De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 6 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 6

 

Tudo começou muito antes que as crianças da aldeia tivessem nascido, no tempo em que até mesmo seus pais ainda eram crianças: certa noite, noite de tempestade, desapareceram todos os animais da aldeia, mamíf eros, aves, peixes, répteis e larvas, e no dia seguinte da manhã restaram apenas os habitantes e seus f ilhos. Emanuela, que naquele tempo tinha dez anos, chorou semanas e semanas de saudade da sua gata tigresa Tima, que teve três f ilhotes, dois listrados como a mãe, e um amarelinho e travesso, que gostava de se disf arçar de meia enrolada e se esconder dentro de uma bota. Naquela noite terrível desapareceram a gata e os f ilhotes, e deixaram para trás a gaveta de sapatos estof ada vazia debaixo do armário de roupas. No dia seguinte pela manha, Emanuela achou a gaveta um pequeno bulbo de lã de gatos, dois f ios de bigode, e um cheiro doce-azedado de f ilhotes quentinhos, e de lambidas e leite.

Entre os habitantes da aldeia existiam alguns velhos que podiam jurar que naquela noite viram, pelas f restas das venezianas, como a sombra do demônio Nehi passava pela aldeia carregando atrás de si na escuridão uma longa comitiva de sombras. A essa caravana se juntaram todos os animais de cada pátio, de cada galinheiro, curral, redil, cocheira, canil, pombal e estábulo, multidões de sombras grandes e pequenas, e o bosque os engoliu a todos, até que, pela manhã, a aldeia tinha se esvaziado. No dia seguinte, restaram apenas os humanos.

Durante alguns dias as pessoas evitaram se olhar nos olhos. Deus tanta desconf iança. Outubro de tanto assombro. Ou de vergonha. Dali em diante, quase todos evitavam f alar sobre tudo isso. Nemo bem nem mal. Nemo uma palavra. Às vezes até mesmo esqueciam um pouco por que, de f ato, eles pref eriam esquecer. E apesar disso todos se lembravam muito bem, em silêncio, do que era melhor não lembrar. E havia certa necessidade de negar tudo, negar até o próprio silêncio, e zombar de quem, apesar de tudo, lembrava: que se calasse. Que não f alasse.

Solina, a costureira, que antes havia sido pastora de ovelhas e criadora de aves, perdeu naquela noite um rebanho de cabras, um galinheiro, um grupo de patos e também uma pequena gaiola, que antes do amanhecer f icou vazia, sem nenhum canário. Seu marido, o f erreiro Guinom, desapareceu no dia seguinte e só depois de uma semana f oi encontrado tremendo e congelando de f rio entre as árvores do bosque, talvez porque tenha se enchido de coragem e partiu em busca de seu rebanho de cabras e das aves perdidas. Quando Solina, sua mulher, e todos os anciãos da aldeia o interrogaram e tentaram saber o que tinha visto, não conseguiram tirar dele nada além de Nehi e choro. Assim começou a doença do esquecimento de Guinom, e a partir de então seu corpo se curvou, murchou e tombou para dentro de si mesmo, até que o velho carrinho de bebê pôde acomodá-lo, e ele passou a se sentir como um tipo de cordeiro. Ou de cabrito.

O velho pescador Almon já tinha anotado havia muitos anos no seu caderno uma descrição detalhada dos acontecimentos daquela noite. Entre outras coisas, o caderno de Almon registrou que na última tarde, um pouco antes de anoitecer, ele havia descido e recolhido da água do rio a sua rede de pesca, e nela encontrou sete peixes vivos. Decidiu deixar esses peixes até de manhã dentro de uma tina cheia de água ao lado do umbral da sua casa, para levá-los ao mercado na manhã do dia seguinte. E eis que de manhãzinha a tina ainda estava cheia de água, mas sem os peixes.

Nas mesma noite também desapareceu para sempre Zito, o cachorro f iel de Almon, um cachorro af etuoso mas racional como um relógio, um cachorro silencioso que tinha uma orelha marrom e branca, e a outra completamente marrom. Esse cachorro sabia inclinar as duas orelhas para f rente e aproximá-las uma à outra nos momentos em que se esf orçava para se concentrar e entender o que, de f ato, estava acontecendo diante dele. Quando juntava assim as orelhas, o cachorro parecia sério e até muito sábio e meditativo, por um momento parecia um investigador perseverante se concentrando com toda a f orça, empenhando o cérebro, e quase conseguindo decif rar um enigma da ciência.

E às vezes Zito, o cachorro do pescador Almon, sabia ler os pensamentos do seu dono. Era capaz de adivinhar as ideias do homem ainda antes que brotassem: de repente se levantava de seu canto em f rente ao f ogão e cruzava o aposento, f icando de prontidão diante da porta, menos de meio minuto antes de Almon espiar o relógio da parede e decidir que havia chegado a hora de sair à margem do rio. Ou também o cachorro podia subir e lamber o rosto de Almon com a língua morna, lamber com amor e piedade para consolá-lo de algum pensamento triste que pretendia se instalar na cabeça do dono dali a um ou dois minutos.

Em todos os anos que se seguiram àquela noite, o velho pescador não conseguia se conf ormar com o desaparecimento do cachorro: pois eles dois eram ligados um ao outro por um amor cheio de delicadeza, preocupação, e f idelidade. Seria possível o cachorro ter esquecido repentinamente o seu dono? Ou será que lhe ocorrera alguma desgraça? Se Zito estivesse vivo, sem dúvida nenhuma se libertaria e f ugiria de seu sequestrador e buscaria o caminho de casa. Às vezes parecia a Almon que lá de longe, do espesso coração do bosque, chegava até ele o vago eco de um choro f ino chamando por ele, venha, venha você também, não tenha medo.

Além do cachorro Zito, desapareceu na mesma noite um par de pequenos pintassilgos que cantava para Almon, o pescador, lá do ninho de ramos que f icava no galho que roçava a janela toda vez que o vento soprava. E desapareceram os cupins que enchiam o sono de Almon à noite com os sons da roedura sussurrante, e que não paravam nem por um momento o trabalho de escavação de túneis dentro dos velhos móveis da casa. Até esses insetos se calaram para sempre desde aquela noite.

Por muitos anos o pescador se acostumara a adormecer todas as noites com o sussurro da mastigação dos cupins dentro dos móveis no escuro. Por causa disso, a partir daquela noite lhe f oi dif ícil adormecer: como se a prof undidade do silêncio zombasse dele na escuridão. Assim, o pescador Almon permanecia sentado noite após noite até bem tarde ao lado da mesa da cozinha, lembrando como naquelas horas, antigamente, surgia do bosque e pelas venezianas f echadas o uivo melancólico de uma raposa, e da aldeia os cachorros respondiam às raposas do bosque com latidos f uriosos que no f inal acabavam também em lamento. Em momentos como esse, seu amado cachorro costumava se aproximar e colocar a cabeça sobre os seus joelhos quentes; ele erguia os olhos para o dono e lhe lançava um olhar de prof unda lucidez, um olhar que irradiava um tipo de brilho silencioso de piedade, amor e tristeza. Até que Almon dizia, obrigado, Zito. Basta. Já está quase passando.

Assim f icava o homem sentado e ref letindo sozinho no silêncio da noite, saudoso de seu cachorro, saudoso dos pintassilgos, dos peixes do rio e até mesmo dos cupins, e f azia uma lista e apagava, ouvia às vezes ao longe a voz f ina do menino Nimi, que perambulava sozinho no escuro entre os pátios e soltava relinchos que, de longe, pareciam choro. Nesses momentos Almon, o pescador, começava a berrar com o lápis, a discutir em voz alta com o f ogão, ou a f olhear ruidosamente as f olhas do caderno, para tentar silenciar um pouco a inquietação da noite e o bramido do rio.

No caderno Almon escreveu, entre outras coisas, que, sem todos os animais, até mesmo as noites de verão mais claras lhe pareciam às vezes como cobertas por uma neblina turva, uma neblina que desce sobre tudo quase enterrando a aldeia, o coração e o bosque. O nevoeiro das noites de verão, escreveu o pescador no seu caderno, não é seco e leve como o vapor f ino da geada do inverno, mas é empoeirado, imundo e opressivo.

Desde aquela noite em que Nehi, o demônio, levou consigo todos os animais e os arrastou atrás dele até o seu esconderijo na montanha, os habitantes da aldeia viviam cultivando seus pomares em silêncio e medo. Sem nenhum animal em casa e sem nenhum animal na lavoura. Sozinhos. Apenas o rio ainda passava, rolando na correnteza do seu curso pequenas pedras lisas, galhos quebrados, blocos de lodo. Dia e noite, inverno e verão, sem repouso.