De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 4 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 4

 

Silenciosa e triste, a aldeia continuava a sua vidinha de sempre: todos os dias os homens e as mulheres saíam para trabalhar nos campos, vinhedos e pomares, e à tardinha voltavam cansados às suas pequenas casas. As crianças iam todas as manhãs à escola. Depois do meio-dia brincavam nos terrenos baldios, perambulando pelos estábulos e galinheiros abandonados, escalando os pombais desolados ou os galhos das árvores onde nenhum pássaro f azia ninho.

Todos os dias, à tardinha, se não chovia, Solina, a costureira, passeava com o marido inválido pelas ruelas da aldeia. O homem inválido, Guinom, se curvou tanto com o passar dos anos que Solina podia, sem nenhuma dif iculdade, acomodá-lo num velho carrinho de bebê para levá-lo até a margem do rio.

Durante o trajeto, tanto na ida como na volta, Guinom emitia um balido f ino e choroso, porque a doença do esquecimento f ez com que ele pensasse que era um cabrito. Solina se inclinava sobre ele, envolto em f raldas, e cantarolava com a voz sombria e quente: chá, chá, chan, orf ãozinho, chá, chá, chan, dorme, Guinom, chá, chá, chan.

Às vezes o pequeno Nimi, com o cabelo emaranhado e imundo, as roupas rasgadas e o nariz escorrendo, passava depressa por eles, com um olho lagrimejando; resf olegando e abanando a mão de longe, emitia dois ou três relinchos, longos e conf usos. I mediatamente o homem inválido parava de balir, e sorria um prazer inf antil, e inclinava a cabeça para ouvir.

Com uma das mãos Solina acariciava de cima para baixo, com delicadeza, os cabelos brancos repartidos ao meio que ainda apareciam na cabeça do marido Guinom; com a outra mão continuava a empurrar o carrinho de bebê, cujas rodas antigas trinavam no declive do caminho.

Nas longas noites de verão, Danir, o consertador de telhados, que construía e consertava telhados, e seus dois ajudantes, sentavam-se para descansar no f inal do dia de trabalho no parapeito de pedra que f icava na praça; lá os três bebiam cerveja em copos de vidro grosso e começavam a cantar. Outros rapazes e moças chegavam de todos os lados da aldeia, e se juntavam ao canto ou inventavam brincadeiras, discutiam ou sussurravam entre eles. Às vezes explodiam de rir. As crianças tentavam ouvi-los às escondidas e espiar por trás das cercas, porque de quando em quando os rapazes e as moças f alavam e riam de coisas que crianças são proibidas de ouvir. Por exemplo, sobre outras aldeias longínquas, lá embaixo, no vale, ou sobre como é a vida amorosa das lebres e como são os gemidos de sedução dos gatos no cio. Danir, o consertador de telhados, às vezes soltava uma risada prof unda e rouca como uma avalanche de pedras, e jurava que dali a pouco, uma semana, um mês, acompanhado de seus ajudantes ele haveria de descer os vales distantes, e dos vales não voltariam a pé, nas num comboio de carroças atreladas a cavalos e carregadas de cem tipo de aves, animais, peixes e insetos, e passariam de casa em casa, espalhando animais por toda parte e despejando peixes vivos no nosso rio. Assim a aldeia voltaria a ser exatamente como era antes daquela maldita noite, e pronto. Ao ouvir uma conversa como essa, o grupo se calava de tanto assombro: as palavras que Danir pronunciava não divertiam o grupo, mas cobriam a praça de uma sombra carregada e repentina.

Esses encontros à tardinha do grupo de Danir, o consertador de telhados, no f inal do dia na praça pavimentada por antigas lajotas de pedra eram, de f ato, os únicos momentos de alegria na vida da aldeia. Pois logo após o pôr do sol o grupo se dispersava rapidamente, e cada um ia para a sua casa. Num instante a praça esvaziava e somente a sombra permanecia ali.

Depois, com a penumbra, todas as casas eram f echadas e trancadas com f errolhos, e as janelas eram f echadas com venezianas de f erro. Nenhuma pessoa saía de casa após o anoitecer. Já às dez da noite as luzes se apagavam uma após a outra nas janelas das pequenas casas. Somente na choupana do pescador Almon, que f icava na extremidade da aldeia, às vezes aparecia a luz do candeeiro sobre a mesa. À meia-noite a janela dele também escurecia.

Escuridão e silêncio arrastavam-se do f undo dos bosques e pairavam, oprimindo as casas f echadas e os jardins abandonados. Blocos de sombra estremeciam nos caminhos da aldeia. Ventos f rios da montanha sopravam ocasionalmente e sussurravam nas copas das árvores e nos arbustos. E o rio borbulhava a noite inteira, correndo pelo declive das encostas, e espumando bolhas na escuridão.