De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 23
Um pouco estranho, o homem repetiu com seu sorriso desconf iado as palavras que Maia segredou no ouvido de Mati, pois era exatamente assim que f alavam de mim há muitos anos, quando eu era apenas uma criança: ele é um pouco esquisito, diziam, e entortavam a boca com expressão de deboche e aversão. E às vezes diziam, olhem, vejam, chegou o retardado. Foi assim durante muitos anos, antes de vocês nascerem, quando seus pais tinham a idade de vocês, mais ou menos.
E eu queria exatamente ser como eles; me esf orcei muito todos os dias para ser como todos os outros. Mais ainda, como todos os outros de todos os outros. Porém, quanto mais eu me esf orçava, mais eles me desprezavam.
O homem estranho começou a se aproximar deles — deu alguns passos e pareceu hesitar; mudou de ideia e parou aos pés da f igueira: talvez temesse amedrontá-los e f azê-los recuar. Ou talvez ele mesmo tivesse tido dif iculdade de se aproximar. Mas ao ver que as crianças não f ugiam dele e permaneciam no mesmo lugar, a observá-lo — apenas se aproximavam um do outro, encurtando a distância que havia entre eles , o homem baixou os olhos em direção à grama e disse com voz sorridente:
Que bom que vocês vieram.
E acrescentou:
Tem suco de romã, querem? Com gelo raspadinho. Querem?
Mati disse baixinho: Cuidado, Maia. Não toque nesses utensílios de madeira. Não dá para saber. Talvez seja perigoso beber nisso.
Mas Maia misturou o suco de romã e o gelo mima xícara de madeira oca, bebeu, riu, enxugou a boca com o dorso da mão, e disse:
Eu sou Maia. E esse é Mati. Mati está com medo de que você seja um f eiticeiro. Você é f eiticeiro?
E depois disse:
Beba você também, Mati. Prove. É, f rio e gostoso. Você não vai f icar com a doença do relincho, não tenha medo: observe como todas as criaturas que estão aqui não têm medo desse homem.
E Mati não disse nada. Só tomou o braço de Maia e tentou puxá-la para trás. Mas Maia decididamente não concordou em ser puxada para trás, e soltou o braço num movimento brusco e rápido. E também não disse nenhuma palavra.
De repente, da garganta do homem estranho saíram alguns sons baixos, desarticulados, sons que não pareciam palavras, e então sobre seus ombros e sua cabeça, e também sobre a cabeça e os ombros de Mati e Maia, pousou um grupo de beija-f lores entusiasmados e tagarelas, dourados e verdes e turquesa, com manchas azul-celestes.
Enquanto os pássaros sobrevoavam o homem e seus convidados, o estranho continuou a contar às crianças como, havia muitos anos, quando ainda era menino, os garotos da sua idade sempre f ugiam dele: pois em toda sala de aula ou grupo, disse o homem, há um assim, não desejado, alguém dif erente que insiste em correr atrás do grupo de crianças onde quer que elas estejam, e sempre f ica a uma distância de alguns passos atrás dos demais, constrangido e envergonhado, invulnerável às of ensas e gozações, ansiando desesperadamente por ser aceito, poder pertencer, e para tanto está disposto a f azer tudo, servir como escudeiro, escravo deles, disposto até a se f azer de tonto para ser engraçado, disposto a ser palhaço e alvo de zombarias, que dele debochem o quanto quiserem, que até mesmo o maltratem um pouco, não importa, ele entrega a eles, gratuitamente, seu coração rejeitado.
Mas o grupo simplesmente não está interessado nele. E sem nenhum motivo em particular: não querem e pronto. E é isso. E que suma logo da nossa f rente, o quanto antes. Assim. Pois ele não é como nós e não serve para nós. Que vá embora e pronto, porque na verdade ninguém precisa dele aqui.
Maia disse:
Entre nós também tem um assim: Nimi. Nimi, o potro.
E Mati disse:
Não. Nimi é outra coisa. Nimi simplesmente tem relincho. Todos se af astam dele porque é de f ato perigoso f icar perto de quem adoeceu do relincho.
E se inclinou na direção de Maia e acrescentou, cochichando: Daqui a pouco vai escurecer, Maia, precisamos imediatamente tentar escapar daqui.
Maia disse:
Escapar? Mas o portão está aberto e ninguém nos detém aqui. Você pode ir, se por acaso estiver com pressa. Eu f ico por aqui. Ainda tem um monte de coisas para ver.
E, o homem disse:
Agora sentem-se os dois aqui nessa pedra. Tomem mais suco de romã, ou suco de f igos com gelo. E não tenha medo, Mati, da escuridão que está se aproximando: hoje o escuro vai atrasar, para que possamos continuar conversando. Mas por f avor não se assustem com ele, pois ele se of ende um pouco quando se assustam com a sua presença: essa ratazana é muito, muito velha, quase surda, por vocês ela f ez um esf orço e saiu de dentro do seu sossego, só para f arejá-los. Sentem-se um momento em silêncio e deixem por f avor que ela os f areje. Observem como suas orelhas e suas patas são delicadas, e como o nariz cor-de-rosa treme em homenagem a vocês com movimentos sutis, rápidas pulsações de um coração emocionado. O cheiro de vocês pelo visto lhe traz lembranças anteriores ao nascimento de seus pais.
Mati desviou o olhar da velha ratazana e observou o homem, e novamente olhou para a ratazana, e de novo teve a sensação vaga de lembrança, enf im, já estive aqui, tudo isso já aconteceu, estive aqui e esqueci tudo, e mesmo agora não consigo lembrar de maneira nenhuma o que de f ato aconteceu. Mas decididamente me lembro que esqueci. Esse homem na verdade me parece um pouco solitário. Ou será que é só impressão? Será que está armando alguma coisa? Pois de perto Mati julgou discernir no rosto enrugado do homem certo brilho f ugaz de malícia, de trama oculta, e isso justamente no momento em que ele sorria e dizia que hoje o escuro vai atrasar, para que possamos continuar conversando.
E se ele estiver planejando nos aprisionar aqui? Para sempre?
Os dedos ossudos do homem de repente pareceram a Mati raízes vigorosas que agarram a presa e não cedem.
E se na verdade esse f eiticeiro estiver tramando nos capturar para se vingar dos nossos pais e de toda a aldeia? Ou não só nos capturar, mas nos enf eitiçar e transf ormar em animais?
Mati disse:
Daqui a pouco já estará escuro. Quero ir agora para casa.
E Maia respondeu:
E eu não. Quero ouvir mais. E também ver mais.