De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 14
A resposta a essas perguntas, o coração lhes dizia, é que eles deveriam começar a procurar no bosque. A resposta amedrontou tanto Mati e Maia, que de tanto medo, durante duas ou três semanas, eles pararam de cochichar a respeito do plano da aventura. Como se tivesse acontecido entre eles alguma coisa tão vergonhosa que era melhor f ingir que não acontecera nada. Ou sim, acontecera e f ora totalmente esquecida.
Mas a aventura já havia f incado neles uma raiz e tinha se inf iltrado prof undamente dentro dos seus sonhos a noite. E já não lhes despertava um sentimento de alegria, curiosidade ou emoção, tampouco coragem ardente, mas apenas um sentimento cinzento e f irme que se agarrou neles dois e não ia embora de jeito nenhum: é isso. E assim e pronto. Não há o que f azer. A partir de agora aquilo f icaria neles. Não lhes restava nenhuma alternativa.
E assim os dois continuaram a cochichar sobre o bosque, o peixinho na piscina, os latidos distantes, a nuvem que passou no alto mas que não era uma nuvem, e outros sinais de vida. Esses cochichos despertaram mais uma vez entre as crianças da sala e também entre vizinhas e vizinhos bisbilhoteiros todo tipo de boatos e rumores, pequenas piscadelas e zombarias, vejam só esse casal, com certeza já estão segurando as mãos, que mãos, onde mãos, eu garanto que eles já se beijaram. E, quem sabe, será que já não f izeram mais coisa?
Havia os que diziam que na verdade eles combinavam bem, eram dois esquisitos, ela com aquela mãe dela, a padeira maluca que espalha todo f im de tarde migalhas de massa no rio que não tem nenhum peixe, ou semeia pedacinhos de pão embaixo das árvores que nem tem pássaros, e ele, com as coisas que escreve nas suas pequenas cadernetas e não nos deixa ver, mas corre direto para mostrar a Almon, o pescador, que discute com as paredes. Ou será que ele mostra o que escreve não a Almon, mas somente ao espantalho de Almon?
Assim corria o deboche, e se avolumou em torno deles como uma mancha escura de lama que vai se espraiando na água e f azendo com que ela f ique turva. Mas Mati e Maia, por sua vez, já haviam escavado e saído do outro lado: certa manhã os dois se levantaram muito cedo, e, em vez de irem à aula, tomaram um desvio e saíram da aldeia subindo direto ao bosque.