De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 9
De todas as crianças da aldeia, apenas duas, Maia e Mati, sentiam uma baita atração pelos bosques sombrios. Justa-mente por tanta advertência, tanto silêncio e tanto temor, f icaram f ascinados, e a imaginação os seduziu a tentar descobrir o que estava escondido nas prof undezas do bosque. Mati também tinha esboçado um plano que ele revelou a Maia, porque sabia que ela era mais corajosa do que ele. Além do plano e do desejo comum de penetrar na mata, havia o segredo deles, um segredo misterioso que não dividiam com ninguém, nem com os pais, nem com a prof essora Emanuela, nem com as irmãs mais velhas de Mati, nem com Almon, nem com Danir, o consertador de telhados, nenhum amigo ou amiga. Somente quando não havia nas redondezas nenhum ouvido à espreita, Maia e Mati cochichavam e se entusiasmavam pelo segredo comum que pertencia apenas aos dois. Com f requência, durante a tarde Mati e Maia se encontravam às escondidas numa cachoeira, numa mata abandonada e destruída, no quintal da casa de Mati, longe do alcance dos ouvidos dos pais e das irmãs, e conf abulavam sobre o segredo.
As crianças da aldeia, entre elas as irmãs mais velhas de Mati, observavam esses dois que às vezes cochichavam entre si, e imediatamente chegaram à conclusão de que Maia e Mati com certeza estavam começando a f ormar um casalzinho. E se estivessem mesmo, seria muito agradável e até mesmo simpático espiá-los um pouco, e também debochar e provocar. Pois sempre, em todo tempo, em todo lugar, um menino e uma menina que f icam seguidamente um com o outro, sozinhos, em vez de se juntarem ao grupo, logo são considerados um casal. E um casal é um convite para a inveja. E a inveja dói e se avoluma, e começa a f ormar de seu interior uma gozação: mais ou menos como uma f erida suja f orma um pus.
Não era assim que Mati e Maia se viam: não se consideravam um casal, de jeito nenhum, apenas os únicos cúmplices de um segredo. Nem uma só vez eles seguraram as mãos ou se olharam no f undo dos olhos, nem trocaram entre si sorrisos particulares, e certamente nem se beijaram, apesar de que tanto ela como ele, duas ou três vezes, já tinham imaginado como seria sentir um beijo e, talvez, como se chegar até ele.
No entanto jamais f alaram a respeito dessas f antasias. Nem uma palavra. O que unia Maia e Mati não era amor, mas um segredo que ninguém, além deles, podia saber.
Por causa do segredo, e também por culpa da gozação de que eram alvo, Maia e Mati se sentiram muito próximos um do outro e igualmente isolados, os dois, porque se o segredo f osse conhecido pelos outros, a zombaria seria muito pior, as provocações e piadinhas duplicadas. Pois todo aquele que de alguma f orma não está disposto a se adaptar e a ser como nós, então é porque adoeceu de relincho, ou de uivo, ou do que quer que seja, e que não se atreva a se aproximar de nós, que guarde distância, por f avor, que não nos contamine.
Havia os que troçavam também de Almon, o pescador, por causa do seu caderno de pensamentos, por seu hábito de f icar parado no f undo do quintal assobiando a cada manhã e a cada tarde para o seu cachorro, que certamente já havia morrido havia muitos anos, e pelo espantalho totalmente dispensável que ele colocara entre os canteiros de verduras da sua horta. Riam dele por trás sobretudo por causa das longas discussões que de vez em quando travava consigo mesmo ou com o espantalho. E não era raro o ex-pescador discutir até mesmo com o rio, com a lua, com as nuvens que passavam no céu. Na aldeia o que mais ridicularizavam eram as reconciliações emocionantes entre Almon e o espantalho, ou entre Almon e a parede e o banco, ao cabo de cada briga ou desentendimento.
Até mesmo Lília, a padeira, a mãe viúva de Maia, era alvo das chacotas dos habitantes da aldeia, que se compraziam em relinchar quando a viam, e também giravam o indicador em círculos, nas têmporas, e a apontavam, venham ver, lá vai aquela mulher esquisita, que tem o hábito de, no f im do dia, esf arelar o pão que não conseguiu vender, e jogar as migalhas no rio ou mesmo espalhá-las entre as árvores, pois talvez por algum milagre de repente passe por aqui algum peixe errante, ou algum pássaro perdido seja atraído por acaso para o nosso céu.
Se bem que alguns daqueles que costumavam caçoar das migalhas de Lília às vezes paravam por um momento ou dois aos pés das árvores ou às margens do rio, e se perguntavam: e se vingar? Apesar de tudo? Será? Não? Mas logo acordavam, como se de repente alguém batesse palmas no ouvido deles. Davam de ombros e iam embora, um pouco envergonhados.
E quase toda a aldeia debochava, abertamente, com gozações pesadas, e não só de um jeito dissimulado, de Solina, a costureira pobre, e de seu marido inválido, Guinam, que pegou a doença do esquecimento e se curvou todo até que passou a ser pequeno como um travesseiro, e baila com voz f ina, balia como um cordeiro abandonado.
Sua mulher, Solina, costumava envolvê-lo em f raldas, cobri-lo com dois cobertores de lã, e conduzi-lo todas as tardes no carrinho de bebê a um longo passeio entre as ruelas da aldeia, até as margens do rio cujo rugido raivoso provocava em Guinam um balido f ino e desesperado, como se tudo já estivesse perdido.