De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 24 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 24

 

E depois o homem contou que quando tinha dez anos e meio, mais ou menos, desistiu da companhia das crianças da sua idade e também dos adultos, e passou a f icar todos os dias com os gatos e os cachorros, tanto que aprendeu a entender e até a f alar cachorrês, gatês e cavalês.

Depois de duas ou três semanas, toda a aldeia decidiu que o pobre menino estava com a doença do relincho, e todos tomaram muito cuidado para não se aproximar dele. Por f im até os pais desistiram dele, tamanho era o constrangimento: toda a aldeia os humilhava e eles mesmos sentiam vergonha do menino, e além da vergonha os pais se preocupavam com os f ilhos menores, com o risco de que também se contaminassem.

Por f im os pais e os demais adultos deixaram que ele perambulasse sozinho no bosque, livre como o vento, de dia e de noite. Roaaarrr, disse o homem de repente com outra voz, e após um instante surgiu de entre os arbustos um urso marrom com pelo abundante, e ele esf regou a cabeçona na palma da mão do homem, olhou para Mati e Maia com olhos úmidos, cheios de curiosidade, af eição, amizade, certa timidez e perplexidade, como se seus olhos quisessem se justif icar dizendo desculpem, não se irritem, eu simples-mente não estou entendendo o que tudo isso signif ica, é dif ícil para mim, mas não estou entendendo nada, desculpem, não esperem nada de mim, sou apenas um urso.

E então o urso se virou num movimento pesado e deitou sobre as costas amplas, com as pernas balançando no ar, e começou a esf regar o pelo no tapete de grama e a resmungar consigo mesmo com um tom grave e escuro, um tom hibernal e prof undo, quente. Mati se apressou em recuar três ou quatro passos e tentou puxar Maia pelo braço, mas ela se soltou também dessa vez e o repreendeu: Basta, me deixe em paz, Mati, corra já para casa se quiser, ninguém está segurando você aqui à f orça. E eu quero continuar a ver tudo.

E o homem disse:

Você é Maia. Você é Mati. Eu também vou me apresentar: eu sou Nehi. Sou o demônio das montanhas. O f eiticeiro. E este é Shigui. Não há por que ter medo dele. Shigui é um urso um pouco inf antil, um urso que de repente começa a dançar no meio da chuva, ou tenta espantar as moscas com a sua cauda curta demais, ou se esconde durante horas nos arbustos ao longo do rio e começa a jogar água em todas as criaturas que passam por ali. Shigui. Fique quieto. Estou no meio de uma história.

Com o tempo, o homem continuou sua história, aprendi também pombês, grilês, sapês, cabrês, peixês e abelhês. E com o passar de mais alguns meses, depois que desapareci e vim viver sozinho no bosque a vida de um menino das montanhas, me esf orcei em aprender mais e mais idiomas dos animais. I sso não f oi dif ícil, porque no idioma dos animais e aves há muito menos palavras do que nos idiomas das pessoas, os verbos são conjugados só no presente, não existem o passado ou o f uturo, e, além dos verbos, há apenas os substantivos e as exclamações, nada mais.

Depois desse tempo todo, f icou claro para mim que até os animais às vezes contam mentiras, ou para se salvar de um perigo, ou para se exibir, ou para enganar a presa, ou para assustar, e à vezes só para f ascinar e seduzir. Como todos nós.

Até mesmo palavras especiais que expressam alegria de viver, entusiasmo, exaltação e prazer, as criaturas possuem. Mesmo aquelas consideradas mudas, como, por exemplo, borboletas, vaga-lumes, peixes, lesmas: elas também dispõem de determinadas palavras que não são pronunciadas mas são expressas por meio de pequenas vibrações, vibrações que só chegam ao ouvinte através da pele, do pelo ou do manto de penas, e não pelo ouvido: essas vibrações parecem as leves ondas que uma f olha produz ao cair na superf ície tranquila de um lago.

Alguns animais até desenvolveram certas expressões que parecem quase uma oração: são palavras especiais de agradecimento pela luz do sol, e outras em louvor aos ventos que sopram, às chuvas, à terra, à vegetação, à luz, ao calor, ao alimento, aos aromas e à água. E há inclusive palavras de saudade. Mas em nenhum idioma dos animais existem palavras cuja intenção seja rebaixar ou debochar. I sso, não.

Se vocês quiserem, Maia e Mati, disse o homem pondo com delicadeza as pesadas e cansadas mãos sobre o dorso de uma pequena cabra que chegou e se enroscou no peito de pelo marrom do urso Shigui, se quiserem tentaremos ensinar para vocês bem devagar. Assim como ensinamos a Nimi, que encontrou o caminho até aqui e chegou antes de vocês: sim, Nimi, o potro, Nimi com o nariz sempre escorrendo, esse que todos vocês lá embaixo chamam de doente do relincho. Mas no f undo do seu coração, Maia e Mati, vocês dois já sabem há muito tempo que não existe uma doença assim, relincho: inventaram o relincho só para que ninguém se atrevesse a se aproximar dele. I nventaram para isolá-lo. A partir de agora, vocês dois serão nossos hóspedes, meu e de todas as criaturas que vivem comigo aqui no jardim e na nossa casa da montanha.

Pois vocês permanecerão aqui. Conosco.

O homem se calou por um momento, e depois disse num tom de voz baixo, tão baixo que não permitia nenhuma recusa ou discussão: Agora me sigam.

E não esperou para ver se estavam ou não atrás dele: começou a caminhar tranquilamente em direção à casa, sem olhar para trás, e continuou f alando a partir do mesmo ponto em que havia interrompido, e lhes revelou que muitos anos antes amara uma menina da sala dele, Emanuela, mas nunca lhe disse que a amava, e então aquele tinha sido um amor f racassado. E também não revelou o segredo do seu amor a ninguém, porque temia que redobrassem a torrente de humilhações, o desprezo e o deboche, se soubessem do seu amor secreto.

Quando Mati, Maia, o urso Shigui e a pequena cabra, Sissa, entraram na casa atrás do homem, as crianças constataram que na verdade não era palácio nenhum, mas um cômodo grande e largo, de pé-direito alto, um aposento aquecido porque era f eito de toras de madeira crua e comportava poucos móveis, simples e indispensáveis, móveis serrados de troncos de madeira e de galhos f ortes ainda envoltos em crostas ásperas.

E assim, numa noite de inverno, continuou o homem após convidar Maia e Mati a se sentar ao lado de uma mesa de espessas tábuas, uma mesa um pouco tosca, e depois que o urso e a cabra se enroscaram um no peito do outro e adormeceram embaixo da mesa, e então, numa noite de chuva e neblina, ele f ugiu da aldeia e também de casa. No início se escondeu nos bosques das redondezas e depois achou uni lugar na montanha entre os animais, todos o amavam e o ajudavam e tomavam conta dele — muitos deles haviam sido molestados lá embaixo, até mesmo maltratados.

Assim, naquela noite de chuva e neblina, subimos todos numa longa caravana em direção aos bosques da montanha, disse o homem, porque os animais pref eriram vir morar comigo aqui. Agora me acompanhem até a janela e conheçam o lugar onde vocês f icarão a partir de hoje: aqui crescem todos os tipos de f rutas deliciosas, e nesse riacho jorra água gelada tão transparente quanto o som de uma f lauta nas montanhas. E ali está uma pequena piscina onde daqui a pouco vocês dois poderão tirar a roupa e entrar. Não se envergonhem um do outro. Aqui entre nós não há nenhuma vergonha em f icar sem roupa: todos nós estamos sempre completamente nus por baixo das roupas, só que nos acostumaram, desde pequenos, a ter vergonha de tudo que é verdadeiro, e a louvar tudo que é f also. E nos acostumaram a só nos alegrarmos com o que temos, se o que temos f or só nosso e de mais ninguém. E pior do que isso, nos acostumaram desde a inf ância a nos agarrarmos a todo tipo de ideias venenosas que começam sempre com as palavras "Mas todo mundo...

O homem sorriu com tristeza, e ref letiu um pouco sobre isso:

Mas aqui entre nós a única vergonha é debochar.

E de repente acrescentou, num outro tom de voz, mais escuro e mais sombrio: por vezes, isto é, quase toda noite, eu acordo e desço para me vingar um pouquinho deles na escuridão. Para apavorá-los até a morte. Brilhando de re-pente como um esqueleto no vidro da janela deles, após o apagar das luzes. Ou rangendo o assoalho e estremecendo as vigas dos telhados para provocar-lhes pesadelos. Ou os acordando, cobertos de suor f rio, para que pensem que se contaminaram com o relincho. E um ou outro ano, também atraio crianças para cá. Como Nimi, o potro. Ou como vocês.