De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 17
Depois de certa hesitação, Mati decidiu que seria melhor sentar e esperar por Maia ali, aos pés daquela rocha que lembrava um grande machado: pois o que ocorreria se ele f osse procurá-la? E se enquanto isso ela voltasse por outro caminho? E se não o encontrasse, ela ainda poderia começar a vagar e procurar no bosque e se perder entre as colinas e assim f icariam procurando um ao outro até que tudo escurecesse. Então sentou e apoiou as costas na pedra do machado e esperou, e f icou atento para captar qualquer murmúrio ou sussurro. Dali de cima, o bosque era uma trama escura, gigantesca, tecida de manchas verde-luminoso, verde-listrado, verde-acinzentado, verde-amarelado e verde-escuro quase negro. Os olhos de Mati procuravam lá longe, lá embaixo, os telhados das casas da aldeia, mas a aldeia havia desaparecido.
Por um momento, Mati imaginou o pomar de Almon, o pecador. Na imaginação também enxergou com nitidez a horta e até o espantalho entre os canteiros. E podia imaginar como o velho pescador passava por lá bem devagar, suspirando, mancando entre os canteiros em direção à sua mesa do lado de f ora, saudoso de Zito, seu cachorro, dos pintassilgos e dos peixes, e até dos cupins que roíam a noite inteira dentro dos móveis no seu quarto. Com certeza agora ele estaria gritando com o espantalho ou discutindo consigo mesmo enquanto andava, com certeza ele não deixaria de dar a última palavra, f icaria resmungando uma resposta qualquer por baixo do espesso bigode branco. E lá, não muito longe da mata, a prof essora Emanuela estaria sozinha pendurando roupa na corda no quintal que f ica atrás da sua choupana. Mati sabia por f of ocas, toda a aldeia sabia, que a prof essora Emanuela, uma mulher nada jovem, tentara durante anos atrair o coração dos homens da aldeia, solteiros ou casados, jovens e não jovens. Mas em toda a aldeia não encontrara um só homem que se interessasse por ela. Às vezes Mati também se incluía entre os zombadores, que puseram nela um apelido f eio, Emabof élia. E eis que agora ele se arrependia por isso: a solidão e o desespero da prof essora Emanuela lhe pareciam tristes e até dolorosos.
Quando pensava na ruela além da casa de seus pais, Mati imaginava como Danir, o consertador de telhados, e seus dois ajudantes f icavam lá em cima de um dos telhados, batendo com os martelos e rindo por terem conseguido orquestrar, golpes dos três martelos no ritmo de uma marcha alegre.
I maginava também como Solina, a costureira, inter-rompia seu passeio e se inclinava sobre o carrinho do marido inválido, talvez para ajeitar os panos ou trocar f raldas molhadas, talvez só para acariciar sua cabeça coberta de cabelos brancos e ralos, enquanto Guinom, do f undo da sua doença do esquecimento, emitia balidos agudos, doídos, porque achava que era apenas um cordeiro e que sua mulher era a mãe ovelha que o amamentava.
E talvez exatamente naquele momento, enquanto ele estava sentado imaginando a vida na aldeia, Lília, a padeira, mãe de Maia, poderia estar descendo o caminho que ia da sua padaria caseira até a única loja de alimentos que f icava na praça da aldeia. E talvez encontrasse Solina levando o marido no carrinho de bebê. Lília certamente iria se deter, como era seu costume; trocariam algumas palavras, contaria a Solina como era dif ícil para ela criar uma f ilha atrevida e teimosa como Maia, atrevida como um demônio, mas decididamente nada cruel, todo o problema é que a minha f ilha tem um tipo de caráter perspicaz e f orte demais, tudo ela sabe muito melhor do que eu e melhor do que todos, e por isso cada coisa deve sempre ser exatamente, exatamente mesmo, como ela quer.
Depois disso com certeza Lília sacudiria o avental, pediria desculpas — porque sempre e sem necessidade ela costumava baixar os olhos e pedir desculpas a todo mundo — e imediatamente se despediria de Solina e de Guinom e continuaria a empurrar a sua velha carrocinha de pão, que havia muito já merecia um óleo no eixo das rodas, ou mesmo rodas novas.
E de f ato, por que eu mesmo não posso em breve passar um óleo no eixo das rodas?, pensou Mati, o que importa o que vão dizer?
Que digam. Que debochem até amanhã. Pois eu e Maia vimos uma coisa que eles não viram nem em sonhos. E quando voltarmos da f loresta, talvez já saberemos o que toda a aldeia não sabe. Ou se esf orça em não saber. Ou será que toda a aldeia sabe e só f inge, como f az o pequeno Nimi que intencionalmente f inge que está doente do relincho para f icar livre?
Se é que voltaremos salvos do bosque: era tão estranho, a noite já deveria ter descido e escurecido o mundo inteiro, e nada, ela não viera. Como que por encanto.
E o que aconteceria se Maia já tivesse se af astado muito?
E se ela se perdesse no caminho?
E se nós dois desaparecêssemos na trama densa do bosque?
E quanto tempo, af inal, ainda nos restaria até a chegada da noite?
Por enquanto talvez ainda não tenham começado a se preocupar conosco em casa. Mas daqui a pouco começarão.
Mati f icou assim sentado por muito tempo, olhando a aldeia do alto e mergulhado em pensamentos e f antasias, mas na verdade estava cuidando de af astar o medo que a cada instante f icava mais intenso, ia se arrastando por debaixo da pele e provocando um arrepio que lhe subia nas costas: pois Maia não voltava, e também depois não voltou, e também depois do depois não deu nenhum sinal. Ele f icava cada vez com mais raiva dela: para onde ela teria ido? Seria possível que tivesse descido e voltado à aldeia sem ele? E na verdade ela bem que merece que eu suma daqui agora e desça para casa bem depressa, antes que a noite chegue.
Depois, a raiva que sentia de Maia se transf ormou num medo gélido por causa do murmúrio das árvores altas, do silêncio e do vento. E enquanto isso já dava para sentir no ar um pouco do primeiro cheiro do f im de tarde ou do início de noite, e um ar de anoitecer já sussurrava na f olhagem das árvores do bosque. Esse vento agitava e murmurava entre as agulhas do pinheiro, até que por um momento novamente pareceu a Mati, que já estava se levantando e se preparando para começar a correr com toda pressa possível para baixo, para casa, por um momento lhe pareceu bem ao longe ouvir outra vez entrecortados latidos de cachorros. Por um momento lhe pareceu ouvir também do alto do morro, da densidade do bosque, a voz opaca de Maia chamando por ele seguidamente de uma grande distância, Mati, Mati, vem aquiii, veeem, Maaatiii veeem aquiii...
E ele não sabia qual das duas possibilidades era a mais assustadora: ignorar o chamado que talvez f osse até um grito desesperado de ajuda ou, ao contrário, levantar e encarar corajosamente a subida do monte, atrás da voz que poderia ser uma voz perdida ou uma miragem de voz, traiçoeira, atraindo-o para uma armadilha perigosa, uma voz que não vem do alto do monte, mas somente de dentro da sua cabeça, do medo e do desespero que já começavam a perturbar seu coração e a pressionar sua respiração como se o sapato de um pesado pé lhe pisasse o peito.