Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 2 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 2

2

– VOCÊS TÊM CERTEZA DE que querem ir adiante com isso?

Há ocasiões em que a gente salta do penhasco. Com o naquele desenho anim ado do Papa-léguas: o Coiote sai em disparada e continua correndo m esm o depois de ultrapassar a borda do penhasco; de repente pára no ar, olha para baixo e sabe que vai despencar, que não há nada que possa fazer a respeito.

Mas, às vezes, talvez na m aioria delas, a situação não é tão clara assim . Estam os no escuro, cam inhando lentam ente à beira do abism o, sem saber ao certo para onde estam os indo. Os passos são hesitantes, por causa da escuridão da noite. Não nos dam os conta de com o estam os próxim os da borda, de que o solo pode sum ir a qualquer m om ento, de que um m ero escorregão pode nos lançar encosta abaixo.

Foi então que Mike percebeu que ele e Tia estavam nesta borda: quando o tal do instalador, um rapaz desleixado, com cabelos desgrenhados, braços finos e cheios de tatuagem , unhas grandes e suj as, olhou para trás e, num a voz dem asiadam ente solene para a pouca idade, fez a m aldita pergunta.

Vocês têm certeza de que querem ir adiante com isso?

Nenhum deles deveria estar naquele quarto. Claro, Mike e Tia Bay e estavam em sua própria casa, um a m ansão com o tantas outras nos subúrbios de Livingston, m as aquele quarto havia se transform ado em território term inantem ente proibido para eles, os inim igos. Mike percebeu que ainda havia ali um a quantidade surpreendentem ente grande de resquícios do passado. Os troféus de hóquei não tinham sido recolhidos, m as, se antes pareciam dom inar o am biente, agora davam a im pressão de estarem acuados no fundo das prateleiras. Pôsteres de Jarom ir Jagr e de Chris Drury, o m ais recente ídolo dos Rangers de Nova York, ainda podiam ser vistos nas paredes, m as haviam sido desbotados pelo sol ou talvez pela m era falta de atenção.

Mike se deixou levar pelas lem branças. Recordou-se de com o o filho, Adam , gostava de ler as historinhas de horror da série Goosebumps, bem com o o livro de Mike Lupica sobre j ovens atletas que conseguiram vencer terríveis obstáculos. Costum ava ler o caderno de esportes com o m esm o afinco que um erudito estuda o Talm ude, com especial interesse nas estatísticas do hóquei. Mandava cartas para seus j ogadores prediletos, pedindo autógrafos, e, quando os recebia, pregava-os na parede. Quando ia ao Madison Square Garden, insistia para ir até a saída dos

j ogadores na rua 32, na altura da Oitava Avenida, para conseguir alguns pucks [1] autografados.

Tudo isso j á não fazia m ais parte, senão daquele quarto, da vida de seu filho.

Adam havia crescido. Estava com 16 anos. Não era m ais a criança de antes, m as um adolescente que cam inhava a passos largos e difíceis rum o à vida adulta. O que era norm al. Mas o quarto parecia resistir à passagem do tem po. Mike chegou a pensar que esse vínculo com o passado talvez trouxesse ao filho algum conforto. Talvez algum a parte de Adam desej asse voltar aos dias em que ele queria ser m édico com o o adorado pai, seu herói.

Talvez fosse otim ism o dem ais.

O instalador – Mike não conseguia lem brar o nom e dele, Brett, ou algo assim – repetiu a pergunta:

– Vocês têm certeza?

Tia estava de braços cruzados, o rosto circunspecto, aparentem ente enregelado. Aos olhos de Mike, parecia m ais velha, porém não m enos bonita. Ela respondeu sem nenhum a dúvida, apenas com um a pontinha de exasperação:

– Sim , tem os certeza.

Mike não disse nada.

O quarto do filho deles estava relativam ente escuro, ilum inado apenas pela lum inária da escrivaninha. Eles falavam a m eia-voz, em bora não houvesse a m enor possibilidade de que alguém os visse ou escutasse. Jill, sua filha de 11 anos, estava na aula. Adam viaj ara num a excursão da escola e só voltaria no dia seguinte. Não quisera ir, claro – excursões para ele agora eram um “m ico” –, m as por algum m otivo a viagem era obrigatória, e até m esm o o m ais “vagaba” de seus colegas “vagabas” estaria lá para engrossar o coro dos descontentes.

– Vocês sabem com o isto funciona, não sabem ?

Tia fez que sim com a cabeça, em total sincronia com o não de Mike.

– O program a vai fazer um registro de cada tecla que o filho de vocês apertar – explicou Brett. – No fim do dia, a inform ação será com pilada e um relatório será enviado por e-m ail. Vai estar tudo lá: todos os sites que ele visitou, os e-m ails que m andou ou recebeu, os chats de que participou. Se Adam abrir o PowerPoint ou criar um docum ento do Word, vocês tam bém vão ficar sabendo. Tudo. Se quiserem , podem até m onitorá-lo em tem po real. É só clicar nessa opção aqui.

Ele apontou para um pequeno ícone com as palavras LIVE SPY! num verm elho gritante. Mike correu os olhos pelo quarto. Os troféus de hóquei pareciam zom bar dele. Era estranho que Adam não os tivesse tirado dali. Mike havia j ogado hóquei nos tem pos da universidade, em Dartm outh. Fora convocado pelos Rangers de Nova York, j ogara na liga j únior durante um ano e até m esm o participara de dois j ogos da liga principal. Adam havia herdado essa paixão pelo esporte. Aprendera a patinar aos 3 anos de idade. Jogara com o goleiro no tim e infantil. As traves enferruj adas ainda estavam lá em baixo, diante da garagem , a rede puída pelo tem po. Mike passara um sem -núm ero de horas felizes arrem essando pucks para o filho. Adam era um ótim o goleiro, seguram ente teria um a vaga na equipe de um a universidade qualquer, m as desistira de tudo seis m eses atrás.

Assim , do nada. Aposentara o taco, a m áscara, as j oelheiras e braçadeiras, dizendo que não queria m ais nada com aquilo.

Será que foi aí que tudo com eçou?

Teria sido esse o prim eiro sinal de seu declínio, de seu recolhim ento? Mike tentou respeitar a decisão do filho e não fazer com o tantos pais im positivos que aparentem ente igualam sucesso nos esportes a sucesso na vida. Mas, na verdade, ficou profundam ente abalado.

No entanto, não m ais que Tia.

– Estam os perdendo nosso filho – declarou ela.

Mike não tinha tanta certeza assim . Adam havia sofrido um a grande tragédia – o suicídio de um am igo – e, claro, ainda se debatia com aquela angústia típica dos adolescentes. Era m al-hum orado e caladão. Ficava o tem po todo trancado no quarto, quase sem pre debruçado sobre o m aldito com putador, j ogando, batendo papo ou fazendo sabe-se lá o quê. Mas não era isso que fazia a m aioria dos adolescentes? Ele m al falava com os pais: raram ente respondia às perguntas deles e, quando o fazia, recorria a m onossílabos ou resm ungos. Mas… o que havia de tão anorm al nisso?

A m onitoração tinha sido idéia de Tia. Ela era advogada crim inalista no es critório da Burton & Crim stein em Manhattan. Um dos casos no qual trabalhara envolvia um esquem a de lavagem de dinheiro com andado por um certo Pale Haley, que havia sido fisgado depois de ter seus e-m ails m onitorados pelo FBI.

Brett era o técnico de inform ática da em presa onde Tia trabalhava. Mike agora olhava para as unhas suj as dele, que estavam tocando o teclado de Adam . Era nisso que ele, Mike, não conseguia parar de pensar. Aquele suj eito com aquelas unhas noj entas estava no quarto de seu filho, fazendo o que bem entendia com seu bem m ais precioso: aquele com putador.

– Só m ais um segundo – disse Brett.

Mike dera um a olhada no site da E-Spy Right. Tinha lido as prim eiras cham adas, escritas em letras enorm es e em negrito:

SEUS FILHOS TÊM SIDO ABORDADOS POR PEDÓFILOS?

SEUS FUNCIONÁRIOS ESTÃO ROUBANDO VOCÊ?

E depois, em letras ainda m aiores, o argum ento que fisgou Tia:

VOCÊ TEM O DIREITO DE SABER!

O site oferecia um a lista de testem unhos:

“O produto de vocês salvou minha filha do pior pesadelo que um pai pode ter: um predador

sexual. Obrigado, E-SpyRight!”

Bob – Denver, CO

“Descobri que um de nossos mais confiáveis funcionários estava desfalcando a empresa.

Mas não teria descoberto nada sem a ajuda do programa de vocês.”

Kevin – Boston, MA

Mike havia resistido.

– É o nosso filho – argum entara Tia.

– Acha que não sei disso?

– Então? Não fica preocupado?

– Claro que fico. Mas…

– Mas o quê? Som os os pais dele. – Em seguida, com o se estivesse relendo o site, em endou: – Tem os o direito de saber.

– Tem os o direito de invadir a privacidade dele?

– Para protegê-lo? Claro que tem os. É o nosso filho.

Mike balançou a cabeça.

– Não só tem os o direito – prosseguiu Tia, aproxim ando-se –, com o tam bém o dever.

– Seus pais sabiam de tudo o que você fazia?

– Não.

– Tudo o que você pensava? Todas as conversas que tinha com suas am igas?

– Não.

– Pois é disso que estam os falando.

– Pense nos pais de Spencer Hill – retrucou ela.

Isso fez Mike se calar. Eles se entreolharam .

– Se eles pudessem voltar no tem po – disse Tia, afinal –, se Betsy e Ron pudessem ter o filho deles de volta…

– Por favor, Tia.

– Não, escute. Se eles pudessem voltar no tem po, se o Spencer ainda estivesse vivo, você não acha que eles iam querer ficar de olho no filho, m uito m ais do que antes?

Spencer Hill, colega de Adam , havia se suicidado quatro m eses antes. A experiência tinha sido devastadora não só para Adam com o para todo o restante da turm a.

– Você não acha que isso explica o com portam ento de Adam ?

– O suicídio de Spencer? – perguntou Tia.

– Claro.

– Até certo ponto, sim . Mas você sabe que ele j á andava diferente. Isso apenas piorou as coisas.

– Então, se de repente nós déssem os m ais um tem pinho para ele…

– Não. – Tia foi categórica. – Essa tragédia torna o com portam ento de Adam com preensível, m as não m enos perigoso. Muito pelo contrário.

Mike refletiu um instante.

– Tem os de contar a ele – disse afinal.

– Contar o quê?

– Que estam os m onitorando o com putador dele.

– Isso não faz o m enor sentido – replicou Tia, com um a careta.

– Assim ele vai saber que está sendo vigiado.

– Não é com o colocar um guarda de trânsito na cola de um a pessoa para que ela não ultrapasse o lim ite de velocidade.

– É exatam ente isso.

– Ele vai continuar fazendo o que fazia antes na casa de um am igo, num a lan house ou sei lá onde.

– E daí? Tem os de contar. Toda a intim idade do nosso filho está nesse com putador.

Tia deu m ais um passo à frente e pousou a m ão no peito do m arido. Mesm o agora, depois de tantos anos de casam ento, o toque dela ainda lhe causava certo frisson.

– Adam está em apuros, Mike. Você não percebe isso? Nosso filho está em apuros. Talvez estej a bebendo, usando drogas, sei lá. Não dá para tapar o sol com a peneira.

– Não estou tapando o sol com a peneira.

– Você quer o cam inho m ais fácil – disse Tia, quase em tom de súplica. – O que você espera? Que tudo não passe de um a fase e que Adam logo saia dela?

– Não foi isso que eu disse. Mas pense um pouquinho. Essa tecnologia é m uito nova. Todos os segredos, todas as em oções m ais íntim as do nosso filho estão nesse com putador. Você gostaria que seus pais soubessem de tudo sobre você?

– O m undo não é m ais o m esm o – retrucou ela.

– Tem certeza?

– Qual é o problem a? Som os os pais dele. Só querem os o bem do nosso filho.

Mike balançou a cabeça novam ente.

– Ninguém quer saber tudo o que se passa na cabeça de um a pessoa – disse. – Certas coisas devem ser m antidas em privacidade.

Tia afastou a m ão.

– Em segredo, você quer dizer.

– É.

– Você está dizendo que um a pessoa tem o direito de guardar segredos?

– Claro que tem .

Ela o fitou de um j eito estranho, do qual ele não gostou m uito.

– Você tam bém tem segredos? – perguntou ela.

– Não foi isso que eu disse.

– Esconde coisas de m im ?

– Não. Mas tam bém não quero que você fique sabendo de cada pensam ento m eu.

– Nem eu quero que você fique sabendo dos m eus.

Os dois se calaram . Até que Tia, recuando alguns passos, disse:

– Mas se eu tiver que escolher entre proteger m eu filho e respeitar a intim idade dele… Vou protegê-lo.

A discussão, que Mike não queria classificar com o briga, durou um m ês. Ele tentou seduzir o filho de volta. Convidava-o para ir ao shopping, ao fliperam a, até m esm o a shows. E todos os convites eram recusados. Adam ficava na rua até altas horas, sem qualquer respeito pelas regras. Não aparecia m ais para j antar. Suas notas com eçaram a despencar. A certa altura, concordou em se consultar com um terapeuta, que identificou sintom as de depressão. Disse que talvez fosse o caso de receitar algum m edicam ento, m as antes gostaria de ver Adam pelo m enos m ais um a vez. O garoto bateu o pé e disse que não ia.

Quando os pais insistiram , sum iu por dois dias. Nem sequer atendeu o celular. Mike e Tia entraram em pânico. No fim das contas, ele estava escondido na casa de um am igo.

– Estam os perdendo nosso filho – repetiu Tia.

O m arido não disse nada.

– No fundo, Mike, não passam os de tutores dos nossos filhos. Cuidam os deles durante um tem po e depois eles se vão. Só quero um a coisa: que Adam perm aneça vivo e saudável até o fim da nossa tutela. Depois é com ele.

Mike assentiu.

– Está bem , então – disse.

– Tem certeza?

– Não.

– Nem eu. Mas não consigo parar de pensar no Spencer.

Ele balançou a cabeça.

– Mike?

Mike olhou para a m ulher e ela abriu aquele m esm o sorriso torto que ele vira pela prim eira vez em Dartm outh, num dia frio de outono. O sorriso que, feito um saca-rolhas, perfurara seu coração para nunca m ais sair de lá.

– Am o você – disse ela.

– Tam bém am o você.

E foi assim que eles concordaram em espionar o filho m ais velho.