De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 21 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 21

 

E o jardim era agradável aos olhos, todo iluminado não somente pelos raios do sol poente, mas também por espetaculares f eixes de luz multicolorida. Esses f eixes de luz irrompiam entre as árvores e os arbustos, entre os canteiros f loridos, as piscinas de água, os riachos e os pequenos pedaços de cristal que brotavam de certas f endas da rocha e entre os cantos dos degraus.

Essas luzes, disse Maia baixinho, não surgem de lanternas escondidas como você pensa e como eu também pensei logo que entrei aqui; são colônias de vagalumes que emanam esse brilho maravilhoso. Por toda a extensão do jardim cresciam árvores f rutíf eras e ornamentais, arbustos, ervas e grama. Aos pés das árvores brotavam canteiros e mais canteiros de samambaias e f lores, e por cima de tudo estendia-se uma f lorada delicada, numa palheta de cores que abarcava o laranja, o ouro, o roxo, o vermelho, o amarelo, e também o turquesa, o rosa, o escarlate e a púrpura.

Mati ergueu os olhos em direção às copas das densas árvores, e viu e ouviu pela primeira vez na vida a tagarelada de multidões de pássaros, as variadas vozes que cantavam e palravam, e o f arf alhar das asas e o movimento inesperado daquelas criaturas que saltavam e pulavam de galho em galho. Às margens do riacho e nas piscinas naturais que se f ormavam, repousavam as aves aquáticas, com uma perna mergulhada na água e a outra dobrada, o bico cor-de-rosa a af undar de repente na água em busca de alimento. Uma prof unda e suave calma encheu o peito de Mati, uma calma da qual não tinha lembrança em toda a sua vida, a não ser, talvez, na memória oculta e obscura, memória por trás de toda memória, memória que continha o sossego de um bebê de f raldas saciado, com os olhos f echados, envolvido em doçura, adormecendo junto ao peito da mãe enquanto ela murmurava com sua voz quente uma canção de ninar.

Será que estive aqui alguma vez? Logo depois que nasci? Ou teria sido antes?

O jardim era prof undo e largo, e se estendia a perder de vista, até os declives f loridos que se conf inavam com as matas escuras, pomares f rutíf eros e canteiros verdes. Em alguns pontos corriam pequenos riachos, f ios de prata a bordar o verde. E por cima de tudo precipitavam-se em movimento multidões de insetos que voavam e produziam sons, cascatas e mais cascatas de zumbidos, como se lhes coubesse estender por toda a extensão do jardim uma rede de trama e urdidura densas, de teias f inas luminosas, e todos aqueles f ios estirados, delicados e invisíveis cantavam e zumbiam de f orma estridente numa entonação apressada e enlouquecida que o soprar do vento deslocava continuamente.

Cobras estranhas, cobras espiraladas e ligeiras com mil patinhas, se arrastavam aos pés dos arbustos. E grandes lagartos preguiçosos cochilavam de olhos abertos. Entre os prados e as plantas do jardim perambulavam e pastavam tranquilamente carneiros brancos, giraf as, antílopes, jumentos e bandos de lebres barulhentas. E entre eles, tal veranistas passeando por ali, vagavam lobos preguiçosos e tranquilos, um ou dois ursos, um par de raposas de cauda f arta, um chacal que de repente se aproximou de Maia e Mati e lhes mostrou uma língua comprida e muito vermelha que lhe sal-tava das f auces, entre duas f ileiras de dentes af iados e brilhantes. O chacal pôs-se a esf regar a cabeça pontuda no joelho de Mati, uma vez, e mais uma, e entre uma e outra vez ergueu os olhos castanhos e tristes para os dois e os observou com um olhar de dar dó, como se estivesse pedindo muito, pedindo em todas as línguas da súplica, até que Maia entendeu f inalmente, se inclinou e acariciou-lhe a cabeça e até f ez um pouco de cócegas no pescoço e um pouco sob as orelhas, e continuou alisando o seu dorso, algumas vezes, da cabeça até a base da cauda.

Depois Maia e Mati passaram por quatro ou cinco tigres cansados que repousavam largados, observando com olhos verdes e imóveis a prof unda calma da tarde, com a cabeça apoiada sobre as patas. Por um momento os tigres trouxeram à lembrança de Mati o velho pescador Almon, cuja cabeça cansada caía e repousava sobre o braço, por sobre as f olhas do caderno, dorme não dorme à tardinha, sentado sozinho junto à mesa que f icava na horta. Uma espécie de saudade amargou por um instante o coração de Mati, uma vontade repentina de sentar no banco de Almon e começar a contar-lhe sobre isso tudo, descrever-lhe cada detalhe, ou melhor — trazer Almon para cá, para cima, para que visse tudo isso com os próprios olhos. Que apalpasse com seus velhos dedos. E Mati também quis trazer Solina junto com seu marido bebê. E Danir com seus dois rapazes consertadores de telhado. E Nimi. Mostrar tudo isso a todos, a toda a aldeia, aos seus pais, às suas irmãs mais velhas, à prof essora Emanuela, e observar bem seus rostos quando olhassem e vissem o jardim pela primeira vez.

E eis que se aproximou deles uma vaca, uma vaca lenta, de cabeça erguida e muito nobre, uma vaca cheia de importância, adornada com manchas pretas e brancas. Chegava sem pressa, se balançando devagar, respeitável e cheia de auto-estima, e ela passou lentamente entre os tigres que cochilavam, movendo a cabeça de cima para baixo duas ou três vezes como se decididamente não estivesse surpresa, nem um pouco surpresa, ao contrário, todos os seus cálculos tinham dado certo e todas as suas suposições se realizaram exata e def initivamente, e agora ela conf irmava f azendo que sim com a cabeça de tanta satisf ação por sua certeza e também porque ela de f ato concordava consigo mesma, def initivamente e sempre, sem sombra de dúvida.