De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 12 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 12

 

E assim que o peixe desapareceu, os dois puderam ver, ela no rosto dele e ele no rosto dela, a expressão de espanto e medo, a boca um pouco aberta, os olhos arregalados, a palidez de cal que se espalhou na testa e na f ace: Diga, você também ouviu o que eu ouvi? Diga, você também ouviu? Será que de bem longe, além dos primeiros bosques, além dos vales e dos declives, lá para os lados da serra ao norte, chegaram e logo sumiram três ou quatro sons vagos, de sonho, ecos baixos e opacos que pareciam o latido de cachorros?

Pois Maia e Mati sabiam, pelas histórias da prof essora Emanuela, como latiam os cachorros, mas quem não zombava da pobre prof essora Emanuela, que andava atrás de todos os homens, e em toda a aldeia jamais conseguira encontrar para si nem mesmo a sombra de um marido que pelo menos uma vez olhasse para ela?

E eis que logo depois do ocorrido com o peixe parecia a Maia e Mati que os sons vagos que chegavam da serra ao norte eram semelhantes aos sons de um latido. Ou será que as vozes eram de cachorros de verdade? Seria apenas uma avalanche ao longe? Ou as copas das árvores que respiravam e rangiam e suspiravam com os sopros do vento?

Quem acreditaria que Maia e Mati viram um peixinho vivo no rio? E que ainda quase ao mesmo tempo também ouviram sons de latidos distantes? Quem não debocharia deles? Às vezes uma criança aparecia de manhã no pátio da escola tentando contar aos outros como f oi que ouviu — jurava que tinha ouvido — um tipo de som que talvez tivesse sido um trinado. Ou zumbido. As crianças, por sua vez, não acreditavam nem por um momento naquele que contava essas histórias, e caçoavam dele e o provocavam, dizendo que seria muito melhor parar com aquilo, e logo, antes que acabasse f icando como Nimi, o potro.

Será que o deboche é uma f orma de def esa para quem lança mão dele, pois o protege do perigo da solidão? Pois quem zomba não zomba em grupo, e aquele que desperta a zombaria não f ica sempre sozinho?

E os adultos? Será que era só porque eles sempre procuravam calar alguma voz interior? Ou se envergonhavam de alguma culpa?

Muitas vezes Mati e Maia voltaram para aquele lugar. Se inclinavam em direção à piscina, aproximavam o rosto até que o nariz quase af undasse na água, mas o peixe não aparecia. Em vão investigaram cada uma das dezenas ou centenas das pequenas piscinas do rio espalhadas aqui e ali ao longo da descida da correnteza, entre as pedras, nas pequenas reentrâncias ocultas, nos lugares onde as plantas aquáticas escondiam o lençol de areia dourada que se deitava no f undo do f luxo de água.

Mas uma vez, à tardinha, de repente, por um momento, alguma coisa passou rapidamente bem alto sobre a cabeça deles: uma coisa planava nas alturas do céu que já ia escurecendo, uma coisa f lutuava ou se elevava ali, delicada e luminosa como uma única nuvem no vento da tarde; vinha do bosque e pairava, transparente e vagarosa, e passou rapidamente e em silêncio bem alto sobre a cabeça dos dois, e de novo se dirigiu ao bosque e quase se extinguiu antes que Maia e Mati conseguissem perceber.

E antes que percebessem — e mesmo assim não completamente —, antes que os dois pudessem distinguir, algo passou sobre a cabeça deles, alto e silencioso, pairou mais adiante, muito acima da aldeia e do rio e muito acima dos bosques sombrios. Por isso os olhares de Maia e Mati se encontraram. E os dois ao mesmo tempo estremeceram.