, seu ídolo do hóquei, com o 17 do próprio Mike, a cam isa que ele usava nos tem pos de Dartm outh. Era estranho que Adam não o tivesse m udado. Ou talvez fizesse todo sentido. Ou talvez não tivesse significado nenhum , o que era o m ais provável.

CeeJay 8115: Td bem c/ vc?

Hockey Adam 1117: Ainda acho q a gente devia contar. CeeJay 8115: Ja faz m uito tem po. Fica de bico calado q a gente se safa.

Segundo a indicação da hora, passou um m inuto inteiro sem nenhum a digitação.

CeeJay 8115: Vc ta ai?

Hockey Adam 1117: To.

CeeJay 8115: Td ok?

Hockey Adam 1117: Td.

CeeJay 8115: Bom . A gente se ve na sexta.

A conversa term inava aí.

– “Fica de bico calado que a gente se safa” – repetiu Mike.

– É.

– O que você acha que isso quer dizer? – perguntou ele.

– Não faço a m enor idéia.

– Pode ser algum a coisa na escola. De repente eles viram alguém colando num a prova, sei lá.

– Pode ser.

– Tam bém pode ter a ver com um desses j oguinhos de aventura que eles j ogam on-line.

– Pode ser – repetiu Tia, visivelm ente cética.

– Quem será CeeJay 8115? – perguntou Mike.

– Sei lá – disse Tia, balançando a cabeça. – É a prim eira vez que vi m ensagens entre Adam e ele.

– Ou ela.

– Certo, ou ela.

– “A gente se vê na sexta.” Quer dizer que CeeJay 8115 tam bém vai estar na casa dos Huff. Será que isso nos aj uda de algum a form a?

– Não vej o com o.

– Então, vam os tentar falar com ele sobre isso?

Tia fez que não com a cabeça.

– É m uito vago, você não acha?

– Acho – concordou Mike. – E ainda por cim a teríam os de confessar o que estam os fazendo.

Seguiu-se um m om ento de silêncio. Mike releu a transcrição. Nada havia m udado.

– Mike? – disse Tia afinal.

– Hm m .

– Sobre o que Adam tem que ficar de bico calado para se safar?

♦♦♦

Dentro da van, Nash sentava-se no banco do carona, o bigodão guardado no bolso. Pietra, j á sem as piaçavas da peruca, dirigia.

Na m ão direita, Nash segurava o BlackBerry Pearl de Marianne, com o qual ela podia trocar e-m ails, tirar fotos, gravar e ver vídeos, escrever textos, sincronizar agenda e livro de endereços com o com putador de casa e até telefonar.

Nash apertou o botão. O m onitor se ilum inou, revelando um a foto da filha de Marianne. Ele ficou olhando para a m enina durante um tem po. Que pena, pensou. Em seguida apertou o ícone do correio eletrônico, localizou os endereços que queria e com eçou a digitar:

Oi! Estou indo para Los Angeles e volto daqui a algum as sem anas. Entro em contato assim que chegar.

Assinou “Marianne”, copiou o texto, colou em outras duas m ensagens e, por fim , enviou. As

pessoas que conheciam Marianne não ficariam m uito preocupadas. Segundo ele pôde deduzir, era assim que ela agia: sum ia do m apa e voltava de repente.

Mas dessa vez… bem , dessa vez ela sum iria m esm o.

Pietra havia adulterado a bebida de Marianne enquanto Nash a entretinha com a teoria de Caim com a m acaca. Nash a espancara na van, violenta e dem oradam ente. De início para causar dor. Queria fazê-la falar. Então, quando teve certeza de que ela dissera tudo, a espancou até a m orte. Era um hom em paciente. Queria fraturar o m aior núm ero possível dos 14 ossos que com põem a face hum ana.

Nash havia golpeado o rosto de Marianne com precisão quase cirúrgica. Certos golpes tinham o propósito de neutralizar o oponente, elim inar qualquer possibilidade de reação. Outros provocavam dores terríveis. Nash conhecia todos eles. Além disso, sabia com o aplicar toda sua força sem se m achucar e era capaz de identificar o m elhor m om ento para usar as palm as das m ãos.

Pouco antes de Marianne m orrer, quando ela j á ofegava por causa do sangue acum ulado na garganta, Nash fez o que sem pre fazia nessas circunstâncias. Parou e se certificou de que ela ainda estava consciente. Em seguida buscou o olhar dela, viu o terror estam pado nele e disse:

– Marianne?

Ele queria a atenção de sua vítim a e conseguiu. Depois sussurrou as últim as palavras que ela ouviria:

– Por favor, diga a Cassandra que estou m orrendo de saudades.

Então, finalm ente, a deixou m orrer.

A van era roubada. As placas haviam sido devidam ente trocadas. Nash pulou para o banco de trás. Colocou um a bandana enrolada na palm a da m ão de Marianne e fechou os dedos dela sobre o pano. Usou um a gilete para rasgar as roupas dela. Quando a vítim a estava nua, ele pegou roupas lim pas em um saco e, apesar da dificuldade, conseguiu vesti-las no corpo inerte. O top rosa ficara j usto dem ais, m as a idéia era exatam ente essa. A saia de couro era ridiculam ente curta.

Pietra os havia escolhido.

Eles tinham seqüestrado Marianne num bar em Teaneck, Nova Jersey. Agora j á estavam no m iserável Fifth Ward de Newark, conhecido por seus m endigos e assassinatos. O plano era que ela fosse tom ada por m ais um a prostituta espancada até a m orte. Os índices de crim inalidade de Newark eram três vezes m aiores que o da vizinha Nova York. Por isso Nash caprichara tanto nos golpes, a ponto de quebrar a m aioria dos dentes dela. Mas não todos. Isso tornaria óbvia dem ais sua intenção de im pedir a identificação do cadáver.

Portanto ele havia deixado alguns intactos. Mas um exam e de arcada dentária, supondo-se que as investigações policiais dem andassem tal expediente, seria difícil e dem orado.

Nash recolocou o bigode, e Pietra, a peruca. Um a precaução desnecessária. Não havia ninguém por perto. Eles j ogaram o corpo num depósito de lixo. Nash ficou ali, olhando o cadáver de Marianne.

Lem brou-se de Cassandra e ficou triste. Mas a tristeza lhe dava forças.

– Nash? – disse Pietra.

Ele virou-se para trás, lançou um sorriso débil para ela e voltou à van. Pietra arrancou e eles foram em bora.

♦♦♦

Mike parou diante do quarto de Adam , respirou fundo e abriu a porta.

Adam , vestido de preto da cabeça aos pés, com o os góticos, virou-se rapidam ente e disse:

– Por acaso não ensinaram você a bater?

– Esta casa é m inha.

– E este quarto é m eu.

– É m esm o? Você pagou por ele?

Mike im ediatam ente se arrependeu do que disse. Um argum ento típico dos pais que os filhos nunca levam a sério. Ele não levaria, se fosse adolescente. Por que os pais sem pre agem assim ? Por que, depois de j urarem j am ais repetir os erros da geração anterior, acabam fazendo j ustam ente isso?

Adam j á havia desligado o m onitor do com putador. Não queria que o pai visse que sites andava visitando. Se soubesse…

– Tenho um a boa notícia – disse Mike.

Adam virou-se para ele. Cruzou os braços diante do peito e fez o possível para parecer m al-hum orado, sem grande sucesso. O garoto era grande, j á estava m ais alto que o pai, e Mike sabia que ele podia ficar agressivo. Adam fora um goleiro destem ido, ousado. Não esperava pelo auxílio dos hom ens da defesa. Quem invadisse sua área logo era escorraçado dali.

– Que notícia?

– Mo conseguiu ingressos de cam arote para o j ogo dos Rangers contra os Fly ers.

– Para quando? – perguntou Adam , sem nenhum a m udança de expressão.

– Am anhã à noite. Sua m ãe vai a Boston a trabalho. Mo vem nos buscar às 18h.

– Leve a Jill.

– Sua irm ã vai dorm ir na casa da Yasm in.

– Vocês vão deixá-la dorm ir na casa da XY?

– Não a cham e assim , por favor. É cruel.

Adam deu de om bros.

– Então venha direto para casa depois da aula.

– Não vou poder ir.

Mike correu os olhos pelo quarto. De algum m odo o côm odo parecia diferente de quando ele estivera ali na com panhia do tatuado Brett, o garoto das unhas suj as. Mais um a vez ele se irritou com isso. Aquelas unhas im undas haviam tocado o teclado de Adam . Isso estava errado. Espionar era errado. Por outro lado, se não tivessem feito isso, seu filho acabaria indo a um a festa para beber e possivelm ente se drogar. A espionagem havia sido um a boa coisa, afinal. Mas o próprio Mike fora a um a ou duas festinhas assim quando era j ovem . Isso não o tornava um hom em pior.

– Com o assim , não vai poder ir?

– Com binei com a Olivia de ir na casa dela.

– É, sua m ãe m e disse. Mas você vai sem pre na casa da Olivia. Estam os falando de um j ogo dos Rangers contra os Fly ers!

– Não quero ir.

– Mas Mo j á com prou os ingressos.

– Convidem outra pessoa.

– Não.

– Não?

– Isso m esm o que você ouviu. Sou seu pai. E você vai ao j ogo com igo.

– Mas…

– Não tem “m as” nem m eio “m as”.

Mike deu m eia-volta e saiu do quarto antes que Adam pudesse falar qualquer coisa. Mal podia acreditar no que acabara de dizer.