De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 33 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 33

 

E quando chegaram no f im do bosque, num ponto de onde já se avistavam as primeiras casas da aldeia, Nehi lhes disse:

Eis que a noite já está chegando. E estarão af litos por vocês lá embaixo. Voltem os dois para casa, e se quiserem podem vir de vez em quando ao nosso esconderijo nas montanhas. Podem f icar conosco por algumas horas, ou um dia inteiro, ou mais. E por enquanto só tomem muito cuidado, por f avor, os dois, para não se contaminarem com a doença do desprezo e do deboche. Ao contrário: lentamente procurem curar seus amigos, pelo menos alguns deles, dessas doenças. Falem com eles. Falem também com os of ensores e até com os malvados, com todos que se comprazem em prejudicar. Falem, por f avor, com todos os que estiverem dispostos a ouvir. Tentem f alar até mesmo com quem debocha de vocês e os despreza. Não liguem, continuem tentando dizer mais e mais.

Até que um dia pode ser que ocorra uma mudança nas almas, e então nós desceremos do monte e quem sabe nascerá em nós um novo coração, em todas as criaturas, pessoas, animais e aves, e todos os carnívoros se habituarão a comer carnemônias em vez de caçar. Até que possamos também nós, eu e todos os meus amigos, e até Nimi, o potro, sair da densidão do bosque e voltar à aldeia, e viver os dias da nossa vida nas casas, pátios, campos, pastos e às margens do rio. O meu desejo de vingança ruirá e se soltará de mim como a pele seca de uma cobra, e nós poderemos trabalhar, amar, passear, cantar, brincar e conversar sem devorar e sem sermos devorados, e também sem debochar um do outro. Agora vocês dois vão em paz. E não esqueçam. Até quando vocês crescerem e se tornarem pessoas adultas, e talvez também pais de seus f ilhos, não esqueçam. Uma boa noite para vocês, Maia e Mati. Boa noite para os dois.

Quando o bosque escureceu e Maia e Mati desceram, de mãos dadas, e f oram se aproximando das luzes da aldeia, Mati disse a Maia:

É preciso contar a Almon. É preciso contar a Emanuela. É, preciso contar a Danir.

Maia disse:

Não apenas a eles, Mati. Nós precisaremos contar a todos. A minha mãe. Aos velhos. A seus pais. E isso não será f ácil para nós.

E Mati:

Dirão que nós dois nos contaminamos do relincho.

Maia disse:

É preciso também encontrar Nimi. É preciso resgatá-lo.

E Mati disse:

Amanhã.