Confie em Mim

Harlan Coben · Capítulo 26 de 42

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Confie em Mim

Capítulo 26

26

D EPOIS DE SE DESPEDIR DE BETSY HILL, Tia foi ao segundo andar, passou direto pelo

quarto de Jill e entrou no de Adam . Abriu a gaveta da escrivaninha e com eçou a vasculhá-la. Instalar aquele program a de espionagem tinha lhe parecido a coisa certa a fazer. Então, por que

tantas dúvidas agora? Tia viu-se tom ada por um a súbita crise de consciência. Tudo lhe parecia

errado, toda aquela invasão.

O que não a im pediu de continuar vasculhando.

Adam era um garoto. Ainda. A tal gaveta nunca havia sido arrum ada e, com o num sítio arqueológico, abrigava resquícios de todas as “eras” de Adam : figurinhas de beisebol, de Pokém on, de Yu-Gi-Oh!; vários bonequinhos da série Crazy Bones; um Tam agochi há m uito tem po sem bateria – enfim , toda aquela tralha que os garotos suplicavam para ter e deixavam de lado um a sem ana depois. Adam , até certo ponto, contrariava a regra: não chegava a ser inconveniente ao pedir este ou aquele brinquedinho da m oda e tam pouco os descartava em tem po recorde.

Tia se espantou que tudo aquilo ainda estivesse ali.

Tam bém havia um a m iríade de lápis e canetas, o surrado estoj o do aparelho ortodôntico do qual ele tanto reclam ava, alfinetes e bottons colecionados num a viagem à Disney quatro anos antes, canhotos de ingressos de um a dezena de j ogos dos Rangers. Pegando os canhotos, Tia se lem brou da m istura de alegria e concentração que Adam estam pava no rosto ao assistir aos j ogos de hóquei, de com o ele e o pai com em oravam quando os Rangers pontuavam : batiam as m ãos espalm adas no alto e cantavam um a m usiquinha ridícula que eles tinham inventado, um reles “oh, oh, oh” acom panhado de palm as.

Tia com eçou a chorar.

Controle-se, pensou.

Então deixou a gaveta e passou ao com putador. Este era o m undo de Adam agora. O quarto de um adolescente praticam ente se resum ia a isto: um com putador. Era ali que Adam passava tantas horas j ogando on-line a últim a versão do Halo ou conversando com am igos reais e virtuais pelo Facebook ou pelo My Space. Durante um tem po j ogou um pouquinho de pôquer, m as logo se cansou, para alívio de Mike e Tia. Na pasta de downloads havia coisas engraçadas tiradas do YouTube, trailers de film e, clipes de m úsica e, claro, fotos e vídeos m ais apim entados. Havia tam bém outros j ogos de aventura e aqueles sim uladores de realidade que os j ovens – para o bem ou para o m al, difícil saber – usavam para escapar de suas próprias vidas, o que não era m uito diferente do que Tia buscava nos livros.

Quanto ao sexo, Tia m uitas vezes se atrapalhava, sem saber com o agir. Queria fazer a coisa certa e controlar o fluxo de inform ações que chegava aos filhos, m as isso era im possível. Bastava ligar o rádio de m anhã para ouvir um m arm anj o qualquer do esporte falando de peitos, infidelidade e orgasm os. Bastava abrir um a revista ou ligar a televisão para… bem , reclam ar do conteúdo da m ídia j á era coisa do passado. Então, o que os pais podiam ou deviam fazer? Dizer aos filhos que aquilo tudo era errado? E o que exatam ente era errado?

Talvez por isso as pessoas recorressem a atitudes radicais com o a abstinência, o que não dá certo. Além do m ais, você não quer passar a seus filhos a idéia de que sexo é um a coisa ruim ou errada, ou ainda tratar o assunto com o tabu. Por outro lado, nenhum pai quer que seus filhos façam sexo antes da hora. Portanto, a questão é: com o dizer a eles que sexo é um a coisa boa e saudável, m as que não devem praticá-lo? Com o encontrar esse equilíbrio? É estranho, m as todos querem os que nossos filhos concordem com nossos pontos de vista, com o se eles fossem m elhores e m ais saudáveis que os dos nossos próprios pais. Mas por que seriam ? Porque fom os criados da m aneira certa ou porque descobrim os por nós m esm os? E nossos filhos, poderão fazer suas próprias descobertas?

– Mãe?

Jill surgira à porta e agora olhava para Tia com um a expressão estranha, talvez surpresa por vê-la no quarto de Adam . Seguiu-se um breve instante de constrangim ento, não m ais que um segundo, m as o suficiente para que Tia sentisse um aperto no peito.

– Oi, m eu am or.

Jill segurava o BlackBerry de Tia.

– Posso j ogar BrickBreaker?

Ela adorava os j oguinhos do BlackBerry da m ãe. Norm alm ente, Tia teria cham ado a atenção da filha por ter pegado o aparelho sem consultá-la. Com o a m aioria das crianças, Jill sem pre fazia esse tipo de coisa: quando não pegava o BlackBerry ou o iPod de Tia, usava o com putador dela só porque o seu não era tão rápido, ou então esquecia o telefone sem fio no quarto, deixando a m ãe louca atrás dele.

Mas aquele não era o m om ento adequado para o recorrente serm ão sobre responsabilidade.

– Claro. Mas se ele vibrar, traga correndo para m im , está bem ?

– Pode deixar. – Jill varreu o quarto com os olhos. – O que você está fazendo aqui?

– Dando um a olhada.

– Para quê?

– Sei lá. Talvez tentando encontrar um a pista de onde seu irm ão possa estar.

– Ele vai ficar bem , não vai?

– Claro que vai, m eu anj o, não se preocupe. – Então, lem brando que a vida não pára e ansiando por um pouco de norm alidade, Tia perguntou: – Você não tem dever de casa para fazer?

– Já fiz tudo.

– Ótim o. E no m ais, tudo bem ?

Jill deu de om bros.

– Quer falar sobre algum a coisa?

– Não. Está tudo bem com igo. Só estou um pouco preocupada com Adam .

– Eu sei, m eu bem . E na escola, com o vão as coisas?

Aquela era um a pergunta idiota. Tia j á a fizera um m ilhão de vezes para seus dois filhos e nunca, nem um a única vez, recebera um a resposta diferente de “tudo bem ” ou “do m esm o j eito de sem pre”.

Tia enfim saiu do quarto de Adam . Não havia nada para ser encontrado ali. O relatório im presso do E-Spy Right estava à sua espera. Ela foi para o próprio quarto, fechou a porta e deu um a rápida olhada nas páginas. Clark e Olivia, os am igos de Adam , haviam m andado e-m ails pela m anhã, m as as m ensagens haviam sido um tanto cifradas. Am bos queriam saber onde ele estava e m encionavam o fato de que Mike e Tia haviam ligado à sua procura.

Nenhum e-m ail de DJ Huff.

Estranho. DJ e Adam sem pre se falavam . E, de repente, nenhum a m ensagem – com o se talvez ele soubesse que Adam não estaria em casa para responder.

Alguém bateu de leve à porta.

– Mãe?

– Entre, filha.

Jill entreabriu a porta e disse:

– Esqueci de falar. Ligaram do consultório do dentista. Minha consulta com o Dr. Forte é na próxim a terça.

– Ótim o.

– Mas por que eu tenho de ir lá? Acabei de fazer um a lim peza!

O trivial. Novam ente Tia o recebeu de bom grado.

– É possível que você tenha de usar aparelhos – falou ela.

– Já?

– Já. Adam era o seu… – Ela interrom peu a frase.

– Meu o quê?

Tia olhou de relance para o relatório j ogado sobre a cam a, o m ais recente, m as se deu conta de que ele não serviria. Ela precisava do outro, m ais antigo, com o e-m ail falando sobre a festa na casa dos Huff.

– Ei, m ãe? O que está acontecendo?

Tia e Mike haviam com binado de elim inar os relatórios antigos com a fragm entadora de papéis, m as ela havia guardado aquele e-m ail específico para m ostrar ao m arido. Procurou na m esinha-de-cabeceira. Havia um a pilha de papéis ali. Ela com eçou a exam iná-los.

– Posso aj udar com algum a coisa? – ofereceu Jill.

– Não, m eu am or, pode deixar. Obrigada.

Tia não encontrou o que estava procurando. Mas não se deu por vencida. Levantou-se da cam a e foi para o com putador.

O site da E-Spy Right j á constava de sua lista de favoritos. Ela se logou e clicou sobre o link de arquivos. Encontrou a data que queria e baixou o relatório correspondente.

Não seria necessário im prim ir nada. Assim que o relatório surgiu à tela, Tia foi rolando a página até encontrar a m ensagem sobre a festa na casa dos Huff. Não estava interessada na m ensagem em si: no texto que falava sobre a ausência dos pais de DJ, na noite que eles passariam “chapando”. Mas, pensando bem , o que havia acontecido naquela noite afinal? Mike havia passado por lá e constatado não só que não havia festa nenhum a, m as tam bém que Daniel Huff estava em casa.

Será que os Huff tinham m udado os planos?

Mas agora a questão não era essa. Tia queria ver o que a m aioria das pessoas considera o m enos relevante de tudo.

As colunas de data e hora.

O program a dava as inform ações de envio da m ensagem , m as tam bém indicava a data e a hora em que ela havia sido aberta pelo destinatário.

– Mãe, o que está acontecendo? – repetiu Jill.

– Só um segundo, querida.

Tia pegou o telefone e ligou para o consultório do Dr. Forte. Em bora fosse sábado, ela sabia que, em razão das diversas atividades extra-escolares da garotada, os dentistas da região costum avam trabalhar em determ inados horários do fim de sem ana. Conferiu as horas no relógio e, aflita, ficou ouvindo o telefone cham ar. A salvação veio apenas no quinto sinal:

– Consultório do Dr. Forte.

– Oi, bom dia. Aqui é Tia Bay e, m ãe do Adam e da Jill.

– Sim , Sra. Bay e, em que posso aj udá-la?

Tia tentou se lem brar do nom e da secretária, que trabalhava ali desde sem pre e conhecia todo m undo. Na verdade, era ela quem adm inistrava o consultório, com o um a espécie de síndica. Tia finalm ente se lem brou.

– É Caroline que está falando?

– Ela m esm a.

– Oi, Caroline. Talvez você vá estranhar m eu pedido, m as preciso desesperadam ente de um favor seu.

– Bem , vam os ver. A agenda está lotada na sem ana que vem .

– Não, não é isso. Adam teve um a consulta no dia 18, às 15h45. Silêncio do outro lado da linha.

– Preciso saber se ele com pareceu a essa consulta.

– Claro que com pareceu – disse a secretária de pronto. – Caso contrário eu teria ligado para a senhora.

– Você sabe dizer se ele chegou na hora?

– Posso olhar o horário exato, se isso aj udar em algum a coisa. Está tudo registrado no m eu livro de protocolo.

– Isso seria ótim o, obrigada.

Tia podia ouvir o ruído das teclas que a secretária digitava, dos papéis que ela revirava.

– Adam chegou cedo, Sra. Bay e – veio a resposta. – Assinou o protocolo às 15h20.

O que fazia sentido. Geralm ente Adam saía da aula e ia a pé direto para o dentista.

– E foi atendido exatam ente às 15h45 – em endou Caroline. – Era isso que a senhora queria saber?

Tia por pouco não deixou o telefone despencar. Mais um a vez conferiu as colunas de data e hora no com putador. Havia algo errado naquela história toda.

O e-m ail sobre a festa na casa dos Huff fora enviado às 15h32 e lido às 15h37.

Adam não estava em casa nesse horário.

Isso não fazia sentido, a m enos que…

– Muito obrigada, Caroline. – Tia desligou e im ediatam ente discou o núm ero de Brett, o técnico de inform ática.

– Yo – atendeu ele.

Tia decidiu colocá-lo na defensiva.

– Muito obrigada por m e entregar de bandej a para Hester.

– Tia? Puxa, foi m al.

– Foi, sim .

– Não, falando sério. A Hester sabe de tudo o que acontece naquele escritório. Você sabia que ela m onitora todos os com putadores? Às vezes lê os e-m ails pessoais só para se divertir. Acha que se você é propriedade dela…

– Eu nunca fui propriedade de ninguém .

– Eu sei. Desculpe.

Hora de seguir adiante.

– Segundo o relatório do E-Spy Right, m eu filho leu um e-m ail às 15h37.

– Sim , e daí?

– E daí que ele não estava em casa a essa hora. É possível que ele tenha lido essa m ensagem em outro com putador?

– Essa inform ação foi do program a, certo?

– Certo.

– Então a resposta é não. O E-Spy Right m onitora apenas as atividades do com putador que está no quarto do Adam . Se ele logou em outro com putador e leu essa m ensagem , o program a não vai registrar.

– Então com o você explica isso?

– Hum . Bem , em prim eiro lugar, você tem certeza de que ele não estava em casa?

– Absoluta.

– Então alguém estava usando o com putador dele.

Tia conferiu novam ente.

– Diz aqui que a m ensagem foi deletada às 15h38.

– Então alguém entrou no com putador do seu filho, leu a m ensagem e a deletou em seguida.

– Isso significa que o Adam sequer chegou a ler esse e-m ail, certo?

– É m uito provável que não.

Tia rapidam ente descartou os suspeitos m ais evidentes: ela e Mike estavam trabalhando aquele dia, e Jill tinha ido a pé para a casa de Yasm in, onde passaria o resto da tarde.

Nenhum deles se encontrava em casa.

Com o alguém poderia ter entrado sem deixar nenhum vestígio de invasão? Tia lem brou-se da chave que m antinha escondida sob a pedra falsa do j ardim .

Entrou um a cham ada em espera e ela viu que era Mo.

– Brett, ligo de volta daqui a pouco. – Tia atendeu a outra ligação. – Mo?

– Você não vai acreditar – disse ele. – Mike acabou de ser levado pelo FBI.

♦♦♦

Na sala de interrogatório im provisada, Loren Muse avaliou Neil Cordova dem oradam ente. Ele era baixo, de ossos pequenos, porte com pacto e traços que beiravam a perfeição.

Lem brava um pouco a própria m ulher quando visto ao lado dela. Muse sabia disso porque Cordova havia trazido m uitas fotografias do casal: no quintal de casa, em cruzeiros, praias, festas e bailes de gala. Neil e Reba Cordova eram fotogênicos e saudáveis e gostavam de posar de rosto colado. Pareciam felizes em todas as fotos.

– Por favor, encontrem m inha m ulher – disse Neil Cordova pela terceira vez desde que entrara na sala.

Muse j á tinha dito “Estam os fazendo o possível” duas vezes, por isso agora não respondeu nada.

– Quero colaborar de todas as m aneiras – acrescentou Cordova.

Neil Cordova tinha os cabelos cortados, rente à cabeça; vestia blazer e gravata, com o se isso fosse o que se esperava dele, com o se o traj e o im pedisse de desm oronar. Muse não pôde deixar de notar que os sapatos se encontravam m uito bem engraxados. Essa era um a m ania do pai dela, que sem pre dizia: “Você pode saber quanto vale um hom em olhando para o estado dos sapatos dele.” E, quando, aos 14 anos, Loren Muse achou o corpo do pai estirado na garagem – onde ele havia entrado para estourar os m iolos –, viu que os sapatos se encontravam im pecavelm ente polidos.

Belo conselho, papai. E m uito obrigada pelo decoro no suicídio.

– Sei com o são essas coisas – prosseguiu Cordova. – O m arido é sem pre suspeito, não é?

Muse não respondeu.

– E você acha que a m inha Reba tinha um am ante só porque o carro dela foi encontrado no estacionam ento daquele hotel. Mas eu posso j urar que não era nada disso. Vocês têm de acreditar em m im .

Muse ouvia a tudo im passível.

– Não estam os favorecendo nem descartando nenhum a hipótese em particular – disse.

– Posso m e subm eter a um detector de m entiras, sem advogado, sem nada. Só não quero que vocês percam tem po seguindo a pista errada. Reba não fugiu, tenho certeza disso. E eu não tive nada a ver com o que aconteceu a ela.

Um investigador j am ais deveria acreditar em ninguém , pensou Muse. Essa era a regra. Ela j á havia interrogado suspeitos cuj os talentos de ator deixariam Robert De Niro desem pregado para o resto da vida. Mas até então as evidências favoreciam Neil Cordova e, se pudesse confiar apenas nos próprios instintos, Muse diria que ele estava falando a verdade. De qualquer m odo, naquele m om ento isso não tinha im portância.

Ela havia convocado Cordova para identificar o corpo da outra vítim a. Inim igo ou aliado, era só isto que ela precisava dele: cooperação.

– Sr. Cordova, não creio que o senhor tenha feito m al à sua m ulher.

A expressão de alívio no rosto de Cordova surgiu e sum iu com a m esm a rapidez. O problem a não eram as suspeitas que possivelm ente pesavam sobre ele, m as o desaparecim ento da linda m ulher daquelas fotografias.

– Algum a coisa vinha preocupando sua esposa nos últim os tem pos?

– Nada de m uito grave. Nossa filhinha de 8 anos, a Sarah… – em ocionado, ele fechou os olhos e m ordeu um dos dedos para conter o choro. – A Sarah está tendo uns problem inhas com a leitura. Já disse isso à polícia de Livingston, quando eles fizeram a m esm a pergunta. Reba andava preocupada com isso.

Isso não aj udava m uito, m as pelo m enos ele estava falando.

– O senhor talvez estranhe a pergunta que vou lhe fazer agora – disse Muse.

Cordova se inclinou para a frente, desej ando desesperadam ente ser útil de algum a form a.

– Por acaso sua m ulher chegou a com entar sobre algum a am iga, alguém que estivesse passando por algum tipo de dificuldade?

– Que tipo de dificuldade?

– Bem , vam os com eçar com isto: suponho que ninguém de suas relações estej a desaparecido.

– Desaparecido? Você quer dizer com o Reba?

– Não quero dizer nada. Mas vam os dar um passo adiante: alguém do seu círculo de am igos por acaso está viaj ando, sej a a trabalho ou de férias?

– Os Friedm an foram para Buenos Aires, onde vão ficar por um a sem ana. Ela e Reba são m uito am igas.

– Ótim o, ótim o. – Muse sabia que Clarence estava anotando tudo. Mais tarde ele investigaria se a Sra. Friedm an de fato estava onde deveria estar. – Mais alguém ?

– Preciso pensar – disse Neil e olhou para o alto, tentando puxar pela m em ória.

– Tudo bem , não é tão im portante assim . Algum a coisa estranha com os am igos, algum tipo de encrenca?

– Reba contou que os Colder estão passando por um a crise no casam ento.

– Ótim o. Mais algum a coisa?

– Tony a Eastm an recentem ente fez um a m am ografia, m as ainda não conseguiu contar ao m arido que está doente. Está com m edo de ser abandonada. Pelo m enos foi o que Reba disse. É isso que a senhora está querendo saber?

– Exatam ente. Continue.

Neil Cordova relatou m ais alguns casos e Clarence seguiu anotando. Depois de um tem po, Muse achou que era a hora de colocar o dedo na ferida.

– Sr. Cordova?

Ele levantou os olhos e Muse o encarou para dizer:

– Preciso que o senhor m e faça um favor. Mas não quero m e estender nas explicações, portanto…

– Inspetora – interrom peu ele.

– Sim ?

– Deixe de rodeios. O que a senhora quer?

– Tem os um corpo aqui. Seguram ente não é a sua m ulher. Você entendeu? Não é a sua m ulher. Este corpo foi encontrado um dia antes do desaparecim ento de Reba. Não sabem os quem é.

– E você acha que eu posso conhecê-la?

– Gostaria que o senhor desse um a olhada.

Cordova sentava-se m uito ereto, com as m ãos cruzadas sobre o colo.

– Muito bem – disse. – Vam os lá.

Muse havia cogitado m ostrar-lhe algum as fotografias e poupá-lo do horror de exam inar um cadáver naquelas condições. Mas as fotos geralm ente não funcionavam . Se ao m enos ela tivesse um a foto nítida do rosto, m as naquele caso o rosto havia passado por um m oedor de carne e agora se resum ia a um a m assa disform e de fragm entos de osso e fibras esgarçadas. Muse tam bém poderia m ostrar fotos do tronco e passar os dados de peso e altura, m as sabia por experiência que isso tam bém não adiantava m uito.

Neil Cordova em nenhum m om ento havia estranhado o local escolhido para aquele interrogatório, o que era bastante com preensível. Eles se encontravam na Norfolk Street de Newark, no necrotério da prefeitura. Muse havia planej ado tudo de m odo que eles não perdessem tem po se deslocando. Ela abriu a porta e eles deixaram a sala. Cordova cam inhava com a cabeça erguida e passos firm es, m as os om bros contavam outra história: Muse podia percebê-los m urchos sob o paletó.

O corpo estava pronto. Tara O’Neill, a legista, havia em brulhado o rosto com faixas de gaze. Isso foi a prim eira coisa que Neil Cordova observou: as bandagens que faziam o cadáver parecer um a m úm ia de cinem a. Ele quis saber o m otivo daquilo.

– O rosto foi bastante desfigurado – explicou Muse.

– Então com o vocês esperam que eu a reconheça?

– Talvez pelo porte, pela altura…

– Seria ótim o se eu pudesse ver o rosto.

– Não, não seria, Sr. Cordova.

Cordova engoliu em seco e olhou m ais um a vez para o corpo à sua frente.

– O que aconteceu a ela?

– Sofreu um terrível espancam ento.

Virando-se para Muse, ele perguntou:

– A senhora acha que algo parecido pode ter acontecido à m inha m ulher?

– Não sei.

Cordova fechou os olhos por um instante e procurou se controlar. Depois de um tem po disse:

– Tudo bem . Eu entendo.

– Sei que não deve ser fácil para o senhor – disse Muse.

– Estou bem , não se preocupe.

Muse pôde ver que ele estava com os olhos m arej ados. E quando o viu secá-los com a m anga do paletó, igualzinho a um m enino, precisou se controlar para não consolá-lo com um abraço. Esperou que ele voltasse o rosto para o cadáver.

– Então, sabe quem ela é?

– Acho que não.

– Não tenha pressa.

– O problem a é que… bem , ela está nua. – Cordova olhava apenas para o rosto enfaixado, talvez por um a questão de pudor. – Quer dizer, m esm o que eu a conheça, com certeza nunca a vi desse j eito, a senhora entende?

– Claro. E o senhor acha que aj udaria em algum a coisa se tentássem os vesti-la?

– Não, não precisa. Mas se… – Cordova franziu as sobrancelhas.

– O que foi?

Os olhos de Cordova, até então plantados no pescoço, desceram na direção das pernas.

– Seria possível virá-la? – perguntou ele.

– De bruços?

– Sim . Mas só preciso ver o dorso das pernas.

Muse olhou para Tara O’Neill, que im ediatam ente convocou um funcionário do necrotério. Cautelosam ente eles viraram o cadáver. Cordova deu um passo adiante. Muse ficou onde estava para não perturbá-lo. Tara O’Neill e o funcionário se afastaram da m aca. Cordova foi descendo os olhos pelas pernas da m orta até estacioná-los no calcanhar direito.

Onde havia um a m arca de nascença.

Após alguns segundos, Muse quebrou o silêncio:

– Sr. Cordova?

– Sei quem ela é.

Muse esperou pelo nom e. Trêm ulo, Cordova cobriu a boca com um a das m ãos e fechou os olhos.

– Sr. Cordova?

– É a Marianne – disse ele. – Meu Deus, é a Marianne.