De repente, nas profundezas do bosque

Amós Oz · Capítulo 22 de 36

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De repente, nas profundezas do bosque

Capítulo 22

 

Mati e Maia devoraram com os olhos aquelas maravilhas todas, e não conseguiam desviar o olhar, f ascinados com os crocodilos e suas couraças quadriculadas na margem da piscina, com os macacos, esquilos e papagaios em f esta, a f azer travessuras entre os galhos das árvores que of ereciam beleza, e das árvores que of ereciam f rutos. E o bater de asas dos pardais e o arrulhar dos pombos dif undiam uma suavidade por toda a extensão do jardim, nos riachos, nos prados, nas copas das árvores, tudo estava envolto por uma cobertura de prof unda, quente e ampla tranquilidade, uma tranquilidade de um outro mundo.

E por que é tão claro para mim que já estive aqui? Como isso é possível, af inal?

Tão completo, tão límpido e calmo era o sossego da noite que ia descendo sobre aquele jardim de maravilhas, que Maia e Mati não se deram conta de um homem, nem jovem nem alto, as costas um pouco encurvadas, a cabeça descoberta, o rosto bronzeado com sulcos de rugas quadriculadas, estranhas e complicadas, e o cabelo já quase completamente prateado sobre os ombros. Ele estava ali, apoiado tranquilamente num tronco áspero. O homem estava sozinho no alto do jardim e observava os dois com um sorriso sutil, um sorriso um pouco amargo e vago, como se seus pensamentos estivessem ora aqui, ora em outros lugares.

Os ombros do homem eram meio encurvados, um ombro um pouco mais baixo do que o outro, e as rudes palmas das mãos estavam caídas e enf raquecidas junto ao corpo como após um longo e exaustivo trabalho f ísico. Seu rosto tímido não era exatamente bonito, mas sua expressão era de cautela e embaraço, como se lhe f osse cômodo que Mati e Maia não tivessem reparado nele.

Como se sentisse um pouco de vergonha diante deles.

Assim permaneceu o homem estranho, sem f azer nenhum movimento, respirando devagar e intensamente, acompanhando com o olhar os olhos f ascinados das duas crianças, seguindo atentamente o mover dos seus olhares curiosos que vagavam pelas paisagens do jardim, e se espantavam com tudo o que havia nele.

O sorriso misterioso do homem, um sorriso quase malicioso, começava exatamente em volta dos olhos e não nos lábios; dos olhos, o sorriso ia se espalhando ao longo das f endas enrugadas, ia iluminando a partir de dentro todas as dobras abatidas de seu rosto.

E ainda não havia se movido nem pronunciado nenhum som.

Somente uma artéria azulada, f ina e incrivelmente delicada, tremia no canto de sua testa: como um peixinho atento que se agitava debaixo da água.

Até que o olhar de Maia se deparou com ele de repente e ela f icou muito assustada. Mas se conteve e apenas se inclinou um pouco e cochichou a Mati, cuidado, Mati, preste bem atenção, não olhe de maneira nenhuma para aquele lado, porque alguém está ali olhando para nós mas não me parece perigoso, só um tipo um pouco estranho.