De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 31 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 31

 

E após mais uma volta pelo jardim, Maia e Mati já sabiam dizer algumas palavras em pardalês, uma ou duas f rases em gatês e em bovinês, e também entendiam um ou outro termo em mosquês. Nehi e todas as criaturas do jardim pediram a Mati e Maia que permanecessem com eles pelo menos por algumas semanas.

Mas Mati tomou a mão de Maia e disse:

Lá embaixo eles estão muito preocupados conosco. Não podemos deixá-los assim assustados.

Então Mati também se lembrou que exatamente naquele momento, justamente com o cair da escuridão, todas as casas da aldeia se f echavam, toda veneziana era vedada, e toda porta era trancada duas ou três vezes com cadeados de f erro: e certamente seus pais estariam temendo muito por eles, e talvez toda a aldeia já tivesse saído para procurá-los com lanternas, e talvez até já tivessem desistido da busca e estivessem todos enclausurados agora, cada f amília atrás das suas grades e atrás das suas venezianas de f erro.

Maia e Mati então pediram a Nehi que lhes emprestasse uma gazela ligeira ou um cachorro que lhes mostrasse o caminho de volta para casa. É claro que os dois prometeram que não contariam a pessoa alguma, nunca, jamais, o que tinham visto com os próprios olhos e o que tinham ouvido com os próprios ouvidos, lá no esconderijo do demônio das montanhas, e que não revelariam nada sobre as maravilhas que encontraram no jardim.

Mas Nehi sorriu de volta para eles pensativo, e era um sorriso ambíguo, um sorriso meio tímido e meio triste, e também um pouquinho malicioso, um sorriso que não começava nos lábios, e sim entre as rugas dos olhos, e descia pelos sulcos da f ace, até que parou hesitante nos cantos da boca. E após o sorriso disse que não havia nenhuma necessidade que lhe f izessem tal promessa: pois mesmo se eles contassem na aldeia a respeito de tudo, mesmo se relatassem os detalhes e os detalhes dos detalhes, quem, af inal, acreditaria neles? Só despertariam riso e deboche em toda a aldeia, se de f ato contassem o que viram: o castigo dos céticos é sempre duvidar, e duvidar até mesmo das dúvidas que eles próprios impõem. E o castigo dos desconf iados é suspeitar de tudo, dia e noite. Suspeitar até de si mesmos e das próprias suspeitas.

Mati disse:

Quando a prof essora Emanuela, ou Almon, o pescador, começam a nos contar histórias de animais, imediatamente todos se põem a debochar. Os adultos e também as crianças. Mas às vezes um dos adultos esquece o deboche por um momento, talvez atacado pelo arrependimento ou pela saudade, e começa a contar sobre tudo o que ele mesmo, dali a um instante, vai negar completamente. Há sempre um que começa e todos o f azem calar. Mas a cada vez é uma pessoa dif erente que começa. E às vezes chega uma criança à sala de aula no início do dia e conta a todos que acha ter ouvido de madrugada, quando estava meio acordado e meio dormindo, um piado distante, ou um zumbido, ou um grilado. I mediatamente todos a f azem calar a boca, que não f ale e não irrite. Será que é de tanta vergonha pelo que aconteceu que os pais negam tudo? Ou será que combinaram esquecer para estancar a angústia? Mas me parece que nin-guém esqueceu de verdade aquilo que toda a aldeia decidiu esquecer.

Depois Nehi pediu que eles contassem um pouco sobre a vida na aldeia nas horas da luz. Pois ele descia só na escuridão. Que lhe contassem, por f avor, como era a praça de pedra nas longas tardes de verão, entre a luz do dia e a luz do crepúsculo. E como era a praça na hora em que Danir, o consertador de telhados, seus ajudantes e mais algumas moças e rapazes se encontravam para conversar, tomar cerveja, rir e às vezes também cantar por uma meia horinha. E como estava Almon, o pescador? Ele continuava discutindo com as árvores? Ainda f icava sentado entalhando na madeira f iguras de animais? Um dia quase não conseguiu esperar até a meia-noite, tanto queria descer à luz do dia e f icar na horta uma ou duas horas com os braços estendidos em cruz, af astar o espantalho e se f antasiar ele mesmo de espantalho, pois Almon já estava quase cego, talvez nem percebesse a dif erença, e os dois então discutiriam.

E como eram as conversas das mulheres no mercadinho? E o tagarelar das lavadeiras na curva do rio? E como estava Emanuela? E o banco dos velhos que chegavam às dez da manhã para se reunir e f umar cachimbo à margem do rio? Se não tivesse medo de que todos ali iriam se levantar e f ugir com gritos de terror, talvez pelo menos uma vez desceria durante o dia. Ficaria sorrateiramente entre eles, participaria um pouco das suas evocações, e aspiraria para dentro dos pulmões o aroma da f umaça dos cachimbos. Será que restaram alguns entre eles que não esqueceram completamente?

Maia disse: Quem se lembra é alvo de deboche. Quem se cala, se cala.