De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 7
De vez em quando, alguns lenhadores corajosos, além de Danir, o consertador de telhados, e seus ajudantes, chegavam até as cercanias do bosque, mas nenhum deles se atrevia a ultrapassar os limites, a não ser em grupos de três ou quatro, e somente nas horas de claridade.
Nunca, mas nunca mesmo, de maneira alguma, mas de maneira alguma de verdade, diziam os pais aos f ilhos, que nunca e de maneira alguma se atrevessem a sair de casa depois de escurecer. Se alguma criança perguntasse aos pais por quê, estes anuviavam o rosto e respondiam, porque a noite é muito perigosa. O escuro é um inimigo cruel.
Mas todas as crianças sabiam.
Acontece que à luz do dia os lenhadores podiam constatar os galhos quebrados ou o capim pisado, e entreolhavam-se, f aziam alguns sinais com a cabeça mas não trocavam nenhuma palavra. Eles sabiam que depois de escurecer Nehi, o demônio da montanha, descia das alturas do seu palácio-dos-montes e vagava pelos bosques que circundavam a aldeia, e à meia-noite sua sombra já tinha deslizado ao longo do rio e apalpado as cercas dos pomares, passara sem emitir sussurro por entre as casas de venezianas f echadas, atravessara os pátios escuros, perambulara entre as cocheiras abandonadas e os estábulos largados; o f ru-f ru de seu manto negro f azia estremecer o capim em que pisava e as f olhas em que roçava, e somente antes do amanhecer era engolido pelas prof undezas dos bosques e se embrenhava na penumbra, pairando silenciosamente entre as cavernas e as f endas da rocha, e voltava ao seu palácio de terrores, em algum lugar nas altas montanhas onde o homem jamais ousou se aproximar.
Olha só, cochichavam os lenhadores de manhã bem cedo, olha aqui, f oi bem aqui que ele passou durante a noite. Há apenas umas cinco ou seis horas ele passou em silêncio justamente no lugar onde estamos. Um calaf rio lhes subia pelas costas só de pensar nisso.