De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 16 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 16

 

Mati e Maia se espantaram muito, porque o homem não era um homem, mas apenas um menino, e não um menino estranho, mas justamente Nimi, Nimi a que todos chamavam de Nimi, o potro, Nimi, sempre com o nariz escorrendo, que uma vez teimou em contar os seus sonhos a todos, sapatos que se transf ormam no meio da noite num par de ouriços e um tubo de borracha que se transf orma em cobra ou tromba, e todos riam dele. Nimi, que certa vez levantou e saiu sozinho para o bosque e dentro dele se encontrou, pelo visto, com alguma coisa que o assustou ou abalou, até que adoeceu da doença do relincho. Por causa da doença do relincho ele parou completamente de f alar e começou a perambular e a relinchar pelas ruelas da aldeia, com os dentes da f rente saltados e o intervalo entre eles, um olho sempre lacrimejando, e desde então ele errava, dia e noite, no inverno e no verão, sem casa e sem uma alma próxima, nem Maia e Mati conseguiram ajudá-lo, e até mesmo a sua f amília desistiu e renunciou a ele.

E eis que aqui nessa caverna Mati e Maia acharam Nimi: não o Nimi que relincha, nem o Nimi que f oge das pessoas subindo em árvores e f azendo caretas estranhas do alto dos galhos, mas um Nimi que f ala com os dois tocando no ombro e os convidando a comer com ele batatas assadas e cebolas tostadas no f ogo, e até mesmo o olho lacrimejante sorria para eles com af eto.

Mais tarde, quando sentaram os três, saciados e acomodados, e conversaram em volta da brasa, Nimi lhes revelou que os relinchos de potro não eram uma doença, mas uma decisão: cansara das provocações humilhantes e do deboche, e decidira sair e viver sozinho como um menino livre, sem pais nem vizinhos nem sala de aula nem opressores, sem que ninguém na aldeia ou no mundo inteiro lhe dissesse todos os dias o que f azer e o que não: ele escolheu viver sozinho. Viver com sossego e liberdade. Verdade que ele tinha um intervalo bem grande entre os dentes da f rente, mas, pelo menos, atrás daqueles dentes idiotas existia uma cabeça e não um cogumelo venenoso como naqueles sujeitos gozadores. Às vezes descia para perambular e relinchar um pouco pelos pátios da aldeia e todos recuavam e f ugiam dele, sentiam medo do contágio. Mas aqui na sua casa, aqui ele vivia, nessa caverna onde ele armazenava todo tipo de coisas que se acumularam nos pátios: livros e f rascos, cordas, torradas, objetos domésticos, f olhetos, tábuas, velas, f rutas e verduras, e peças de roupa que ele recolhia dos varais. E Almon, o pescador, permitia que à noite ele cavasse batatas da sua horta, e também colhesse à vontade nas árvores f rutíf eras e pegasse verduras na plantação.

E como é que você não tem medo do bosque? De Nehi?

Sim, na verdade às vezes eu tenho um pouco de medo, principalmente de noite, mas não por causa de Nehi, disse Nimi. E de f ato, quando estou aqui na minha caverna, eu justamente tenho muito menos medo do que quando estou entre crianças que me odeiam, provocam e jogam pedras e telhas, ou também entre adultos que apontam o dedo para mim e gritam vejam-aí-vem-o-inf eliz-doente-do-relincho-coitadinhos-dos-pais-dele, e eles sempre advertem as crianças menores que não se atrevam a se aproximar de mim.

Diga, Nimi, você alguma vez viu aqui no bosque alguns animais? Não? E Nehi? Será que você viu Nehi? E diga mais uma coisa, Nimi, existe mesmo essa doença do relincho?

Em vez de responder a essa pergunta, Mini, o potro, levantou, se esticou, acenou para eles com a palma da mão estendida, puxou para dentro o catarro, sorriu com dentes tortos e com um olho lacrimejando, sorriu para si mesmo e não para Maia e Mati, e com um salto passou entre os dois em direção à entrada da caverna, e de repente soltou bem alto um relincho de potro, muito longo, ondulado, um re-lincho que parecia ao mesmo tempo desesperado e também atrevido e irritado. Relinchando, Nimi saiu galopando com alegria num impulso por entre as árvores emaranhadas, correndo e relinchando com alegria e emitindo sons, ia se af astando, a voz f icando mais f raca, até que f oi engolida na prof undeza do bosque.

Depois que a f ogueira apagou na caverna de Nimi, Mati e Maia decidiram continuar seu caminho pela trilha montanhosa, que ia f icando cada vez mais íngreme e tortuosa, e cada vez mais parecia um estreito e escuro túnel dentro do embrenhado de arbustos cerrados.

Logo não havia mais caminhos ou atalhos de bosque, mas só um matagal denso e escuro, cheio de plantas enoveladas, uma mata que na verdade era mais próxima do negro do que do verde, e havia ali plantas que espetavam, plantas que queimavam, e também as que f eriam a pele corno picadas venenosas.

Mati e Maia procuraram o tempo todo não se af astar muito da quebrada do rio, ainda que não pudessem mesmo avançar junto às curvas, porque em alguns lugares o rio descia para jorrar entre duas muralhas íngremes de pedra, ou era completamente engolido pela terra e então ressurgia em um lugar totalmente inesperado. Mas o ruído da correnteza ajudava Maia e Mati a se orientar durante a escalada da montanha: como se o rio f osse um tipo de guia raivoso e malvado que não se aquieta nem por um momento, às vezes rangendo os dentes em sua corrida sobre o lençol de pedra, às vezes emitindo um rugido opaco ao ir de encontro às muralhas de escarpas, às vezes se inclinando e urrando em cascatas espumantes.

Depois de algumas horas, perderam o rio. Não se ouvia nem mesmo ao longe um eco da sua correnteza. Em vez dos sons do rio, começaram a ecoar dos esconderijos do bosque outros sussurros, chiados, gemidos, ebulições, como se alguma coisa suspirasse em algum lugar, inspirasse, expirasse e murmurasse, alguma coisa bem próxima mas invisível. E alguma outra coisa não longe dali produzia uma tosse suf ocada, e ainda outra coisa serrava com teimosia, ou roía com dentes f ortes, enf raquecendo por um momento devido ao cansaço, e novamente voltava a roer.

Pelos cálculos de Maia e Mati, a noite já devia estar caindo. Ocorreu-lhes procurar alguma caverna em que pudessem esperar pela manhã. Parecia estranho como por entre as copas das árvores ainda continuasse a irromper a luz do dia.

Mati parou para aspirar o ar e retirar os espinhos e f arpas que se f ixaram em sua roupa. Maia, que seguia alguns passos na f rente quase o tempo todo, também parou e esperou por ele. A menina sugeriu que continuassem a escalada enquanto ainda houvesse um pouco de claridade. E disse, não como se estivesse perguntando, mas como quem está adivinhando qual será a resposta:

Diga, você quer que voltemos para casa?

Mati de f ato queria, no íntimo, voltar, mas era imprescindível que a decisão de desistir e descer de volta para casa viesse dela e não dele. Por isso respondeu:

O que você acha, Maia?

E Maia disse:

E você?

Ele hesitou por um momento. E depois disse com um tom inf lexível:

Decidi que nós vamos f azer o que você disser.

E Maia disse: Foi bom termos comido com Nimi, ao lado da f ogueira dele, mas agora estou com f ome de novo e um pouco cansada.

Mati disse: Então voltamos?

E Maia: Talvez. Sim. Tudo bem. Mas não para casa: vamos voltar para a caverna de Nimi e lá f icaremos até amanhecer, e pela manhã continuaremos a subir.

Os dois tomaram o caminho de volta. E dessa vez era Mati que seguia na f rente e lutava para abrir uma trilha no matagal. Mas a vegetação ia se intrincando cada vez mais. Quanto mais continuavam a se mover como dois nadadores exaustos entre as ondas altas, mais a vegetação f icava densa. Em vez de descer, novamente se viram atraídos para a subida do monte numa escarpa bem íngreme. E de novo lhes pareceu que o dia começava a se extinguir e a escuridão com certeza já não estava longe e eles jamais encontrariam a caverna de Nimi.

Uma sombra baixa e escura passou de repente em absoluto silêncio sobre a cabeça deles, pairou exatamente em cima das copas e quase encostou nelas, sobrevoou e escureceu por um momento todo o matagal, e após um instante se f oi e se af astou sem nenhum murmúrio. Como se durante algum tempo uma coberta negra e pesada cobrisse tudo. E por um momento o coração dos dois f oi tomado pelo pavor de uma gigantesca f eitiçaria, medo de um dia que não é dia e medo de uma noite que não é de f ato noite. Mas nem ele nem ela disseram nada sobre isso. Calaram-se e prosseguiram, abrindo caminho para subir. Até que de repente chegaram a um f lanco encurvado da montanha e decidiram descansar e f azer planos, e Maia avançou um pouco mais, pois por um momento lhe pareceu ouvir ao longe o sussurro da correnteza do rio.

Enquanto isso, no f lanco da montanha, entre duas rochas, Mati se agachou para examinar uma pequena pedra, uma pedra sinuosa que lembrava um caracol petrif icado. E Maia avançou mais um pouco em direção ao que lhe parecia o sussurro da correnteza das águas do rio. E de repente Mati não a viu mais e deixou de ouvir o som dos passos dela, mas teve medo de elevar a voz e chamá-la. Também Maia, ao olhar para trás, não viu Mati, que havia desaparecido entre as árvores, e também teve medo de chamá-lo, pois os dois tinham o sentimento de que era proibido elevar a voz ali porque na verdade não estavam sozinhos no bosque, alguém esperava por eles nas prof undezas. Ou pairava sobre eles. Ou talvez só estivesse lá em silêncio sem se mover entre as sombras e os observava por trás sem parar, de dentro do espesso bosque. No prof undo silêncio que caia e perpassava tudo, Mati imaginou de repente que ele não era o único que estava escutando as batidas do seu coração assustado: aquilo que se escondia entre as sombras e o observava sem parar também podia ouvi-las. E então, quando ele largou a pedra espira-lada e ergueu os olhos e não viu mais Maia, arrastou-se ao lado de seu sapato um outro caracol, que não era petrif icado, mas quando Mati voltou os olhos para examinar, ele havia desaparecido como se não existisse. Fora engolido por uma das f endas.