Confie em Mim
Capítulo 38
38
C ARSON ESTAVA FURIOSO. Tinha sido j ogado para escanteio. Depois de tudo o que fizera
por ela, Rosem ary sim plesm ente o m andara sair da sala com o se ele fosse um a criança. Agora
estava lá, conversando com o coroa que o havia hum ilhado diante de seus am igos.
Ela sim plesm ente não entendia nada.
Ele a conhecia bem . Rosem ary sem pre usava a beleza e a lábia para se safar das encrencas em que se m etia. Mas isso não funcionaria ali. Ela tentaria encontrar um a m aneira de livrar a própria cara, só isso. Quanto m ais Carson pensava, m ais via que as coisas estavam ficando difíceis para ele. Se a polícia apertasse o cerco, seguram ente ela escolheria alguém com o bode expiatório. Carson era o candidato m ais provável.
Talvez fosse sobre isso que eles estivessem conversando naquele exato m om ento.
Tudo fazia sentido. Carson j á estava com 22 anos, idade m ais que suficiente para ser j ulgado e condenado com o adulto. Era ele quem os garotos m ais procuravam para fazer negócio. Rosem ary havia sido esperta o bastante para m anter as m ãos lim pas nesse aspecto. Tam bém era ele, Carson, quem fazia a interm ediação com os distribuidores.
Droga, ele deveria ter previsto que isso iria acontecer. Logo após a m orte do tal Spencer, eles deveriam ter ficado quietos por um tem po. Mas o m ontante de dinheiro havia sido enorm e e os distribuidores estavam botando pressão. O contato de Carson era um hom em cham ado Barry Watkins, que sem pre usava ternos Arm ani. Watkins o levava para clubes privês de altíssim o nível. Queim ava dinheiro com o se fosse papel. Conseguia m ulheres e respeito para Carson. Tratava-o bem .
Mas na véspera, ao constatar que Carson não tinha cum prido sua parte do acordo, ele havia falado num tom de voz diferente. Não chegara a gritar. Mas fora frio, as palavras calando na boca do estôm ago de Carson.
– Precisam os resolver isso logo – dissera ele.
– Acho que tem os um problem inha.
– O que foi?
– O filho do m édico pirou. O pai dele veio aqui hoj e.
Silêncio.
– Alô?
– Carson?
– Que foi?
– Meus superiores não perm itirão que eu sej a descoberto, está entendendo? Vão fazer o que for preciso para que as coisas não cheguem a este ponto.
Ele desligou. O recado estava dado.
Então Carson ficou esperando com a arm a.
Ouviu um barulho na porta da frente. Alguém estava tentando entrar. A porta estava trancada de am bos os lados. Era preciso conhecer o código do alarm e tanto para entrar com o para sair. Quem quer que fosse, agora estava esm urrando a porta. Carson espiou pela j anela.
Era Adam Bay e. Acom panhado de DJ Huff.
– Abra! – gritou Adam , esm urrando ainda m ais. – Ande, abra!
Carson se controlou para não sorrir. Pai e filho no m esm o lugar. A m aneira perfeita de dar fim àquela história.
– Estou indo! – disse Carson.
Prendendo a arm a às costas, na cintura da calça, ele digitou quatro núm eros e viu a luzinha passar de verm elha a verde. A porta se abriu.
Adam irrom peu no clube, seguido de DJ.
– Meu pai está aqui? – perguntou.
– Na sala da Rosem ary – respondeu Carson.
Adam se encam inhou para lá e DJ foi atrás.
Carson deixou a porta bater, trancando todo m undo ali dentro. Levou a m ão às costas e pegou a arm a.
♦♦♦
Anthony estava seguindo Adam Bay e.
Mantinha certa distância, não m uita, m as não sabia ao certo o que fazer. A princípio não conhecia o garoto, portanto não poderia sim plesm ente cham á-lo pelo nom e. Além disso, quem poderia dizer o que se passava pela cabeça de Adam naquele m om ento? Caso Anthony se apresentasse com o am igo de Mike, era bem possível que o garoto fugisse e sum isse novam ente.
Aj a com o quem não quer nada, pensou Anthony .
Adam agora berrava algo ao celular. A idéia até que não era m á. Anthony sacou o próprio aparelho e discou o núm ero de Mike.
Ele não atendeu.
Anthony decidiu então deixar um recado:
– Mike, estou vendo seu filho. Ele está indo na direção daquele clube que lhe falei. Estou na cola dele.
Anthony fechou o telefone e guardou-o no bolso. Adam tam bém j á havia guardado o seu e agora apertava o passo. Anthony fez o m esm o. Chegando ao clube, Adam subiu a escada saltando os degraus e tentou abrir a porta.
Trancada.
Anthony viu quando ele exam inou a caixinha do alarm e. Adam virou-se para o am igo e, constatando que ele tam bém não sabia o código, com eçou a esm urrar a porta.
– Abra!
O tom de voz, pensou Anthony . Havia algo m ais do que sim ples im paciência – havia m edo. Na verdade, desespero. Anthony se aproxim ou.
– Ande, abra!
O garoto continuou esm urrando. Segundos depois, um dos góticos abriu a porta. Anthony j á o conhecia de vista. Era m ais velho que os outros, o líder daqueles idiotas. Tinha um curativo no nariz, que provavelm ente havia sido quebrado. Anthony ficou se perguntando se ele seria um dos garotos que haviam atacado Mike na véspera. Era bem provável.
O que ele deveria fazer?
Evitar que Adam entrasse naquele lugar? Isso talvez funcionasse ou talvez produzisse j ustam ente o efeito contrário, fazendo com que o garoto fugisse assustado. Anthony poderia subj ugá-lo de algum a form a, m as se isso resultasse num a com oção pública, de que adiantaria?
Anthony se esgueirou na direção da porta.
Adam entrou apressadam ente e desapareceu no interior do clube, dando a im pressão de que havia sido engolido pelo prédio. O am igo, o do casaco esportivo, entrou em seguida, m as não com a m esm a urgência. De onde estava, Anthony pôde ver que o gótico havia deixado a porta bater. Ela j á ia se fechando quando o garoto se virou de costas.
E Anthony viu.
A coronha de um a arm a presa nas calças dele. O gótico parecia prestes a sacá-la.
♦♦♦
Mo esperava no carro, tentando decifrar o que significavam aqueles m alditos núm eros.
CeeJay 8115.
Com eçou com o óbvio. Cee, ou C, era a terceira letra, o que lhe dava um 3. Jay, ou J, era a décim a, o que lhe dava um 10. Resultado: 3108115. Ele som ou os núm eros, tentou dividi-los, procurou algum padrão. Exam inou o apelido que Adam usava no program a de m ensagens instantâneas: Hockey Adam 1117. Mike dissera que o 11 era o núm ero da cam isa de Mark Messier, e o 17, o da cam isa dele, Mike, na equipe de Dartm outh. Mesm o assim , Mo decidiu som á-los a 8115 e, em seguida, a 3108115. Transform ou Hockey Adam em núm eros, elaborou algum as equações, tentou resolver o problem a.
Nada.
Ele sabia que núm eros nunca eram aleatórios. Mesm o os de Adam , em bora não revelassem nada de útil, tinham um significado. Com toda certeza havia um padrão qualquer ali. Mo estava determ inado a descobri-lo.
Ele vinha fazendo os cálculos m entalm ente, m as a certa altura abriu o porta-luvas e pegou um bloco. Anotava diversas possibilidades num éricas quando ouviu um a voz conhecida gritar:
– Abra!
Ele olhou através do pára-brisa.
Adam esm urrava a porta do Club Jaguar.
– Ande, abra!
Mo, j á pronto para descer do carro, viu a porta do clube se abrir e Adam entrar rapidam ente. Perguntou-se o que fazer. Antes de encontrar um a resposta, viu algo ainda m ais estranho.
Era Anthony , o segurança negro com quem Mike havia conversado m ais cedo naquele m esm o dia. Agora ele corria em disparada rum o à porta do clube. Mo saiu do carro e correu na m esm a direção. Anthony chegou prim eiro: girou a m açaneta, m as a porta sequer balançou.
– O que está havendo? – perguntou Mo.
– Precisam os entrar – disse Anthony .
Mo tateou a porta.
– É de aço reforçado – concluiu. – Não dá para arrom bar.
– Mas tem os de tentar.
– Por quê? O que houve?
– O cara que abriu a porta para o Adam – disse Anthony . – Ele estava sacando um a arm a.
♦♦♦
Carson abriu a porta, a arm a escondida às costas.
– Meu pai está aqui? – perguntou Adam .
– Na sala da Rosem ary .
Adam passou por Carson e entrou ainda a tem po de ouvir um a repentina agitação no fundo do corredor.
– Adam ?
A voz era de Mike Bay e.
– Pai?
Bay e apareceu no saguão de entrada segundos depois da chegada de Adam . Pai e filho se abraçaram perto do corredor.
Ah, que fofo, pensou Carson.
E ergueu a arm a à sua frente.
Não gritou nada. Não os advertiu. Não havia m otivo para nada disso. Ele não tinha outra escolha. Não havia tem po para negociações. Ele precisava dar fim àquela situação.
Precisava m atá-los.
– Não, Carson! – gritou Rosem ary .
Nem m orto ele daria ouvidos àquela vadia. Carson m antinha a arm a apontada para Adam , colocou-o na m ira e preparou-se para atirar.
♦♦♦
Mesm o abraçando o filho, m esm o com a m aravilhosa sensação de ter aquele corpo j unto ao dele e por pouco não desfalecendo de alívio por ele estar bem , Mike pôde ver pelo canto do olho.
Carson tinha um a arm a.
Não havia tem po para pensar no que fazer. Mike não agiu conscientem ente, m as por um im pulso bem m ais básico e prim itivo. Ele viu a arm a e reagiu.
Em purrou Adam .
Mike o em purrou o m ais forte que pôde. Adam saiu do chão e voou para longe, os olhos arregalados de susto. A arm a disparou, estilhaçando a vidraça logo atrás de Mike, próxim o ao local que Adam havia ocupado m enos de um segundo antes. Mike viu-se em m eio a um a chuva de cacos de vidro.
Mas Adam não foi o único a se assustar com o em purrão. Carson esperava que eles perm anecessem im óveis ou no m ínim o com as m ãos para o alto, que é com o reage a m aioria das pessoas sob a m ira de um revólver.
Recobrando-se rapidam ente, ele virou a arm a para a direita, na direção de onde Adam havia caído. Mas Mike tivera um m otivo para em purrar o filho com tanta força. Em bora tivesse agido por instinto, seu gesto tinha algum a lógica. Mike precisava tirar o filho da linha de tiro e, ao m esm o tem po, afastá-lo o m áxim o possível do risco. Por isso o havia lançado tão longe.
Adam deslizara um pouco pelo corredor e agora estava protegido por um a pilastra.
Carson m irou, m as de onde estava não tinha o ângulo necessário para acertar Adam . Então só lhe restava um a alternativa: atirar no pai prim eiro.
Mike viu-se tom ado de um a estranha sensação de paz. Sabia o que precisava ser feito. Não havia escolha. Tinha de proteger seu filho. Vendo Carson girar a arm a na sua direção, im ediatam ente soube o que isso significava.
Ele teria de fazer um sacrifício.
Não precisara refletir para chegar a essa conclusão. Pais salvam os filhos e ponto final. Era assim que tinha de ser. Carson teria a chance de atirar num deles. Isso era inevitável. Então Mike fez a única coisa que poderia fazer.
Garantiu que a vítim a fosse ele.
Ainda agindo por instinto, arrem eteu contra Carson.
Lem brou-se das partidas de hóquei, das disparadas que costum ava dar atrás do disco. Era possível que, m esm o levando um tiro, ele conseguisse evitar que Carson causasse um estrago m aior.
Ele salvaria seu filho.
Mas, ao se aproxim ar, deu-se conta de que a vontade era um a coisa e a realidade, outra bem diferente. A distância entre eles era grande dem ais. Carson j á tinha em punhado a arm a. Mike não teria tem po de alcançá-lo antes de levar pelo m enos um tiro, talvez dois. Dificilm ente conseguiria sobreviver e fazer algo de útil.
Por outro lado, não tinha outra escolha. Então fechou os olhos, baixou a cabeça e prosseguiu na investida.
♦♦♦
Em bora eles ainda estivessem a uns cinco m etros de distância, Carson não teria com o errar: bastava deixá-lo se aproxim ar m ais um pouco.
Baixando a arm a alguns centím etros, sem pre m irando na cabeça de Mike, ele viu seu alvo ficar cada vez m aior.
♦♦♦
Anthony bateu com o om bro na porta, m as ela sequer trem eu.
Mo disse:
– Todos aqueles cálculos com plicados e… será?
– O que você está resm ungando aí? – perguntou Anthony .
– Oito, um , um , cinco.
– Com o é que é?
Não havia tem po para explicações. Mo digitou 8115 na caixinha do alarm e. A luzinha verm elha ficou verde, sinalizando que a porta estava destravada.
Anthony abriu-a e os dois hom ens irrom peram no clube.
♦♦♦
Mike estava na m ira.
Carson apontava a arm a para a cabeça que investia contra ele. Ficou surpreso com sua própria calm a. Achou que fosse entrar em pânico, m as sua m ão estava firm e. Sentira um enorm e prazer com aquele prim eiro tiro. O segundo seria ainda m elhor. Ele j á estava no clim a. Não tinha com o errar. Im possível.
Carson pressionou levem ente o gatilho.
E de repente se viu desarm ado.
Um a gigantesca m ão surgira de trás e tom ara a arm a dele. Assim . De um segundo a outro. Virando o rosto, Carson deparou com o segurança da boate vizinha. O hom em sorria, segurando o revólver.
Mas Carson nem teve tem po para digerir a surpresa. Foi atingido por algo m uito poderoso, outro hom em , na altura da lom bar. Sentiu a dor irradiar no corpo inteiro. Deu um berro e, im pelido para frente, chocou-se com o om bro de Mike, que vinha correndo na direção oposta. Por pouco não se partiu ao m eio com o im pacto. Esborrachou-se no chão com o se tivesse despencado de um a grande altura. Mal conseguia respirar. Tinha a im pressão de que as costelas haviam afundado no tronco.
Parado ao lado dele, Mike disse:
– Acabou. – E, dirigindo-se a Rosem ary, acrescentou: – E sem qualquer possibilidade de acordo.