De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 5
Tudo isso porque à noite um grande medo tomava conta da aldeia. Noite após noite, todo o espaço exterior pertencia a Nehi, o demônio da montanha. Noite após noite, assim segredavam alguns pais a seus f ilhos, por trás das venezianas de f erro f echadas, noite após noite Nehi, o demônio da montanha, desce de seu palácio negro atrás dos montes e dos bosques, vi-sita as casas como um espírito, procura sinais de vida, e se por acaso encontra um grilo perdido, ou um único vaga-lume que veio parar aqui arrastado sabe-se lá de que distância pelos ventos do inverno, ou até mesmo um besouro ou uma f ormiga, imediatamente estende seu manto escuro, envolve e aprisiona toda criatura viva, e antes de o sol nascer retorna voando ao seu palácio assombrado, para além dos últimos bosques nas alturas dos montes eternamente cercados de nuvens.
Assim os pais contavam a seus f ilhos em segredo, mas depois de contar os acalmavam e diziam num outro tom de voz que na verdade todas essas coisas eram apenas lendas. E apesar disso nenhuma pessoa entre os habitantes da aldeia jamais saía de casa após o anoitecer. Pois a escuridão, diziam os pais, está cheia de coisas que decididamente é melhor não encontrar.
Maia, a única f ilha de Lília, a padeira viúva, era uma menina teimosa e não queria saber de boatos como esse, não podia acreditar em coisas que nunca ninguém tinha visto. Mais de uma vez Maia f alou à mãe com atrevimento — a cada história de escuridão que a mãe contava, a menina dizia que era tagarelice e bobagem. Às vezes ela dizia: Toda essa aldeia está meio maluca, mãe, e você, um pouco mais do que todos.
Lília dizia: Talvez seja até bom que você pense assim. Talvez aqui entre nós exista uma antiga loucura. E você, Maia, é melhor que você simplesmente não saiba nada disso. Nada. Pois quem não sabe não pode ser considerado culpado. E também não se contamina.
Contaminada de quê mamãe?
De coisas não tão boas, Maia. De coisas nada boas. E basta. Será que por acaso você viu em algum lugar o meu lenço, aquele marrom? E quando af inal você vai parar descascar o verniz da mesa? Pois já te pedi mil vezes para parar com isso. Então chega. E basta. E pronto.
Uma noite Maia esperou pacientemente, acordada debaixo do cobertor de inverno, até que a mãe adormecesse. Quando a mãe adormeceu, levantou e f icou ao lado da janela sem acender nenhuma luz. Permaneceu assim ao lado da janela quase até de manhã, envolta em seu cobertor de inverno por causa do f rio, e não viu nenhum vulto passando lá f ora e não ouviu nenhum som, só uma vez teve a impressão de ouvir à distância de três ruas o triste relincho de Nimi, o potro, Nimi, que passou a ser um menino de rua vagabundo, e todas as portas da aldeia se f echaram diante dele por causa da doença do relincho. E imediatamente f ez-se silêncio. À luz incerta da lua, que espiava uma vez ou outra entre as nuvens, Maia vislumbrou claramente o conjunto de árvores negras que se agrupavam para além da ruela que f icava atrás de uma ruína.
E como a noite era muito vazia e longa, ela esperou pela lua que aparecia às vezes, só por um momento, entre uma nuvem e outra, e conseguiu contar oito árvores. Após uma ou duas horas, quando a lua voltou a sair, ela contou de novo e dessa vez havia nove. Por ocasião da claridade seguinte ela voltou a contar, e ainda havia lá exatamente nove árvores. Mas antes do amanhecer, quando os declives dos montes começaram a clarear devido aos toques dos primeiros dedos da aurora, Maia decidiu contar mais uma vez, a última, aquelas árvores, e eis que de repente havia novamente só oito.
O mesmo resultado ela obteve também na contagem que f ez no dia seguinte, à luz do dia, quando decidiu se aproximar da ruína e examinar de perto: exatamente oito árvores. Para ter mais certeza, Maia passou de árvore em árvore e tocou em cada uma, contando silenciosamente, duas vezes, de um a oito. Não havia nenhuma nona árvore. Será que havia se enganado no meio da noite? De tanto cansaço? De tanta escuridão?
Maia não disse uma palavra sobre a nona árvore para a mãe, Lília, a padeira viúva, nem para seus amigos, nem mesmo para a prof essora Emanuela. Só contou a Mati, porque Mati, porque Mati a havia incluído no segredo do plano que ele estava armando f azia alguns meses. E Mati prestou atenção na história de Maia sobre a nona árvore, e pensou um pouco — não se apressou em reagir — e no f inal do silêncio lhe disse que numa das próximas noites também f icaria acordado e aguardaria pacientemente até que seus pais e irmãs adormecessem, e então se levantaria e sairia sorrateiramente, em direção ao conjunto de árvores atrás da ruína. Ficaria ali a noite toda, não cochilaria nem um momento, não desviaria o olho delas, e contaria as árvores ele mesmo, verif icando se de f ato em alguma das horas mais escuras apareceria plantada mais alguma coisa, árvore ou não árvore, alguma coisa que desaparece e se evapora alguns momentos antes de raiar a luz do dia.