De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 28
De tanta solidão, Neman aprendeu a f alar com os animais nos seus idiomas. Passados alguns anos, quando toda a aldeia começou a considerá-lo doente do relincho e a se af astar dele e a atirar nele pedaços de telha e pedras, ele encontrou uma caverna nas montanhas e passou a viver sozinho, se nutrindo de cogumelos e f rutos do bosque. De vez em quando, à noite, esperava que todos se f echassem dentro de casa, e então descia para vagar como uma sombra pelas ruelas da aldeia escura.
E ele às vezes ainda desce, até hoje. Na escuridão. Descia só quando todos já estavam f echados atrás das venezianas de f erro e atrás dos seus cadeados de f erro. Descia e perambulava pela aldeia porque na montanha era um pouco triste, apesar do amor pelos animais e apesar de todas as maravilhas do lugar.
Na escuridão das noites sem lua, ele circulava indo e vindo pelas ruelas vazias. E às vezes os dois perambulavam por lá, na ponta do pé, Nimi e ele, se aproximando por um momento de uma ou outra casa, espiando entre as f restas das venezianas para ver as f amílias mergulhadas tranquilamente nos últimos preparativos para o sono da noite.
Pois era agradável ouvir das cortinas a história que um pai lê para a f ilha antes de dormir, ou uma mãe sentada na beira da cama do f ilho pequeno, cantando uma canção de ninar que de repente tocava o velho coração de Nehi. E era bom para ele de vez em quando ouvir, através da janela f echada só pela metade, as conversas sonolentas, à noitinha, de um casal cansado, bebendo no calor do quarto o seu chá noturno. Ou quando eles sentavam e liam no silêncio da noite, e às vezes os moradores das casas trocavam entre si algumas palavras que aqueciam a alma de Nehi e levavam Nimi às lágrimas, conversas simples como, por exemplo: Sabia que essa camisola f lorida f ica muito bem em você? Ou: Hoje você f inalmente desceu para consertar a escada do porão, e eu estou muito f eliz, obrigada. Ou: A história que você contou para o bebê esta noite antes de dormir era bonita, comovente, e me f ez lembrar da minha inf ância.
Assim, eu perambulo nas noites pelos pátios abandonados, por duas ou três horas, sozinho, e às vezes com Nimi, até que a última luz da aldeia se apague na janela de Almon. Porque eu tenho um pouco de inveja. I nveja de tudo o que nunca tive e do que jamais terei.
Maia disse:
I sso signif ica que aqui em cima também é bem triste, às vezes.