Confie em Mim
Capítulo 17
17
N O SONHO, MIKE OUVIU UM BIPE seguido das palavras: “Desculpe, pai…”
Na realidade, ouviu um a m ulher falando em espanhol na escuridão.
Ele conhecia a língua o bastante (ninguém trabalhava num hospital da rua 168 sem saber pelo m enos algum a coisa de espanhol) para se dar conta de que a tal m ulher rezava fervorosam ente. Tentou virar a cabeça, m as não encontrou forças. Paciência. Tudo estava escuro. Suas têm poras latej avam enquanto a m ulher repetia sua oração um m ilhão de vezes.
Enquanto isso, Mike repetia m entalm ente seu próprio m antra: Adam. Onde você está, Adam?
Aos poucos ele percebeu que estava de olhos fechados. Tentou abri-los, m as não conseguiu. Ouviu um pouco m ais a ladainha da m ulher, depois se concentrou nas próprias pálpebras, no esforço para abri-las. Dem orou um pouco, m as enfim elas com eçaram a piscar. As têm poras, que antes latej avam , agora pareciam estar sendo golpeadas por um m artelo. Mike ergueu um a das m ãos e pressionou a lateral da cabeça com o se isso fosse estancar a dor. Mal conseguia olhar para a lâm pada fluorescente do teto.
A reza em espanhol prosseguia. O cheiro ao redor era fam iliar: um a m istura de desinfetantes fortes com urina, fezes e flores m urchas. Nenhum a corrente de ar. Mike deixou a cabeça tom bar para a esquerda. Viu as costas da m ulher vergadas sobre um a cam a. Os dedos debulhavam um terço. A cabeça parecia repousar sobre o peito de um hom em . Ora ela rezava, ora chorava, ora fazia as duas coisas ao m esm o tem po.
Mike tentou estender-lhe a m ão e dizer algo que pudesse consolá-la. Sem pre o m édico. Mas viu que estava com um cateter intravenoso e só então se deu conta de que tam bém era um paciente. Tentou lem brar o que acontecera, com o ele tinha ido parar ali. Não conseguiu. Seu cérebro estava lento e a m em ória, turva.
Lem brou-se, no entanto, da aflição que havia sentido ao acordar. Tentara afastá-la naquele m om ento, m as agora, para reavivar a m em ória, deixou que ela se instalasse outra vez. Então, o m antra de antes lhe ocorreu im ediatam ente, porém num a única palavra: Adam.
O resto veio em seguida. Ele havia saído à procura do filho. Conversara com o segurança daquela boate, Anthony. Entrara naquele beco. Encontrara um a m ulher pavorosa com um a peruca…
A lâm ina.
Ele fora esfaqueado?
Provavelm ente não, pensou. Virando a cabeça para a direita, ele deparou com outro paciente, um negro de olhos fechados. Procurou por alguém de sua própria fam ília, m as não viu ninguém . Não ficou surpreso. Não fazia tanto tem po assim que ele havia se ausentado. Alguém deve ter entrado em contato com Tia, m as ela estava em Boston, dem oraria a chegar. Jill estava na casa dos Novak. E Adam …
No cinem a, sem pre que um paciente recobra os sentidos, encontra um m édico e um a enferm eira ao seu lado, sorrindo e cheios de respostas para oferecer com o se eles tivessem passado a noite inteira ali. No entanto, não havia nenhum funcionário do hospital ao lado dele. Mike sabia com o as coisas de fato funcionavam . Procurou pela cam painha de socorro, encontrou-a enroscada nas grades da cam a e cham ou pela enferm eira.
Levaria um tem po até alguém aparecer. Quanto exatam ente, Mike não saberia dizer. Os m inutos pareciam se arrastar. A m ulher que rezava em espanhol se calou de repente, ficou de pé e enxugou os olhos. Só então Mike pôde ver o rosto do hom em no leito. Bem m ais j ovem que ela. Mãe e filho, ele deduziu. Cogitou o que teria acontecido ao rapaz.
Olhou para a j anela atrás da m ulher. As cortinas estavam abertas e o dia, claro.
Ele havia perdido a consciência durante a noite. Horas atrás. Ou, quem sabe, dias. Mike apertou a cam painha freneticam ente, m esm o sabendo que não adiantaria nada. Com eçou a entrar em pânico. A dor na cabeça piorava: as m arteladas agora eram bem m ais fortes.
– Ora, ora, ora – resm ungou alguém .
Mike virou o rosto na direção da porta. A enferm eira, um a m ulher corpulenta, com os óculos pendurados sobre os peitos enorm es, entrou no quarto. Segundo inform ava o crachá, seu nom e era Bertha Bondy . Ela olhou para Mike, franziu o cenho e disse:
– Bem -vindo ao m undo dos vivos, dorm inhoco. Com o está se sentindo?
Mike dem orou alguns segundos para encontrar a própria voz.
– Com o se eu tivesse beij ado um a j am anta – disse.
– Se tivesse beij ado um a j am anta talvez você estivesse em m elhor estado – devolveu Bertha. – Está com sede?
– Morrendo.
Bertha pegou um copo com gelo triturado e o levou à boca de Mike. Apesar do gosto de rem édio, a sensação foi ótim a.
– Você está no Bronx-Lebanon Hospital – inform ou Bertha. – Lem bra-se do que aconteceu?
– Alguém m e atacou. Dois ou três caras, acho.
– Hum m . Com o você se cham a?
– Mike Bay e.
– Pode soletrar o sobrenom e para m im ?
Pensando tratar-se de um teste cognitivo, ele não só soletrou o sobrenom e com o tam bém ofereceu algum as inform ações adicionais:
– Sou m édico – disse. – Faço transplantes no NewYork-Presby terian.
Ela franziu o cenho novam ente, com o se ele tivesse dado a resposta errada.
– Verdade?
– Verdade.
Mais desconfiança.
– Então, passei? – perguntou Mike.
– Passou no quê?
– No teste cognitivo?
– Sou apenas um a enferm eira. Seu m édico j á deve estar chegando. Perguntei seu nom e porque não sabem os quem você é. Chegou aqui sem carteira, sem celular, sem chaves, sem nada. Você foi depenado, m eu am igo.
Mike estava prestes a dizer m ais algum a coisa quando sentiu um a pontada na cabeça. Mordeu os lábios, contou até 10 e esperou que ela passasse. Então disse:
– Quanto tem po fiquei fora do ar?
– A noite toda. Seis, sete horas.
– Que horas são agora?
– Oito da m anhã.
– Ninguém avisou m inha fam ília?
– Com o acabei de dizer, não sabíam os quem você era.
– Preciso de um telefone. Preciso ligar para m inha m ulher.
– Sua m ulher? Tem certeza?
Mike não conseguia raciocinar direito. Decerto estava sob o efeito de algum m edicam ento. Talvez por isso não entendia o m otivo daquela pergunta tão estúpida.
– Claro que tenho.
Bertha deu de om bros.
– O telefone está aí, ao lado da cam a. Vou pedir para ligarem a linha. Provavelm ente você vai precisar de aj uda para discar, não vai?
– Acho que sim .
– Ah, você tem seguro? Vai precisar preencher alguns form ulários.
Mike tentou sorrir. Claro, o seguro era m ais im portante.
– Tenho.
– Vou pedir que alguém da internação suba para pegar seus dados. Daqui a pouco seu m édico vem falar dos ferim entos.
– São graves?
– Você levou um a boa surra e, com o ficou apagado por tanto tem po, com certeza teve um a concussão, algum traum atism o na cabeça. Mas prefiro que o m édico lhe dê os detalhes se você não se im portar. Vou ver se dou um a apressada nele.
Mike não se opôs. Sabia que não cabia às enferm eiras fazer diagnósticos.
– E a dor, está m uito forte? – perguntou Bertha.
– Mais ou m enos.
– Você tom ou analgésicos, portanto a dor vai piorar antes de com eçar a m elhorar. Vou providenciar um a bom ba de m orfina para você.
– Obrigado.
– Volto em dois m inutos.
Ela cam inhou na direção da porta. Mike se lem brou de um a coisa.
– Enferm eira?
A m ulher se virou para ele.
– Não tem nenhum policial aí querendo falar com igo?
– Com o?
– Fui agredido e, com o você m esm a disse, roubado. A polícia não deveria estar interessada em saber o que houve?
Bertha cruzou os braços e disse:
– E você achou que um policial ia sim plesm ente ficar sentado aqui esperando você acordar?
Ela estava certa. Mais um a vez, o cinem a.
– Além disso – acrescentou Bertha –, a m aioria das pessoas nem se dão o trabalho de apresentar queixa nesse tipo de caso.
– Que tipo de caso?
Bertha torceu o nariz e disse:
– Você quer que eu cham e a polícia?
– Melhor ligar para m inha m ulher prim eiro.
– É – disse Bertha. – Tam bém acho.
Mike tentou alcançar o controle de regulagem da cam a, porém quase perdeu o fôlego com a dor que sentiu nas costelas. Tateando, encontrou o controle e apertou o botão de cim a. Erguendo o tronco j unto com a cam a, sentou o m ais reto que pôde e, m uito lentam ente, pegou o telefone a seu lado. A linha ainda não havia sido ligada.
Tia j á devia estar apavorada.
E Adam ? Já teria chegado em casa?
Quem seriam aqueles gorilas do beco?
– Sr. Bay e?
Era a enferm eira Bertha, ressurgindo à porta.
– Dr. Bay e – corrigiu Mike.
– Ah, que boba que eu sou. Tinha esquecido.
Mike não queria ser chato, m as era prudente deixar claro que ele tam bém era m édico. Quando um policial é parado no trânsito, a prim eira coisa que faz é m ostrar ao colega sua carteira da polícia. Esse tipo de coisa que “m al não faz”.
– Encontrei um policial que está aqui por causa de outro caso – prosseguiu Bertha. – Quer falar com ele?
– Quero, sim , obrigado. Mas você pode m andar ligar o telefone tam bém , por favor?
– Claro. Daqui a pouco j á vai estar funcionando.
O policial uniform izado entrou no quarto. Era um hom em baixo, de feições latinas, com um bigodinho fino. Devia ter cerca de 30 anos, Mike deduziu. Apresentou-se com o oficial Gutierrez.
– Quer m esm o registrar queixa? – perguntou ele.
– Claro que sim .
Assim com o a enferm eira Bertha, ele tam bém se surpreendeu.
– Que foi? – perguntou Mike.
– Fui eu quem trouxe o senhor para cá.
– Muito obrigado.
– De nada. Quer saber onde foi encontrado?
Mike refletiu um instante.
– Provavelm ente naquele beco perto da boate. Não m e lem bro o nom e da rua.
– Exatam ente.
Ele olhou para Mike e esperou. Só então Mike com preendeu.
– Não é o que o senhor está pensando – falou ele.
– E o que estou pensando?
– Que eu fui enrolado por um a prostituta.
– Enrolado?
Mike tentou dar de om bros.
– É que eu assisto m uito à TV.
– Bem , não sou m uito bom com suposições. O que sei é o seguinte: você foi encontrado num beco freqüentado por prostitutas. Deve ser uns 20 ou 30 anos m ais velho que o pessoal que costum a ir àquelas boates. É casado. Foi agredido e roubado, ou m elhor, “enrolado” – ele fez o gesto de aspas com o dedo –, do m esm o j eito que a m aioria dos clientes daquelas m oças.
– Eu não estava ali para m e divertir – disse Mike.
– Não, não, claro que não. Tenho certeza de que o senhor foi ali para apreciar a vista, que é m uito bonita. Sem falar no cheirinho. Am igo, você não precisa explicar nada. Sei com o são as coisas.
– Eu estava procurando m eu filho.
– Naquele beco?
– Exatam ente. Vi um am igo dele… – A dor voltou a atacar de repente. Mike sabia que a explicação seria longa. Além do m ais, o que aquele policial conseguiria descobrir?
Ele precisava falar com Tia.
– Estou com m uita dor agora – disse Mike.
Gutierrez fez que sim com a cabeça.
– Com preendo – disse. – Olhe, aqui está m eu núm ero. Pode ligar, se quiser falar m ais ou dar queixa, está bem ?
Ele deixou um cartão de visitas sobre a m esinha-de-cabeceira e saiu. Mike não se deu o trabalho de pegá-lo. Lutando contra a dor, tirou o fone do gancho e discou o núm ero do celular de Tia.