De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 20
E quando se aproximou, Mati viu que entre os braços dela havia um gatinho vivo: não a gravura de um gatinho, não um boneco nem uma pelúcia com a f orma de gato, mas um ser que estremecia, vivo, delicado, doce e tímido, que observava admirado Mati, com dois olhos redondos, as ore-lhas inclinadas para a f rente com curiosidade e o f ocinho com o bigode tremendo um pouco, como se ele não f osse um gato, mas sim um f ilósof o ilustre e célebre, um pensador importante totalmente concentrado na taref a de decif rar quem era aquele que chegara de repente, e por que viera. E o que trouxera. E principalmente — o que, af inal, estava acontecendo naquele mundo desconhecido além do portão.
Mati se assustou e até recuou um pouco, porque conhecia gatos apenas de gravuras, e porque lhe pareceu que o corpo do gato se alarga e se encolhe, e de novo se alarga e volta a se esvaziar um pouco, sem parar, o que ele achou esquisito e até assustador: nunca na vida tinha visto e também não imaginou que todas as criaturas vivas respirassem sem parar, aspirassem ar para dentro dos pulmões e então ex-pirassem, aspirassem de novo, exatamente como nós.
Mas Maia não desistiu e tomou a mão dele e af undou seus dedos assustados dentro do pelo macio do gato, uma vez e mais uma vez, até que os dedos de Mati se acalmaram do susto, e depois se acalmou a mão que acariciava e era acariciada, e se acalmaram seu braço, seu ombro e todo o seu corpo. E de repente ele sentiu que o toque no pelo do gato era muito agradável, e que também eram agradáveis os dedos de Maia, que seguravam e conduziam sua mão ao longo do dorso aveludado do gato. Como se os dedos dela produzissem e repassassem para ele leves vibrações prazerosas, vibrações quentes que f luíam da palma para o dorso da mão, e pela mão esses f luxos agradáveis passavam e estremeciam o pelo do gato, que agora o observava direta-mente com prof unda inocência, com olhos redondos e cheios de espanto. E depois o gato f echou os olhos e Mati também f echou os seus por um momento e sentiu na ponta dos dedos as vibrações das ondas que pulsavam com suavidade no corpo do gatinho, e a criatura começou a esf regar com um gemido de prazer baixinho e prolongado suas bochechas e a testa contra a palma da mão que o acariciava. Os olhos do gatinho se arregalaram e de novo quase se f echaram, restando apenas duas f restas esverdeadas que espiavam Mati dizendo sim, assim, continue por f avor a me acariciar, sim, pois é muito agradável para nós dois, continue, sim, assim, por f avor, não pare.
E de repente o gatinho deu uma piscadela para Mati, uma piscadela rápida mas f irme, uma piscadela de cumplicidade: como se insinuasse que ele entendia muito bem até que ponto seu pelo era agradável aos dedos que o acariciavam, e que entendia também até que ponto o atrito prazeroso que agora estava ocorrendo na palma da mão de Mati, que estava entre o pelo do gato e os dedos de Maia, até que ponto esse contato produzia em Mati um prazer com uma leve vertigem, um prazer que ele jamais havia sentido, pois as pontas dos dedos de Maia roçando no dorso da sua mão e o calor do pelo suave, acariciado por ele seguidamente, criavam ondas contínuas de tremores e calaf rios.
O corpo de Mati f oi relaxando, se enchendo de prazer, e com o relaxamento do corpo também seus medos se acalmaram: viu que seus pés já estavam no interior do pátio rodeado de muros. E viu também o jardim interno e sabia que agora ele já estava lá dentro de verdade, verdadeiramente dentro da f ortaleza de Nehi, o demônio das montanhas. Mas em vez de pavor e medo, Mati sentiu nesse instante principal-mente um tipo de sensação de curiosidade e uma admiração intensa. Ergueu os olhos e contemplou o jardim.