De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 3
À noite o silêncio negro e denso era ainda mais prof undo do que durante o dia: nenhum cachorro esticava o pescoço ou revirava as orelhas para uivar para a lua, nenhuma raposa resmungava no bosque, nenhuma ave noturna gritava, nenhum grilo trilava, nenhum sapo coaxava, nenhum galo cantava na aurora. Já f azia anos que todos os animais dessa aldeia e das redondezas haviam desaparecido, vacas, cavalos e carneiros, gansos, gatos e canários, cachorros, aranhas domésticas e lebres. Nem mesmo um pintassilgo vivia lá. Nenhum peixe restara no rio. As cegonhas e os grous rodeavam os vales em suas jornadas errantes. Até mesmo os insetos e os vermes, até as abelhas, moscas, f ormigas, minhocas, mosquitos e traças não eram vistos havia muitos anos. Os adultos que ainda lembravam em geral pref eriam calar-se. Negar. Fingir que esqueceram.
Anos antes viveram na aldeia sete caçadores e quatro pescadores. Mas quando o rio f icou sem peixes, quando os animais selvagens partiram para longe, emigraram dali também os pescadores e os caçadores, em busca de lugares que a maldição não havia atingido. Somente um pescador de nome Almon — um homem velho e solitário — permaneceu na aldeia. Vivia numa pequena choupana ao lado do rio e f alava longamente consigo mesmo, inf lamado, enquanto cozinhava uma sopa de batatas. As pessoas da aldeia ainda o chamavam de Almon, o pescador, embora ele já não f osse pescador, e sim lavrador: durante o dia Almon plantava verduras e raízes comestíveis em canteiros de terra f of a, e também cultivava umas vinte e trinta árvores f rutíf eras no declive da colina.
Até mesmo um pequeno espantalho Almon colocara entre os canteiros, porque acreditava que talvez, antes de sua morte, numa certa noite, todas as aves voltariam e com elas todos os animais que desapareceram. Almon discutia com o espantalho, às vezes longamente e com raiva. Ajeitava-o, repreendia-o, abandonava-o completamente, e logo voltava, trazendo uma velha cadeira; sentava-se diante do espantalho e tentava, com uma paciência inf inita, convencê-lo, ou pelo menos f azê-lo alterar um pouco as suas opiniões inf lexíveis.
À tardinha, em dias claros, Almin, o pescador, costumava sentar em sua cadeira à margem do rio. Ele colocava um velho par de óculos que escorregava pelo nariz em direção ao espesso bigode de pelos brancos, e lia livros. Ou sentava, escrevia e apagava linhas e mais linhas no seu caderno, sempre balbuciando consigo mesmo todo tipo de queixas, opiniões e argumentos. Com o correr dos anos, ele aprendeu a entalhar na madeira, à luz do candeeiro, à noite, belas e variadas f iguras de animais e aves, e também criaturas desconhecidas que surgiam da sua imaginação ou lhe apareciam em sonhos. Almon distribuía essas criaturas de madeira entre as crianças da aldeia: Mati ganhou uma gata f eita de pinha com f ilhotes esculpidos em casca de nogueira. Para o pequeno Nimi, Almon entalhou um esquilo, e para Maia, dois grous de pescoço esticado com as asas abertas, prontos para voar.
Somente por essas estatuetas, bem como pelos desenhos f eitos pela prof essora Emanuela na lousa, as crianças conheciam o aspecto de um cachorro, do gato, da borboleta, do peixe, do pintinho, do cabrito e do bezerro. A prof essora Emanuela também ensinou a algumas crianças as vozes dos animais, vozes que os adultos da aldeia com certeza ainda lembravam da inf ância, antes que as criaturas desapare-cessem, mas as crianças jamais as ouviram em toda a vida.
Maia e Mati quase sabiam de algo que lhes era proibido saber. E ambos tomavam muito cuidado para que ninguém suspeitasse que eles sabiam, ou quase sabiam. Às vezes os dois se encontravam em segredo atrás. do depósito de palha abandonado, e ali sentavam e cochichavam uns quinze minutos, e se af astavam por dois caminhos dif erentes. Entre todos os adultos da aldeia havia apenas um em quem, talvez, eles pudessem conf iar. Ou não? Mais de uma vez, Mati e Maia quase haviam decidido contar o segredo a Danir, o consertador de telhados, que se divertia, às vezes em voz alta, com seus jovens amigos na praça da aldeia à tardinha, conversando sobre coisas proibidas para crianças. E quando bebia vinho com os amigos, até mesmo f alava, rindo, de um cavalo, de uma cabra e um cachorro que ele pensava trazer para cá, de alguma das aldeias do vale.
O que teria acontecido se tivessem revelado o segredo a Danir, o consertador de telhados? Ou se decidissem contar justamente para o velho Almon? E se algum dia se atrevessem a penetrar um pouco na escuridão do bosque para tentar esclarecer até que ponto o segredo era verdadeiro, ou se não passava de uma ilusão, um sonho passageiro que mais combinava com Nimi, o potro, do que com eles?
E por enquanto esperavam, sem saber exatamente o que esperavam. Uma vez, à tardinha, cheio de coragem, Mati perguntou ao pai por que as criaturas desaparecido da aldeia. O pai não se apressou em responder. Levantou-se do banco da cozinha , caminhou alguns instantes de uma parede a outra, e então parou e segurou os ombros da Mati. Mas em vez de olhar para o f ilho, os olhos do pai se perderam numa mancha escura na parede, em cima da porta, de onde tinha caído o reboco por causa da inf iltração de umidade, e disse isto: Veja. Mati. É assim. Certa vez aconteceram aqui coisas de todo tipo. Coisas das quais não podemos nos orgulhar. Mas nem todos são culpados. É claro que não somos todos culpados na mesma medida. Fora isso, quem é você para nos julgar? Você ainda é pequeno. Não julgue. Você não tem nenhum direito de julgar adultos. E, af inal, quem exatamente contou a você que um dia existiram animais aqui? Pode ser que sim, quem sabe. E pode ser que nunca tenham existido. Pois já passou muito tempo. Esquecemos, Mati. Esquecemos e pronto. Deixa pra lá. Quem ainda tem f orça para lembrar? Agora desça ao porão e traga um pouco de batatas, e chega de f icar f alando sem parar.
E quando Mati se levantava para sair do aposento, seu pai ainda acrescentou: Preste atenção, por f avor, vamos combinar agora, você e eu, que essa conversa não aconteceu. Que mão f alamos nada sobre isso.
Os outros pais, quase todos, pref eriam negar. Ou contornar o assunto com silêncio. Não f alar dele de jeito nenhum. Principalmente na presença das crianças.