De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 32
I maginem, disse Maia a Mati e a Nehi, que os acompanhava na última luz do crepúsculo pelo declive sinuoso do bosque, pelo caminho de volta para casa, imaginem vocês o que aconteceria se algum dia você f inalmente voltasse, Nehi, para a aldeia, e de repente voltassem todos os animais que nos abandonaram já há muitos anos e f oram para a montanha com você. I maginem o susto, o espanto e a agitação, mas também que alegria!
Mati disse:
Os pardais e os pintassilgos voltarão a f azer ninhos nos galhos das árvores, os pombos voarão em volta de cada pombal, os corvos gritarão na madrugada, e todos os pátios da aldeia terão consertados seus estábulos velhos, os galinheiros demolidos, as estrebarias, os currais, os galpões e os apriscos do rebanho, e os cachorros novamente latirão entre nós nos pátios e nas trilhas de terra, e em volta das colmeias zumbirão enxames de abelhas.
Maia disse:
E o velho Almon poderá novamente sentar com seu amado cachorro à margem da correnteza, e conversar com os peixes que voltarão ao rio, e até mesmo seu velho espantalho, em vez de f icar discutindo o dia todo com Almon, vai f inalmente começar a implicar com pássaros verdadeiros.
Mati disse:
E Solina, a costureira, poderá dar ao marido Guinom um gatinho só dele de presente. Ou talvez até um cabrito. Ou esquilo.
Maia disse:
Minha mãe, a padeira, caminhará pelas ruelas da aldeia rodeada por uma nuvem de pássaros, e distribuirá migalhas a todos eles, e Emanuela acenará para ela da sua varanda numa saudação, e talvez, Nehi, se você voltar, talvez, quem sabe...
Nehi ouvia em silêncio todas essas palavras. Uma pequena veia ou artéria azulada latejava no canto da sua testa, como se lá estivesse pulsando o coração rápido de um pintinho. Mas do f undo do seu silêncio, com uma voz sombria, uma voz baixa, interior e acolhedora como uma cozinha morna numa noite de inverno, disse:
E se eles debocharem de novo? Ou me maltratarem? E o que acontecerá se de repente despertar em mim outra vez o desejo de machucar e prejudicar para me vingar de todos?
E após um momento acrescentou:
E o que acontecerá se os grandes e ricos camponeses, esses cujos pais estudaram comigo na sala da prof essora Raf aela, a mãe da prof essora Emanuela, o que acontecerá se eles começarem outra vez a bater nos cachorros com o bastão, e a açoitar os cavalos com chicotes de couro, e a envenenar os gatos de rua, e a af ogar os ratos em tonéis de água, e se de novo tornarem a sair com suas espingardas para matar gazelas, corças e raposas para comerciar suas peles, e armarem todo tipo de armadilhas para as lebres e pa-ra os gansos selvagens? E se de novo estenderem suas redes para pescar os peixes do rio?
Desceram por mais cinco ou seis curvas do caminho, que escurecia na penumbra das copas das árvores do bosque. Neman ainda disse:
É claro que todos eles receberão as vacas com alegria e júbilo, e os cavalos com entusiasmo, e também as galinhas que botam seus ovos para eles, e as cabras, gansos, carneiros e pombos, sim, e alguns deles certamente vão de novo se af eiçoar aos cachorros, gatos e canários. É claro. Mas o que f arão às ratazanas? E aos vermes? O que acontecerá aos carrapatos, mosquitos e aranhas da casa? O que acontecerá a Nimi? E a mim?