Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 35 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 35

35

R OSEMARY MCDEVITT CONDUZIU Mike Bay e até sua sala no Club Jaguar. O colete e as tatuagens agora estavam cobertos por um m oletom cinza grande dem ais: Rosem ary nadava nele,

as m ãos escondidas nas m angas com pridas. Desse j eito ela parecia m enor, m enos poderosa e m enos intim idante. Mike ficou pensando se isso não fazia parte do j ogo. Eles se serviram de café

e se acom odaram em lados opostos da m esa.

– A polícia colocou algum a escuta em você? – perguntou ela, encolhendo as pernas sobre a cadeira, tam bém as escondendo sob o m oletom .

– Não.

– Você se im porta de m e entregar o celular, só para garantir?

Mike deu de om bros e entregou o aparelho a ela. Rosem ary o desligou e o colocou sobre a m esa entre eles.

Mo esperava no carro. Receando um a arm adilha, tinha dito a Mike que era m elhor ele não entrar, m as tam bém sabia que não havia alternativa. Aquela era a m elhor pista que eles tinham sobre o paradeiro de Adam .

– Pouco m e im porta o que você faz aqui – disse Mike –, a não ser nos aspectos que têm a ver com m eu filho. Você sabe onde ele está?

– Não.

– Quando foi a últim a vez que você o viu?

Ela o encarou com os olhos castanhos. Mike não tinha certeza se havia um j ogo de sedução ali, m as isso tam bém não tinha a m enor im portância. Ele queria respostas. Entraria no j ogo se fosse preciso.

– Ontem à noite.

– Onde exatam ente?

– Lá em baixo, na boate.

– Ele veio aqui para dançar?

Rosem ary sorriu e disse:

– Suponho que não.

Mike deixou passar.

– Foi você que m andou aquela m ensagem instantânea para ele, não foi? Você é CeeJay 8115, não é?

Ela não respondeu.

– Você pediu ao Adam para ficar de bico calado, para que vocês se safassem de algum a coisa. E ele contou que tinha sido procurado pela m ãe de Spencer Hill, certo?

Rosem ary ainda estava com as pernas encolhidas sobre a cadeira. Ela abraçou os j oelhos e disse:

– Com o o senhor pode saber tanto sobre as conversas do seu filho, Dr. Bay e?

– Isso não é da sua conta.

– Com o o senhor o seguiu até aqui ontem à noite?

Mike não disse nada.

– Você tem certeza de que quer seguir por esse cam inho? – perguntou ela.

– Creio que não m e resta outro.

Ela olhou por sobre o om bro dele. Mike virou-se para trás. Carson, o de nariz quebrado, espiava do outro lado da vidraça. Mike o encarou calm am ente. Segundos depois, Carson desviou o olhar e se afastou.

– Eles são apenas garotos – com entou Mike.

– Não, não são.

Mike não quis discutir.

– Abra o j ogo para m im – disse ele.

Rosem ary recostou-se na cadeira.

– Vam os falar em term os hipotéticos, pode ser?

– Se é assim que você quer…

– É assim que eu quero. Digam os que você é um a m enina e m ora num a cidade pequena. Seu irm ão m orre de overdose.

– Não é o que a polícia diz. Não há nenhum a prova de que isso tenha acontecido.

Ela riu com ironia.

– Foi o pessoal da DEA que falou isso, é?

– Disseram que não encontraram nada que corroborasse a inform ação.

– Porque troquei alguns fatos.

– Que fatos?

– O nom e da cidade, o nom e do estado…

– Por quê?

– Principal m otivo? Na noite em que m eu irm ão m orreu, fui presa por posse e tráfico de drogas. – Ela levantou o rosto e encarou Mike. – Isso m esm o. Fui eu que forneci as drogas para o m eu irm ão. Eu era o vapor dele. Sem pre deixo de fora essa parte da história. As pessoas norm alm ente não entendem .

– Continue.

– Então abri o Club Jaguar. Já lhe contei qual é a m inha filosofia aqui. Minha intenção era criar um a espécie de santuário onde os garotos pudessem se divertir e relaxar. Queria canalizar, de um j eito seguro, a inclinação natural que eles têm para se rebelar.

– Certo.

– Então foi assim que a coisa com eçou. Fui à luta e consegui levantar dinheiro suficiente para tirar o proj eto da gaveta. Montei isto aqui em um ano. Você nem im agina com o foi difícil.

– Até posso im aginar, m as realm ente não foi para isso que vim aqui. Que tal pularm os direto para a parte em que você com eçou a realizar festinhas regadas a com prim idos e a roubar receituários?

Rosem ary sorriu e balançou a cabeça.

– Não é bem assim .

– Ahã.

– Hoj e m esm o li no j ornal sobre um a viúva que fazia trabalho voluntário na paróquia dela. Ao longo dos últim os cinco anos, ela roubou cerca de 28 m il dólares da cestinha do ofertório. Você viu isso?

– Não.

– Mas j á ouviu falar de casos sem elhantes, aposto. Toda hora aparece um a história dessas. O suj eito que trabalha para um a instituição de caridade e desvia dinheiro para com prar um carrão… Você acha que ele sim plesm ente acordou um dia e resolveu fazer isso?

– Eu não saberia dizer.

– A viúva da igrej a. Sabe o que eu acho que aconteceu? Um dia ela estava contando o dinheiro do ofertório e ficou até m ais tarde na igrej a. Talvez seu carro estivesse na oficina e ela não tivesse com o voltar para casa. Já estava anoitecendo. Então ela cham ou um táxi e pensou: puxa, faz tanto tem po que trabalho aqui com o voluntária, o que custa a igrej a m e pagar um táxi? Sem pensar duas vezes, ela m eteu a m ão no cesto e tirou um a nota de cinco dólares. Afinal, ela fez por m erecer. É assim que essas coisas com eçam , eu acho. Gradualm ente. Volta e m eia pessoas de aspecto distinto são presas por roubar dinheiro de escolas, igrej as, instituições de caridade. Elas com eçam roubando quantias pequenas e depois vão aum entando aos poucos, tão lentam ente que nem percebem . Não acham que estão fazendo nada de errado.

– E foi assim que aconteceu com o Club Jaguar?

– Eu achava que a garotada queria apenas encontrar os am igos para se divertir. Mas foi com o aqueles program as assistenciais com o basquete. Eles queriam se divertir, sim , m as com álcool e drogas. Não é possível criar um lugar para se rebelar. Não dá para oferecer segurança e proibir o consum o de drogas, porque a idéia é j ustam ente esta: eles querem se arriscar, não querem saber de segurança.

– Seu conceito não deu certo.

– Ninguém apareceu e os que vieram logo foram em bora. Fom os tachados de caretas. Éram os vistos com o esses grupos evangélicos que obrigam as pessoas a fazer voto de castidade.

– Mas o que aconteceu depois? – quis saber Mike. – Vocês sim plesm ente com eçaram a perm itir que eles trouxessem as próprias drogas?

– Não foi bem assim . Eles entravam com drogas, sim . Mas no início eu nem sabia. De certa form a isso até faz sentido. Com o eu disse antes, essas coisas sem pre acontecem de m odo gradual. Um ou dois garotos com eçaram a trazer com prim idos roubados de casa. Nada m uito pesado. Não estam os falando de cocaína ou heroína, m as de rem édios aprovados pela FDA.

– Besteira.

– O quê?

– Muitos desses rem édios são drogas pesadas, sim . Por isso precisam de receita.

Rosem ary deu um risinho sarcástico.

– Claro, eu não esperaria ouvir outra coisa de um m édico. Se não houvesse a necessidade de alguém para decidir quem deve tom ar que tipo de rem édio, seu trabalho j á era. Aliás, vocês j á perderam m uito dinheiro para os planos de saúde pública tipo Medicare e Medicaid, sem falar nas tantas seguradoras privadas que existem por aí.

– Isso é ridículo.

– Talvez no seu caso. Mas nem todo m édico é tão consciencioso assim .

– Você está tentando j ustificar um crim e.

– Pode ser – retrucou Rosem ary, sem perder a placidez. – De qualquer m odo, foi assim que tudo com eçou: alguns adolescentes trazendo com prim idos roubados dos pais. Rem édios perfeitam ente lícitos. Quando soube disso, fiquei m uito aborrecida, m as depois vi com o nosso m ovim ento estava aum entando. Eles iam continuar trazendo os com prim idos de qualquer j eito e eu estava oferecendo a eles um lugar seguro. Cheguei a contratar um a profissional da área m édica. Ela ficava de plantão, no caso de haver algum im previsto. Você percebe o que eu estava conseguindo fazer? Eu estava tirando a garotada da rua e trazendo para cá, o que é m uito m elhor. Tam bém oferecia program as de aj uda, de m odo que eles pudessem se abrir, falar dos seus problem as. Você deve ter visto os panfletos das terapias, não viu? Muitos garotos se inscreveram . O bem que estávam os fazendo era m aior que o m al.

– Mas gradualm ente… – provocou Mike.

– Pois é.

– Vocês foram se dando conta de que ainda precisavam de dinheiro. Descobriram o preço desses rem édios no m ercado e com eçaram a exigir um percentual.

– Para as despesas operacionais. Com o a m édica que contratei, por exem plo.

– A viúva da igrej a e o dinheiro do táxi.

Rosem ary deu um sorriso triste e disse apenas:

– É.

– Foi então que Adam apareceu por aqui. Filho de um m édico.

Exatam ente com o os policiais disseram . Rosem ary tinha dado vazão a seu espírito em preendedor. Mike, entretanto, não estava interessado em suas razões. Talvez ela estivesse inventando tudo aquilo. Talvez não. Na verdade, não im portava. Mas ela estava certa ao dizer com o as pessoas aos poucos iam se m etendo em problem as. A viúva certam ente não se oferecera com o voluntária para roubar a igrej a. Sim plesm ente com eçara a roubar. Dois ou três anos atrás, a m esm a coisa havia acontecido na Liga Infantil de Beisebol da cidade. Tam bém j á acontecera na diretoria das escolas, na prefeitura. Sem pre ficam os chocados quando ouvim os falar de coisas assim . São pessoas que conhecem os. Não são m ás. Ou são? Será verdade que a ocasião faz o ladrão? Ou será que, com o Rosem ary dissera, as pessoas fechavam os olhos e não se davam conta do que estavam fazendo?

– O que aconteceu com Spencer Hill? – perguntou Mike.

– Ele se suicidou.

Mike fez que não com a cabeça.

– Estou dizendo o que sei – retrucou Rosem ary .

– Então por que Adam , com o você escreveu naquela m ensagem , teria que ficar de bico calado?

– Spencer Hill se m atou.

Mike novam ente balançou a cabeça.

– Ele m orreu de overdose aqui, não foi?

– Não.

– É a única coisa que faz sentido. Por isso Adam e os am igos dele precisavam ficar de bico calado. Eles estavam com m edo. Não sei o que você fez para am eaçá-los. Talvez tenha lem brado que eles tam bém poderiam ser presos. Por isso eles ficaram se sentindo tão culpados. Por isso Adam andava tão angustiado. Ele estava com Spencer naquela noite. Não só estava com ele, com o tam bém aj udou a levar o corpo para aquele telhado.

Rosem ary esboçou um sorriso.

– Você realm ente não está entendendo nada, não é, Dr. Bay e?

Mike não gostou do que ouviu.

– Então m e explique.

Rosem ary ainda encolhia as pernas sob o m oletom . O j eito j uvenil de se sentar conferia a ela um ar inocente que Mike sabia que não era real.

– Você não conhece m esm o seu filho, não é? – disse ela.

– Antes eu conhecia.

– Não conhecia, não. Achava que conhecia. Mas você é o pai dele. Não tem de saber de tudo. Os filhos têm de se rebelar. O fato de você não conhecê-lo não é um problem a. Pelo contrário.

– Não estou acom panhando seu raciocínio.

– Você colocou um GPS no telefone dele. Foi assim que descobriu onde ele estava. E pelo visto tem m onitorado o com putador dele tam bém , as m ensagens. Provavelm ente acha que o está aj udando, m as só o está sufocando. Os pais não devem saber o que os filhos estão fazendo o tem po todo.

– Eles precisam de espaço para se rebelarem , é isso?

– Em parte, sim .

Em pertigando-se na cadeira, Mike disse:

– Se eu tivesse tom ado conhecim ento sobre este lugar antes, poderia ter m antido m eu filho longe daqui.

– Acha m esm o? – Rosem ary inclinou a cabeça com o se realm ente estivesse interessada na resposta. Com o Mike não disse nada, ela prosseguiu: – É este o seu plano para o futuro? Monitorar cada passo dos seus filhos?

– Com o pretendo criar m eus filhos definitivam ente não é da sua conta – respondeu ele.

Rosem ary o observou com atenção. Apontou para o hem atom a na testa dele e disse:

– Sinto m uito por isso aí.

– Foi você que m andou aqueles góticos atrás de m im ?

– Não. Só fiquei sabendo hoj e de m anhã.

– Quem lhe contou?

– Não vem ao caso. Ontem à noite seu filho esteve aqui, e o clim a ficou estranho. Depois, você apareceu. DJ Huff viu que você o estava seguindo. Ligou para cá e o Carson atendeu.

– Ele e os am igos dele tentaram m e m atar.

– Provavelm ente teriam m atado. Ainda acha que são apenas garotos?

– Foi um segurança que m e salvou.

– Não. O segurança só encontrou você.

– Com o assim ?

– Quando soube que eles o atacaram e que a polícia estava por perto… para m im foi com o se um despertador tivesse tocado, sabe? Só o que quero agora é pôr um fim em tudo isso.

– Com o?

– Não sei ainda, m as foi por isso que cham ei você aqui. Para traçarm os um plano.

Só então Mike entendeu por que ela havia falado com tanta franqueza. Pelo m enos era o que parecia. Rosem ary sabia que a polícia estava fechando o cerco, sabia que j á era hora de recolher as fichas e sair da m esa. Precisava de aj uda e supunha que um pai am edrontado m orderia a isca.

– Já tenho um plano – disse Mike. – Contar toda a verdade à polícia.

– Talvez isso não sej a o m elhor para o seu filho.

– Adam é m enor de idade.

– Mesm o assim . Estam os todos j untos neste barco. Precisam os encontrar um j eito de não afundarm os.

– Você fornecia drogas a m enores de idade.

– Não é verdade, com o acabei de explicar. Tudo bem , eles usaram m eu clube com a finalidade de trocar rem édios controlados. Isso é tudo o que talvez vocês possam provar. Não podem provar, por exem plo, que eu sabia o que estava acontecendo.

– E os receituários roubados?

Rosem ary ergueu um a sobrancelha.

– E você acha que fui eu quem os roubou?

Silêncio.

Ela o encarou e disse:

– Por acaso tenho acesso a seu consultório ou à sua casa, Dr. Bay e?

– A polícia está de olho em você – devolveu Mike. – Estão recolhendo evidências para um processo. Você acha que aqueles corvos góticos vão resistir à am eaça de prisão?

– Eles adoram este lugar. Quase m ataram você para protegê-lo.

– Bobagem . Assim que se virem sozinhos num a sala de interrogatório, vão m orrer de m edo.

– Tam bém há outras considerações – acrescentou Rosem ary .

– Com o o quê?

– Quem você acha que distribuía os com prim idos na rua? Você realm ente quer que seu filho testem unhe contra esse tipo de gente?

A vontade de Mike era investir contra Rosem ary e quebrar o pescoço dela.

– Que buraco é esse em que você m eteu m eu filho, Rosem ary ?

– No buraco do qual agora precisam os tirá-lo. É nisso que você tem de se concentrar. Precisam os lim par essa suj eira toda. Para o m eu bem , claro, m as m uito m ais para o bem do Adam .

Mike pegou o celular sobre a m esa.

– Não sei m ais o que dizer.

– Você tem um advogado, não tem ?

– Tenho.

– Não faça nada antes que ele converse com igo, está bem ? Há m uita coisa em j ogo. Inclusive outros garotos com os quais você precisa se preocupar tam bém . Am igos do seu filho.

– Não quero saber dos outros garotos. Só do m eu filho.

Mike ligou o celular, que tocou im ediatam ente. O identificador de cham adas m ostrava um núm ero desconhecido. Ele atendeu assim m esm o.

– Pai?

O coração de Mike veio à boca.

– Adam ? Você está bem ? Cadê você?

– Você está no Club Jaguar?

– Estou.

– Saia j á daí. Estou na rua, indo encontrar você. Mas, por favor, saia daí. Im ediatam ente.