Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 15 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 15

15

A SSIM QUE ENTROU NA TOWER STREET, não m uito longe do local indicado pelo GPS, Mike com eçou a esquadrinhar a rua à procura de Adam , de um rosto ou de um carro conhecido.

Qual deles j á teria habilitação para dirigir? Olivia Burchell, talvez. Ela j á teria com pletado 17? Mike não tinha certeza. Decidiu checar m ais um a vez o GPS para ver se Adam ainda estava por

ali. Ele encostou o carro e ligou o laptop. Nenhum a rede wireless foi localizada.

A m ultidão que circulava pelas calçadas era de j ovens, quase todos vestidos de preto, com os rostos pálidos pintados de batom e rím el tam bém pretos. Usavam correntes e tinham estranhos piercings no rosto (e provavelm ente pelo resto do corpo), além das típicas tatuagens. Esta era a m elhor m aneira de chocar e dem onstrar independência: fazer exatam ente o que todos os am igos faziam . Ninguém se sente à vontade na própria pele. Os garotos pobres queriam aparentar riqueza, usando tênis caros, j óias, etc. Os ricos, por sua vez, queriam aparentar pobreza, vestindo-se com o rappers, quase pedindo desculpas pelos m odos gentis que eles consideravam “excessos dos pais”, os m esm os pais que sem dúvida eles tentariam im itar m uito em breve. Ou quem sabe o que se via ali não era tão dram ático assim ? Será que a gram a do vizinho é sem pre m ais verde m esm o? Mike não sabia dizer.

De qualquer m odo, sentia-se aliviado por Adam ter aderido som ente às roupas pretas. Até então, nada de piercings, tatuagens ou m aquiagem . Pelo m enos por enquanto.

Os em os (segundo Jill, eles j á não eram m ais cham ados de góticos, m as sua am iga Yasm in insistia que eram duas coisas com pletam ente diferentes, o que rendia m uita discussão) dom inavam aquele trecho em particular. Andavam de um lado para outro com um olhar vago, a boca entreaberta e um a postura indolente. Alguns faziam fila diante de um a casa noturna, outros se apinhavam num bar do outro lado da rua. Outra boate anunciava “strip 24 horas por dia” e Mike ficou se perguntando se aquilo podia ser verdade, se todos os dias, a qualquer hora, m esm o às duas da tarde, haveria ali um a dançarina tirando a roupa. E nas m anhãs de Natal? E no feriado da independência? E quem seriam as pessoas tristes que estariam ali, ou trabalhariam ali, àquela hora da noite?

Será que Adam estava entre elas?

Não era possível saber. Havia diversos lugares com o aquele pela rua. Seguranças enorm es, com aqueles fones de ouvido geralm ente associados aos agentes do Serviço Secreto, m ontavam guarda diante das portas. No passado, apenas algum as boates tinham porteiros daquele tam anho. Agora, ao que tudo indicava, todas tinham pelo m enos dois “arm ários” à porta, sem pre com a m esm a cam iseta preta e j usta, os m esm os bíceps inchados, a m esm a cabeça raspada (com o se cabelos fossem sinal de fraqueza).

Em tese, ninguém com m enos de 21 anos poderia entrar num lugar desses. Adam tinha 16. Mesm o com um a identidade falsa, era pouco provável que ele conseguisse entrar. Mas quem poderia saber? Talvez houvesse por ali algum estabelecim ento que fazia vista grossa para a idade m ínim a. Talvez isso explicasse por que Adam e seus am igos se despencavam para tão longe em busca de diversão. A boate Satin Dolls, que servira de inspiração para o Bada Bing! de Os sopranos, ficava a apenas alguns quilôm etros de casa, m as Adam j am ais conseguiria entrar ali.

Só podia ser isso.

Mike seguiu dirigindo pela rua com o laptop aberto no banco do passageiro. Parou num a esquina e clicou sobre LOCALIZAR REDES WIRELESS. Duas redes foram encontradas, m as am bas contavam com m ecanism os de segurança. Mike não poderia acessá-las. Andou m ais uns 100 m etros e tentou de novo. Da terceira vez, conseguiu. Um a rede Netgear estava disponível, sem nenhum a espécie de bloqueio. Mike rapidam ente clicou no botão CONECTAR e entrou na internet.

Abriu a página do GPS, digitou a senha (ADAM) e esperou.

O pontinho verm elho continuava no m esm o lugar do m apa. De acordo com os term os de serviço, o GPS trabalhava dentro de um raio de aproxim adam ente 12 m etros. Portanto, era difícil saber com precisão onde Adam se encontrava. Mas seguram ente estava por perto. Mike desligou o com putador.

Muito bem , e agora?

Ele encontrou um a vaga m ais adiante e estacionou. Com boa vontade, aquela área poderia ser descrita com o “decadente”. Havia m uito m ais j anelas lacradas com tapum es do que com os tradicionais vidros. As fachadas de tij olo aparente, quando não eram cobertas de m ofo, davam a im pressão de que estavam podres e poderiam ruir a qualquer m om ento. O ar era em pesteado com um cheiro forte de suor, m isturado a outro, difícil de definir. Todas as loj as haviam baixado as grades de m etal, grafitadas de cim a a baixo, para proteger as vitrines. Mike tinha a im pressão de que o próprio hálito lhe queim ava a garganta. Todo m undo parecia transpirar.

As m ulheres usavam blusas de alças e shorts curtíssim os, e Mike, m esm o correndo o risco de parecer antiquado ou politicam ente incorreto, ficou na dúvida se elas eram adolescentes querendo se divertir ou garotas vestidas para trabalhar.

Ele saiu do carro. Um a m ulher negra e m uito alta se aproxim ou e disse:

– E aí, tio, quer brincar um pouquinho com a Latisha?

A voz era grave. As m ãos eram enorm es. E Mike j á não tinha certeza se “m ulher” era a palavra certa.

– Não, obrigado – respondeu.

– Tem certeza? Você poderia am pliar um pouquinho seus horizontes.

– Não. Meus horizontes j á são am plos o suficiente.

Cartazes anunciando bandas das quais ninguém tinha ouvido falar, com nom es do tipo Papanicolaou e Pus de Gonorréia, recobriam quase todos os espaços livres. À porta de um prédio, um a m ãe carregava o filho encaixado no quadril, o rosto em papado de suor; um a lâm pada solitária balançava no hall atrás dela. Mike avistou um estacionam ento im provisado num a ruela deserta. Um a placa inform ava: PERNOITE, US$10. Um hom em de aspecto latinoam ericano, usando um a cam iseta regata e calças cortadas à altura dos j oelhos, contava dinheiro à entrada.

– O que você quer, m eu chapa? – perguntou assim que viu Mike.

– Nada.

Mike seguiu em frente. Logo encontrou o endereço indicado pelo GPS. Tratava-se de um prédio residencial, sem elevador, esprem ido entre duas boates barulhentas. O quadro de cam painhas à porta não m ostrava o nom e dos m oradores, som ente os núm eros dos apartam entos.

O que fazer então?

Mike não tinha a m enor idéia.

Poderia ficar ali, esperando pelo filho. Mas de que isso adiantaria? Ainda eram 22 horas. Os lugares apenas com eçavam a encher. Se Adam realm ente estivesse por ali, na farra, dem oraria horas para aparecer na rua outra vez. E aí? O que Mike faria? Pularia na frente de Adam e seus am igos, gritando: “Ahá, te peguei”? Isso aj udaria em algum a coisa? Além do m ais, com o ele explicaria sua presença ali?

O que ele e Tia esperavam de todo aquele circo, afinal?

Este era m ais um dos problem as com a espionagem . Vam os esquecer por um instante a questão da violação de privacidade. Havia ainda a dificuldade de colocar em prática qualquer tipo de punição. O que os pais poderiam fazer ao descobrirem algo suspeito? Não seria razoável supor que interferir, e por conseguinte perder a confiança do filho, causaria um estrago tão grande ou até m aior que um a noitada de farra j uvenil?

Depende.

Mike queria se certificar de que seu filho estava bem . Só isso. Ele se lem brava do que Tia dissera, que a m issão dos pais era escoltar os filhos com segurança até a vida adulta. Era verdade até certo ponto. A adolescência era um período recheado de angústias, turbinado por horm ônios, um vendaval de em oções ressentidas ao extrem o. E tudo passava tão rápido. Mas não se podia dizer isso a um adolescente. Se fosse possível fazer um adolescente ouvir um a única pérola de sabedoria dos pais, seria bastante sim ples: “Isto tam bém passará”, e depressa. Eles não ouviriam , claro, pois é j ustam ente aí que residem a graça e a desgraça da j uventude.

Mike se lem brou das m ensagens trocadas entre Adam e CeeJay 8115. Lem brou-se da reação de Tia e de sua própria intuição. Não era um hom em religioso, nem acreditava em poderes sobrenaturais ou coisa parecida, m as, tanto na vida pessoal quanto na profissional, preferia não contrariar os pressentim entos que costum ava descrever com o “algo no ar”. Às vezes as coisas sim plesm ente pareciam erradas, fosse um diagnóstico m édico ou o itinerário para um a longa viagem de carro. Algo no ar: um m ero estalo, um a quietude inusitada. Quando ignorava sua intuição, Mike o fazia de form a consciente, sabendo que poderia pagar um preço alto m ais adiante.

Naquele m om ento, um turbilhão parecia avisar que Adam corria sérios riscos.

Então, era preciso encontrá-lo.

Mas com o?

Mike não tinha a m enor idéia. Ele voltou pela m esm a rua. Diversas prostitutas o abordaram . Quase todas pareciam travestis. Um suj eito de terno, apresentando-se com o “representante” de um “plantel de gostosas”, disse que providenciaria a Mike o que ele desej asse: bastaria dar um a lista de atributos físicos e fantasias. Mike ouviu todo o pregão antes de recusar a oferta.

Durante todo o tem po ele esquadrinhava a rua. Algum as das garotas m ais j ovens olhavam torto ao se sentirem observadas. Olhando à sua volta, Mike se deu conta de que provavelm ente era uns 20 anos m ais velho do que qualquer outra pessoa naquela m ultidão. Notou que todas as boates faziam a clientela esperar pelo m enos alguns m inutos. Um a delas tinha um a ridícula corda de veludo, de m ais ou m enos um m etro de com prim ento, e o porteiro obrigava os que queriam entrar a esperar do outro lado dessa corda por uns 10 segundos antes de finalm ente abrir a porta.

Mike j á ia dobrando um a esquina quando algo cham ou sua atenção.

Um casaco esportivo. Desses que usam os atletas das equipes colegiais e universitárias.

Ele se virou rapidam ente e viu o filho de Daniel Huff cam inhando na direção contrária.

Ou pelo m enos parecia DJ Huff. O garoto nunca tirava aquele casaco. Talvez, m uito provavelm ente, fosse ele.

Não, pensou Mike. Com certeza, era ele. DJ Huff.

O garoto havia dobrado um a esquina. Sem hesitar, Mike apertou o passo e o seguiu. Quando o perdeu de vista, com eçou a correr.

– Ei! Vá com calm a, vovô!

Ele havia atropelado um garoto de cabeça raspada e um a corrente pendurada no lábio inferior. Os am igos do garoto se dobraram de rir do “vovô”. Mike sim plesm ente franziu as sobrancelhas e seguiu adiante. As calçadas transbordavam de gente, a m ultidão parecia crescer a cada passo. No quarteirão seguinte, os corvos góticos, ou em os, pareciam dar lugar a outra tribo: a dos latinos. Mike podia ouvi-los falando espanhol. Os rostos pálidos eram ultrapassados em núm ero por outros de tonalidades m ais m orenas. Os hom ens usavam cam isas sociais abertas sobre cam isetas brancas m uito j ustas. As m ulheres, tão sensuais quanto a salsa, cham avam seus hom ens de coños e usavam roupas tão transparentes que pareciam em brulhadas em papel celofane.

Mais adiante, DJ Huff dobrou outra esquina à direita. Parecia estar falando ao celular. Mike se apressou para alcançá-lo. Mas o que faria então? O m esm o problem a de sem pre. Talvez o m ais sensato fosse continuar seguindo o garoto para ver aonde ele iria. Mike não sabia ao certo o que estava acontecendo, m as não gostava nem um pouco daquela situação. O m edo j á com eçava a se insinuar.

Ele dobrou à direita.

E DJ Huff havia desaparecido.

Mike parou. Tentou estim ar a velocidade de DJ e quanto tem po tinha passado. Havia um a boate m ais ou m enos no centro do quarteirão. Era a única porta visível. DJ Huff só podia ter entrado ali. A fila diante da boate era a m ais longa que Mike tinha visto até então. Devia haver uns 100 garotos ali, um a m istura de em os, latinos, negros e até m esm o alguns representantes dos cham ados yuppies.

Huff não teria que esperar na fila?

Talvez não. Um segurança enorm e postava-se do outro lado de um a corda de veludo. Um a lim usine parou na rua e duas garotas de pernas longas saltaram . Um hom em , provavelm ente uns 30 centím etros m ais baixo que elas, ocupou seu lugar de direito entre as duas. O segurança abriu a corda e os deixou passar.

Mike correu até a entrada. O porteiro, um negro com bíceps tão largos quanto troncos de árvores, olhou para Mike com o se estivesse diante de um obj eto inanim ado. Um a cadeira. Um a lâm ina de barbear descartável.

– Eu preciso entrar – disse Mike.

– Nom e.

– Não estou em nenhum a lista.

O hom em o encarou novam ente.

– Acho que m eu filho está aí dentro. É m enor de idade.

O porteiro não disse nada.

– Vej a bem – disse Mike –, não quero criar problem as…

– Então vá para o fim da fila. Mas acho que nem assim vai conseguir entrar.

– É um a em ergência. O am igo dele, DJ Huff, entrou uns dois segundos atrás.

O hom em deu um passo à frente. Prim eiro o peitoral, tão largo que seria possível j ogar squash nele, depois o resto do corpo.

– Infelizm ente vou ter de pedir para você dar o fora j á.

– Meu filho é m enor de idade.

– Você j á disse.

– Se eu não tirá-lo daí, vocês poderão ter sérios problem as.

O segurança passou a m ão – tão grande que parecia um a luva de beisebol – na cabeça recém -raspada.

– Sérios problem as, é?

– Isso m esm o.

– Puxa vida, agora fiquei preocupado.

Mike pegou a carteira e tirou um a nota.

– Nem se dê o trabalho – disse o hom em . – Você não vai entrar.

– Mas você não está entendendo…

O segurança deu m ais um passo à frente. Seu peito agora estava quase encostando no rosto de Mike, que fechou os olhos, m as não recuou. Jogadores de hóquei j am ais recuam . Ele abriu os olhos e encarou o gigante.

– Saia da m inha frente – ordenou.

– Você vai dar o fora agora m esm o.

– Eu disse para sair da m inha frente!

– Não vou a lugar nenhum .

– Preciso encontrar m eu filho.

– Não tem nenhum m enor de idade aqui dentro.

– Eu quero entrar.

– Então vá para o fim da fila.

Mike em nenhum m om ento havia desviado o olhar. Am bos fincavam o pé onde estavam . Pareciam dois lutadores, m as de pesos diferentes, recebendo instruções no centro do ringue. Mike podia sentir a eletricidade no ar, um ligeiro form igam ento nos braços e nas pernas. Sabia lutar. Ninguém chegava tão longe no hóquei sem saber fazer bom uso dos punhos. Ficou se perguntando se o segurança era m esm o tão forte quanto parecia.

– Eu vou entrar – disse.

– Vai m esm o?

– Tenho am igos na polícia – blefou Mike. – Se tiver algum m enor aí dentro, vocês vão se ferrar.

– Estou m orrendo de m edo.

– Saia da m inha frente.

Mike deu um passo para a direita. O gigante bloqueou seu cam inho.

– Falta pouco para sairm os na porrada – disse o segurança. – Você sabe disso, não sabe?

Mike conhecia a regra principal para situações com o essa: j am ais dem onstrar m edo.

– Pois é, eu sei.

– Você é durão, hein?

– E aí, vai encarar?

O segurança sorriu. Tinha dentes perfeitos, pérolas brancas contrastando com a pele negra.

– Não. Sabe por quê? Porque m esm o que você sej a m ais valente do que eu im agino, o que é pouco provável, tenho Reggie e Ty rone aqui do m eu lado para aj udar. – Ele apontou para os outros dois gigantes vestidos de preto. – Não estam os aqui para provar que som os m achos batendo num im becil, então não precisam os j ogar lim po. Se você “encarar” – am eaçou o hom em , im itando Mike –, eles vão participar tam bém . E o Reggie tem um Taser, sacou?

O segurança cruzou os braços diante do peito e só então Mike viu a tatuagem .

Um grande D verde no antebraço.

– Com o você se cham a? – perguntou Mike.

– O quê?

– Seu nom e.

– Anthony .

– E o sobrenom e?

– Não é da sua conta.

Mike apontou para o braço de Anthony .

– Esse D aí, da tatuagem .

– Não tem nada a ver com m eu nom e.

– Dartm outh?

Anthony encarou Mike. E lentam ente fez que sim com a cabeça.

– Você tam bém ? – disse.

– Vox clamantis in deserto – disse Mike, recitando o lem a da universidade. Anthony se encarregou de traduzir:

– Um a voz clam ando no deserto. – Ele sorriu. – Nunca entendi isso direito.

– Nem eu – disse Mike. – Você j ogava bola?

– Rúgbi. Liga universitária. E você?

– Hóquei.

– Liga universitária tam bém ?

– Universitária e nacional – disse Mike.

Anthony arqueou as sobrancelhas, im pressionado.

– Você tem filhos, Anthony ?

– Um m enino de três anos.

– E se achasse que ele estava correndo perigo, três hom ens com o você, Reggie e Ty rone conseguiriam im pedi-lo de socorrer seu filho?

Anthony deu um longo suspiro.

– Por que você tem tanta certeza de que seu filho está lá dentro?

Mike contou sobre DJ Huff e o casaco esportivo.

– Aquele garoto? – Anthony balançou a cabeça. – Não entrou aqui. Você acha que eu ia deixar um pirralho daqueles passar? Ele foi por ali.

Anthony apontou para um beco a uns 10 m etros de distância.

– Sabe aonde vai dar?

– Sem saída, eu acho. Nunca entrei ali. Nunca precisei. É lá que fica a turm a do pico. Agora vou precisar de um favor seu.

Mike esperou.

– Está todo m undo olhando. Se eu deixar você ir, vou perder a m oral. E m oral por aqui é tudo.

– Entendo.

– Então vou fazer o seguinte: vou am eaçar lhe dar um soco e você sai correndo feito um a m ocinha assustada. Pode fugir para o tal beco se quiser. Entendeu?

– Posso perguntar um a coisa antes?

– Que foi?

Mike abriu a carteira.

– Já disse – protestou Anthony . – Não quero…

Mike lhe m ostrou um a foto de Adam .

– Já viu esse garoto por aqui?

Anthony engoliu em seco.

– É m eu filho. Você j á o viu por aqui?

– Ele não está lá dentro.

– Não foi isso que perguntei.

– Nunca o vi. E agora…

Anthony pegou Mike pela gola da cam isa e brandiu um punho diante dele.

– Não, por favor! – berrou Mike, dem onstrando pavor. – Tudo bem , tudo bem . Já estou indo. Calm a. Calm a.

Anthony o largou e Mike saiu correndo rua afora.

– É isso aí, bundão, pode correr! – Anthony berrou atrás dele. Alguns dos clientes na fila aplaudiram .

Mike entrou no tal beco e quase atropelou um a fileira de latões de lixo. Viu que estava pisando num tapete de cacos de vidro. Parou de correr, olhou adiante e avistou m ais um a prostituta. Ou pelo m enos achou que fosse um a. Ela se recostava contra um a caçam ba de lixo com o se fosse parte dela, com o se corresse o risco de cair e nunca m ais se levantar. Usava um a peruca roxa, m uito provavelm ente roubada do arm ário – ou da lata de lixo – de David Bowie lá pelos idos de 1974. Parecia infestada de piolhos.

A m ulher abriu um sorriso banguela para Mike.

– E aí, gato.

– Você viu um rapaz correndo por aqui?

– Muita gente passa correndo por aqui, bonitão.

Se falasse um pouquinho m ais depressa, talvez pudéssem os dizer que sua voz era arrastada. Ela era m agra e pálida, só faltava ter tatuado a palavra “viciada” na testa, o que seria um a redundância.

Mike procurou por um a saída. Não havia nenhum a. Sequer um a porta. Avistou diversas escadas de incêndio, m as todas pareciam bastante enferruj adas. Portanto, se DJ Huff tivesse m esm o entrado ali, por onde teria saído? Para onde teria ido? Talvez tivesse escapulido enquanto Mike discutia com Anthony . Ou talvez Anthony tivesse m entido para se livrar dele.

– Está procurando pelo frangote, é?

Mike parou e se virou para a m oça.

– O que estava com o casaco do colégio? – prosseguiu ela. – O garoto bonitinho e gostosinho, é? Hum m … Fico excitada só de falar.

Mike deu um passo hesitante na direção dela, quase tem endo que um passo ousado dem ais pudesse causar vibrações suficientes para reduzir a m oça a pó.

– Esse m esm o – falou.

– Bem , venha aqui, querido, vou lhe dizer onde ele está.

Ele deu outro passo.

– Mais perto, bonitão. Eu não m ordo. Só se você pedir.

Ela riu, um cacarej o m edonho, e um a das próteses dentárias caiu no chão quando ela abriu a boca. Apesar do chiclete, seu hálito rescendia a podridão dos dentes que ainda lhe restavam .

– Onde ele está? – perguntou Mike.

– E a grana?

– Você vai receber se m e disser onde ele está.

– Deixe eu ver o que você tem aí.

Mike não estava gostando nada daquilo, m as não sabia o que fazer, então sacou um a nota de 20 dólares. Ela estendeu a m ão esquelética. Vendo aqueles dedos com pridos e finos, Mike se lem brou dos quadrinhos que costum ava ler na j uventude, os Contos da cripta, nos quais sem pre havia um esqueleto saindo de um caixão.

– Prim eiro você m e diz – falou ele.

– O bonitão não confia em m im ?

Mike não tinha tem po a perder. Rasgou a nota em duas e entregou um a das m etades. Ela suspirou e recebeu o adiantam ento.

– A outra m etade, só quando você falar. Onde está o garoto?

– Ué, bonitão – ela disse. – Bem atrás de você.

Mike estava prestes a se virar quando alguém o golpeou na altura dos rins.

Um belo m urro nos rins é o bastante para tirar o fôlego de qualquer pessoa e paralisá-la m om entaneam ente. Mike sabia disso. Não foi paralisado, m as chegou m uito perto. A dor era lancinante. Ele abriu a boca, m as não conseguiu em itir nenhum som . Então caiu de j oelhos e novam ente foi golpeado, dessa vez na orelha. Sentiu um zunido na cabeça. Tentou se recuperar da pancada e raciocinar, m as um terceiro golpe, um chute, acertou-o logo abaixo das costelas. Ele caiu para trás.

Os instintos assum iram o com ando.

Era preciso sair dali.

Mike rolou no chão e sentiu algo pontiagudo cravar em seu braço. Um caco de vidro, provavelm ente. Tentou se arrastar para a rua, m as levou um golpe forte na cabeça. Quase pôde sentir o cérebro se deslocar para a esquerda. Alguém o segurou pelo tornozelo.

Mike chutou. Sentiu o calcanhar acertar algo m ole e cartilaginoso.

– Merda! – gritou um a voz.

Alguém se j ogou sobre ele. Mike j á havia sido subj ugado daquela form a diversas vezes, m as sem pre num rinque de hóquei. Por isso tinha aprendido algum as coisas. Por exem plo, que não era prudente partir para a agressão sem necessidade. Socos quebravam m ãos. A certa distância, talvez. Mas não quando se está atracado com alguém . Ele fez um ângulo com o braço e desferiu um a cotovelada às cegas. Mas foi com o antebraço que acertou algo. Ouviu um a espécie de estalo e sentiu sangue escorrer.

Então se deu conta de que tinha quebrado um nariz.

Mike desferiu outra cotovelada e tentou rolar o corpo sim ultaneam ente. Chutava freneticam ente. O beco estava escuro e os grunhidos da luta reverberavam no breu. Ele j ogava a cabeça para trás, tentando acertar seu agressor.

– Socorro! – berrou Mike. – Polícia!

De algum m odo conseguiu se levantar. Não viu rostos, m as percebeu que havia m ais de duas pessoas. Todos investiram contra ele ao m esm o tem po e Mike se esborrachou contra a caçam ba. Corpos, incluindo o dele, rolaram pelo chão. Mike se defendia com brio, m as não havia m uito o que fazer naquelas circunstâncias. Arranhou um rosto. E alguém rasgou sua cam isa.

Foi então que Mike viu um a lâm ina.

Ficou im óvel. Por um longo tem po, em bora não soubesse exatam ente quanto. Até que sentiu um baque surdo na lateral da cabeça e caiu para trás, batendo o crânio no pavim ento. Um dos agressores prendeu seus braços ao chão. Outro segurou suas pernas. Mike sentiu algo tom bar em seu peito, em seguida, os golpes vieram de todos os lados. Ele tentou se desvencilhar, fugir, m as as pernas e os braços não o obedeceram .

Aos poucos foi perdendo a consciência, entregando-se.

Os golpes cessaram . Mike sentiu o peso ceder em seu peito. Alguém havia se levantado, ou sido arrancado à força de cim a dele. As pernas j á estavam livres.

Ele abriu os olhos, m as só enxergou vultos. Um últim o chute o acertou direto num a das têm poras. O que veio depois foi a total escuridão e, por fim , nada.