De repente, nas profundezas do bosque
Capítulo 29
Mas eu não os roubei, disse Nehi. Quer dizer, nem todos. Uma noite os animais se levantaram e abandonaram a aldeia, em grupo, e subiram atrás de mim até os bosques nas montanhas. Até mesmo os animais que gostavam de suas casas e que hesitaram muito se deviam f icar ou partir, como Zito, o cachorro ce Almon, o pescador, e como Tima, a gata tigresa de Emanuela, ela e seus f ilhotes — até mesmo eles resolveram por f im subir e se unir a mim, junto com todos os outros: não porque eu os tenha enf eitiçado nem porque eu tenha querido me vingar, mas porque entre os animais também imperava o medo que vocês conhecem muito bem, o medo de não ser como todos, f icar quando todos se vão, ou ir quando todos f icam. Ninguém quer f icar sem o grupo ou ser excluído do rebanho. Se você se af astar uma ou duas vezes da colmeia, já não o receberão de volta. Porque você já é considerado doente do relincho.
No inicio Neman construiu uma pequena cabana de galhos numa clareira no bosque no alto do monte, e seus amigos animais se ocuparam em atender as suas necessidades diárias: carneiros e cabras o proviam com o seu leite, as aves traziam ovos, as abelhas contribuíam com mel, o rio f ornecia água gelada, os esquilos recolhiam para ele f rutas secas e silvestres, e os pequenos roedores escavavam e traziam batatas. Até as f ormigas, em longas caravanas, carregavam desde os campos do vale um punhado de grãos de trigo, para que ele pudesse f azer pão. Os lobos e os ursos vigiavam e o def endiam. Assim viveu durante anos e anos longe de todas as pessoas, e cercado pelo amor das grandes e pequenas criaturas vivas. Os sapos encurtaram seu nome Neman para Nei. E com a pronúncia dos chacais e das aves noturnas, Nei passou a ser Nehi.