Confie em Mim
Capítulo 4
4
A SSIM QUE MO DOBROU A ESQUINA, Mike avistou Susan Lorim an, sua vizinha, no j ardim
da casa dela. Ela fingia estar ocupada com algum a coisa, plantando ou lim pando um canteiro, m as Mike não se deixou enganar. Eles estacionaram diante da garagem dos Bay e. Mo olhou para
a m ulher de quatro no chão.
– Uau, que bunda.
– O m arido tam bém deve achar.
Susan Lorim an ficou de pé. Mo a observou.
– É, m as o m arido dela é um babaca.
– De onde você tirou isso?
– Aqueles carros – respondeu Mo, apontando com o queixo.
Na garagem da vizinha destacava-se a peça de resistência do m arido: um Corvette verm elho turbinado. O outro carro era um a BMW 550i, ao passo que Susan dirigia um a m inivan Dodge Caravan grafite.
– Qual o problem a com os carros?
– São dele?
– São.
– Tenho um a am iga – disse Mo. – A m ulher m ais gostosa que você pode im aginar. Hispânica ou latina, um a coisa assim . Fazia luta livre com o pseudônim o de Pocahontas, você deve lem brar, quando eles m ostravam aquelas gostosas no Canal 11 de m anhã.
– Lem bro.
– Então. Pocahontas m e contou um a coisa que costum a fazer. Sem pre que um cara num a m áquina dessas pára do lado dela, faz o m otor rugir e dá aquela olhada, sabe o que ela diz?
Mike fez que não com a cabeça.
– “Sinto m uito pelo pau pequeno.”
Mike não pôde deixar de rir.
– “Sinto m uito pelo pau pequeno.” Só isso. Não é ótim o?
– É – adm itiu Mike. – Muito bom .
– Depois dessa, o que o cara pode dizer?
– Nada, não é?
– Então. Esse seu vizinho. O m arido, certo? Tem duas m áquinas. O que você acha que isso quer dizer?
Susan Lorim an olhou para eles. Mike sem pre a achara m uito atraente, a coroa gostosa do bairro, com o os adolescentes diziam , em bora achasse a expressão grosseira. Nunca pensara em ter nada com ela, m as não estava m orto e era im possível não notá-la. Susan tinha cabelos com pridos, tão pretos que pareciam azuis, e, no verão, costum ava prendê-los num rabo-de-cavalo, usava shortinhos bem curtos, óculos escuros elegantes e um sorriso ligeiram ente m alicioso nos lábios verm elhos.
Quando seus filhos eram pequenos, Mike costum ava encontrá-la no parquinho da avenida Maple. Gostava de olhar para ela, m as isso não significava nada. Conhecia um hom em que havia escolhido o filho de Susan Lorim an para fazer parte de um tim e infantil de beisebol com o único intuito de vê-la nos j ogos.
Nesse dia ela estava sem óculos e seu sorriso era forçado.
– Parece triste – disse Mo.
– É. Olhe, espere aqui um segundinho, o.k.?
Mo estava prestes a fazer um com entário m aldoso qualquer quando percebeu algo na expressão da m ulher.
– Claro.
Mike se aproxim ou. Susan visivelm ente fazia um esforço para m anter o sorriso, m as ele j á estava desaparecendo.
– Oi.
– Olá, Mike.
Ele sabia por que ela estava ali, fingindo cuidar do j ardim . Não a fez esperar.
– O resultado da tipagem de tecidos do Lucas só ficará pronto am anhã de m anhã.
Ela engoliu em seco e fez que sim com a cabeça, um tanto rápido dem ais.
– Tudo bem .
A vontade de Mike era esticar o braço e tocá-la. Se estivessem em um consultório, talvez o fizesse. Os m édicos têm esse hábito. Mas ali, naquele j ardim , isso seria estranho. Em vez disso, optou por um a frase feita.
– A Dra. Goldfarb e eu farem os tudo o que estiver ao nosso alcance.
– Eu sei, Mike.
Lucas, o filho de Susan, estava com 10 anos e tinha glom erulosclerose segm entar e focal, ou GESF, e precisava desesperadam ente de um transplante de rim . Em bora fosse um dos m ais conceituados cirurgiões na área de transplantes no país, Mike havia encam inhado o caso de Lucas para sua colega de consultório, Ilene Goldfarb, chefe do setor de transplantes do NewYork-Presby terian Hospital e a m elhor cirurgiã que ele conhecia.
Ele e Ilene lidavam com pessoas com o Susan diariam ente. Apesar da ladainha de praxe sobre a necessidade de separar as coisas, Mike ainda tinha grande dificuldade para digerir a m orte de um paciente. Ficava rem oendo o assunto durante a noite. Buscando culpas. Puto da vida. A m orte nunca era bem -vinda ou bem aceita. Mike a via com o sua grande inim iga, um constante desacato, e j am ais perm itiria que a filha-da-puta fincasse as garras em Lucas.
O caso de Lucas Lorim an, claro, era superpessoal. E esse fora o principal m otivo para Mike tê-lo passado para a Dra. Goldfarb. Ele conhecia o m enino. Lucas era um tipinho nerd, doce dem ais para seu próprio bem , sem pre com os óculos escorregando pelo nariz e cabelos desgrenhados que só baixavam a m uito custo. Adorava esportes, m as era péssim o em qualquer um deles. Quando Mike treinava com Adam diante da garagem , Lucas costum ava se aproxim ar de m ansinho para assistir. Mike poderia lhe oferecer um taco, m as o garoto j am ais aceitaria. Sabia desde pequeno que não tinha a m enor vocação para ser atleta, então, preferia fazer a narração: “O Dr. Bay e está de posse do disco, faz um a finta para a esquerda, m ira no espaço entre as pernas do goleiro e… brilhante defesa de Adam Bay e!”
Mike lem brou-se disso, do sim pático m enino em purrando os óculos para cim a com o indicador, e novam ente pensou: “Não vou deixar esse garoto m orrer.”
– Você tem dorm ido? – perguntou ele.
Susan Lorim an encolheu os om bros.
– Quer que eu receite algum a coisa?
– Dante não acredita em nada disso.
Dante Lorim an era o m arido. Mike não quisera adm itir, m as o diagnóstico de Mo havia sido perfeito: ele era m esm o um babaca. Por fora até que era sim pático, m as o j eito de olhar não deixava dúvida quanto ao que se passava por dentro. Corriam boatos de que tinha vínculos com a Máfia, m uito provavelm ente inspirados só na aparência: os cabelos engom ados para trás, as cam isetas j ustas, o excesso de perfum e, as j óias espalhafatosas. Tia adorava tirar um sarro dele: “Até que é bom variar um pouco desse m onte de m auricinhos.” No entanto, Mike sem pre ficava com a im pressão de que havia algo errado com ele, talvez a atitude m achista de querer dem onstrar ser algo que no fundo sabia que não era.
– Quer que eu fale com ele? – perguntou Mike.
Susan fez que não com a cabeça.
– Vocês são clientes da Drug Aid na Maple, não são?
– Som os.
– Vou autorizar um a receita por telefone. Você pode buscar o m edicam ento depois, se quiser.
– Obrigada, Mike.
– Nos vem os am anhã de m anhã.
Mike voltou para o carro. Mo o esperava com os braços cruzados no peito. Colocara os óculos escuros e estava se achando o m áxim o.
– Ela é sua paciente? – quis saber.
Mike passou direto por ele. Jam ais falava sobre os pacientes. Mo sabia disso.
Então parou um segundo diante de sua própria casa, olhou para ela e se perguntou por que as casas pareciam tão frágeis quanto as pessoas que ele atendia. Tanto para a esquerda quanto para a direita, a rua estava cheia delas, praticam ente idênticas, povoadas por casais que haviam m igrado sabe-se lá de onde, olhado para aquela estrutura à sua frente e pensado: “É aqui que vam os viver nossa vida, criar nossos filhos, proteger nossos sonhos. Bem aqui. Nesta bolha de sabão.”
Ele abriu a porta.
– Alguém em casa?
– Pai! Tio Mo!
Era Jill, sua princesinha, correndo para ele com um grande sorriso no rosto. Mike, com o todos os pais, im ediatam ente sentiu o coração se aquecer. Quando um a filha sorri assim , o pai, não im porta qual sej a sua posição no m undo, sente-se um rei.
– Oi, m eu am or.
Jill abraçou Mike e depois Mo, passando suavem ente de um para outro. Movia-se com a fluidez de um político em busca de votos num a m ultidão. Atrás dela, encolhida num canto, encontrava-se sua am iga Yasm in.
– Olá, Yasm in – cum prim entou Mike.
Os cabelos da m enina cobriam seu rosto com o um véu. A voz não passava de um sussurro.
– Olá, Dr. Bay e.
– Vocês têm balé hoj e, não têm ?
Jill desferiu um olhar de advertência na direção do pai, de um j eito quase inadm issível para um a criança de 11 anos.
– Paaaai… – ela sussurrou.
Então ele lem brou. Yasm in havia abandonado o balé. Na verdade, abandonara todas as atividades extracurriculares por conta de um incidente na escola alguns m eses antes. Um professor delas, o Sr. Lewiston, um cara legal que de vez em quando recorria a palhaçadas para m anter o interesse da turm a, fizera um a brincadeira de m au gosto, dizendo que Yasm in tinha pêlos no rosto. Mike não sabia dos detalhes. O professor se desculpou im ediatam ente, m as o estrago pré-adolescente j á havia sido feito. Os colegas passaram a cham ar Yasm in de “XY”, com o no crom ossom o, ou sim plesm ente de “Y”, que tam bém era a inicial do nom e dela, m as sobretudo outra m aneira de im plicar com a m enina.
As crianças, com o todo m undo sabe, podem ser bastante cruéis.
Jill perm anecera ao lado da am iga, redobrando os esforços para reintegrá-la na turm a, o que havia deixado Mike e Tia m uito orgulhosos da filha. Apesar da desistência de Yasm in, Jill ainda adorava as aulas de balé. Aliás, adorava tudo o que fazia: dedicava-se a cada um a de suas atividades com tam anha energia e entusiasm o que todos a seu redor invariavelm ente acabavam m otivados tam bém . Natureza versus cultura, a eterna controvérsia: dois filhos, Adam e Jill, criados pelos m esm os pais, m as com personalidades com pletam ente diferentes.
A natureza sem pre levava a m elhor.
Jill puxou Yasm in pela m ão.
– Venha com igo – disse. – Até m ais, pai. Tchau, tio Mo.
– Tchau, linda! – disse Mo.
– Aonde vocês vão? – quis saber Mike.
– Mam ãe nos m andou sair. Vam os dar um a volta de bicicleta.
– Não se esqueçam dos capacetes, hein?
Jill revirou os olhos, m as de um j eito bem -hum orado.
Dali a pouco, Tia saiu da cozinha e arqueou as sobrancelhas ao ver Mo.
– O que ele está fazendo aqui?
– Soube que vocês estão espionando seu filho – respondeu o próprio Mo. – Muito bom .
Tia fulm inou o m arido com o olhar. Mike sim plesm ente deu de om bros. Tratava-se, afinal, daquele eterno j oguinho entre Mo e Tia: apesar das incessantes provocações, um faria tudo o que fosse preciso pelo outro.
– Na verdade, achei a idéia ótim a – disse Mo.
Mike e Tia olharam para ele surpresos.
– Que foi? Tem algum a coisa na m inha cara?
– Achei que você tivesse dito que o estávam os superprotegendo.
– Não. Falei que Tia é superprotetora.
Tia m ais um a vez lançou aquele olhar fulm inante para o m arido. Subitam ente Mike se deu conta de onde Jill tinha aprendido a silenciá-lo com o olhar. Jill era a pupila, e Tia, a m estra.
– Mas, nesse caso – prosseguiu Mo –, por m ais que m e custe dizer isso, acho que ela agiu certo. Vocês são os pais. Precisam saber de tudo.
– Você não acha que ele tem direito a privacidade?
– Direito? – Mo franziu as sobrancelhas. – Adam não passa de um m oleque burro. Todos os pais espionam os filhos de um j eito ou de outro, certo? É isso que devem fazer. Vocês não olham o boletim deles? Não conversam com os professores para saber o que têm feito na escola? Não decidem o que eles com em , onde eles m oram e tudo m ais? Então? Vocês só estão dando um passo adiante.
Tia balançava a cabeça, concordando.
– Sua função é criar seus filhos, não m im á-los. São vocês que decidem o grau de independência que darão a eles. Vocês estão no controle e sabem disso. Um a fam ília não é um a dem ocracia. Vocês não precisam controlar todos os m ínim os detalhes, m as têm de interferir sem pre que acharem necessário. Inform ação é poder. Os governos abusam da inform ação porque nunca estão pensando no bem das pessoas. Mas vocês querem o m elhor para Adam . Além disso, são inteligentes. Então, qual é o problem a?
Mike sim plesm ente olhou para ele.
– Mo? – disse Tia.
– Que foi?
– Será que estam os tendo um m om ento de ternura?
– Pelo am or de Deus, espero que não. – Mo se acom odou num dos bancos da cozinha. – Então, o que vocês j á descobriram ?
– Não m e leve a m al – disse Tia –, m as acho que j á está na hora de você ir em bora.
– O garoto é m eu afilhado. Tam bém só quero o bem dele.
– Adam não é seu afilhado. E com o você m esm o acabou de dizer, ninguém tem m ais interesse em proteger os filhos que os próprios pais. E, por m aior que sej a o seu carinho por ele, você nem é o padrinho.
Mo se lim itou a olhar para Tia.
– Que foi? – perguntou ela.
– Detesto quando você tem razão.
– Com o você acha que estou m e sentindo? – disse Tia. – Eu tinha certeza de que espionar Adam era a coisa certa a fazer, pelo m enos até você concordar.
Mike observava a cena. Tia a todo instante m ordia o lábio inferior, o que só fazia quando estava realm ente preocupada, quase em pânico. Mike sabia que aquelas brincadeiras não passavam de encenação.
– Mo – disse ele.
– O.k., o.k., j á entendi. Estou indo. Só um a coisa.
– O quê?
– Posso dar um a olhada no seu celular?
– Por quê? – perguntou Mike, desconfiado. – O seu não está funcionando?
– Só quero dar um a olhada, o.k.?
Mike deu de om bros e passou o celular para o am igo.
– Qual é a sua operadora?
Mike respondeu.
– E vocês todos têm o m esm o tipo de telefone, inclusive o Adam ?
– Sim .
Mo ficou encarando o celular de Mike durante um tem po. Mike olhou para Tia. Ela encolheu os om bros. Por fim , Mo devolveu o aparelho.
– Que história foi essa agora? – perguntou Mike.
– Outra hora eu conto – disse Mo. – Por enquanto, fiquem de olho nesse garoto.