Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 34 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 34

34

PRIMEIRO, RON HILL SE CERTIFICOU de que nem Betsy nem os gêm eos estavam em casa.

Depois subiu ao quarto do filho m orto.

Não queria que ninguém soubesse.

Encostado à porta, ficou olhando para a cam a com o se o esforço de concentração pudesse fazer seu filho se m aterializar a qualquer instante e, então, Spencer surgiria ali, deitado de costas, m udo, olhando para o teto com um a pequena lágrim a nos olhos.

Por que eles não haviam enxergado antes?

O garoto vivia m al-hum orado, tristonho, calado. Ninguém quer que seu filho sej a taxado de m aníacodepressivo. Os pais sem pre acreditam que é só um a fase, coisa de adolescente, e que logo vai passar. Mas agora, olhando as coisas em retrospecto, quantas vezes Ron não passara por aquele quarto, abrira a porta sem bater (a casa era dele, ora) e lá estava Spencer, esparram ado na cam a, os olhos m arej ados. Ron perguntava: “Tudo bem com você, filho?” E Spencer respondia: “Tudo, pai.” Então, Ron fechava a porta e a vida seguia em frente.

Belo pai.

Ron se culpava por não ter notado o com portam ento do filho, por ter deixado os com prim idos e a vodca em locais de tão fácil acesso e, sobretudo, pelo que andava pensando.

Talvez fosse um a crise de m eia-idade. Mas ele achava que não. Para ele isso era um a desculpa m uito conveniente, um a saída fácil. A verdade era que ele detestava sua vida. Detestava o em prego. Detestava chegar em casa e encontrar filhos que não o obedeciam , aquela barulheira toda, aquela correria. Detestava ter de sair a todo instante para com prar lâm padas, preocupar-se com a conta do gás, econom izar para a universidade dos filhos. Caram ba, com o seria bom poder escapar de tudo aquilo. Ron, assim com o tantos hom ens iguais a ele, não sabia com o sua vida tinha chegado àquele ponto. Seu sonho era refugiar-se num a casinha de cam po e ficar sozinho, perdido no m eio de um a floresta sem celulares, procurando um a brecha entre as árvores para espiar o sol e senti-lo na pele.

Ele desej ava escapar daquela vida e, de repente, Deus atendia às suas preces levando seu filho.

Ron detestava estar ali, naquela casa, naquele caixão. Betsy recusava-se a seguir em frente. Os gêm eos, por algum m otivo, pareciam em outra sintonia. As pessoas acabam se resignando a seus destinos, m as por quê? Que sentido isso faz? Sacrificam os nossa felicidade na rem ota esperança de que a geração seguinte sej a m ais feliz. Mas que garantia a vida nos dá? Que garantia tem os de que, à custa da nossa própria felicidade, nossos filhos serão m ais realizados? Nenhum a. Com Spencer, por exem plo, não tinha sido assim .

Ron relem brou os dias após o suicídio do filho. Entrara naquele quarto, nem tanto para em pacotar as coisas de Spencer, m as para m exer nelas. Aquilo o aj udava de algum a form a. Sentira um a irrefreável vontade de rem exer nos pertences do filho, com o se conhecê-lo m elhor agora fosse fazer algum a diferença. Betsy o vira ali e fizera um escândalo. Então, Ron parou im ediatam ente o que estava fazendo e nunca disse nem um a palavra sobre o que havia encontrado – e apesar de seus esforços para se entender com Betsy, das inúm eras tentativas de reaproxim ação, a m ulher por quem ele tinha se apaixonado j á não estava m ais lá. Era bem possível que ela tivesse partido m uito antes, Ron j á não tinha certeza de nada, m as qualquer coisa que pudesse ter restado fora enterrada naquele m aldito caixão com Spencer.

Ron se assustou ao ouvir a porta dos fundos bater. Não ouvira o carro chegar. Correu para a escada e deparou com Betsy . Vendo a expressão no rosto dela, disse:

– O que houve?

– Spencer se m atou – disse ela.

Ron ficou ali, sem saber o que dizer.

– Eu queria que houvesse m ais algum a coisa – continuou Betsy .

– Eu sei – devolveu Ron.

– Sem pre vam os ficar nos perguntando o que poderíam os ter feito para salvar nosso filho. Mas talvez… Sei lá, talvez não houvesse nada a fazer. É possível que não tenham os percebido um a coisa ou outra, m as tam bém é possível que isso não tivesse feito diferença nenhum a. Detesto pensar nisso, porque não quero nos isentar da culpa, m as logo vej o que não estou nem aí para essa história de culpa, eu só queria ter a chance de voltar atrás. Um a única chance. E talvez, se m udássem os um a coisinha qualquer, algo insignificante, com o sair da garagem e virar para a esquerda em vez de para a direita, ou pintar a casa de am arelo em vez de azul, qualquer bobagem assim , tudo teria sido diferente.

Ron esperou que ela dissesse m ais algum a coisa. Vendo que ela havia term inado, perguntou:

– O que aconteceu, Betsy ?

– Acabei de m e encontrar com Adam Bay e.

– Onde?

– No quintal dos fundos, onde eles costum avam brincar.

– O que ele disse?

Betsy contou sobre a discussão entre os dois garotos, as ligações, a culpa que Adam estava sentindo.

– Por causa de um a garota? – perguntou Ron, tentando digerir as novas inform ações.

– É.

Mas Ron sabia que as coisas eram bem m ais com plicadas.

Betsy lhe deu as costas.

– Aonde você vai? – perguntou ele.

– Preciso falar com a Tia.

♦♦♦

Tia e Mike decidiram dividir as tarefas.

Mo foi ao encontro deles. Ele e Mike foram para o Bronx, enquanto Tia ficou no com putador de casa. Mike colocou o am igo a par de tudo o que havia acontecido. Mo seguiu dirigindo sem fazer perguntas. Deixou que Mike term inasse e em seguida disse apenas:

– Aquela m ensagem … do tal CeeJay 8115.

– O que é que tem ?

Mo continuava dirigindo.

– Mo?

– Não sei. Mas é im possível que haj a 8.115 CeeJay s por aí.

– E daí?

– E daí que os núm eros nunca são aleatórios – disse Mo. – Sem pre significam algum a coisa. É só a gente descobrir o quê.

Mike j á deveria ter previsto. Quando o assunto era núm eros, Mo era um a espécie de sábio. Por isso conseguira entrar num a universidade com o Dartm outh, por causa do excelente resultado na parte aritm ética dos exam es de adm issão.

– Algum a idéia do que possa ser?

– Ainda não – respondeu Mo, balançando a cabeça. – E agora, o que vam os fazer?

– Preciso dar um telefonem a.

Mike discou o núm ero do Club Jaguar. Ficou surpreso quando Rosem ary McDevitt atendeu pessoalm ente.

– Aqui é Mike Bay e.

– Eu j á im aginava. Estam os fechados hoj e, m as eu estava esperando seu telefonem a.

– Precisam os conversar.

– Precisam os m esm o – disse Rosem ary . – Você sabe onde estou. Venha para cá o m ais rápido que puder.

♦♦♦

Tia conferiu os e-m ails de Adam , m as, com o das outras vezes, não encontrou nada de relevante. Clark e Olivia continuavam m andando m ensagens, cada vez m ais alarm ados, m as ainda não havia nada de DJ Huff, o que deixou Tia preocupada.

Ela se levantou e foi até o quintal para conferir se a chave reserva estava no esconderij o de sem pre. Estava. Mo a tinha usado recentem ente, dissera que a tinha colocado de volta no m esm o lugar. Ele sabia onde a chave ficava, o que, de algum m odo, fazia dele um suspeito. Por outro lado, apesar de todas as reservas de Tia para com ele, a falta de confiança não era um a delas. Ele j am ais faria nada contra aquela fam ília. Tia sabia que Mo seria capaz de dar a própria vida para salvar Mike, Adam e Jill.

Ainda estava no quintal quando ouviu o telefone tocar. Entrou correndo e conseguiu atender no terceiro toque. Não teve tem po de conferir o identificador de cham adas.

– Alô?

– Tia? Aqui é Guy Novak.

Ele parecia estar despej ando aquelas palavras.

– Algum problem a?

– As m eninas estão bem , não se preocupe. Por acaso você estava vendo o noticiário na TV?

– Não, por quê?

Guy abafou o choro e disse:

– Minha ex-m ulher foi assassinada. Acabei de identificar o corpo.

Tia poderia esperar qualquer coisa, m enos um a revelação daquelas.

– Meu Deus, Guy , eu sinto m uito.

– Não quero que você se preocupe com as m eninas. Minha am iga Beth está com elas. Acabei de ligar para casa. Está tudo bem por lá.

– O que aconteceu com Marianne?

– Foi espancada até m orrer.

– Meu Deus…

Tia só a vira poucas vezes. Marianne abandonara a fam ília logo depois de Yasm in e Jill com eçarem a estudar. Na época, esse fora o grande escândalo da cidade: um a m ulher que não suportara a pressão da m aternidade e fugira de suas responsabilidades para levar um a vida desregrada nas praias da Flórida. A m aioria das m ães com entava o assunto com tanta repulsa que Tia não podia deixar de suspeitar que elas sentiam um pouco de invej a, um a certa adm iração por aquela m ulher que havia conseguido se libertar dos grilhões da sociedade, ainda que de m aneira egoísta e destrutiva.

– Eles pegaram o assassino?

– Não. Até pouco tem po atrás nem sabiam de quem era o corpo.

– Sinto m uito, Guy .

– Já estou voltando para casa. Yasm in ainda não sabe de nada. Preciso contar a ela.

– Claro.

– Acho m elhor que a Jill não estej a por perto nessa hora.

– Certo – disse Tia. – Vou buscá-la agora m esm o. Tem m ais algum a coisa que eu possa fazer?

– Não, Tia, obrigado. Quer dizer, seria bom se a Jill pudesse voltar m ais tarde. Sei que é pedir m uito, m as Yasm in pode precisar dela.

– Claro. Farem os qualquer coisa para aj udar vocês.

– Obrigado, Tia.

Guy desligou e Tia ficou ali, perplexa. Marianne havia sido espancada até a m orte. Difícil de digerir. Tia nunca fora m uito boa em lidar com diversas coisas ao m esm o tem po, e os últim os dias vinham se revelando um enorm e desafio para sua capacidade de se controlar.

Ela pegou as chaves do carro, se perguntou se deveria ligar para Mike, m as achou m elhor deixá-lo concentrado em procurar Adam . Do lado de fora, o céu estava extraordinariam ente azul. Tia parou um instante para adm irar a rua, as casas silenciosas, os gram ados im pecáveis. Os Graham estavam na calçada. O Sr. Graham ensinava o filho de 6 anos a andar num a bicicleta sem rodinhas, segurando o selim enquanto o garoto pedalava – o tradicional rito de passagem e tam bém um exercício de confiança, com o aqueles em que nos j ogam os para trás, certos de que alguém está ali para nos am parar. A Sra. Graham observava do j ardim , com as m ãos sobre os olhos para bloquear a luz, sorrindo.

Dante Lorim an chegou em casa com sua BMW 550i.

– Oi, Tia.

– Oi, Dante.

– Tudo bem ?

– Tudo, e você?

– Tudo ótim o.

Am bos estavam m entindo, claro. Ela olhou para os dois lados da rua. As casas eram tão parecidas… Mais um a vez ela pensou naquelas sólidas estruturas que protegiam vidas tão frágeis. Os Lorim an tinham um filho doente. O dela estava desaparecido e provavelm ente envolvido em algo ilícito.

Tia se acom odava no carro quando o celular tocou. Conferiu o identificador de cham adas. Era Betsy Hill. Talvez fosse m elhor não atender. Afinal, elas agora tinham interesses diferentes. Tia não estava disposta a contar sobre as pharm parties, tam pouco sobre as suspeitas da polícia. Pelo m enos não por enquanto.

O telefone tocou outra vez.

Tia novam ente hesitou. Mas o im portante naquele m om ento era encontrar Adam . Tudo m ais deveria ficar em segundo plano. Quem sabe Betsy não descobrira algo que pudesse dar um a pista de onde ele estava?

Ela atendeu.

– Alô?

– Acabei de ver o Adam .

♦♦♦

O nariz quebrado de Carson com eçava a doer. Ele estava diante de Rosem ary McDevitt quando ela desligou o telefone.

A paz reinava no Club Jaguar. Rosem ary tinha fechado o lugar e despachado todo m undo para casa depois do incidente com Michael Bay e e seu am igo brutam ontes. Eles dois eram os únicos que haviam ficado.

Ela era um a m ulher linda, sem dúvida, m as naquele m om ento dava a im pressão de que a arm adura estava para desm oronar. Largara o celular e apertara os braços contra o próprio tronco.

Do outro lado da m esa, Carson tentou abrir um sorriso de sarcasm o, m as sentiu o nariz doer.

– Era o pai do Adam ? – perguntou.

– Era.

– Precisam os nos livrar dos dois.

Rosem ary fez que não com a cabeça.

– O que foi? – disse Carson.

– O que você precisa fazer – disse ela – é deixar que eu cuide de tudo.

– Acho que você ainda não entendeu o que está acontecendo.

Rosem ary não disse nada. Então, ele continuou:

– O pessoal para quem trabalham os…

– Não trabalham os para ninguém – interrom peu ela.

– Tudo bem , coloque as coisas do j eito que quiser. Nossos sócios. Nossos distribuidores. Tanto faz.

Rosem ary fechou os olhos, im paciente.

– Esse pessoal é barra-pesada.

– Ninguém pode provar nada.

– Claro que pode.

– Deixe que eu cuido de tudo, o.k.?

– Ele está vindo para cá?

– Está. Vou conversar com ele. Sei o que estou fazendo. Agora quero que você vá em bora.

– Para você ficar sozinha com ele, não é?

Rosem ary balançou a cabeça.

– Não é nada disso que você está pensando.

– Então o que é?

– Vou tirar a gente dessa. Vou conseguir dobrá-lo. Deixe com igo.

♦♦♦

No alto de um a colina no terreno da escola, sozinho, Adam ouvia novam ente a voz de Spencer.

Foi mal, cara, desculpe…

Ele fechou os olhos. Adam não tinha apagado aquelas m ensagens do celular. Ele as ouvia quase diariam ente e sem pre sentia a m esm a dor.

Adam, por favor, atenda…

Me perdoe, cara. Só diga que você me perdoa…

As tais m ensagens ainda o assom bravam , especialm ente a últim a, em que Spencer j á enrolava a língua, quase m orrendo:

Não tem nada a ver com você, Adam. Tente entender. Não é culpa de ninguém. Mas é que está muito difícil. Sempre foi difícil demais…

Adam esperava pela chegada de DJ Huff. O pai de DJ, um capitão da polícia que havia crescido naquela m esm a com unidade, dizia que os garotos costum avam escalar aquela colina depois das aulas, m as só os valentões e encrenqueiros. Os outros passavam bem longe dali.

Olhando à sua volta, Adam viu o cam po de futebol. Já havia participado de algum as partidas ali, quando tinha 8 anos, m as nunca se interessara pelo esporte. Gostava do hóquei. Gostava do gelo, de deslizar nos patins. Gostava de vestir as braçadeiras, as perneiras, a m áscara de proteção. Gostava da concentração exigida pelo seu posto de goleiro. O goleiro sem pre tinha um papel im portante no j ogo: se estava num dia bom , não havia possibilidade de derrota. A m aioria dos garotos detestava esse tipo de pressão. Adam precisava dela.

Me perdoe, cara.

Não, pensou Adam , é você quem tem de me perdoar.

Spencer sem pre fora instável: ora estava nas nuvens, ora no fundo do poço. Falava em fugir, em abrir um negócio próprio, m as, sobretudo, em m orrer e acabar com a dor. Assim com o todos os garotos, até certo ponto. Adam , por exem plo, chegara a fazer um pacto de suicídio com Spencer no ano anterior. Mas no caso dele, era só da boca para fora.

Ele deveria ter previsto que Spencer teria coragem de cum prir o pacto.

Me perdoe…

Teria feito algum a diferença? Naquela noite, sim . Spencer viveria m ais um dia. Depois m ais um . E depois… quem poderia dizer?

– Adam ?

Ele se virou na direção da voz. Era DJ Huff.

– Tudo bem com você?

– Não – respondeu Adam . – Graças a você.

– Eu não sabia o que ia acontecer. Sim plesm ente vi seu pai m e seguindo e liguei para o Carson.

– E saiu correndo.

– Eu não sabia que eles iriam atrás dele.

– E o que você achou que eles iriam fazer?

DJ deu de om bros e só então Adam reparou no estado dele: os olhos verm elhos, a fina cam ada de suor, o corpo balançando.

– Você está chapado – disse ele.

– E daí? Não entendo você, cara. Com o é que pôde contar tudo para o seu pai?

– Não contei nada.

Adam havia planej ado tudo para aquela noite. Inclusive fora ao centro, até um a loj a de artigos de espionagem . Pensara em com prar um a escuta daquelas que costum ava ver na TV, m as o vendedor lhe dera um a caneta que gravava áudio e um a fivela de cinto que na verdade era um a câm era. Ele gravaria e film aria tudo e depois procuraria a polícia, m as não a local, porque o pai de DJ trabalhava lá. Sabia que estava correndo um risco, m as não tinha alternativa.

Não agüentava m ais.

Sabia disso, podia senti-lo, e sabia tam bém que, caso não fizesse algum a coisa para voltar à tona, acabaria com o Spencer. Por isso arquitetara aquele plano, que deveria ter sido posto em prática na véspera.

Mas então seu pai apareceu com aquela história do j ogo dos Rangers.

Adam sabia que não poderia ir a j ogo nenhum . Talvez pudesse adiar seu plano por alguns dias, m as, se não aparecesse lá naquela noite, Rosem ary, Carson e todos os outros poderiam suspeitar, pois sabiam que ele se encontrava em cim a do m uro. Já o haviam intim idado com a am eaça de chantagem . Por isso ele fugira: para ir ao Club Jaguar.

Mas tudo foi por água abaixo quando seu pai apareceu no Bronx.

Adam sentiu o corte no braço latej ar. Provavelm ente precisaria ir a um hospital e levar alguns pontos, sabia que estava correndo o risco de ter um a infecção. Tentara lim par a ferida, m as quase desm aiara de dor. Naquele m om ento, no entanto, o m ais im portante era concluir seu plano.

– Carson e os outros caras estão achando que você tentou nos pegar num a arm adilha – disse DJ.

– Mas não tentei – m entiu Adam .

– Seu pai tam bém apareceu na m inha casa.

– Quando?

– Sei lá. Mais ou m enos um a hora antes de aparecer no Bronx. Meu pai o viu no carro, do outro lado da rua.

Adam queria desvendar m ais esse m istério, m as não havia tem po.

– Precisam os acabar com isso, DJ.

– Eu falei com m eu pai. Ele está m exendo os pauzinhos dele. É da polícia. Sabe com o essas coisas funcionam .

– Spencer está m orto.

– A culpa não é nossa.

– É, sim , DJ.

– O cara era todo problem ático. Fez tudo sozinho.

– Nós o deixam os m orrer. – Adam olhou para a m ão direita e fechou os dedos em um punho, dando-se conta de que aquele havia sido o últim o contato de Spencer com outro ser hum ano. – Dei um soco na cara dele.

– E daí, cara? Se você quiser entrar nessa de se sentir culpado, problem a seu. Mas não pode ferrar todo m undo por causa disso.

– Não é um a questão de culpa. Eles tentaram m atar m eu pai. Eles tentaram m e m atar tam bém .

DJ balançou a cabeça e disse:

– Você não está entendendo, cara.

– Não estou entendendo o quê?

– Se nos entregarm os, estarem os perdidos. Provavelm ente vam os parar na cadeia. E aí, adeus universidade. Para quem você acha que o Carson e a Rosem ary venderam aquelas drogas, hein? Para o Exército da Salvação? Tem um a galera da Máfia envolvida nessa história, será que você não vê isso? O Carson está m orrendo de m edo.

Adam não disse nada.

– Meu pai disse que, se a gente ficar de bico calado, vai dar tudo certo.

– E você realm ente acredita nisso?

– Fui eu que levei você até aquele lugar, m as m inha culpa term ina aí. As receitas são do seu pai. A gente pode sim plesm ente falar que não quer m ais participar da parada.

– E se eles não deixarem ?

– Aí m eu pai pode botar pressão. Ele falou que dá para fazer isso. Ninguém vai querer arriscar um a confusão com a polícia.

Adam olhou para ele, esperando algo m ais.

– Essa decisão afeta todo m undo, cara – prosseguiu DJ. – Não é só com o seu futuro que você vai acabar. É com o m eu tam bém . E o do Clark. O da Olivia. Eles tam bém estão envolvidos.

– Já estou cansado desse argum ento – devolveu Adam .

– Mas é verdade, Adam . Talvez eles não estej am tão envolvidos quanto você e eu, m as tam bém vão se ferrar.

– Não.

– Não o quê?

Adam olhou novam ente para o am igo.

– Foi assim que você fez as coisas a vida inteira, DJ.

– Do que você está falando?

– Você faz as suas m erdas e depois seu pai vai lá te salvar.

– Que papo é esse agora, cara?

– Não podem os sim plesm ente sair dessa.

– Spencer se m atou. Não fizem os nada com ele.

Adam olhou para o vale da escola. O cam po de futebol estava vazio, a não ser por algum as pessoas que corriam em torno do gram ado. Olhando um pouco m ais para a esquerda, tentou localizar a parte do telhado onde Spencer fora encontrado, m as ela estava escondida pela torre principal do prédio. DJ se aproxim ou e ficou olhando tam bém .

– Meu pai costum ava subir aqui – disse. – Quando ainda estava no ginásio. Era da turm a dos valentões, sabe? Fum ava m aconha, bebia cervej a. Vivia m etido num a briga.

– E daí?

– E daí que naquela época os garotos sobreviviam às besteiras que aprontavam . Os adultos faziam vista grossa. Os garotos eram garotos, tinham de fazer aquilo m esm o. Meu pai roubou um carro quando tinha a nossa idade. Foi pego, m as propuseram um acordo. Hoj e ele é um dos caras m ais corretos que você pode im aginar. Mas se tivesse vivido nos dias atuais, estaria ferrado. É ridículo. Se você assobiar para um a garota na escola, pode ir parar na cadeia. Se topar com alguém no corredor, pode ser acusado de um a m erda qualquer. Basta um passo em falso, e pronto, j á era. Meu pai acha isso um absurdo. Com o é que vam os encontrar nosso cam inho desse j eito?

– Isso não quer dizer que podem os fazer o que bem entenderm os.

– Adam , pense bem . Daqui a alguns anos estarem os na universidade. Tudo isso vai ficar para trás. Não som os crim inosos. Não podem os deixar que isso acabe com a nossa vida.

– Acabou com a do Spencer.

– Não foi culpa nossa.

– Aqueles caras quase m ataram m eu pai. Ele foi parar num hospital.

– Eu sei. Tam bém ia ficar assim se fosse com m eu pai. Mas você não pode esquentar a cabeça, cara. Precisa se acalm ar, pensar direito. Falei com o Carson. Ele quer que a gente vá lá conversar com ele.

– Ah, está bem .

– Verdade!

– Ele é louco, DJ. Você sabe disso. Foi você m esm o quem disse. O cara acha que tentei arm ar para cim a dele.

Adam procurou organizar os pensam entos, m as estava m uito cansado. Sentia dores no braço, estava exausto e confuso. Em bora tivesse passado a noite em claro, refletindo, até então não tinha a m enor idéia do que fazer.

Ele deveria ter contado toda a verdade aos pais.

Mas não pôde. Ele havia m etido os pés pelas m ãos. Com eçara a ficar chapado com freqüência cada vez m aior e, depois de um tem po, passou a ver com o inim igas as únicas pessoas no m undo que o am avam incondicionalm ente, as únicas que o am ariam para sem pre, apesar de suas trapalhadas.

As m esm as pessoas que o haviam espionado.

Agora ele sabia disso. Ficara furioso ao ver que os pais não haviam confiado nele, m as depois, pensando m elhor, se deu conta de que não fizera nada para m erecer a confiança deles.

Portanto, depois dos acontecim entos da véspera, Adam entrou em pânico. Fugiu e se escondeu. Precisava de tem po para pensar.

– Tenho de falar com m eus pais – disse ele.

– Não acho que sej a um a boa idéia.

Adam olhou para DJ.

– Me em preste seu telefone – disse.

DJ fez que não com a cabeça. Adam deu um passo à frente e o am eaçou com um punho.

– Não m e obrigue a pegá-lo de você.

DJ estava com os olhos úm idos. Depois de erguer a m ão para conter o am igo, tirou o celular do bolso e o entregou a ele. Adam ligou para casa. Ninguém atendeu. Discou o núm ero do celular do pai. Ninguém atendeu. Depois tentou o da m ãe. Mesm a coisa. Só lhe restava um a coisa a fazer. Ele j á havia ligado para ela antes, conversado o bastante para convencê-la de que estava bem , para fazê-la j urar que não diria nada aos pais.

Adam ligou para o celular de Jill.

– Alô?

– Sou eu.

– Adam ? Volte para casa, por favor. Estou com tanto m edo.

– Você sabe onde o papai e a m am ãe estão?

– Mam ãe está vindo m e buscar na casa da Yasm in. O papai saiu para procurar você.

– Sabe para onde ele foi?

– Acho que foi para o Bronx, sei lá. Ouvi m am ãe dizer um a coisa assim . Um tal de Club Jaguar.

Adam fechou os olhos. Merda. Eles sabiam de tudo.

– Tenho que ir.

– Para onde?

– Vai ficar tudo bem . Não se preocupe. Quando a m am ãe chegar aí, diga que você teve notícias m inhas. Fale para ela que estou bem e que logo, logo vou chegar em casa. Peça para ela tentar falar com o papai e m andar ele ir para casa tam bém , o.k.?

– Adam ?

– Faça o que eu estou pedindo.

– Estou com m uito m edo.

– Não precisa, Jill. É só você fazer o que eu pedi, está bem ? Daqui a pouco eu chego em casa.

Ele desligou e olhou para DJ.

– Você está de carro?

– Estou.

– Precisam os correr.

♦♦♦

Nash viu o carro da polícia estacionar diante da casa.

Guy Novak saltou. Um policial à paisana fez m enção de saltar tam bém , m as Guy sinalizou que não era necessário. Passou o braço pela j anela, apertou a m ão do policial e, feito um zum bi, arrastou-se de volta para casa.

Nash sentiu o celular vibrar. Não precisava m ais olhar para saber quem estava cham ando. Só podia ser Joe Lewiston outra vez. Havia apenas alguns m inutos, Nash ouvira a m ensagem desesperada que Joe lhe deixara:

Meu Deus, Nash, o que está acontecendo? Eu não queria nada disso. Por favor não machuque mais ninguém, o.k.? Eu só queria… Achei que você pudesse simplesmente conversar com ela, pegar aquela fita, sei lá. E se você souber de alguma coisa sobre a outra mulher, por favor não faça nada contra ela, ouviu bem? Meu Deus…

Assim .

Guy Novak entrou em casa. Nash se aproxim ou. Três m inutos depois a porta se abriu novam ente. Um a m ulher saiu. A nam orada de Guy Novak. Ele a beij ou no rosto e fechou a porta. A m oça seguiu pelo quintal até a calçada. Chegando lá, virou-se para trás e balançou a cabeça. Talvez estivesse chorando, m as àquela distância era difícil saber.

Trinta segundos depois, ela tam bém sum iu.

Agora o tem po era curto. Nash havia com etido um erro. Eles conseguiram identificar Marianne, segundo os noticiários. O m arido havia sido interrogado pela polícia. As pessoas acham que a polícia é burra. Não é. Os hom ens da lei contam com toda espécie de vantagem . Nash tinha respeito por eles. Por isso se dera o trabalho de desfigurar a vítim a.

O instinto de sobrevivência m andava que ele fugisse, que se escondesse em algum buraco para depois sair do país. Mas sua intenção não era fazer nada disso. Ainda poderia aj udar o antigo cunhado, em bora Joe não quisesse ser aj udado. Ligaria para ele m ais tarde e tentaria convencê-lo a ficar de bico calado. Ou talvez Joe caísse na real por conta própria. Agora estava apavorado, m as fora ele m esm o quem havia procurado Nash pedindo aj uda. Talvez ele acabasse ouvindo a voz da razão.

A coceirinha estava lá. O louco pedia para sair. Ele sabia que havia crianças na casa. Não tinha nenhum a intenção de m achucá-las – ou isso não passaria de um a grande m entira? Às vezes era difícil saber. Os hum anos sobrevivem à base do auto-engano, e Nash, que era de carne e osso, às vezes tam bém se perm itia esse luxo.

Mas em term os puram ente práticos, ele não tinha tem po a perder. Precisava entrar em ação im ediatam ente. Isso significava que, com ou sem louco, as crianças poderiam acabar sofrendo as conseqüências.

Nash pegou o canivete que trazia no bolso.

Seguiu para a porta dos fundos e arrom bou a fechadura.